Sono Te Hanasanaide
12 Capítulo XII
Tonari ni ite kizuita koto
As coisas que eu observei ao meu redor
Kasane tabun nakushita mono
As coisas que eu perdi, todas empilhadas
Chotto dake otona ni natte
Eu cresci um pouco, mas
Shiritaku nakatta koto mo atta
Havia coisas que eu não queria saber
You're my friend
Você é meu amigo
Ima wa mou
Agora, você é apenas
You're just my friend…
Você é apenas meu amigo…
Capítulo 12
— Chegamos! – Murata bradou, jogando Miyako na entrada da casa.
— Seu bruto… – Ela choramingou, arrastando-se até a sala. Murata a acompanhou até lá, sem nenhuma cerimônia, pois já era considerado da casa por tanto frequentá-la. Miyako chutou os sapatos para longe, e correu na direção do colo da tia. – Tadaima, Oba-chan! Nee, o Murata-kun foi mal pra mim!
— Ara, o que houve, Miya-tan? – Miko nem notou o desconforto da sobrinha, enquanto preparava a mesa para o chá, à maneira ocidental.
— Ele brigou comigo… — Ela fungou, fazendo beicinho. Murata se preocupou por um momento, imaginando que talvez Miko o repreendesse por ter sido tão duro com a sobrinha dela, mas logo ela abriu um compreensivo sorriso na direção do garoto, enquanto deixava os utensílios de cozinha de lado e afagava a cabeça da garota.
— Ei, Miya-tan, não faça assim… Olha só, você não quer tomar chá? – Ela indicou a mesa preparada. – Você também, Ken-chan, junte-se a nós.
— Eu vou aceitar... – Ele se acomodou na cadeira ao lado de Miya, servindo-se de chá. Não havia comido nada o dia inteiro, durante o tempo em que foi arrastado por aí por Miyako.
— Ah, esse chá é muito bom… Mas é diferente… — Miyako observou, depois de experimentá-lo. Segurou a xícara nas mãos, fitando atentamente o líquido fumegante, de um exótico tom lilás azulado.
— É Chá de Rosas Azuis. – Miko informou, no tom de uma especialista. – Foi a Cecilie-san quem me deu de presente, quando veio aqui em casa.
— Cecilie? – Murata repetiu, surpreso. – Você diz, aquela rainha estrangeira, mãe do Wolfram-kun?
— Isso mesmo! Ela veio nos visitar ontem, durante o tempo em que vocês estavam na escola. Ah, ela é muito refinada, e muito divertida também. Nós conversamos muito!
— Nee, Oba-chan… — Miyako ergueu os olhos, esperançosa, e Murata notou aquele estranho brilho ofuscando seus olhos cor-de-mel novamente. – S-será que a senhora também acha que aqueles dois deviam… — Miya não precisou terminar a frase para que a tia entendesse, com um brilho idêntico nos seus olhos também. Murata suspirou, cansado, resolvendo se concentrar nos bolinhos que estavam ali para não ter que pensar nisso.
— Foi por causa disso que a Cecilie-san veio até aqui! – Miko se animou rapidamente, juntando as mãos entusiasmada. – Ele me contou várias coisas sobre o Wolfram-kun, ah… Ela está preocupada, e achou melhor conversar comigo. Você sabe, nós duas somos mães, precisamos ter tudo sob controle…
— Sim, claro... – Murata resmungou consigo mesmo, sem que nenhuma das duas o ouvisse. – Com mães como essas, eu tenho pena daqueles dois…
— E então, o que ela contou?? – Miyako mal podia se conter, dando pequenos pulinhos animados por sobre a cadeira.
— Ah, você vai gostar de ouvir, eu presumo! Ela me pediu para que o Wolfram-kun passasse a noite aqui, imagine só! Ela disse que ele não tem muita experiência em amizades, nem em nada a mais, e pediu que eu cuidasse dele… Ah, kawaii… Yu-chan é o único amiguinho que ele já teve, pobrezinho… Então, ele está vindo para cá…
— Ah, eu já sei! – Miyako bradou, sem pensar. – Ele vai dormir aqui com o Nii-chan, não é?
— Você está bem informada, Miya-tan… — Miko riu contidamente. – Parece que nem vou precisar colocá-la a par das outras informações que ela me deu…
Miyako estava prestes a se entusiasmar novamente, mas foi cortada repentinamente por Murata, que resolveu se pronunciar.
— Já que a conversa chegou nesse ponto, eu vou saindo! – Ele ergueu as mãos, como se quisesse manter-se isento daquele assunto. – Eu vou indo, o chá estava muito bom, Oba-chan… Até amanhã… – Ele se despediu rapidamente, dando um último gole na xícara e se preparou para sair.
No momento em que abria a porta, ele deu de cara com Yuri e Wolfram, que chegavam em casa.
— Yo, Shibuya, Wolfram-kun… — Ele acenou, com pouca motivação.
— Ah, Murata! Era aqui que você estava! – Yuri comentou alegremente – Por que não disse isso na mensagem?
— Mensagem? Ah, deixa pra lá. Eu tenho que ir... – Ele deu um pequeno tapinha nervoso nas costas de Yuri, e sorriu sem graça. – Boa sorte.
— Boa sorte? – Yuri não entendeu, e enquanto Murata corria para fora, resolveu deixar o assunto de lado, e convidou Wolfram para entrar.
Era a primeira vez que o loiro vinha à casa de Yuri – ou de qualquer outra pessoa – por isso seu olhar corria, admirado, por todos os lados. Claro que a casa inteira era do tamanho do hall de entrada do seu antigo palácio, e mesmo a casa em que ele morava atualmente era consideravelmente maior, mas ele não pareceu se incomodar com isso no momento. Em sua cabeça, apenas o eco distante de que aquela era a casa em que Yuri morava, já o deixava interessado.
— Ah! Vocês chegaram! Seja bem-vindo, Wolfram-kun! Eu estava esperando por você! Venha, não quer tomar um chá?
— Eu fico muito grato por sua hospitalidade, Senhora Shibuya. – Wolfram se esforçou em curvar-se de maneira respeitosa, inclinando-se e dando um singelo beijo na mão da senhora, que corou, contendo uma risadinha.
— Você é tão galante, querido… Viu, Yu-chan, deveria aprender uma coisa ou outra com esse garoto tão educado! – Ela ralhou, recolhendo a mão assim que Wolfram a soltou.
— Hai, hai… Eu vou ir tomar um banho, mãe… — Yuri riu sem graça, imaginando como Wolfram conseguia mudar tão rápido a sua personalidade esquentada e antissocial quando a situação exigia.
— Hey, leva o Wolfram-kun junto! – Miyako se empolgou rapidamente, mas ao notar os olhares de todos em cima de cima dela, recuou e se escondeu.
— A Miya-tan tem razão, Yu-chan! Eu até já preparei a banheira para esperar vocês… Mas Wolfram-kun é visita, ele deve ir primeiro! – Ela repreendeu. – Ou talvez vocês devessem mesmo ir juntos e…
— Não! – Yuri se apressou em dizer, interrompendo a mãe. Depois, virou-se para o garoto, com o rosto ligeiramente corado. – Vá primeiro, Wolfram… — Ele indicou. – Eu vou separar alguma roupa minha para você…
— Muito obrigado. – O loiro disse, exclusivamente para Miko, e seguiu Yuri em direção ao corredor. Estava mesmo precisando de um banho, para acalmar seus pensamentos conturbados e o nervosismo por estar pela primeira vez na casa de um… Amigo. Tentando parecer impassível, ele entrou na porta que Yuri indicou, fechando-a logo depois.
Respirou fundo várias vezes, e começou a despir-se cautelosamente, como se temesse que a qualquer momento alguém entrasse pela porta. Ainda não havia conseguido acalmar-se. Na verdade, durante todo o dia, seu coração parecia prestes a explodir, apenas por ter que estar sozinho com Yuri. E tudo isso, por causa daquela conversa estranha que teve com Conrad, na noite anterior.
Wolfram estava na sacada do seu quarto, escorado no parapeito enquanto olhava para os jardins, iluminados parcamente pela luz azulada da lua, sem realmente vê-los. Tão distraído em pensamentos, ele não notou quando o irmão entrou no cômodo, e se aproximou dele.
— Você anda muito reservado, Wolfram… O que houve, ainda não se acostumou com o novo país? Não me diga que ainda anda com essas ideias de retornar para Shin Makoku…
— Não é isso, Conrad… — Wolfram replicou, com um tom de voz cansado.
— Quer conversar? – O irmão se preocupou rapidamente, pois não era comum ver Wolfram tão comedido. Normalmente, quando Conrad resolvia se aproximar e tentar puxar conversa, sempre era cortado rudemente, e acabava falando sozinho. Mas dessa vez, Wolfram não se afastou.
Ele baixou os olhos, e então voltou a olhar para o irmão. Era como se estivesse pedindo por ajuda. Conrad se surpreendeu, mas não recuou, sustentando o olhar do menor, como se dissesse a ele que podia confiar em seu irmão mais velho, como sempre.
— Há muitas coisas que eu não entendo… — Ele admitiu de repente, em voz baixa. – Tem tanto acontecendo, eu não consigo acompanhar…
— Você fala da nossa mudança?
— Sim… e não. É mais do que isso. Desde que eu cheguei nesse país, nunca mais tive um único momento de paz. Desde que eu encontrei de novo aquele garoto…
— Ah, entendo… — Conrad sorriu fracamente. – Você finalmente encontrou o seu amigo de infância, que era tão importante…
— Não, ele não tem importância nenhuma! – Wolfram bradou, irritado e com o rosto se afogueando. – Não é por causa dele que eu me sinto assim! Absolutamente não!!
— Não? Então… Qual o motivo da sua inquietação?
— Eu não sei… — Wolfram baixou o olhar novamente, irritado consigo mesmo por sua incapacidade em entender a si mesmo.
— Wolfram… Posso perguntar uma coisa? – Conrad disse subitamente, com uma possibilidade se mostrando em frente aos seus olhos. Wolfram ergueu o rosto, intrigado. – Essas… coisas que você anda sentindo… Esse nervosismo… Hmm… Como é isso?
Wolfram estranhou a pergunta, e desviando o olhar, ele tentou pensar no que sentia. As palavras não pareciam suficientes para descrever, mas ele se esforçou em tentar.
— É difícil… Parece que há um vazio aqui… — Ele pousou a mão cerrada sobre a região do peito. – É tão contraditório. Aperta, e dói… mas, às vezes, parece bom… — Confuso, ele olhou para Conrad. Esperava por uma resposta, um conselho. Qualquer coisa que fizesse aquela sensação de insuficiência se encerrar.
— Wolfram! – O semblante de Conrad se clareou, e ele parecia assombrado, mas também um pouco feliz com aquela surpresa. Olhou para Wolfram como um pai orgulhoso que vê seu filho crescer. – Você está… apaixonado?
— O q-que? – Wolfram engasgou, escorregando e quase caindo no chão, em sua agitação. – N-não há como… E se… Aah, p-p-por que está falando isso? Não tem c-como… Não há possibilidade… NÃO!!! Não existe chance de e-eu e-estar… não p-por e-ele…
— Por ele? Então… você já sabe por quem está…
— NÃO!!! EU NÃO ESTOU A-A-A-APA-PAIXONADO… P-POR AQUELE FRACOTE!!!! – Wolfram gritou com todas as suas forças, antes de empurrar Conrad para longe e correr para dentro do seu quarto. Pulou para cima da cama, escondendo-se entre as cobertas.
Conrad entendeu que ele precisava de algum tempo sozinho, para pensar, e deixou o quarto. Um sorriso satisfeito brincava em seus lábios, quando ele fechou a porta e sumiu em direção ao corredor. Provavelmente iria conversar com a mãe naquela hora, mas isso não passou pela cabeça de Wolfram, que escondido entre os cobertores, cerrava os dentes e apertava o travesseiro com tanta força que poderia rasgá-lo.
— Não tem como… eu ter me apaixonado por aquele… — Wolfram sussurrava, confuso. Mas, a cada vez que repetia aquela frase, como um mantra, ela parecia fazer mais sentido em sua cabeça. Apaixonado… apaixonado? Era isso que fazia seu coração inflar e doer tanto? Não parecia certo, mas ao mesmo tempo, era a única explicação plausível que Wolfram tinha diante de si.
E era verdade que, sempre que esses sentimentos surgiam, eram nos momentos em que Yuri estava ao seu lado. E foi o rosto dele que Wolfram viu em sua mente quando Conrad levantou a hipótese.
— Será possível? – Wolfram colocou o rosto para fora do seu ninho de cobertores, tentando respirar. Ele então… amava… Yuri? – Maldito fracote, idiota, imbecil, eu juro que vou matá-lo com minhas próprias mãos… Aquele… aquele… Aargh, é tudo culpa dele! P-por me fazer sentir assim…
Enquanto lembrava, ele já havia entrado na banheira, e afundado o rosto na água quente e perfumada, perdendo-se na recordação. Seu rosto estava em chamas, e ele não conseguia se acalmar… Então, era mesmo verdade? Wolfram recusava-se a admitir aquilo tão facilmente, mas não via alternativa para o seu impasse. Por mais que sua personalidade não aceitasse, e certamente ele não conseguiria colocar aquela confirmação em palavras, aquilo era o mais próximo que ele chegava da verdade.
— Francamente… Que humilhação… — Ele resmungou, com metade do rosto escondido na água. – Alguém como eu… por alguém como ele… Hunf… Inaceitável. Eu prefiro a morte a admitir isso para ele. Aquele fracote, ignorante…
— Hey, Wolfram, tudo bem aí?
O loiro se agitou na água, derramando boa parte para fora da banheira, ao ouvir a voz de Yuri. O rosto dele aparecia pela porta, alegre e tolo como sempre. Ele entrou, sem pedir licença, com a toalha e uma muda de roupas em mãos.
— O q-que está pensando? – Berrou Wolfram, exaltadíssimo, cobrindo a parte exposta do peito com as mãos. Seu rosto estava vermelho berrante, e ele mal conseguia formar uma frase completa. Yuri não demonstrava nenhum arrependimento ou perturbação por ter invadido o banho do outro, o que só aumentava a indignação de Wolfram. – Invadindo o banheiro dessa forma, seu insolente, por que fez isso?
— Não vejo problema nenhum. – Yuri garantiu, seguramente, escorando-se na pia logo à frente. – Apesar de você ter esse rosto, somos ambos garotos, então você não tem motivos para reclamar. Mesmo se eu entrasse aí nessa banheira…
— Não ouse cogitar essa possibilidade! – Sussurrou Wolfram ameaçadoramente, com um semblante tão assustador que Yuri engoliu em seco, sem completar a frase. – Você já deixou as roupas aqui, então pode ir logo embora, fracote!
— Fracote, fracote… Você adora repetir essa palavra, hein? – Comentou Yuri, distraído, enquanto brincava com uns frascos de creme do armário. – Você gosta de dar apelidos para as pessoas?
— Não é um apelido! Seu frac… Ahn… — Wolfram interrompeu-se, notando o quanto usava aquela palavra para se referir a Yuri de fato. –… Não se julgue importante apenas por uma coisa insignificante como essa! – Ele cruzou os braços, incomodado com aquele sinal de que Yuri realmente percebera algumas coisas sobre ele.
— Será que eu também tenho que dar um apelido para você? – Indagou, levando a sério o tópico. Colocou a mão no queixo, pensativo, maquinando alguma coisa para ele.
— Você realmente não vai sair daqui, não é? – Resmungou o loiro, ciente de que o descaramento de Yuri ia muito além dos limites.
— Hmm… Algo como… Eu não sei… Tsundere? – Yuri riu, inclinando o rosto para o lado.
— Tsun… O que você quer dizer com isso, seu idiota? – Wolfram perguntou, irritado. Desconhecia o significado daquela palavra, mas não parecia ser algo digno de qualquer forma.
— Hai hai, eu estava brincando… Etto… Um apelido é algo que descreva uma pessoa, então… você é… loiro? E… enfezado? Então… loirinho… enfezadinho…
— SEU MALDITO FRACOTE, TOLO E INSOLENTE! – Wolfram se ergueu da banheira, esquecendo-se completamente da compostura, no auge da sua cólera. Tudo o que queria era enfiar as mãos no pescoço de Yuri e bater com a cabeça dele na parede até que uma delas quebrasse. – Eu não sei o que é mais ultrajante nesse seu comportamento desaforado!!! A estupidez da sua capacidade de criação, ou o uso indevido de diminutivo!!!
Yuri levou alguns segundos para entender o ataque de nervos de Wolfram, e mais alguns para processar a imagem do mesmo, completamente despido, da maneira que veio ao mundo, bem à sua frente.
— Ah… Hahahahaha… — Ele desviou forçadamente o olhar, com o rosto esquentando gradualmente. – Gomen nee, Wolfram… Era só uma brincadeira. Itai! – Ele sentiu a escova de lavar as costas batendo com força na sua cabeça. – Okey, okey, eu não faço mais. Se for para dar um apelido para você, vamos ficar apenas com Wolf, que tal?
— Fracote, idiota. – Wolfram resmungava para si mesmo, com uma veia latejando perigosamente no canto da testa, e lentamente voltando a sentar na banheira. Sua raiva era tanta que ele nem mesmo percebeu tudo o que mostrara à Yuri sem querer. – O que te faz pensar que pode se referir a mim com tanta familiaridade?!
— Ora, nós não somos amigos…? – Yuri relaxou a postura, antes na defensiva e esperando por um ataque direto do loiro. – Amigos brincam um com o outro, não é? Assim como nós estávamos fazendo agora mesmo!
— Amigos, é? – Wolfram repetiu, e pela primeira vez, aquela palavra não o fez se sentir feliz. Fitou Yuri com o canto dos olhos, e suspirou. – Tanto faz.
~
Depois disso, o dia transcorreu tranquila e rapidamente. Wolfram comeu tudo o que Miko empurrava para ele. Como ela era uma grande fã da culinária estrangeira, Wolfram aproveitou para matar as saudades da “comida de verdade” já que tudo o que sua mãe mandava fazer ultimamente eram os pratos típicos japoneses, e ele não aguentava mais isso.
Miyako aproveitou a chance de saciar a sua interminável curiosidade, e fez a Wolfram perguntas sobre o reino onde ele vivia, os costumes, as tradições, e todo tipo de detalhe superficial, até que a língua de Wolfram ficasse dolorida de tanto falar.
Yuri ria de tudo, e interrompia quando a conversa de Miya estava indo para alguma zona perigosa. Passaram horas conversando, assistindo à filmes de comédia quaisquer (que Wolfram julgou como sendo pouco profundos, mas acabou assistindo a todos).
— Aaaahhh~ — Miyako bocejou mais uma vez, escorando a cabeça no ombro de Yuri, e fazendo Wolfram crispar os lábios. – E então, Wolfram-kun, como são as cerimônias de casamento no seu país?
— Ei, Miyako, você não acha que está exagerando não? Já é tarde, e amanhã nós temos aula. Vamos dormir logo! – Yuri disse, antes de Wolfram se antecipar em responder.
— Hai… — Ela concordou, pois o sono já era maior do que a vontade de conversar com Wolfram. – Oyasumi, Nii-chan… — Ela balbuciou, indistinta. – Oyasumi, Wolfram-kun… Quero conversar mais com você… Ah, o pijama do nii-chan ficou muito bom em você, nee? – Ela disse, antes de bocejar mais uma vez e andar lentamente na direção do corredor.
— Ah, verdade, minhas roupas serviram em você. – Yuri levantou do sofá também, espreguiçando-se. Usava um pijama azul, enquanto Wolfram ficava com o amarelo.
— É… Ainda que eu prefiro dormir com alguma coisa que não restrinja tanto os meus movimentos… — Wolfram resmungou, tentando dobrar os cotovelos.
— Não me diga que você dorme pelado?! – Yuri fingiu assombro, enquanto andava ao lado de Wolfram até o quarto. Repentinamente, a imagem do que aconteceu no banheiro o assolou, e ele se sentiu constrangido com a brincadeira.
— Claro que não, idiota! – Wolfram replicou, ofendido. – Eu uso uma camisola!
— Camisola? Isso não é coisa de mulher? – Indagou, abrindo a porta do seu quarto para Wolfram. No chão, havia mais uma cama preparada, e mais nada digno de nota. As paredes eram azul claro, e estava coberta por pôsteres de baseball. Em um canto, os materiais de jogo de Yuri se evidenciavam.
— Claro que não, fracote! – Wolfram resmungou, entrando no lugar, e perdendo alguns segundo a analisá-lo. Realmente, aquele quarto tinha a cara de Yuri. – É uma camisola masculina, é claro!
— Ah, entendi… E de que cor ela é?
— Rosa… — Wolfram resmungou para si mesmo, e Yuri prendeu a risada, porque sabia que certamente iria apanhar se fizesse qualquer comentário.
— Ei, você pode dormir aqui na minha cama. – Yuri mostrou, tentando mudar o assunto. – Eu fico com o chão.
— Claro! Você não ia fazer a sua visita dormir não chão, não é? Que tipo de anfitrião você é? – Wolfram replicou, irritadamente, pulando sobre a cama e se aconchegando entre os cobertores. Yuri nem se surpreendia mais com coisas como aquelas. Ele também se acomodou no futon do chão.
Os dois se ajeitaram para dormir, e deram boa-noite uma ao outro. Yuri desligou a luz, e o silêncio se formou, por alguns minutos. Wolfram virou de frente para a parede, abraçando o edredon. O cheiro no travesseiro fazia seu nariz formigar. Aquele cheiro… era de Yuri? Seu coração bateu mais forte com a constatação, e ele torceu para que o fracote não escutasse.
— Hei, Wolf… — Yuri chamou, cortando o sossego, bem quando Wolfram achou que conseguiria ignorar aquela perturbação e cair no sono.
— Hm..? – Ele resmungou de má vontade, sem abrir os olhos.
— Tá dormindo? – Yuri sussurrou.
— O que você acha? – Ele se forçou a manter um tom de voz brando, quando na verdade se sentia todo trêmulo por dentro.
— Ah, desculpe… É que… eu só queria testar o apelido…
— O quê? – Wolfram retesou, percebendo tarde demais que havia atendido por aquela forma. – Você não lembra, mas me chamava assim… naquela época…
— Verdade! – Yuri soltou um grito repentino. – Eu lembro. – Ele disse, baixando o tom de voz.
— Lembra mesmo? – A voz de Wolfram soou esperançosa e infantil, no escuro, e ele escondeu o rosto rapidamente, agradecendo por Yuri não ser capaz de vê-lo.
Não teve resposta dessa vez. Wolfram virou-se na cama, irritado, e viu que Yuri já estava em sono alto, dormindo de barriga para cima espalhado no chão.
— Imbecil, fracote… Ele já dormiu! – Wolfram se sentou na cama, ponderando se devia chutar Yuri, já que o posicionamento era tão propício, mas decidiu que não valia o esforço.
Havia perdido completamente o sono, quando olhou novamente para Yuri, que dormia tranquilamente, alheio às ameaças à sua vida. Como aquele idiota podia dormir tão facilmente quando Wolfram tinha tantas coisas atribulando sua mente? Às vezes Wolfram queria ser um idiota também, só para não ter que sentir essas coisas.
Cutucou o rosto de Yuri com a ponta do pé, irritado, e tudo o que ele fez foi balbuciar alguma coisa, sem nem acordar. Maldito, idiota! Como ele se atrevia! Fazê-lo sentir-se daquela forma… E ainda permanecer completamente abstraído, sem nem imaginar o que acontecia com Wolfram. Isso era inaceitável!
Wolfram levantou da cama, rodeando o colchão de Yuri até estar bem ao lado dele. Agachou-se, apoiando-se com as duas mãos no chão, e encarou Yuri de perto. Queria confirmar as palavras de Conrad, e mostrar para ele e para si mesmo, que nada daquilo era verdade, mas seu plano não saiu como planejado. Assim que colocou os orbes verdes sobre o rosto de Yuri, seu coração falhou uma batida, inseguro e atrapalhado.
O loiro tentou se afastar, e desistir daquela ideia louca e repentina de observar Yuri enquanto ele dormia. Se parasse para pensar, perceberia o quanto isso era estranho, e inexplicável. Mas esse pensamento não tomou forma naquele momento, pois os olhos de Wolfram se recusavam a sair de cima de Yuri. Esquadrinhou atentamente o rosto dele — apesar de tudo, não era desagradável de olhar. Ele tinha um rosto suave, de expressões alegres, e espontâneas, e mesmo quando estava calmo, como agora enquanto dormia, parecia bonito para Wolfram. O pescoço, esticado por causa do ângulo em que seu rosto estava virado, denotava os músculos lânguidos da clavícula, e assim também era no peitoral, parcialmente exposto graças ao pijama mal fechado.
Wolfram se forçou a parar de olhar naquela direção, bem quando Yuri mexeu o rosto, durante o sono. Um novo ponto chamou se atenção, quando ele notou os lábios que se entreabriam ligeiramente, soltando a respiração cadenciada. Wolfram sentiu uma nova aceleração dos batimentos cardíacos, sobrepondo-se à outra. Seu rosto esquentou, na medida em que ele percebia a situação em que se encontrava. No meio da noite, espiando o seu suposto amigo dormir, e ainda tendo aqueles pensamentos insanos.
Mas, mesmo depois de perceber isso, ele não conseguia se afastar. Já estava ali mesmo, já havia chegado ao ápice da humilhação, ao notar todos os sentimentos que afloravam sem o seu consentimento. Então… não importava. E Yuri estava dormindo. Ele não saberia de nada. De nada. Qualquer coisa que Wolfram fizesse nesse momento… Yuri não tinha como ficar sabendo, jamais. Mesmo se… Mesmo se…
Indistinto, Wolfram inclinou o rosto sobre Yuri, encarando-o diretamente com os longos cílios semicerrados. Seus olhos brilhavam, incitados e ansiosos. Ele não sabia como, nem por que, mas não conseguia encontrar em si a vontade de se afastar de Yuri. Aproximou-se ainda mais, e instintivamente fechou os olhos. Sentiu a respiração de Yuri tocar seu rosto, e um arrepio passou por todo seu corpo, fazendo-o esquecer completamente qualquer resquício de racionalidade.
Seus lábios pressionaram algo macio e quente, e um calor agradável cingiu todo seu corpo. Ele não conseguia nem mesmo se mexer, aquele toque macio o confundia, mas de uma maneira confortável. Wolfram abriu os olhos, assustado, e percebeu. Se afastou, em choque, cobrindo os lábios e se arrastando para longe, até suas costas baterem no guarda-roupa na parede oposta. Seu rosto queimava, parecia estar em chamas. Ofegante, sua mente aos poucos se dava conta do fato óbvio.
Ele havia beijado Yuri.
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