Bareta toko shoubu bungawarukute mo

Eu descobri que estou em desvantagem neste jogo

Mou ato ni hikenai

Mas eu não vou ser derrotada

Tatoe michi yuku hito ga gamen wo shameni

As pessoas nas ruas mudarão suas telas

Niyattokaete mo

e irão sorrir



Ai ga hoshii hana ichi monme

Eu quero mais amor, até quando vale a pena?

Obou chama wa SEEFU de

O príncipezinho está a salvo

Hikyou mono wa kengai

E os covardes não tem chance

Hito no uwasa nara kini shitenai yo to

Eu não me importo com rumores de outras pessoas

Dakiatta ato no kotoba wa uso na no

Depois que nos abraçamos, que essas palavras se tornam mentiras?



~Capítulo 46~



— Eu estou bem, Sunohara-san, é sério… Pode voltar para a aula se quiser…

Miyako já havia ganhado curativos no nariz, um remédio para dor, e, agora, estava deitada na maca da enfermaria, para descansar até que viessem buscá-la. Na mesinha ao lado, seus óculos estavam quebrados, impossibilitando o uso, então ela não conseguia enxergar mesmo muito mais do que imagens embaçadas, mas era suficiente para saber que a sua colega de classe ainda não havia ido embora.

— Você sangrou! É claro que eu não vou ir embora. — Natsume entoou com segurança, como se o fato de ter saído sangue deixasse as coisas muito mais sérias do que o normal. — Além do mais, eu não tenho nada para fazer lá mesmo.

— Então está bem… mas não precisa se incomodar comigo… — Miya afirmou ainda assim. Não estava acostumada a ter pessoas ao redor dela, em qualquer lugar, e Natsume era um tanto mais incisiva do que os outros, então, ela não sabia como lidar com isso.

— Você se incomoda se eu fizer uma perguntinha? — Ela sentou na beirada da maca, e olhou para Miyako, pela primeira vez sem sorrir abertamente. Miyako fez sinal para ela prosseguir, com a cabeça, e isso a fez ficar ligeiramente tonta com a dor, mas ela disfarçou — Isso… de você se machucar nas aulas e tudo mais… acontece com frequência?

Miyako engoliu em seco, e voltou o olhar para a janela enorme, que mostrava a árvore e parte do pátio, com o céu azul e algumas nuvens. Suspirou, e sorriu.

— Eu sou meio desajeitada… então alguns acidentes acontecem…

— Acidentes? Sério mesmo? — Pelo tom de voz, Natsume não acreditara em nada do que ela dissera. Miyako, assim como seu primo, não era boa mentirosa. — Esses “acidentes” tem alguma coisa a ver com aquela garota loira que eu não lembro o nome?

— Ah… Matsumoto-san? Por que teria a ver com ela? — De novo, com a voz aguda demais, e o pequeno sobressalto, era evidente a tentativa de Miyako de disfarçar.

— Ela fala umas coisas bem cruéis sobre você quando você não está, e eu já percebi ela ou alguma das amigas dela mexendo no seu armário de sapatos ou no vestiário…

— M-mesmo? — Miyako arregalou os olhos, fitando a garota. Tinha certeza de que Natsume não havia ouvido nenhum dos boatos que Mariko espalhava (coisas como, ela trabalhar em um maid café cheio de pervertidos, andar sempre com garotos diferentes ou até que ela frequentava o Kabukicho com caras mais velhos).Se ela já sabia sobre isso, então por que é que havia vindo falar com ela, afinal?

— Olha, eu vou entender se você não quiser falar sobre isso, nós acabamos de nos conhecer, mas você não pode deixar isso acontecer! Essa garota, seja ela quem for, não tem direito nenhum de falar essas coisas de você, ou de estragar a sua vida. Ela te machucou, Miyako-chan, sem nenhum motivo! Isso não é certo!

— E-eu sei disso… Eu já tentei fazê-la parar, mas mesmo falar com os professores ou com o diretor não adianta, porque como ela é de uma família rica que ajuda muito a escola, eles não vão repreendê-la. E eu não quero ter que trocar de escola de novo… — Miyako se encolheu embaixo dos lençóis, abraçando as próprias pernas.

— Eu vou te ajudar então! — Natsume declarou com convicção, cerrando o punho. — Eu já não gostei daquele projeto de Barbie deturpada desde que coloquei os olhos nela! Nós vamos nos juntar e derrotar essa vad… ahn… essa megera sem noção de uma vez por todas! Você vai ver só!

Miyako riu, mesmo que isso fizesse sua cabeça doer um pouco. Natsume era engraçada. Com ela falando daquela maneira, ela até conseguia acreditar que poderia derrotar Mariko de alguma forma.

— Está bem…

— Viu, vamos falar de coisas animadas, não dessa biscate… Tem uma coisa que eu quero perguntar pra alguém desde que cheguei nessa escola e ainda não encontrei a pessoa certa!

— Pode falar...

— Me diz, Miyako-chan! — Ela se aproximou da morena como quem quer compartilhar um segredo, e então segurou as mãos dela, com muita firmeza, dando a impressão de que não sairia dali sem uma resposta — Cadê o casal de garotos de quem todo mundo fala? Eu quero vê-los!

— Ah… — Miyako não sabia se ria naquela situação, porque além da dor de cabeça, o semblante que conseguia distinguir de Natsume parecia muito determinado. Ela levava aquele assunto a sério, mesmo. — Por que você quer saber?

— Ora, não é óbvio? Eles devem ser muito fofos!! — Ela recolheu as mãos, gesticulando empolgada — Quer dizer, eu tenho a impressão de ter topado com eles no primeiro dia de aula, agora que eu penso nisso… — Colocou o dedo no queixo, refletindo.

— B-bem, eles dois são…

— Mas sabe? — Ela a interrompeu — Acho que eram mesmo aqueles dois garotos bem lindos, um deles estrangeiro, o outro bem sorridente… Me ajudaram a achar a escola quando eu tinha me perdido, também, e estavam de mãos dadas!

— Miya-chan!! — A porta da enfermaria se abriu com um barulho alto, antes que Miyako pudesse responder, fazendo Natsume parar de falar com o susto, e por ela entrou esbaforido, Shibuya Yuri. Aquele garoto! Como é que era possível? A garota o encarava com espanto, olhando para ele e de volta para Miyako. E não é que os dois eram parecidos? Como é que ela não tinha percebido isso antes? — Como você está? O que aconteceu? Já ligaram pra minha mãe?

— Eu estou bem, Onii-chan, sério. Não foi nada demais, eu só me machuquei na educação física, normal…

— Mentira! Ela até sangrou! E olha só os óculos dela! — Natsume se pronunciou antes de qualquer outra coisa. Não faria nenhum bem se Miyako continuasse mentindo para que os outros não se preocupassem com ela, e, além disso, alguém teria que fazer alguma coisa para punir Mariko, aquilo não estava nada certo.

— Foi aquela garota de novo? — Yuri só pareceu reparar na garota naquele instante, e conteve a primeira pergunta que iria fazer, “quem é você?”, porque era evidente que devia ser alguma colega de classe de Miya, e, além disso, Wolfram vivia reclamando que ele sempre fazia perguntas óbvias demais.

— Foi sim! Eu não vi, mas tenho certeza! — Natsume pronunciou-se, parecendo ter vontade de sair dali para tirar satisfações naquele mesmo instante. Só mais um pouquinho, e ela já estava indo mesmo. Yuri parecia estar contagiado pela mesma vontade, e tomou todo ar que podia, intencionado a rumar porta afora e acertar as contas com aquela garota.

— Parem vocês dois! — Percebendo as intenções dos dois, Miyako interrompeu o momento de inspiração de justiça a tempo. Com dificuldade, conseguiu erguer o corpo, e Yuri correu para ajudá-la a se sentar. — Eu já disse que estou bem. Não adianta nada ir tirar satisfações com aquela garota agora, não vai resolver nada. Você sabe disso, Onii-chan. E, Sunohara-san, eu agradeço por ter me ajudado, muito mesmo, mas não é necessário fazer mais nada por mim. Eu só quero ir para casa, na verdade…

— Está bem, eu não vou fazer nada… — Yuri resmungou. Miyako se sentou na beirada da maca e ficou ali, porque ele não a deixou se levantar. — Mas eu vou ligar para o Ben-kun.

— O que? Não!

— Vou sim! Ele tem que saber, você não pode ficar escondendo dele essas coisas que estão acontecendo, Miya-chan…

— Mas… mas ele se preocupa demais! Não quero que ele fique com isso na cabeça… não há nada que se possa fazer.

— Não importa. Deve ter alguma coisa que a gente possa fazer sim, e eu vou contar para o Ben-kun você querendo ou não. — Yuri foi categórico. Ele podia ser meio avoado para muitas coisas, mas era bastante incisivo quando o assunto era o bem-estar das pessoas importantes para si.

Natsume observou a discussão dos dois por algum tempo, até que não aguentou mais remoer a sua dúvida, e resolveu perguntar logo.

— Vocês dois são irmãos?

— Hm? Não, somos primos. — Yuri respondeu normalmente. — Muito obrigado por cuidar da Miya-chan até agora! Eu não sabia que ela tinha uma amiga na sala…

— Eu sou nova na escola. — Natsume respondeu, sorridente, como se isso explicasse tudo, mas Miyako ficou evidentemente surpresa com o uso despreocupado da palavra “amiga”. — Mas… Posso fazer outra pergunta...? — Ela mordeu o lábio, olhou ao redor, e então olhou para Miyako, que riu baixinho.

— Ahn… Pode? — A resposta de Yuri foi bem incerta. Ultimamente, as pessoas andavam tão curiosas a seu respeito, ele já não sabia mais lidar com tanta popularidade.

— Você é o garoto que me ajudou no primeiro dia de aula, a achar o caminho, certo, Primo-da-Miyako-chan? — Ela começou, agitada. Yuri pensou consigo mesmo que algo assim realmente tinha acontecido, mas não teve tempo de responder, pois logo a garota continuou. — Então, nesse caso, o garoto que estava com você, de mãos dadas, era seu namorado? E isso faz de vocês dois o casal de que todos estão falando? Hm? Hein?

— Todos… estão falando? — Ele repetiu incoerentemente.

— Aaaah, cara, eu queria muito conhecer vocês! — Ela deu um tapa no ombro de Yuri, meio forte, com um sorriso se espalhando pelo rosto. — Sabia que alguma coisa emocionante tinha que acontecer quando eu me mudasse, eu estava sentindo isso! — Ela bradou, mais como se estivesse falando consigo mesma, e então voltou-se para Miyako — E eu sabia que você era a pessoa certa, Miyako-chan!

— Pessoa certa? — Miya repetiu, confusa — Pra quê?

Antes que ela dissesse qualquer coisa em resposta, a enfermeira da escola apareceu, dizendo que a tia de Miyako havia chegado com um táxi para levá-la para casa. Yuri foi acompanhá-la, ajudando-a a chegar até lá, mas a enfermeira não deixou que Natsume fizesse o mesmo e mandou que ela voltasse para a sala de aula. Ela acenou animada como despedida, e voltou-se para o seu caminho, sorrindo para si mesma. Parecia que as coisas nessa escola eram muito mais empolgantes do que ela poderia ter imaginado...

~

No dia após Wolfram ter faltado aula, quando enfim se encontraram, ele contou tudo o que havia acontecido no seu dia, com detalhes, deixando o loiro a par de tudo sobre as garotas que aparentemente os apoiavam, sobre o ataque que Miyako sofreu, e a estranha garota que parecia querer muito conhecê-los. Wolfram apenas suspirou “é só eu faltar um dia, e você dá um jeito de arrumar todo tipo de situação para se envolver”.

Durante a tarde, Yuri pretendia ir até o local indicado onde poderia conseguir um emprego, mas Wolfram fez questão de ir até sua casa, e jantar lá. Não que isso tivesse sido algo ruim no final das contas, já que eles puderam passar bastante tempo no quarto recompensando pelo dia anterior em que não se viram.

Já no dia seguinte, sexta-feira, Yuri teve seu plano de procurar emprego revogado porque Wolfram fez questão de levá-lo até a sua casa dessa vez, a pedido da sua própria mãe. Valtrana já não estava lá, e Elizabeth continuava a estudar na escola interna para garotas, de modo que Yuri não tinha razões para declinar o convite.

Sinceramente, era muito mais confortável dessa forma. Estava ele, ainda no seu uniforme escolar, visto que havia vindo diretamente para a casa de Wolfram. Cheri o recebeu com um apertado abraço, muito empolgada, dizendo o quanto ele ficava bem vestindo negro, e que queria muito que Wolfram usasse o gakuran também, mas ele sempre se recusava, preferindo usar um suéter “marrom e sem graça”, na definição da mulher.

Conrad e Gwendal também acolheram Yuri com naturalidade, e ele se sentiu bem dividindo a mesa com aquelas pessoas. Wolfram, embora ficasse a todo momento dizendo para sua mãe parar de agarrar tanto Yuri, também parecia muito contente com a situação. Era libertador finalmente agir sem se preocupar com a opinião de outras pessoas. Yuri nunca gostou de fazer coisas escondido, e sinceridade era um dos seus pontos fortes, então, a situação atual era mais do que bem-vinda.

Logo após o incrível jantar, todos foram conduzidos pela matriarca até uma sala próxima, que Yuri não conhecia ainda, mas que era tão requintadamente decorada quanto todo o resto da mansão. Possuía muitos quadros de pessoas imponentes nas paredes, e sofás muito confortáveis no centro do cômodo. Ao redor, muitas flores, e algumas estátuas, bem como uma harpa, do lado oposto. De certa forma, Yuri já não se espantava com tudo aquilo… Havia se acostumado com o exagerado gosto de Cecilie para mobília.

—… Eu fiquei sabendo do acidente com a sua prima, Yuri — Conrad dava continuidade ao assunto. Ele estava sentado logo à frente de Yuri, com Gwendal, enquanto Wolfram estava ao seu lado, como usual, e Cheri na poltrona ao lado.

— Na verdade, não foi bem um acidente… — Ele comentou, com desagrado.

— Ora, sua prima é importunada na escola, querido? Que situação horrível! — Cheri parecia tão indignada que poderia ir pessoalmente resolver o assunto a qualquer momento.

— Sim, e parece que está piorando… eu não sei mais o que fazer além de ficar de olho nela o tempo todo…

— E aquele diretor babaca não faz nada, é claro! — Wolfram protestou. — Porque a garota que faz isso com ela é filha de um investidor importante, e não sei mais o quê.

— Eu gostaria de fazer alguma coisa para ajudar… — Cheri colocou a mão no queixo, pensando profundamente sobre o assunto — Apenas me dê algum tempo e eu vou dar um jeito…

— Por favor, mãe, não faça nada desnecessário! — Wolfram intercedeu, sentindo a aproximação de ideias perigosas na cabeça da sua mãe.

— Desde quando eu faço coisas desnecessárias? — Ela replicou, ofegando uma interjeição de surpresa — Sua mãe é alguém muito sensata! — Wolfram soltou um suspiro de contradição, mas não quis começar uma discussão agora. — Mas não é hora de pensar nisso! Eu tive uma ideia… Wolf, querido, por que você não vai até o salão de jogos, e trás até aqui alguma coisa que possamos jogar, hm? Um jogo divertido, por favor, nada de xadrez! Alguma coisa que todos joguem juntos! Yuri está aqui, e nós temos que aproveitar!

— Aah… está bem… — Ele levantou de má vontade, passando a mão pelos cabelos, e foi andando e arrastando os pés. Yuri achava engraçado o fato de que, apesar de ser teimoso, impetuoso, e reclamar demais, Wolfram ainda era um filho bastante obediente.

Wolfram foi, e a conversa continuou. Yuri enxergou ali uma oportunidade, e como Gwendal havia se aproximado de Cheri para falar sobre algo relacionado a negócios que ele pouco entendia, ele andou até Conrad.

— Sabe, Conrad… tem um favor que eu queria pedir para você… — O homem pareceu surpreso por um segundo, mas logo assentiu, é claro, com um “sim?” ligeiramente curioso. — No sábado, será que você conseguiria manter o Wolfram ocupado com alguma coisa?

— Eu posso perguntar o motivo desse pedido?

— Bem… eu meio que arrumei um emprego, e sábado irei até lá… mas o Wolf não pode ficar sabendo disso! Porque esse emprego… bem, é para eu conseguir dinheiro e comprar um presente de aniversário para ele…

— Aah… — Conrad expirou em compreensão, e sorriu abertamente satisfeito. — E você vai precisar que Wolfram fique distraído durante seu horário de trabalho também, estou certo?

— Eu só tinha pensado no sábado, na verdade, porque ele geralmente vai lá em casa no final de semana, mas acho que sim… — Yuri respondeu, alarmado, porque ainda não havia planejado tão longe.

— Pode deixar comigo, eu tenho um método perfeito para isso. — Conrad olhou para frente, ainda sorrindo. Yuri pensou ter visto um brilho de divertimento passar pelos seus olhos castanhos.

Logo Wolfram retornou, com uma caixa enorme de “War” para todos jogarem juntos, e Yuri teve que disfarçar a sua mancomunação com o irmão do namorado. A noite teve fim com Conrad vencendo a partida, ao conquistar a Europa, a África e mais um continente à sua escolha, aniquilando completamente o exército azul de Wolfram, e fazendo o mesmo declarar aos berros que o irmão era um trapaceiro miserável e que havia usado dados viciados ou algo assim.

Ele ainda resmungava sobre isso consigo mesmo, enquanto conduzia Yuri até a saída da casa, pois já havia passado da hora de ele ir embora.

—… e ele vai ver só, da próxima, eu vou acabar com ele… Maldito, aposto que trapaceou…

Yuri riu, enquanto segurava a mão do loiro em um gesto automático, entrelaçando seus dedos. Os dois pararam no hall de entrada, e ele virou-se para Wolfram.

— Você não gosta mesmo de perder, nee… — Ele comentou.

— Ninguém gosta de perder, os outros é que são conformados demais! Algum problema com isso, fracote? — Ele cruzaria os braços, mas Yuri ainda estava segurando sua mão.

— Nenhum… Eu gosto quando você é teimoso assim também… — Ele baixou a voz, aproximando-se perigosamente de Wolfram, que recuou um passo por reflexo, enquanto repousava a outra mão em seu rosto, afagando de leve a bochecha com o polegar. Wolfram só ficou sem reação por meio segundo. — Sabe… às vezes eu não acredito em todas as coisas que aconteceram com a gente, até agora… — Ele falou, enquanto ainda estava com o rosto quase colado ao de Wolfram. Ele desviou o olhar dos seus lábios, que antes mirava quase inconscientemente, e suspirou.

— Muitas coisas aconteceram mesmo, mas eu não me arrependo de nada.

— Nem eu. — Yuri sorriu. — Só estou feliz, porque parece que as coisas estão começando a dar certo… — Ele abraçou Wolfram com força, soltando o ar com alívio enquanto sentia o corpo dele bem junto ao seu, espalhando aquele calor confortável e tranquilizante. Wolfram deitou a cabeça no ombro de Yuri, relaxando. — Eu te contei, não? Que as pessoas da escola parecem estar começando a nos aceitar…

— Aceitar não, se acomodar. É como quando você entra em uma sala com cheiro ruim, depois de algum tempo lá dentro, você para de sentir o cheiro. Chama-se acomodação sensorial. Eles só pararam de nos enxergar, é isso.

— Melhor do que antes, não é? Além do mais, eu te contei das garotas aquelas, suas fãs… Elas disseram que estão do nosso lado.

— São exceções. — Wolfram fechou os olhos, incomodado. — Mas tanto faz, nunca precisei da aprovação de ninguém, não vai ser agora que a opinião desses comuns vai fazer diferença na minha vida. Nós estamos bem assim, não estamos?

— Perfeitamente bem. — Yuri sorriu, trazendo o rosto de Wolfram em direção ao seu. Finalmente, o que ele queria…

Seus lábios se tocaram, não mais hesitantes, nem mesmo inexperientes. Eles já sabiam o que fazer, e o toque era familiar, reconfortante… Yuri abraçava Wolfram pela cintura, e ele o segurava pelo pescoço com os braços enlaçados possessivamente, embora o beijo fosse calmo e controlado. Se afastaram segundos depois, e Yuri encostou a testa na de Wolfram, sorrindo tranquilamente. Sabia que teria que ir embora agora, mas não queria. Seu coração batia em um ritmo cadenciado, agitado, porém pacífico. Tudo estava em seu devido lugar.

~

Yuri tinha uma missão, e contava com a ajuda dos seus aliados. A missão era aparentemente simples: conseguir ficar longe do alcance de Wolfram por um dia. Havia sido difícil escapar dele, porque Wolfram tinha planos de sair com Yuri, mas Conrad conseguiu convencê-lo a ficar em casa para ajudá-lo com treinos de esgrima. Fazia realmente muito tempo desde que os dois irmãos haviam passado algum tempo juntos, e Yuri o encorajou a ficar em casa, com a promessa de que poderiam sair em um encontro outro dia.

Por via das dúvidas, deixou com Miyako a missão de distrair Wolfram caso ele aparecesse na sua casa mais tarde. Esse era apenas um plano B, de qualquer forma, pois Conrad parecia estar levando a sério sua tarefa de manter Wolfram afastado e sem pensar em Yuri. Os dois namorados não tinham costume de se ver todos os dias após as aulas mesmo, eram raras as vezes, mas Conrad tinha feito planos reserva para a semana inteira, durante o horário de trabalho dele, e, com sorte, Wolfram de nada desconfiaria.

Sabendo que podia confiar em Conrad e Miyako, Yuri foi tranquilo até o distrito comercial, seguindo o endereço contido no panfleto entregue por Masaki, e encontrou enfim, o lugar. Não era simplesmente uma loja de doces comum como ele imaginou. Era uma confeitaria bastante famosa, ou melhor, uma Pâtisserie, como dizia o letreiro dourado da fachada. Pelas enormes janelas de vidro, Yuri via pessoas espalhadas em mesas pequenas de madeira escura, desfrutando de seus bolos decorados, e mais várias delas ao redor dos balcões, onde podia ver inúmeros bolos e doces que mais pareciam obras de arte.

Definitivamente, ele não conseguia visualizar a si mesmo trabalhando em um local como esse… Nem o nome da loja ele entendia direito!

— Ri-to… ru…Litoru…

— Little Shimaron. — Uma voz suave sobressaltou Yuri por trás. Ele deu um pulo de susto, virando-se para ver a figura inesperada que falava com ele. — É o nome da loja. — Disse sorridente, a pessoa. Era alguém que Yuri não conhecia, mas que podia jurar já ter visto em algum lugar. Era bem provável. Cabelos longos e platinados, olhos escondidos atrás de óculos escuros, e um pequeno sorriso constante. Era alguém estonteante, do tipo que só se via na televisão ou em revistas. Yuri perdeu a linha de raciocínio por alguns segundos. Mas aquela voz… Espere, era um garoto?!

— D-desculpe, eu… eu não… — Yuri levou algum tempo para processar a informação e reorganizar seu cérebro. Olhando melhor para aquele rosto tão bonito e delicado, ele realmente poderia identificar alguns poucos traços masculinos. Isso era surpreendente… Mas, para alguém que convivia diariamente com Wolfram, nada muito inédito.

— Você é colega de aula do Masaki, certo? Ele me disse que você viria. — Aquele sorriso perfeito parecia nunca se desmanchar. Yuri o fitou intrigado por alguns segundos, e então sorriu também, de forma sincera. Então era uma pessoa da loja! — Veio para preencher a vaga dele como atendente. — Era uma afirmação, e não uma pergunta, mas Yuri respondeu mesmo assim.

— Sim! Eu estava procurando por emprego e ele me ajudou. Foi muito legal da parte dele…

— Ah, imagino que sim… — O garoto pousou delicadamente a mão sobre o ombro de Yuri, conduzindo-o na direção do estabelecimento. — Mas vamos conversar lá dentro, onde é mais confortável. Quero conhecê-lo melhor…

Yuri pensou ter visto um estranho brilho passar pelos orbes daquela pessoa, mas era difícil saber com os óculos escuros. Os dois se acomodaram em uma mesa mais afastada, e o garoto fez um sinal discreto para algum dos funcionários, que poderia significar qualquer coisa. Ele tirou o lenço azul claro que usava, revelando a pele alva do pescoço. Yuri teve a confirmação mental de que se tratava mesmo de um garoto, afinal.

— V-você… trabalha aqui? — Ele indagou, sem conseguir pergunta melhor para fazer. O loiro ainda sorria, e ele fez o mesmo. Parecia uma pessoa muito simpática, e Yuri logo já se sentiu mais tranquilo. Talvez o tal trabalho não fosse ser tão difícil quanto ele imaginou que seria.

— Não exatamente — Ele apoiou os braços sobre a mesa. — Esse lugar pertence à minha família, que possui uma grande rede de estabelecimentos comerciais nos mais diversos segmentos. Roupas, salões de beleza, restaurantes, boates… Enfim, como eu vivo nesse país, gosto de estar envolvido com os negócios da família. Minha mãe me deixou a cargo da gerência dessa loja… Embora, tudo o que eu faça aqui seja comer bolos e supervisionar pequenas coisas. — Ele riu. Yuri riu também, sem graça, para não deixá-lo sem resposta.

Logo o funcionário que foi chamado apareceu mais uma vez, com duas xícaras de capuccino. Yuri agradeceu, provando do líquido quente, que era mesmo muito bom. Passou pela sua cabeça que Wolfram iria apreciar muito vir a um lugar como esse, mas o pensamento também o fez lembrar do motivo pelo qual ele estava ali, e que o deixava incapaz, pelo menos por enquanto, de trazer seu namorado para um encontro nesse lugar.

— Entendo… então, você está me entrevistando para o emprego, agora? — Indagou, preocupado.

— Pode-se dizer que sim, embora a vaga já seja sua — Ele faz um trejeito com a mão, e retirou os óculos. Pela primeira vez, Yuri viu os olhos âmbares do outro, refletindo sua própria imagem. Eram belos olhos… Intrigantes, mas Yuri não parou muito tempo para analisar esse detalhe. — A propósito, meu nome é Saralegui… — Ele continuou.

— Yuri! Shibuya Yuri. — Ele respondeu rapidamente, percebeu que não havia se apresentado devidamente até agora. — Ah… Saralegui é um nome comprido… E diferente.

— É bastante comum no meu país… Mas, se quiser, pode me chamar de Sara. Eu não me importo. — Ele inclinou o rosto, estendendo a mão por cima da mesa. Yuri aceitou o cumprimento prontamente, apertando de leve a mão suave. Sara o segurou por mais tempo do que seria necessário.

— E-eu… estarei aos seus cuidados. — Ele pronunciou, polidamente, imaginando quando seria a hora certa de soltar a mão do outro. O sorriso de Sara se abriu ainda mais, e dessa vez, Yuri pode visualizar perfeitamente o cintilar efêmero que passou pelos seus olhos dourados. Um arrepio percorreu a base das suas costas.

— É um imenso prazer finalmente conhecê-lo, Shibuya Yuri.

Notas finais
E aí gente~ finalmente o capítulo 46, e as coisas começam a tomar forma hmm?? Aposto que tem gente nada feliz com a aparição do nosso querido criador de caos~ assim como tem gente dando pulinhos de alegria XD O que o Wolfram vai fazer diante dessa ameaça iminente e desconhecida? E o que a Natsume pretende, qual é a dela afinal? E a Miya vai se livrar da Mariko algum dia? Façam suas apostas! Adoro palpites XDD e aguardem ansiosos pelo próximo capítulo! Que eu não sei quando será, vocês sabem como é que funciona .-. Bye bye, atée o/