Sono Te Hanasanaide
17 Capítulo XVII
Shounen ha kimi to deai
O garoto encontrou você
ikiru imi wo shirunda
e também deu um sentido para sua vida
Uso janai, hontou sa
Não é mentira, isso é verdade
Soshite kimi wo mamoru knight ni naru
E ele se tornará o cavaleiro que a protegerá
Itsuka kitto nee
Algum dia, certamente
kare no hidari te ni ha kanojo no migi te gyutto nigitte
A mão esquerda dele e a direita dela, vão se apertar tão forte
hanashi ha shinai kara
Para nunca deixar ir
Capítulo 17
— … e então, o Wolfram-kun agarrou o Nii-chan pelo braço, e os dois saíram correndo!!! – Miyako narrou com emoção, os olhos brilhando de expectativa e os braços erguidos, movimentando-se expansivamente para ilustrar a cena.
— Wow, é mesmo? Deve ter sido emocionante. – Ben exclamou sorrindo, dando ainda mais corda para a animada Miyako. – Você viu o que eles fizeram depois?
Era sábado, e ela estava no seu horário de expediente. Vestia a roupa de maid do café, mas, como naquela hora da manhã o movimento era fraco, ela passava o tempo no balcão da livraria, com Ben. Ele não parecia se importar, na verdade, ficava até muito contente com as pequenas visitas de Miya ao seu lado da loja, para conversar.
Quando começou a trabalhar ali, Miyako teve alguns problemas com sua personalidade tímida e desajeitada, e mais de uma vez travou ao ter que falar com um cliente ou derrubou as bandejas no chão. Mas, com a ajuda de Ben e das suas colegas maids, que eram mais velhas do que ela e a tratavam como uma pequena mascote, ela conseguiu se soltar e agora até mesmo conversava mais com todos. Yozak fingia não ver as escapadas de Miyako, e na verdade estava feliz com os rápidos avanços dela. O fato de ela quebrar menos copos agora contribuiu com essa benevolência toda.
— Não consegui ver nada… — Ela baixou os olhos, decepcionada. – O Nii-chan me contou que eles foram ao aquário, mas eu queria tanto ter espiado!! Devem ter acontecido muitas coisas e emocionantes, e a Miyako não viu nada… — Ela corou furiosamente, notando que havia novamente se referido a si mesma na terceira pessoa, uma mania que estava difícil de deixar para trás. Ben sorriu, achando aquele um hábito particularmente fofo, mas sem dizer isso em voz alta.
— Por que você não os seguiu? – Ele indagou, como se perseguir e observar pessoas por aí escondido fosse algo completamente natural. Pousou o braço no balcão para virar-se a ela, que estava sentada em um banquinho no canto do lado de dentro, um lugar que já era marcado como seu.
— A Matsumoto-san estava lá, tendo uma crise de fúria por ter sido deixada para trás, e eu não podia sair do meu esconderijo… — Ela contou.
Além de Wolfram, e agora de Yuuri, Benjamin era o único que sabia sobre Mariko. Miyako sentia-se a vontade para conversar com ele sobre qualquer coisa, apesar de às vezes ficar tão embaraçada a ponto de se perder nas palavras, e Ben estava sempre disposto a escutá-la. Ele nunca pressionava Miyako a tomar uma atitude drástica, e sua maneira tranquila e otimista de lidar com esses assuntos faziam com que ela se sentisse mais segura e aberta a falar.
— Você conversou com seu primo sobre ela…? – Ele continuou, aproximando-se de Miyako para sentar no banco ao lado do dela. Ela se remexeu, sem conseguir deixar de se perturbar com a aproximação inesperada dele.
— Sim… — Ela assentiu, olhando para as próprias mãos, e lembrando-se de como Yuri a interrogou logo que chegou em casa. Ela conseguiu convencê-lo de que poderia lidar com isso sem precisar recorrer aos adultos, e ele concordou em manter-se em silêncio. Por enquanto, apenas, desde que ela se prontificasse a chamá-lo caso qualquer coisa acontecesse. – Yuri-nii-chan disse que vai ficar de olho em mim a partir de agora… — Ela murmurou, envergonhada.
— Isso é bom. Mas ela continua atormentando você na escola? – Ele indagou de repente, assumindo um ar preocupado. Miyako sobressaltou, desviando o olhar rapidamente.
— Depois dessa semana que passou, ela estava tão abalada por ter sido deixada que nem se lembrou da minha existência… Mas ela já deve ter se recuperado, porque ontem, ela e as amigas derrubaram meus materiais no rio quando eu estava voltando sozinha para casa… E-eu consegui recuperar tudo de volta, elas não atiraram tão longe! – Ela se apressou em dizer, tentando não alarmar tanto o garoto.
— Você estava voltando sozinha? – Ele se deteve a esse detalhe.
— Nii-chan tinha treino de baseball, e Wolfram-kun foi acompanhá-lo. Eu não queria atrapalhar eles, então…
— Você volta para casa sozinha com frequência? – Ele insistiu, sério. Ela se assustou com aquela expressão no rosto do garoto, que era sempre tão despreocupado.
— Só quando saio mais cedo, ou o Nii-chan tem algum compromisso… Mas isso não é um problema!
— A partir de hoje, espere por mim no seu horário de saída, e nós viremos juntos para o trabalho. — Benjamin declarou, decidido.
— O q-que? – Ela engasgou, com o rosto ficando imediatamente escarlate.
— Eu vou te buscar na escola. – Ele reafirmou, seguro da sua decisão.
— M-mas, B-ben-kun… A sua escola…
— Nossas escolas não ficam tão longe, e eu não tenho atividades de clube nem nada assim. Posso ir buscar você todos os dias, e te levar em casa depois. E antes que você diga… — Ele a interrompeu assim que ela abriu a boca para falar. – Isso não é nenhum problema para mim, e eu não me importo nem um pouco. Na verdade… vou ficar feliz em poder passar mais tempo com você… — Ele sorriu, com seus olhos azuis brilhando tanto que Miyako não conseguia olhar diretamente para ele. Sentiu que seu rosto estava a ponto de explodir, e fumaça saia das suas orelhas.
— M-mas…
— Sem discutir. Eu vou fazer isso e ponto final. – Ele se levantou, percebendo que um cliente se aproximava para comprar uma revista. – E nada do que você diga vai me fazer mudar de ideia, então, pode ir desistindo.
Ela se levantou também, sem conseguir encontrar nada para dizer. Queria dizer a Ben que isso não era necessário, mas não encontrava argumentos, nem nenhum pensamento coerente na sua cabeça para isso. Seu vocabulário havia se encurtado tão rapidamente que a única saída era fugir, fingindo que precisava limpar as mesas do café ou qualquer coisa assim, mesmo que não houvesse clientes ali para justificar suas ações. Ben, atendendo ao cliente da livraria, não pôde deixar de sorrir ao vê-la sair correndo, tropeçando nos próprios pés e quase derrubando uma cadeira no caminho. Ela era mesmo muito fofa…
~
Yuri se encolheu no seu gakuran, sentindo o vento frio que vinha da janela tocar sua pele. Outra semana se iniciava, e o outono estava no seu fim, e não tardaria para que o inverno chegasse. Yuri não estava prestando muita atenção em Gunter hoje – não que normalmente o fizesse – porque sua mente simplesmente não queria ficar sossegada. Quase duas semanas se passaram desde que o incidente do encontro desastroso acontecera. Ele não podia negar que se divertiu com Wolfram no aquário, e que provavelmente valeu muito mais a pena passar aquele tempo com ele do que com aquela garota…
Tentava evitar encontrar-se com Mariko de todas as maneiras, mas não conseguia deixar de se preocupar. Miyako ainda era colega de aula dela, afinal, e a garota poderia de alguma forma tentar se vingar da… rejeição? Que estranho…! E pensar que Yuri havia se tornado o tipo de garoto que rejeita uma menina! Ele, que pensou que nunca teria nem mesmo uma namorada, estava agora fugindo de uma garota…
Bem, ele também nunca pensou que acabaria sendo beijado por ela. Aquele foi o seu primeiro beijo de verdade, na vida inteira, e ele não ficou nem minimamente abalado com isso! Era esquisito… Mas ele não sentia aquele como sendo um beijo de verdade. Afinal… Não havia sido como naquele sonho…
Yuri escondeu o rosto nos braços, com aquela lembrança repentina. Durante toda a semana, havia tido aquele sonho esquisito novamente. Porém, dessa vez, o sonho era modificado. Agora, era Mariko quem o beijava. E Yuri odiava aquele beijo! Ele se desvencilhava da garota, e via a sua predestinada, aquela que o beijara no outro sonho, correndo para o lado oposto. Ele fugia de Mariko, e corria na direção dela, gritando para que o esperasse. E quando finalmente a alcançava, e a beijava, sentia novamente como se tudo estivesse no seu lugar. Aquele era o beijo certo, aquela era a garota certa… Mas Yuri sempre acordava antes de conseguir ver o rosto dela! Isso era frustrante…
— Então, Sr. Shibuya, diga-me, como é que dormir em cima da mesa pode ser mais interessante do que a minha aula? – Gunter indagou bruscamente, batendo a régua na classe de Yuri e o sobressaltando.
— Ah, ahn… — Yuri rapidamente se aprumou, ajeitando-se na cadeira. – Sinto muito, sensei.
— Certo, preste mais atenção. Eu estou falando sobre o trabalho que valerá boa parte da nota desse semestre! Como eu ia dizendo… – Ele retornou para frente da classe, e apontou para os escritos no quadro-negro, nos quais Yuri não havia reparado antes e imediatamente começou a copiar. –… vocês terão que observar o céu à noite, e então registrar suas observações, a partir dos estudos que nós viemos fazendo há um bom tempo. Eu distribuirei esses mapas estelares, e vocês poderão completá-los. – Um lamento coletivo ecoou pela sala, e Gunter revirou os olhos, inconformado com aquele tipo de desmotivação em pessoas tão jovens. – É claro que o uso de internet é liberado, mas eu gostaria muito de que vocês fizessem isso de forma própria, com uma visita ao planetário, por exemplo, ou pedindo emprestado o material do clube de astronomia da escola, que possui bons telescópios. A escolha é totalmente feita por vocês, e o trabalho se dará em duplas, portanto…
Gunter continuou a falar sobre o trabalho, mas Yuri já havia desligado novamente, e voltado-se para trás, onde Wolfram o encarava com ar aborrecido.
— Você fará o trabalho comigo, certo? – Indagou, sorridente, embora a resposta fosse óbvia. Afinal, com quem mais ele faria?
— Eu não tenho escolha, tenho? – Wolfram bufou, como se estivesse irritado, e apenas ignorou o olhar contente de Yuri, e aquela risadinha inconveniente. – Nós podemos ir para a minha casa. Eu tenho um telescópio…
— Waa, a sua casa! – Yuri percebeu que nunca havia ido até a casa de Wolfram, nem uma única vez, embora ele fosse até a sua com bastante frequência. Será que ele morava em algum castelo, ou algo do tipo? – Eu estou ansioso por isso!
— Sr. Shibuya! Sr. Bielefeld! Mais atenção! – Gunter gritou lá da frente, e os dois garotos voltaram a ficar em silêncio, enquanto a aula continuava.
Quando a aula finalmente teve fim, Yuri se apressou em recolher o material, querendo ir logo para o seu treino de baseball. Wolfram, como de costume, o acompanharia.
— Eu posso ir amanhã até a sua casa? Não tenho treino…
— Tanto faz. Eu tenho que falar com a minha mãe… — Ele respondeu evasivamente, embora estivesse nervoso por isso. Bem ou mal, era a primeira vez que levava um amigo para casa, e tinha certeza de que sua família estaria pronta para fazer escândalo e deixá-lo constrangido. Devia ter pensado melhor antes de fazer a oferta inicialmente.
— Ah… Nós ainda não conseguimos um treinador… — Os pensamentos de Yuri ainda estavam no treino, e ele começou a resmungar, enquanto desciam as escadas em meio ao fluxo de estudantes. Ele queria ter a certeza de que Miyako iria bem para casa, mas não queria cruzar com Mariko no andar do primeiro ano, então a esperaria no pé da escada.
Mas seu plano deu terrivelmente errado pois, quando parou com Wolfram naquele lugar, lá estava também parada Matsumoto Mariko. Ela abriu um enorme sorriso ao vê-los, jogando os cabelos loiros cuidadosamente ondulados para trás. Yuri engoliu em seco e suou frio. Wolfram rangeu os dentes, cerrando os punhos e se colocando em posição defensiva, ligeiramente a frente de Yuri.
— Olá, Yuri-kun… — Ela entoou, prolongando irritantemente as vogais do nome dele. – E Wolfram-kun, também…
— O que você quer? – Wolfram respondeu no lugar de Yuri, deixando bem claro no seu tom de voz e no seu comportamento que não queria aquela garota chegando perto de novo. Ela pareceu se assustar por um momento, e então sorriu de novo.
— Eu só queria dizer ao Yuri-kun… que eu não guardo ressentimentos por aquele… desentendimento. – Ela piscou um olho, sorrindo e mostrando todos os dentes. Yuri tentou dizer algo, mas Wolfram novamente o interrompeu.
— Não foi um desentendimento. Yuri não quer nada com você. Fique longe dele!
— Calma, Wolfram-kun! – Ela se fingiu de assustada, fazendo um beicinho. – Eu só quero dizer que perdoo vocês dois! E que ainda não desisti…
— Mariko-san, eu sei o que você andou fazendo com a minha prima, e…
— Com a Miya-chan? Eu? – Ela se fez de desentendida. – Mas nós somos boas amigas! Inclusive, eu estou indo encontrar com ela… — Ela sorriu de modo misterioso. Yuri, realmente, realmente, não sabia como decifrar os pensamentos das garotas. Uma pequena conversa como essa, e ele já estava todo confuso de novo. O que ela estava querendo dizer mesmo? – Certo, certo, eu já estou atrasada… Bye bye! — Ela saltitou para o lado, indo na direção das escadas. Wolfram teria ido até lá para ajudá-la a descer mais rápido, se Yuri, inesperadamente, não tivesse segurando-o pela manga.
— Wolfram, vamos procurar a Miyako! – Yuri se apressou em dizer, urgente, sem saber para que lado ir.
— Não é preciso… — Wolfram se colocou um pouco mais a frente, e como ainda estava o segurando, Yuri foi junto – Olha lá… — Ele apontou para o portão, onde estava parado o inconfundível garoto de cabelos ruivos. Yuri soltou o ar, aliviado. Apesar de tudo, Ben era alguém em quem ele sentia que podia confiar, e Wolfram sabia disso.
— Eles se dão bem, não é? – Yuri comentou rapidamente, um tanto confuso. Achou que deveria sentir ciúmes de Miyako com Ben da mesma forma que sentiu quando achou que Wolfram gostava dela, mas isso era meio complicado. Talvez fosse porque não conhecia Ben direito, ou algo assim… — Você acha que a Mariko-san vai incomodá-la?
— Ela anda mais calma desde aquele incidente, eu acho… E parece que sua prima conseguiu um protetor por agora. – Wolfram deu de ombros. Tudo parecia estar indo tão bem que ele se forçava a não se preocupar por enquanto, e também, não queria que Yuri voltasse a se sentir culpado por não ter percebido nada daquilo antes. – Você não tem que ir para o treino? – Ele disse de repente, e Yuri sobressaltou, se afastando da janela para correr pela escada.
— Ah! – Ele travou no meio da escada, forçando Wolfram, que ia logo atrás dele, a parar também. – Obrigado, por me ajudar antes… — Ele sorriu para o loiro, fazendo-o corar levemente. – Eu realmente não sabia o que dizer para aquela garota depois de tudo, e você acabou me defendendo de novo… Assim como quando nos encontramos naquele dia, e você me salvou dos delinquentes, e depois, no dia do encontro… Parece que você está sempre me salvando, não é Wolf…? – Ele riu, sem graça, sentindo-se um inútil. Às vezes, tinha essa impressão de que estava fazendo tudo errado. Ele também tinha que ajudar Wolfram, protegê-lo, ou algo assim! Parecia que tudo o que conseguia fazer para o amigo era apenas dizer obrigado, sem nunca dar nada em troca! Isso parecia injusto.
— Como se eu me importasse com isso. – Wolfram virou o rosto, querendo disfarçar todo o seu embaraço. – Se você parasse de se meter em confusões, eu não teria que fazer isso!
Yuri riu da cara engraçada que Wolfram fazia, e os dois seguiram para descer as escadas, até o ginásio. No caminho, Yuri viu de relance Miyako colocando os sapatos para ir embora, e sorriu, sabendo que ela estava bem agora, mesmo sem ele.
Miyako havia demorado um pouco mais dentro da sala de aula, fingindo que tinha algum assunto a tratar com a professora, para não ter que cruzar com Mariko e as amigas dela. Já bastava ter que aguentá-las na educação física, onde elas sempre arrumavam um jeito de derrubá-la ou acertá-la com a bola, e ainda durante as aulas, quando elas jogavam bolinhas de papel e outras coisas na sua cabeça.
Seu coração batia forte, enquanto ela pegava sua pasta e rumava para fora do prédio. Será que Ben estaria ali fora como havia prometido? Ela não podia deixar de se sentir feliz com a expectativa. Esperançosa, ela guardou os sapatos internos e saiu do prédio. Logo que atravessou o pátio, viu a silhueta de alguém esperando ao lado do portão, e seu coração acelerou audivelmente. Era ele? Tinha que ser ele!
—Mi-ya-ko-chan~ — O chamado desagradável fez toda a alegria de Miya sumir como num passe de mágica. Rodeando-a até estar na sua frente, Mariko sorria com escárnio, acompanhada de apenas uma das suas seguidoras, a que tinha cabelos castanhos curtos. – Você está indo embora sozinha! Que cruel! Você devia ter nos esperado…
— E-eu tenho que ir, Matsumoto-san, com licença… — Miyako tentou contornar as duas garotas, mas Mariko a impediu, colocando-se novamente no seu caminho.
— Eu queria te informar, Miyako-chan, que não quero mais causar problemas a você! – Ela abriu um sorriso que pretendia ser amigável, mas Miyako não sentiu um pingo de sinceridade nele. – Na verdade… Acho que nós deveríamos ser boas amigas! Porque, sabe… Eu quero entrar para a sua família! – Ela piscou, sorridente, fazendo Miyako ofegar quando entendeu o sentido daquela frase.
— M-mas! Você não disse que… O Wolfram, ele…
— É claro que eu não desisti do Wolfram, queridinha. – Ela bufou, como se tivesse que explicar algo complicado para uma criança. – Só estou dizendo que o seu priminho bobinho é mais um dos meus alvos… Ele não é lindo como o Wolfram, mas é bem fofo até… e ele me salvou, afinal. – Ela riu de modo quase sonhador, apertando os lábios como se estivesse espalhando o batom. – Wow, já pensou que eu posso até, se tiver sorte, conseguir os dois de uma vez? Mas para isso… você tem que parar de ficar contando sobre as nossas “brincadeirinhas” para ele! É assunto de meninas, você não devia ficar espalhando, Miya-chan! Se fizer muita fofoca, as pessoas vão parar de acreditar em você! – Ela aproximou seu rosto do de Miyako, ameaçadoramente, com os olhos contornados de rímel em excesso e ela involuntariamente começou a tremer. – Eu não sei o que pode acontecer com você se continuar contando tudo para o Yuri-kun. Mas não acho que será algo bom…
— Está tudo bem com você, Miyako-chii? – Cansado de esperar na frente, Ben havia espiado para dentro do pátio bem a tempo de ver Miyako sendo encurralada pelas duas garotas, e se precipitou para ajudá-la. Os olhos dela se encheram de lágrimas ao vê-lo. Sem hesitar, ela escapou de Mariko e correu na direção dele, escondendo-se em suas costas, com um misto de vergonha e medo impedindo-a de olhá-lo nos olhos. Mariko bufou, como uma criança inconformada por perder seu brinquedo.
— Olha só, Saki-chan. – Mariko olhou para Ben firmemente, com um sorriso maldoso se espalhando pelos seus lábios. Havia se assustado com a presença inesperada do garoto interrompendo a sua pequena conversa, mas queria dar um jeito de tirar proveito disso. – A nossa querida Miya-chan já está andando com um garoto novo!
— Ela é realmente esperta, não é? – Saki, a amiga sempre tão calada de Mariko, havia aberto um enorme sorriso ao ver Ben. Havia gostado dele quase que instantaneamente.
— Miyako está sempre rodeada de garotos, onde quer que vá. É melhor você tomar cuidado, ruivinho… — Mariko se aproximou dele, e Miyako estremeceu, escondendo-se ainda mais nas costas do garoto. – A Miya-chan é uma garota muito… hm… complexa. Talvez ela esteja te enganando, viu? É melhor se cuidar.
— Eu não preciso dos seus conselhos. – Benjamin replicou, frio, tirando a mão que Mariko passava pelo seu rosto rispidamente. Ela sorriu, piscando para a amiga, e as duas saíram na direção do portão aberto, conversando em voz alta. – Você está bem, Miyako? – Ele se apressou em perguntar, virando-a para a sua frente.
Ela acenou com a cabeça que sim, com o rosto muito vermelho, e as lágrimas fazendo seus olhos brilharem. Sentia que se dissesse uma única palavra, iria cair no choro, e não queria isso de jeito nenhum. Apesar de querer se mostrar forte, e dizer que conseguia aguentar as provocações de Mariko por já estar acostumada com isso, as palavras dela ainda eram capazes de machucar. E ela não iria deixar aquela cena ainda mais ridícula ao mostrar toda a sua fraqueza àquele garoto, não mesmo. No entanto, Ben não podia estar ligando menos para isso.
— Venha cá, Miya… — Ele a abraçou gentilmente, conduzindo-a até a saída. Ela segurou-o pelo paletó do uniforme azul que usava, mordendo os lábios com força para não deixar nenhuma lágrima escapar. – Eu não vou deixar ela te incomodar de novo, está bem?
— E-e-ela quer o Nii-chan… — Miyako murmurou infantilmente, deixando-se levar pelos passos lentos de Ben, sem conseguir raciocinar direito.
— E você acha que seu primo não conseguiria lidar com ela de novo?
— Ele tem… o Wolfram-kun… — Ela voltou a balbuciar, agora com um pouco mais de clareza. Limpou os olhos com as costas da mão, mas isso só fez com que o volume de lágrimas aumentasse, enfim escorrendo pelo seu rosto. Ela soltou Ben, tentando com todas as forças impedir que ele visse aquela sua patética figura.
— Então está tudo bem, certo? – Ben sorriu encorajadoramente, parando e segurando Miyako pelos ombros e se inclinando até estar da altura dela. Ela ainda tentava esconder o rosto nos braços, soluçando baixinho para que as lágrimas não viessem à tona. – Escuta, Miyako-chii… Não tem problema você chorar. Aquela garota foi muito cruel com você, e é normal se sentir triste por ser incomodada e não poder fazer nada. Mas você não é fraca por chorar! Tudo vai acabar bem… Eu estou aqui, não estou? Como eu prometi. Não vou deixar acontecer de novo. Confie em mim.
— O-o-ob-brigada, B-Ben-ku-kun... – Ela soluçou com dificuldade, engasgada com o monte de lágrimas que desciam pelo seu rosto. As pessoas que passavam pela rua agora ficavam imaginando o que raios havia feito aquela garota chorar tanto. O rosto dela estava todo inchado e vermelho agora.
— Vamos, eu pago um sorvete para você. – Ele se ergueu, acariciando os cabelos negros dela com carinho. Ela ofegou, emocionada, tentando se recompor.
— E o t-trabalho…?
— A gente vai depois! — Ele riu despreocupadamente, dando de ombros. – É uma das vantagens de ser sobrinho do proprietário, poder chegar atrasado às vezes…
Miyako conseguiu esboçar um sorriso, e Ben se deu por satisfeito, levando-a até a sorveteria mais próxima.
— Essa garota está querendo testar a minha paciência… — Do lado oposto da rua, Mariko observava Miyako indo embora com Benjamin. Rangeu os dentes, com raiva. Não, isso não ficaria assim. Ela já havia sido humilhada pela família Shibuya o bastante. Estava na hora de agir… e colocar cada uma daquelas pessoas em seu devido lugar. O quanto antes.
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