Sono Te Hanasanaide

23 Capítulo XXIII


Hashire kimi no moto he

Eu vou correr para o seu lado

Boku ha nando datte koronde yaru

Não importa quantas vezes eu tenha que viajar

Mayotte yaru

Ou se eu me perder.

Matteite ima sugu ni yuku kara

Espere por mim, eu estarei lá.

Donna konnan ga soko ni attemo

Eu vou superar todos os problemas em meu caminho.



Capítulo 23

Yuri ainda não sabia o que havia feito com que ele aceitasse o convite de uma jovem senhora que vira apenas uma vez na vida, e agora se encontrava em um café no centro da cidade, ainda inseguro e absolutamente sem saber o que fazer. Claro que Susanna Julia era alguém muito agradável, mas ele já não sabia se queria mesmo conversar com ela sobre os assuntos que o afligiam, embora fosse, de certa forma, mais fácil falar com alguém com quem não tinha uma relação assim tão próxima. Susanna Julia era, de fato, a sua melhor opção. Sem falar que ela era sensata e sincera, disposta a ajudar. E parecia genuinamente gostar de Yuri.

Eles se acomodaram em uma das mesas perto da parede, que tinham divisórias com pequenas folhagens separando-as do resto das mesas. Yuri sentou contra a parede, enquanto Julia ficou do lado oposto, de costas para a porta.

— Yo, Yuri! – Vindo do outro lado da cafeteria, que era também uma livraria, apareceu Ben, o amigo de Miyako e sobrinho do dono. Yuri o conhecia das vezes em que viera acompanhar Miyako, e eles conversaram uma ou duas vezes. Como recentemente o garoto passou a acompanhar sua prima no caminho para o trabalho e para casa com frequência, eles se viam bem mais. – Como está?

— Eu estou bem, e você? – Ele respondeu de prontidão, visivelmente nervoso. É claro que Yuri era incapaz de disfarçar o que quer que fosse, então não agia naturalmente de forma nenhuma. Ben não entendeu o motivo de ele estar agindo tão estranho, mas deveria perguntar isso para Miyako de qualquer forma.

— Estou ótimo. Ahn… A Miya-chii veio também? – Ele indagou, deixando bem claro o seu interesse em vir cumprimentá-lo, e olhando ao redor como se Miyako pudesse aparecer debaixo da mesa a qualquer segundo.

— Não, hoje ela ficou em casa… — Yuri respondeu evasivamente, notando o indisfarçável semblante de desapontamento do ruivo.

— Ah, é o dia de folga dela afinal, não é? – Ele riu, disfarçando. – Bem, digam-me então, o que vão querer? — Ele aproveitou a deixa, já que estava ali mesmo, para atendê-los.

— Eu quero aquele bolo de chocolate que a Miya levou para casa outro dia… — Yuri ponderou. – E chá de qualquer coisa, talvez…

— Café com leite… e algo doce para comer. – Susanna Julia pediu. – Pode ser o mesmo que o Yuri-kun pediu.

— Está certo. – Depois de anotar tudo em um bloquinho, Ben sorriu. – Eu já trago os seus pedidos… Com licença! – Ele se afastou, indo em direção à cozinha. Logo que ele já estava longe o bastante, Julia inclinou-se na direção de Yuri.

— Quem é Miya? – Ela indagou, com sua curiosidade interminável.

— Minha prima. Ela mora lá em casa. – Yuri respondeu, e viu a mulher sorrir.

— Como uma irmãzinha mais nova?

— Algo assim…

— Ah, esse garoto que nos atendeu agora, ele gosta dela, não é? – Ela suspirou, em tom conspiratório.

— Como você pode dizer isso se nem o conhece? – Yuri indagou, surpreso. Às vezes, Susanna Julia parecia enxergar melhor do que muitas pessoas, inclusive ele próprio, e a maneira como ela demonstrava isso o assustava, e muito.

— Apenas pelo tom de voz, e a presença que ele emanava. Tem coisas que são tão evidentes que não é preciso ver de fato para enxergá-las. – Julia sorriu enigmaticamente. – Como quando conheci você e o Wolfram-kun, por exemplo. Eu sabia que vocês estavam no caminho para se apaixonar, sem que me dissessem nada!

— Não é bem assim, Susanna Julia-san… — Yuri murmurou com voz fraca. – Eu e o Wolfram, nós jamais... – Ele estancou, ao lembrar-se do beijo. Estava prestes a dizer que eles dois nunca tiveram nada um com o outro, mas isso seria uma mentira, evidentemente.

— Ainda! – Ela reafirmou, sorrindo abertamente, sem deixar de notar a hesitação na voz de Yuri. – Mas eu nunca me engano com essas coisas, meu rapaz. – Ela segurou a mão de Yuri, por cima da mesa. – Por exemplo, eu posso dizer que algo aconteceu entre vocês dois, apenas pela maneira como você disse o nome dele agora mesmo. E você é sempre tão energético, e agora parece apenas uma criança perdida… Conte para mim o que aconteceu!

— Não é assim tão simples…

— Nós temos tempo! Vamos, conte logo!

— Para começar, Julia-san, eu tenho que contar a você que nós não somos namorados nem nada assim. Não estávamos fugindo por amor daquela vez. Então, acho que você cometeu um mal-entendido…

— É claro que eu sei disso, Yuri. Não é difícil perceber quando duas pessoas formam um casal, e decididamente, você e o Wolfram-kun não eram um, naquela época. Eu disse aquilo apenas para provocá-los. E, também, porque mesmo que vocês não fossem um casal de verdade, eu ainda podia dizer sem sombra de dúvidas, que eram fortes os sentimentos que os uniram.

— Sim, é esse o problema… – Yuri esfregou as mãos no colo, sem saber como continuar a frase. Esse tal sentimento que Julia falava, e que ele não sabia o que era ou de onde vinha, era o grande causador das suas dúvidas.

— Eu posso afirmar com certeza que não é qualquer um que sai correndo atrás do seu amigo daquela forma, para impedir uma fuga despropositada, correto?

— Bem, na época nós nem éramos amigos direito… — Yuri relembrou, hesitante. Julia riu.

— Se sem ser amigos, você já fez isso por ele, o que me diz dos seus sentimentos de agora, esses aos quais você não sabe dar um nome? Devem ser ainda mais fortes, certo?

— Eu só queria… ajudar… — Ele balbuciou, incoerente.

— Yuri, querido… Ajude a si mesmo. Pense um pouquinho mais. Wolfram-kun não vai esperar para sempre, sabe, até você resolver tomar uma atitude. – Ela sorriu. Uma das garçonetes veio com o pedido dos dois, e deixou sobre a mesa. Julia agradeceu.

— O que quer dizer? – Yuri indagou, sem ligar para o seu pedaço de bolo, encarando a mulher à sua frente com um semblante intrigado, ainda que ela não pudesse realmente vê-lo.

— Ele é alguém impaciente, já deve estar saturado com a sua demora em compreender. Qualquer um estaria, a essa altura. Mas eu vou tentar ajudar. Tente me explicar o que houve… — Ela se inclinou um pouco mais na direção dele, para ouvi-lo melhor, e começou a comer seu bolo.

— Hm… Foi meio que… Eu fiz uma coisa… que não devia ter feito! E eu nem sei por que eu fiz essa coisa, e acabou que eu fiquei pensando nisso e acho que quero fazer de novo, mas eu não acho que deveria, ou melhor, talvez eu esteja ficando louco, porque de qualquer forma, aquilo foi muito errado! – Ele disse tudo num fôlego só, e Julia arqueou uma sobrancelha. – Foi muito errado, mas… De alguma forma… pareceu certo…

— Eu acho que entendi… — Ela ponderou por alguns segundos. Yuri tomou um gole de chá, de repente sentindo muita sede, e olhou ao redor para tentar se acalmar. – Você beijou o Wolfram-kun e agora não sabe o que pensar disso, não é?

Yuri engasgou com o chá, com o rosto colorindo-se.

— C-como você…

— É fácil de deduzir, quando você parece tão perturbado. Eu sei que você não teria feito nada além de um beijo ainda, então eu imaginei que fosse isso. Você pode não saber, Yuri-kun, mas é um livro completamente aberto! Qualquer um pode lê-lo, se se dispuser a isso. – Ela riu enigmaticamente, como se pudesse ver perfeitamente através dele, apesar de isso ser um tanto quanto irônico. – Você não sabe fingir, e não sabe esconder o que sente… É por isso que eu tenho certeza de que você ainda não percebeu direito o que está acontecendo, apesar de ser tão óbvio para qualquer um.

— Eu… não entendo, Julia-san…

— Claro que não entende. – Ela abrandou o tom de voz, compreensiva e solidária. – Eu não quero correr o risco de você me entender mal, e não quero me meter na sua vida, tampouco. Mas eu acho que você precisa de alguma luz aqui. Escute bem, Yuri, preste atenção. – Ela falava com tanta firmeza que Yuri sentia algo reverberar dentro de si. Sua perna direita balançava compulsivamente, batendo contra o estrado da mesa em um nervoso e ritmado som. Julia respirou fundo, para então virar aqueles incríveis olhos prateados para Yuri, e ele engoliu em seco. – Você está apaixonado, Yuri-kun. Pelo Wolfram-kun. Esse é o seu problema.

— Ap-paixonado… — Yuri repetiu, com uma onda de choque fazendo-o estremecer com aquela simples palavra. Ele ensaiou dizer mais alguma coisa, mas sua boca apenas abria e voltava a fechar, como se fosse um peixe respirando dentro do aquário. Ele queria de qualquer maneira encontrar um bom argumento para refutar aquela hipótese maluca, mas… simplesmente não conseguia!

— Diga-me, Yuri-kun, em que situação você o beijou? Foi sem querer, um acidente, ou você tomou o impulso? Ou foi ele quem tomou a atitude? Você chegou a pensar no que estava fazendo? – Susanna Julia era tão direta em suas perguntas que, por um momento, Yuri ficou tonto.

— E-eu… apenas… E-ele estava chorando… na minha frente, eu não podia fazer nada, então… eu só queria que ele parasse de chorar, só isso… — Yuri baixou os olhos, envergonhado e desconcertado.

— Então você não precisava realmente ter feito isso, não é? Se queria consolá-lo, podia apenas ter abraçado ele, ou dito alguma palavra de conforto… Até um tapinha nas costas seria válido. Mas você quis beijá-lo, Yuri-kun. E você sabe o que é um beijo? É nada mais, nada menos, do que uma demonstração de amor!

— Não tem como… Julia-san, você está… — Ele queria muito dizer que ela estava errada, e que aquilo não fazia sentido nenhum, mas sua mente parecia paralisada, amortecida por aquelas palavras. Em cima do colo, suas mãos se fecharam, trêmulas. Ele fitava o líquido dourado na xícara de porcelana à sua frente, lentamente esfriando. Seu coração acelerado era o único som que ouvia. Como isso poderia ser certo? Wolfram era seu amigo!

— Yuri-kun… Se o seu amigo de agora, Murata-san, certo? Se ele começasse a chorar bem aqui na sua frente, por algo muito, muito triste… Você o beijaria para fazê-lo parar? – Julia indagou. Ela não podia ver Yuri se mexer impaciente sobre a cadeira, e a cara absolutamente indignada que ele fazia, mas sabia muito bem que a questão havia atingindo-o em cheio.

— C-claro que não! O Murata… ele… ele é… um garoto! Ele é o Murata! Ah, droga, não! Agora eu imaginei isso, ah não, que nojo! – Yuri enfiou um pedaço grande de bolo, apenas para aliviar a aversão por aquela pergunta descabida, querendo afastar a imagem mental perturbadora que teve.

— Wolfram-kun é um garoto, também, sabia? – Ela riu do comportamento embaraçado de Yuri, pensando que talvez ele estivesse chegando à algum lugar, finalmente. – Isso é algo que você deveria ter percebido por si só, eu só quero ajudá-lo. Vamos lá, Yuri-kun, coloque essa cabeça pra funcionar.

— Eu sei disso. Sei que ele é um garoto. Mas mesmo assim… Não é a mesma coisa…

— Ele foi o seu primeiro beijo? – Julia perguntou, curiosa. Parecia animada demais em tratar de todos esses assuntos, Yuri agora percebia. Ela tinha o mesmo sorriso de Miyako, quando estava empolgada.

— Não, eu já beijei uma garota, antes… – Yuri respondeu, meio a contragosto. Não gostava de lembrar-se dessa história, e se pudesse, teria apagado da sua mente já.

— Hm… A maneira como você se sentiu com essa… garota, e com Wolfram. Foi a mesma? Você sentiu algo diferente?

— Etto… — Yuri corou furiosamente ao pensar nisso, e sentiu-se aliviado por Julia não poder ver o semblante patético que ele fazia agora. – A-acho que… c-com Wolfram… f-foi muito melhor… — Ele admitiu, a um sussurro que apenas alguém com os ouvidos aguçados de Julia poderia ouvir.

— Claro que foi. – Ela riu. – E então, o que me diz disso? – Ela falou, como se tivesse resolvido o mistério. Yuri ponderou por alguns segundos.

— Mas… não tem como eu gostar do Wolf desse jeito… — Ele balbuciou, e mais do que imediatamente, já se arrependeu de ter deixado escapar aquela frase. Num golpe inacreditável e certeiro, Susanna Julia o atingiu na cabeça, com um punho fechado. – Itai! Julia-san, pra quê isso?!

— Para você aprender a não ser tão cabeça-oca. Você pode não ter nenhuma experiência até agora, mas francamente, Yuri, você nunca viu uma novela ou leu um mangá na vida? Como as pessoas apaixonadas se sentem, hein? – Ela parecia ter perdido a paciência com Yuri agora.

— Ah… — Ele forçou a memória, ignorando a dor na cabeça para pensar cuidadosamente na questão. Não queria apanhar de novo. – Acho que… elas ficam com o coração acelerado, e nervosas… e não conseguem falar direito… Algo assim, talvez? Acho que não sei… — Ele baixou a cabeça, parecendo mais um cachorrinho culpado que fez coisa errada do que qualquer coisa.

Julia resolveu que iria elucidar mais essa questão.

— Você não sente seu coração acelerando absurdamente quando está perto dele, como se estivesse pulsando nas suas orelhas? Quando ele olha para você, sente aquela explosão de energia, algo que se espalha rapidamente, um tipo de formigamento… Você se distrai facilmente, e se pega olhando fixamente para ele, sem motivo nenhum. E então, quando está longe, você pensa nele, e logo se sente bem. Fica falando sem parar sobre ele e as coisas que ele faz, para todo mundo, e não consegue ficar parado quando vocês estão perto um do outro. Você quer estar perto, quer tocá-lo, quer que ele olhe para você… E tudo isso, você só sente com ele… Não é assim, Yuri-kun? – Ela sorriu.

Yuri parou por alguns segundos, absorvendo cada uma das informações. Aqueles eram sinais de alerta? Pois… Yuri podia sentir que eles eram vagamente familiares. A maioria deles, pelo menos, se não todos. Aquilo era estar apaixonado? Então ele… amava um garoto? Mas… Nunca na vida iria pensar nisso! Sua respiração ficou pesada, e ele sentiu como se fosse desmaiar ou algo assim. Ele nunca havia se apaixonado, ou mesmo sentido atração forte por uma garota, era verdade… E ele se sentia daquela maneira em relação à Wolfram, e isso era de muito antes do beijo, provavelmente. Yuri custava a acreditar. Só que… Na sua mente, não havia nenhuma explicação melhor do que aquela. Fazia tanto sentido que chegava a doer.

— Eu não posso estar apaixonado pelo Wolfram. – Yuri deitou a cabeça na mesa do café, escondendo-a nos braços, desistindo de argumentar. Parecia uma criança birrenta que se recusava a comer. – Ele é bonito demais para mim. – Resmungou, com a voz abafada pela manga do casaco, o único motivo real que tinha para negar aquele fato. Julia riu, estendendo a mão até tocar na cabeça do garoto, e afagou ligeiramente.

— Ele é mesmo tão bonito assim? – Ela indagou.

— Sim, é lindo. – Dessa vez, ele não hesitou em responder. – O garoto mais bonito que eu já conheci, acho que pode ser até, sei lá, o mais bonito do mundo. Ele é… demais para mim. – Ele repetiu, infantilmente. Seu coração acelerava ao dizer essas palavras, mas era a mais pura verdade. – Se… eu estiver mesmo gostando dele desse jeito, então já não tenho chance. Ele pode ter qualquer garota do mundo. E eu sou só… Shibuya Yuri, Harajuku Furi

— Você não sabe até tentar, não é? – Julia recitou, e Yuri ergueu apenas os olhos, para observá-la – Algo me diz que Wolfram-kun até mesmo já fez sua escolha. Por que você não vai até lá e pergunta para ele qual é?

— É mais difícil do que parece… — Ele voltou a esconder o rosto corado nos braços, fazendo um som de lamento.

— Então você já aceitou a verdade?

Yuri não respondeu, enquanto seu cérebro trabalhava febrilmente para tentar obter alguma ordem. Para falar a verdade, sentia-se um pouco aliviado em ter alguma conclusão a tirar. As respostas pareciam bem mais claras para ele agora, como se seus problemas tivessem evaporado de repente apenas com aquela singela constatação. Ele sempre foi o tipo de pessoa que se acostumava facilmente com qualquer situação. Pensava que, até mesmo se fosse tragado para alguma dimensão diferente e estranha, como em um mangá, iria se adaptar sem problemas com a nova realidade. E a nova realidade que se apresentava a ele era aquela onde ele se apaixonava por Wolfram. Não era tão complicado assim se acostumar com isso também, ele começava a pensar.

— Nee, Julia-san…

— Sim?

— Se eu amo mesmo o Wolf, então… O que eu faço agora? – Ele murmurou, curioso.

Ela riu mais uma vez, dessa vez com visível alegria.

— Eu já ajudei muito, agora é com você… — Ela cerrou os olhos, resoluta. – Mas, se quer uma dica… Eu digo algo simples. Se declare logo!

Com isso, Yuri tratou de comer logo o seu bolo e tomar o chá frio. Não conseguia dizer mais nem uma palavra sobre esse assunto, até porque sua mente parecia estar fervilhando com tantos pensamentos profundos. Ele se ofereceu para pagar toda a conta, em troca dos preciosos conselhos, e logo o noivo de Julia, Adalbert, apareceu na porta do café, com um monte de compras em mãos. Como ele sabia onde estavam?

— Eu vou indo, querido, ainda tenho muitas coisas para fazer. – Ela sorriu, acariciando de leve o rosto de Yuri, quando ele disse que podia ver o noivo dela pela janela. – Ah, e você parece muito bonito para mim. Tenha confiança. – Julia confidenciou, depois de passar a ponta dos dedos por toda a face de Yuri, delicadamente. Era sua forma de enxergar.

— Obrigado, Julia-san. Muito obrigado. – Ele agradecia, não somente pelo elogio, mas também por todo o resto.

— Sabe, eu estava com Adalbert fazendo compras para o nosso casamento, que será daqui dois meses…

— C-casamento! – Yuri assombrou-se, arrependido de ter aceitado o convite de Julia. Ela devia estar muitíssimo ocupada! Não tinha tempo para os seus problemas de adolescente. – Nossa, Julia-san, meus parabéns! Espero que seja muito feliz…

— Eu serei muito mais feliz se você e o Wolfram-kun estiverem na minha cerimônia, está bem? – Ela convidou, afagando de leve os cabelos negros de Yuri, mais uma vez. – Juntos. – Enfatizou.

— E-eu… vou fazer o possível! – Yuri respondeu sem pensar, e Julia riu do entusiasmo do jovem, saindo cuidadosamente pela saída com habilidade. Adalbert a encontrou na porta, e os dois saíram juntos. Yuri ainda ficou observando de longe o casal se afastar, completamente perdido em pensamentos. Só esperava estar fazendo o certo…

~

— Shibuya. Shibuya? Shibuya! – Murata chamou pela terceira vez, impaciente. Yuri pareceu acordar do seu estado de torpor, e piscou algumas vezes, parecendo surpreso de ter alguém chamando por ele. – Está dormindo ainda? Eu estou te chamando faz horas! Você anda tão distraído, parece até que está apaixonado!

— Ah, é… Parece que é isso mesmo… — Yuri respondeu evasivamente, sem nem prestar atenção nas palavras do amigo, e logo voltando a se distrair. Estavam sentados na beirada do campo de baseball, mas era domingo e não havia jogo. Ao invés disso, eles esperavam pelo novo técnico contratado pelo diretor, que deveria se apresentar hoje para eles.

Porém, talvez pela primeira vez na vida, Yuri não estava tão preocupado assim com baseball. Ele não havia dormido direito na noite anterior, depois daquela conversa com Susanna Julia e, no pouco tempo que conseguira pegar no sono, tivera um intrigante e ao mesmo tempo, revelador, sonho. No tal sonho, ele beijava Wolfram novamente, e então, percebia que ele era na verdade a garota misteriosa e predestinada, que não era uma garota, mas sim Wolfram mesmo e, na verdade, sempre havia sido ele e de alguma forma Yuri não percebera. Confuso, mas eficaz. Ele ainda tinha algumas pequenas dúvidas, mas estava indo pelo caminho certo.

Como era domingo, Yuri não tivera como ver Wolfram, e nem coragem para ligar para ele. Ainda não sabia como encará-lo, depois de descobrir esses sentimentos embaraçosos que ele nem sonhara que podia algum dia sentir, e estar consciente disso só bagunçava tudo. Ele havia decidido a ignorar aquele beijo, mas agora não conseguia fazer isso de maneira alguma. Pelo contrário, só conseguia ficar pensando nisso, e cada vez que pensava, as palavras de Susanna Julia retornavam à sua mente, e ele sabia que ela tinha toda a razão.

— Você acha que o tal treinador vai demorar ainda? – Murata ponderava para si mesmo, olhando ao redor para ver se ninguém aparecia.

— Ei, Murata… Você acha que alguém pode se apaixonar sem saber que está apaixonado? – Yuri indagou de repente, no tom de quem não quer nada. Claro que ele era horrível em fingir, então seu interesse na resposta era evidente. Murata riu para si mesmo.

— Acho difícil. Talvez no início, mas, depois, as pessoas acabam se dando conta uma hora ou outra. – Ele respondeu, e então riu. – Exceto por você. Acho que você poderia passar a vida inteira amando alguém, e achar que é só uma dor de barriga. Não duvido nada, é bem possível. Você não veio para a escola de pijama uma vez?

— Ah, que cruel, Murata! – Yuri resmungou, pensando que essa era mais uma coisa para adicionar à lista de “Razões pelas quais eu não beijaria o Murata”. E ele não havia vindo de pijamas. Era só a camiseta. – Olha lá, tem alguém vindo! – Os dois se ergueram, e então Yuri notou que a figura que se aproximava era estranhamente familiar. Quando ele chegou perto o suficiente, Yuri distinguiu os cabelos castanhos e a cicatriz que cortava a sobrancelha, e correu até lá para recebê-lo.

— Olá, Yuri. — Conrad cumprimentou, bem-humorado.

— Conrad! – Ele exclamou, sorrindo. Então ele seria o novo técnico do seu time? Que coincidência incrível!

— Vocês já se conhecem? – Murata olhou de um para o outro. – Bem, isso facilita muito as coisas…

— Ele é irmão do Wolf, Murata! Conrad… War… Wil… Conrad do quê mesmo? – Ele fez careta, depois de tentar acertar o nome estrangeiro.

— Weller. Conrad Weller – Ele se curvou à moda japonesa, e então sorriu. – Eu serei o novo treinador do seu time, a partir de hoje. Yoroshiku onegai shimasu.

— Yoroshiku mo! – Yuri respondeu, também sorrindo.

Depois disso, ele e Murata passaram com Conrad por todas as dependências referentes ao clube, que eram responsabilidade da escola, desde o campo, até os vestiários, e o almoxarifado ao fundo onde ficavam guardados os equipamentos. Não havia jogadores hoje ali, pois o trabalho de Conrad propriamente dito só começava na segunda-feira, mas havia muita coisa a explicar, e mostrar. Yuri não sabia que Conrad sabia jogar baseball, e nem que ele se candidatara ao cargo de técnico, mas isso o deixava estranhamente animado. Algo como ter uma ligação a mais com Wolfram, ainda que indiretamente e, de repente, ele se sentia muito idiota por pensar em algo assim. Estava muito feliz pelo técnico ser alguém conhecido, mas não escondia que havia algo, mais do que jogadas ensaiadas ou uniformes novos, que ele queria perguntar à Conrad. Quando Murata saiu para devolver a chave dos vestiários, ele encontrou sua chance, e não demorou em indagar:

— Como está o Wolf? – Ele disse mais rápido do que seu cérebro podia pensar, e Conrad riu, porque sabia que essa pergunta viria cedo ou tarde.

— Está como sempre, eu imagino. Ele estava pintando um quadro quando eu saí de casa.

— Pintando? Então ele faz isso também… Que incrível! – Os olhos de Yuri brilharam de admiração. – Mas… ele está bem mesmo?

— Sim, está bem. – Conrad respondeu novamente. – Atualmente, o tio dele está passando alguns dias na nossa casa, e ele está o recebendo.

— Hm… E ele… não disse nada, sabe… sobre mim? – Ele indagou num fio de voz, erguendo os olhos e voltando a baixá-los. Seu rosto coloriu-se ligeiramente. Conrad logo entendeu tudo.

— Wolfram não é muito de falar sobre seus sentimentos. Se você quer saber algo, então eu sugiro que pergunte pessoalmente, pois, a menos que seja perguntado, Wolfram jamais expõe seus pensamentos tão facilmente… — Ele respondeu de maneira sucinta, e Yuri assentiu, concordando.

— Mas você acha… Assim, que ele pode… g-gostar de alguém, agora? – Ele mordeu os lábios, amaldiçoando-se por ser tão curioso. Onde estava Murata, quando ele precisava de alguém para preencher o silêncio e fazê-lo parar de falar besteiras?

— Se você quer minha opinião pessoal, eu diria que sim. – Ele respondeu, e observou com o canto dos olhos a reação de Yuri. Ele se remexeu, incomodado, e olhou para o lado oposto da grade. Logo depois, esfregou os cabelos energicamente, e deu uma risada nervosa. – Mas nós só temos como saber a verdade se ele disser, não é?

— Tem razão. – Ele voltou a erguer o rosto, e esboçou um sorriso, reanimando-se. – Você acha… que seria ruim se eu fosse visitá-lo depois de sair daqui?

— Eu acho que ele ficaria feliz. Não tem problema nenhum se você for até lá.

Yuri levou o conselho muito a sério, e saiu correndo no mesmo minuto, sem nem se despedir. Levou algum tempo para chegar à casa de Wolfram, mas, quando parou em frente aos portões, eles logo se abriram. Conrad havia ligado e avisado ao serviço de segurança sobre a visita. O moreno subiu pelo caminho conhecido, já ofegante por ter corrido até ali, e nem sabia exatamente o que ia fazer quando visse Wolfram. Queria vê-lo, e conversar com ele, e essa era a única certeza que tinha. Afinal, agir por impulso era sua especialidade.

Notas finais
Háa~ e agora??? Yuri finalmente foi em frente, aahn? Hashire, Yuri! Hashire!! Ah, nem quero me demorar muito aqui, quero saber logo o que vocês acharam desse capítulo! Por que eu me esforcei pra fazer o Yuri entender, viu? [Revisado]