Sono Te Hanasanaide
41 Capítulo XLI
hito wa yowaku zankoku de
As pessoas são fracas e crueis
oroka na ikimono
As coisas vivas são insensatas
demo anata wa yurushite kureta
Mas você me perdoou
sotto hoho wo nadeta
Esse seu toque dellicado
anata no nukumori
No meu rosto
yasashikute
Foi gentil
how could you smile for me
Como você pode sorrir pra mim
nani mo nakute ii
Não preciso de nada
zutto soba ni ite hoshii
Sempre por perto eu quero que fique
zutto soba de stand by me
Sempre por perto, fique ao meu lado
~Capítulo 41~
Voltar para a aula na segunda-feira era um martírio. Yuri andava lentamente, logo atrás de Miyako e Benjamin, que, de braços dados, caminhavam como se não houvesse nada no mundo para se preocupar, conversando em voz mais baixa. Yuri não se incomodava com isso, e Miyako parecia muito mais feliz do que ele jamais a vira, desde que ela foi morar na sua casa. Pelo que ela contara na noite anterior, os dois haviam tido um encontro simples. Eles iam ir juntos a algum lugar, mas a chuva estragou os seus planos também, e eles acabaram ficando no café mesmo. Ben arranjou filmes, e os dois assistiram juntos. Miyako entregou os seus chocolates, e ele comeu todos (Yuri sinceramente passou a respeitar mais o garoto depois de saber disso). Havia sido tranquilo e perfeito, ou pelo menos, assim Miyako descrevera, com um ar suspirante e sonhador ao seu redor. Yuri não chegou a contar com detalhes para ela o seu próprio dia, afinal, tinha coisas que ele realmente não conseguia dizer em voz alta para a sua prima, não importando quanto ela insistisse.
No fim das contas, foi um ótimo Dia dos Namorados para todos, e Yuri mal podia esperar pelo ano seguinte, para poder compensar Wolfram pelo plano falho. Porém, apesar de ele estar feliz pelo tempo passado com Wolfram, enquanto caminhava silenciosamente pela rua de mãos nos bolsos, preocupava-se com algo, que inicialmente parecia trivial, mas que começava a deixá-lo incomodado.
Era segunda-feira, 15 de fevereiro. E Yuri não era tão burro quanto parecia. Sabia que inúmeras – senão todas – garotas da escola, iriam disputar para entregar, ainda que atrasado, seus chocolates, sentimentos, e talvez até mais do que isso, para Wolfram. Ele nunca havia sido popular, então não sabia exatamente qual era a dinâmica dos processos, mas sabia que era um dia em que as garotas ficavam tão eufóricas em se declarar que perdiam qualquer noção de normalidade. Wolfram ficaria rodeado por elas o dia inteiro, na melhor das hipóteses. Podia ser atacado por um bando de garotas apaixonadas a qualquer segundo, e Yuri nada podia fazer para impedir isso. Apenas assistir de longe, esperando que passasse rápido o bastante para que ele esquecesse logo isso tudo…
Ele nem conseguia entender por que estava tão irritado. Não costumava pensar tanto assim nas coisas, e certamente, nunca havia sido o tipo ciumento, isso era mais com Wolfram. Mas ainda, só de pensar em todas aquelas meninas que iriam livremente dizer para Wolfram o que sentiam, agarrando e abraçando ele por todos os lados, sem parar, uma após a outra, ele já tinha vontade de dar meia-volta e voltar para baixo dos cobertores pelo dia todo. Principalmente por que, ele sabia, Wolfram não iria poder rejeitá-las apropriadamente, dizendo “desculpe, eu já tenho o Yuri”. E Yuri não iria poder mantê-las afastadas, por que supostamente, deveria ser um segredo o fato de que eles estavam juntos, e não havia nenhuma desculpa plausível para um comportamento assim. Ele não estava exatamente com raiva, sabia bem que a situação era irremediável, mas era meio frustrante assistir a tudo isso sem poder fazer nada.
Foi assim que quando se deu conta, Yuri já estava em frente à escola. Ben e Miyako ainda conversavam animadamente e se despediam, então ele tomou a dianteira, e foi entrando. Olhou ao redor, e como esperado, pequenos grupos de garotas, todas cheias de energia, se reuniam pelo pátio. Por outro lado, alguns garotos pareciam bem apreensivos, certamente esperando para ver se receberia alguma coisa. Yuri notou dois de seus colegas de aula logo na entrada, conversando em voz baixa, e sorriu para eles, acenando. Eles o olharam por meio segundo, e voltaram a conversar, como se não tivessem o visto. Yuri não ligou, e continuou andando.
Depois de deixar os sapatos no armário da entrada, ele foi subindo as escadas, mas mal havia terminado o primeiro lance, percebeu uma figura familiar, agachada no canto da escadaria, com os cabelos loiros cobrindo a face. Yuri hesitou por um segundo, pensando se deveria fazer alguma coisa, mas por fim seu senso de justiça foi maior e ele se aproximou, percebendo que os ombros dela tremiam incontrolavelmente, como se estivesse chorando.
— V-você está bem, Mariko-san?
O ruído que saiu da garota não parecia humano. Ela ergueu os olhos lavados de lágrimas, negras e manchadas por causa da maquiagem, e Yuri se afastou imediatamente, temendo acabar levando uma mordida, um soco, ou algo assim. Mariko se ergueu em um pulo, cerrando os dentes de forma quase selvagem.
— Não ouse tocar em mim, seu mentiroso, sujo, traidor‼! Nunca mais fale comigo! Nunca mais‼! – Ela gritou, descontrolada, atraindo atenção indesejada. Yuri não se lembrava de ter feito qualquer coisa, mas Mariko atirou algo nele, antes de tomar o caminho contrário, ainda bufando de raiva, e chorando ainda mais. Eram caixas de chocolate, e Yuri só podia deduzir que o motivo da raiva dela era a rejeição, mas ele nem mesmo havia falado nada ainda!
Talvez tivesse sido rejeitada por Wolfram, ou por algum outro garoto por quem estivesse correndo atrás, então era difícil ter certeza, mas rapidamente Yuri deixou isso de lado, pois assim que continuara a subir as escadas, deu de cara com um tumulto maciço de pessoas falando todas ao mesmo tempo, e interrompendo o caminho até a sua sala de aula. Ele rapidamente deduziu que poderiam ser as fãs de Wolfram querendo entregar chocolates a ele, e fechou a cara, não gostando nada disso. Havia vários garotos ali no meio também, mas a beleza de Wolfram nunca foi algo que impedisse esse tipo de avanço de qualquer forma, então Yuri só enxergava mais motivos para se preocupar.
Com uma raríssima cara de poucos amigos, Yuri se preparou para passar pela multidão e com alguma sorte, chegar até a sala de aula sem precisar assistir a nenhuma cena desagradável, mas seus planos foram completamente frustrados, quando ele se aproximou, e toda a atenção das pessoas por ali se voltou para ele. Com uma olhada rápida, ele percebeu que Wolfram não estava ali no meio, e agora, todas as pessoas pareciam estar com os olhos cravados nele, algumas comentando algo em voz baixa, outras se afastando como se tivessem medo de que Yuri fosse fazer alguma coisa.
A princípio, ele não entendeu, e estava começando a perguntar o que raios acontecia ali, quando as pessoas enfim se dispersaram o suficiente para ele conseguir enxergar o outro lado da parede, onde ficava o quadro de avisos. Além dos cartazes de clubes e propagandas normais que sempre ficavam pregadas naquele lugar, havia um pôster um pouco maior do que os outros, com uma foto. Yuri reconheceu aquela imagem imediatamente. Era do ringue de patinação, no Natal, e bem no centro da fotografia, estavam ele e Wolfram, no exato momento em que Yuri roubara um beijo dele, na ocasião.
Yuri sentiu o ar esvaindo-se do seu pulmão. Por alguns segundos, demorou a entender o que tudo aquilo siginificava, mas assim que todos os acontecimentos da manhã se organizaram na sua mente, tudo fez sentido. Alguém havia visto os dois juntos, naquele dia, e registrara o momento. E esse tempo todo, esteve esperando, para mostrar o que vira para a escola toda. Yuri não sabia o que pensar ou o que fazer. Não tinha ideia de que consequências aquela fotografia poderia trazer para os dois.
Sua primeira reação foi arrancar o cartaz da parede, e em um gesto automático, voltou-se para as pessoas, esperando pela reação delas. Todos o olhavam, esperando que ele dissesse alguma coisa. Mas Yuri não devia explicação nenhuma para aquelas pessoas, muitas das quais ele nem mesmo conhecia. Elas não deviam olhar para ele com aquelas caras, como se sentissem pena dele. O que é que elas não entendiam?
Seria fácil tentar reverter a situação. Fingir que era uma brincadeira de mau gosto de alguém, uma montagem, uma mentira… Se não se preocupasse e risse de tudo, todos esqueceriam o acontecido bem rápido. Mas Yuri não queria fazer isso. Ele odiava mentiras, e odiava esconder as coisas. Nunca havia pensado direito no que fazer caso descobrissem sobre ele e Wolfram, e para falar a verdade, o segredo nunca havia sido sua intenção. Mas se Wolfram não estava ali para dizer o que achava de tudo isso, como é que ele poderia proceder? Logo, com o demorado silêncio do suposto protagonista de toda aquela confusão, as pessoas começaram a falar, ao mesmo tempo, algumas entre si, outras com Yuri.
— Oi, Shibuya… o que é essa foto? É uma piada nee?
— Não é possível que seja verdade! Você não viu? Era o Príncipe!
— Ele nunca faria nada assim, não é verdade?… ainda mais com alguém como o Shibuya…
— Ah cara, seria nojento, aah, não quero nem imaginar‼
— Deve ser uma brincadeira de alguém…
— Shibuya-san, não tem como ser real, essa foto, não é? Não com o príncipe, puxa, é uma brincadeira muito sem graça…
— Gente… o Shibuya não está fazendo uma cara estranha…?
— Shibuya-san… você não vai dizer nada?
— É tudo mentira, certo?
— Além do mais, eles nem combinam!
Eles riram, daquilo que parecia uma piada muito bem formada. Yuri recuou um passo, tonto com todas aquelas vozes que pareciam tentar entrar na sua cabeça. Ele queria gritar, assim como Mariko havia feito, para extravasar toda aquela irritação. Quem aquelas pessoas pensavam que eram, tentando decidir sua vida por ele, impondo aquilo que achavam “certo”, incapazes de enxergar a realidade. Eles não o conheciam! Não sabiam nada sobre a sua vida, nem sobre a de Wolfram. Yuri se sentiu mais incomodado do que esperava que fosse possível.
— Não digam mais nada…
Yuri nem gritou. De fato, sua voz não havia se erguido mais do que o tom de uma conversa normal. Mas toda a força contida naquelas poucas palavras fizeram o grupo de estudantes que ainda o cercava cessar com os comentários de uma só vez. Eles fitaram Yuri, e perceberam que ele não estava rindo junto, nem mesmo parecia estar envergonhado com o que seria uma piada sobre ele. Seus olhos negros estavam repentinamente sem brilho, absolutamente sérios, como ninguém ali que o conhecia havia visto antes. Yuri era sempre tão animado, e levava tudo de forma calma e brincalhona. Eles nunca haviam presenciado Yuri daquela forma antes.
— Vocês não sabem de nada. Parem de falar como se realmente soubessem de alguma coisa. Minha vida e a de Wolfram não tem nada, nada, a ver com vocês.
— Shibuya… não diga que…
— É mesmo verdade?
— É claro que não! Ele só está irritado por causa da brincadeira!
— Sim! Em que planeta você iria ver um príncipe como Wolfram-sama saindo com um garoto!
— E alguém como Shibuya ainda….!
Vários rostos sem nome rodeavam Yuri exigindo mais respostas. Riam ainda mais alto. Ah, devia ser mesmo muito divertido. Yuri não conseguia escapar, preso pela parede. Queria sair dali, queria dizer a todos para que o deixassem em paz. Queria gritar. A verdade.
A verdade…
— A verdade! – ele disse com a voz imperativa, um tanto mais alta. Isso chamou a atenção de outras pessoas que passavam pelos corredores e pelas escadas, e ainda os curiosos que assistiam a tudo de longe – A verdade é que…
Olhos verdes, sobressaltados. Olhando diretamente para ele. Perguntando, sem palavras, o que estava acontecendo. Yuri sentiu um alívio instantâneo, logo encoberto pelo medo. Não queria que Wolfram tivesse que passar por aquilo. Não queria que olhares estranhos fossem dirigidos a ele também, ou que passassem a interroga-lo daquela forma. E não queria que ele passasse pelo constrangimento de dizerem que “alguém como Shibuya” jamais deveria estar com ele. Mas Yuri era incapaz de esconder, e de mentir. E olhando para ele naquele momento, decidiu deixar todas as consequências de lado e correr para o único lugar onde queria estar. Ao lado dele.
— Yuri, o que é isso…
Yuri não deixou que Wolfram terminasse uma frase que fosse. Tomou-o pela cintura em um movimento único, e selou seus lábios com os dele, naturalmente, sem impedimentos, já acostumado com a sensação de plenitude que sempre acompanhava aquele simples ato. Ouviu ao longe a comoção do público ao redor – que ele esquecera que existia, ao olhar para Wolfram. Yuri não tinha intenção de provar nada para eles… ou talvez, ele tivesse um orgulho machucado lá no fundo, e quisesse mostrar do que era capaz. Mas o fato era que ao olhar para Wolfram, ele se sentiu incapaz de continuar de pé sozinho. Queria que Wolfram estivesse ali com ele, e nesse caso, seria capaz de enfrentar o que fosse.
— Desculpe… — Yuri sussurrou logo ao se afastar. Ouvia os gritos próximos. Ninguém acreditava no que havia visto. Alguns cogitavam a possibilidade de Yuri ser sim, apaixonado por Wolfram (afinal, quem não seria?) e tivesse acabado de agir por impulso e agarrado o garoto a força. Estavam esperando pela reação explosiva e violenta de Wolfram. Talvez um processo judicial. Talvez Yuri fosse preso, ou expulso. Alguém havia tirado uma foto disso?
— Por que fez isso? – Wolfram indagou simplesmente, sem entender. Normalmente, teria brigado com Yuri por ser tão afobado e pegá-lo de surpresa. Mas esse beijo de agora, havia parecido tão desesperado, tão urgente. Yuri não costumava ser assim. Era como um pedido de ajuda. – Tem pessoas vendo…
— Eu sei… é que…
Antes que Yuri pudesse responder, as garotas se juntaram ao redor de Wolfram, quase empurrando-o para trás.
— Wolfram-sama! Olhe só, esses cartazes horríveis estão espalhados por todo o andar! – uma delas ergueu um cartaz idêntico ao que Yuri acabara de arrancar. Então havia mais deles?
— E eu aposto que foi o Shibuya quem fez as montagens!
—Ele até mesmo agarrou Wolfram-sama agora mesmo!
— Ele deve estar correndo atrás do Wolfram-sama! Tão desagradável, não é? Não é?
— Ah… isso foi no Natal? – Wolfram olhou a foto mais de perto. Era um tanto constrangedor ver aquela cena repetindo-se em outro ângulo, mas como um bom príncipe, Wolfram sabia muito bem mascarar suas emoções em público, e deixar transparecer uma tranquilidade que não sentia na realidade. Sentia que Yuri precisava que ele fosse calmo pelos dois naquele momento. – Sim… foi no nosso encontro.
Aquelas palavras chocaram mais do que ele poderia ter imaginado. Em um turbilhão, todos começaram a reverberar a notícia de que Wolfram não negara a foto, e ainda confirmara que havia sido um encontro. A expressão de Yuri naquele momento era indescritível. Ele parecia em parte aliviado, e também culpado e confuso. Mas Wolfram o fitou diretamente, tentando transmitir segurança. Tudo ficaria bem. Eles só precisavam continuar assim.
Respirando fundo, Yuri reuniu coragem novamente, para dizer em voz alta aquilo que estava para sair a qualquer segundo na verdade. Segurou a mão de Wolfram, firme na sua, e reuniu fôlego para dizer de uma vez.
— Wolfram é meu namorado. Essa é a verdade que vocês tanto querem ouvir. Estamos juntos, mesmo. Não é piada, não é mentira… é só isso. Entenderam?
A agitação entre as pessoas que ouviram seu pronunciamento foi impressionante. Yuri se sentia mal ao anunciar aquilo daquela maneira. Era constrangedor, sem falar em desnecessário. Nenhuma daquelas pessoas tinha nada a ver com a sua vida, por que ele ainda tinha que dar satisfações a elas? Mas Wolfram era quase uma figura pública dentro da escola, a informação teria que correr de uma forma ou de outra, então melhor que fosse a partir dele próprio.
Todas as garotas falavam ao mesmo tempo, deixando-o zonzo. Ele segurou a mão de Wolfram com mais força, e teve vontade de sair dali correndo no mesmo segundo, mas antes que pudesse fazer qualquer coisa, ou fugir dali, o sinal para o início das aulas tocou.
Aos poucos, todos foram se dispersando. Wolfram não esboçava reação, provavelmente acostumado a isso, mas Yuri sentia que os olhares na sua direção ardiam. A maior parte deles era hostil. Havia algumas poucas risadinhas e comentários maldosos, e muita indignação e incredulidade. Mas como o professor chegou, e deu início à aula, Yuri decidiu não pensar muito mais tempo nisso.
Foi meio difícil, afinal, todo o tempo havia uma ou outra pessoa olhando na sua direção, e fazendo alguma observação para o colega mais próximo. As orelhas de Yuri queimavam. Será que ninguém sabia cuidar da própria vida nesse lugar?
Se concentrar na aula, ele não conseguiu, evidentemente. Wolfram tampouco, Yuri sabia, pelo fato de que ele não parava de tamborilar os pés no chão, e bater a caneta no canto do caderno, que ele estava nervoso também. Embora tivesse agido cheio de si naquela hora, Wolfram não sabia lidar tão bem assim com pessoas. E o escândalo que todos faziam sobre isso só atrapalhava ainda mais.
Com o intervalo, logo mais pessoas se aproximariam para fazer perguntas ou somente para observá-los de longe, como se isso já não fosse desagradável o suficiente. Nenhum dos dois estava com vontade de aturar isso, e uma rápida troca de olhares foi o bastante para que ambos concordassem em sair dali o mais breve possível.
Foi difícil passar pelos corredores sentindo que cada pessoa olhava e falava sobre eles. Yuri hesitou, mas Wolfram manteve a cabeça erguida o tempo todo, e depois de perceber isso, Yuri também não quis ficar para trás. Os dois se dirigiram diretamente para o lado de fora do pátio, e Yuri levou Wolfram para um lugar atrás das salas dos clubes de esportes, onde o clube de jardinagem costumava trabalhar, mas que agora era apenas um pequeno jardim com árvores medianas que sem o cuidado prévio se alastrou mais do que deveria.
Não havia bancos por ali, mas o muro baixo que servia como canteiro era melhor do que nada. Mesmo das janelas mais altas, ninguém teria vista para aquele lugar, e provavelmente não os encontrariam ali. Finalmente, alguma privacidade, porque, bem… os dois precisavam mesmo conversar.
— Me desculpe, Wolf… — depois de um breve silêncio, Yuri resolveu enfim se pronunciar. Olhava para os próprios pés, com um conflito de emoções tão grande que mal conseguia entender – E-eu não sabia o que fazer, e você não estava lá… eu acabei revelando a verdade sem pensar, sem falar com você antes. Não sei o que fazer agora…
— Eu que devo pedir desculpas, Yuri, não você. Você foi corajoso, enfrentou todo mundo… eu nunca pensei que… eu… — Wolfram perdeu-se nas palavras, e Yuri ergueu os olhos, assustado. Wolfram nunca engasgava daquela forma. Quando o olhou, sobressaltou. Wolfram parecia frágil, pequeno, abraçando o próprio corpo de forma protetora, os dedos agarrando forte o tecido do suéter marrom claro. – Eu cheguei na escola antes de você, hoje. Vi o cartaz. E… fugi. Me escondi no armário embaixo da escada, sem saber o que fazer…
— O que?
— Eu não queria que eles soubessem! Pelo menos não dessa forma! – Wolfram mordeu os lábios com força, ele ainda pensava no encontro com aquele estranho no café, e tinha medo da reação de Yuri, mais do que qualquer coisa. – Eu pensei que você não quisesse também. Pensei que fosse… ficar com vergonha… e querer esconder deles, fingir que era mentira… Você ainda precisa daquela bolsa para a faculdade, eu não quis estragar tudo! Eu queria encontrar uma maneira de enganar a todos, e fingir que nada daquilo tinha acontecido. Eu queria te proteger… de alguma forma… eu nem sei como! Mas… eu também… não queria que você escondesse a nossa relação. Não sei como eu reagiria se você mentisse para eles…
— Wolfram… eu nunca…
— Eu sei. Agora eu sei. Eu fui idiota. – Wolfram se encolheu ainda mais, hesitante. – No armário, eu ouvi quando algumas alunas passaram que você havia chegado, e estava rodeado de pessoas. Então percebi que eu tinha que estar lá com você, nem que fosse para mentir e esconder a verdade deles, eu tinha que estar lá. Você nunca iria conseguir inventar uma desculpa plausível sem mim, não é? Você é um fracote, afinal…
Yuri soltou uma risada fraca, e enfim se aproximou mais de Wolfram, sentando o mais perto que podia dele. Suas pernas se tocavam por toda a extensão. Ele circundou a cintura de Wolfram, apoiando a mão na mureta do outro lado do corpo dele. Mais do que nunca, eles sentiam que era necessário ficar perto um do outro.
— Eu não conseguiria fazer nada sem você ao meu lado – Yuri sussurrou, sinceramente. Fechou os olhos, deitando a cabeça no ombro de Wolfram — Acabei agindo sem pensar…
— O que não me surpreende, pode acreditar.
— Bem, agora não há nada que possamos fazer para consertar. Depois do que eu fiz, eles já sabem.
— Não importa. Eles iriam saber de uma maneira ou de outra, você é horrível em disfarçar, e eu não sei se conseguiria aguentar aqueles comentários idiotas por muito tempo. – Wolfram inclinou-se, apoiando o rosto no topo da cabeça de Yuri. Suspirou – Eu fiquei… feliz. Quando você me beijou na frente deles. Achei que iria querer esconder, afinal, no seu país as coisas são diferentes do meu…
— Wolf… não há nada de que eu me orgulhe mais do que ser a pessoa que está ao seu lado. Olhe só para você, e olhe só para mim! – ele ergueu o rosto, encarando Wolfram diretamente, olhando para aqueles orbes verdes tão lindos, dos quais nunca se cansaria. – Se alguém aqui tem motivos para sentir vergonha do outro…
— Shh, se você completar essa frase eu nem sei o que faço com você. – Wolfram rosnou. Yuri riu baixinho, a risada reverberando através do corpo de Wolfram também. Os dois se aconchegaram, em um meio abraço. O loiro apoiou-se no peito de Yuri, ouvindo nitidamente as batidas do coração dele, ritmadas, rápidas, mas reconfortantes.
— Não me importo com o que eles pensam de nós. Se dependesse de mim, já teria contado há muito tempo, pra falar a verdade. Mas… eu pensei… no seu tio. Se ele souber…
— Não pense nele. – Wolfram o repreendeu, embora estivesse um tantinho mais feliz de saber que Yuri não se importava tanto assim em revelar sobre o namoro dos dois a todos. – Nós vamos dar um jeito. E sobre a sua bolsa…
— Isso não interfere em nada. É a minha vida, e eu sou seu namorado. O que isso tem a ver com o baseball? – Yuri ergueu o rosto de Wolfram pelo queixo, inclinando-se na direção dele. – Eu sempre quis dizer pra todo mundo que eu te amo…
— Yuri…
— Então, está tudo bem, se eles souberem. Se você quiser, eu vou falar com o seu tio agora mesmo. – ele tocou a testa de Wolfram com a própria, deslizando a mão pelo rosto dele, até os cabelos. – E para você, está tudo bem assim?
— Sim. – Wolfram ergueu o rosto, e seus lábios quase se tocavam, ao se mover – Eu quero que todos eles saibam…
Foi o bastante. Yuri tomou os lábios de Wolfram, pela segunda vez naquele dia, mas agora muito mais calmamente, e sem plateia. Prolongou o momento até onde foi possível, abraçando Wolfram com delicadeza, como se ele fosse algo precioso demais para perder logo agora.
Nenhum deles havia trazido comida consigo, mas a salvação veio logo depois. Miya havia ouvido os rumores sobre eles na sua sala também, e estava preocupada. Mariko soltava fogo pelas ventas, absolutamente descontrolada, e culpava a ela também, aos gritos, dizendo que tudo isso havia sido culpa da influência dos seus gostos estranhos nos dois garotos. A garota estava em completo desespero, ao que parecia.
Porém, Miyako imaginou que os dois iriam querer se esconder de todos, e os procurou pelos lugares mais reservados, até perceber que eles estavam escondidos no jardim abandonado dos fundos. Trouxera consigo sanduíches para os dois, e então se acomodou ali com eles também.
— E então? Agora, o que vão fazer? – depois de contar sobre todo o episódio sobre o ataque de nervos de Mariko, da confusão gerada entre as garotas, e de todos os boatos que corriam por toda a escola, alguns muito absurdos, inclusive, essa foi a única e simples pergunta que ela fez.
Yuri e Wolfram se entreolharam. Yuri deu de ombros, e Wolfram suspirou.
— O que mais nós podemos fazer?
— Vamos enfrentar isso também…
Miyako sorriu, por que essa era a resposta que ela queria ouvir.
~
O resto da aula foi exatamente como a primeira parte. Comentários sussurrados, olhares tortos, risadinhas ocasionais e estranhamento. Até os professores pareciam parcialmente conscientes do que acontecia. Anissina não fez nenhuma piadinha durante a aula dela, e Gunter não chamou Yuri para responder às suas perguntas, como sempre. O clima era tão desconfortável que Yuri tinha dificuldades em respirar.
Foi quando estavam no intervalo entre a última aula, que o aviso na caixa de som chamou a atenção de todos os alunos.
“Atenção, Shibuya Yuri e Wolfram von Bielefeld, da classe 2-C. Compareçam à sala do diretor, imediatamente. Repetindo. Shibuya Yuri e Wolfram von Bielefeld, da 2-C. Compareçam à sala do diretor, imediatamente.”
Yuri e Wolfram olharam um para o outro. Não imaginavam que isso tomaria essa proporção. O burburinho, como esperado, iniciou logo que o sinal do fim do recado soou. Yuri levantou primeiro, e estendeu a mão para Wolfram. Seja lá o que fosse que esperava por eles, e o que quer que o diretor tivesse a dizer sobre isso, eles já haviam decidido. Enfrentariam lado a lado, o que quer que fosse, e ficariam juntos. Não fizeram nada de errado, e iriam convencer o mundo todo, se fosse preciso, de que o amor entre eles era forte o bastante para aguentar tudo o que jogassem contra eles.
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