Sono Te Hanasanaide
67 Capítulo LXII
Going through the motions
Atravessando as emoções
Going through us
Nos analisando
And, oh, I've known it for the longest time
E apesar de já saber há muito tempo
And all my hopes
E toda a minha esperança
All my words are all over written on the signs
Todas as minhas palavras estão escritas em sinais
[...]
See the flames inside my eyes
Veja as chamas em meus olhos
It burns so bright, I wanna feel your love, no
Brilham tanto, quero sentir o seu amor, não
Easy, baby, maybe I’m a liar
Acalme-se, amor, talvez eu seja um mentiroso
But for tonight I wanna fall in love
Mas por esta noite eu quero me apaixonar
And put your faith in my stomach
E fazê-la confiar em mim
Capítulo 62
Sara tinha lugares melhores para estar naquela tarde. Obviamente ele tinha, afinal, ele era modelo, reconhecido internacionalmente, e todos os finais de semana havia uma pilha de convites V.I.P. para festas, inaugurações, camarotes ou desfiles ao redor do mundo, esperando para ser descartados assim que ele chegasse em casa. E, mesmo assim, lá estava ele, em um táxi a caminho do centro da cidade, para mais uma vez passar algumas horas rodeado de assuntos burocráticos nada interessantes de uma confeitaria que ele nem queria gerenciar, para início de conversa.
E por que ele estava fazendo isso, afinal? Era só dar meia volta e deixar que os funcionários dessem um jeito, eles saberiam se virar sem ele. Ah, não. Ele sabia muito bem que, depois de parar de tentar argumentar e aceitar a “proposta” dos seus pais de comandar um dos vários negócios que eles colecionavam pelo país, apenas para medir suas capacidades, desistir não era uma opção. Não daria a eles a chance de sequer cogitar a possibilidade de que ele não havia conseguido cumprir com uma tarefa risível como aquela. Lidar com fornecedores, funcionários, marketing ou o que quer que fosse se tornou um incômodo que ele teria que aguentar por mais algum tempo.
Claro que seria muito menos penoso se os seus progenitores tivessem dado ouvidos a ele, e oferecido a administração da agência de modelos que a família possuía, ao invés daquela confeitaria, pequena, afastada do grande centro comercial e tão… simples. Ele nem sabia da existência daquele local até meses atrás, quando assumiu enfim o posto de gerente.
Não que ele se importasse exatamente com o ramo do negócio a ser administrado, tanto faz, mas se pudesse gerenciar a agência de modelos sua vida seria muito mais fácil. Ele já tinha todos os contatos, conhecia o campo da moda e sabia exatamente como lidar com aquele tipo de pessoas com a facilidade de um especialista. Aparentemente, a intenção da alta presidência da renomada Shimaron Corp., vulgo, seus pais, era não facilitar de maneira alguma. E ele não ligava nem um pouco para isso.
De qualquer maneira, moda também não era exatamente um assunto que absorvesse seu interesse e atenção de forma completa. Havia sido apenas o rumo que sua vida tomou praticamente de forma automática, sem que ele precisasse fazer qualquer esforço ou tivesse opinião sobre. Um belo dia, quando ele tinha pouco mais de 13 anos, foi obrigado a acompanhar sua mãe em uma das visitas dela à sede da revista de moda, que era uma das empresas das quais ela mais gostava. Isso acontecia com frequência quando ele era criança, ser levado à ambientes de trabalho da sua família. Ele estava passando tempo, entediado, quando soube que um dos modelos para o editorial teen não conseguiria chegar há tempo para a sessão de fotos. Sara era alto para sua idade, e qualquer um que não fosse cego repararia na beleza natural do rapaz. A fotógrafa praticamente implorou para que ele aceitasse fazer este favor, e depois que sua mãe permitiu, ele apenas deu de ombros e fez como pediam.
Todos disseram que as fotos ficaram incríveis, e que o menino tinha muito talento para fotografar, mas ele não achou nada demais. Nem precisou fazer nada, e achava exagerado todo o alvoroço que faziam em cima dele. Certamente faziam isso para cair nas graças da sua mãe, mas ele estava acostumado com isso. A partir de então, os convites para continuar fotografando para a própria revista começaram, e foram evoluindo para catálogos, publicidade, desfiles… Ele apenas se deixou levar pelas oportunidades que não paravam de surgir, e sem nenhuma intenção, prosseguiu até onde estava hoje.
Sara pagou o táxi e desceu pela rua lateral, andando em direção à entrada dos fundos da confeitaria. Não estava muito a fim de bancar o proprietário simpático para as clientes que vinham chamar sua atenção, então seria melhor seguir diretamente para seu escritório. Entrou pela cozinha, e os funcionários apenas o cumprimentaram brevemente, acostumados às suas visitas desregradas e sem rotina de sempre.
Em sua sala, fechou a porta de qualquer jeito e jogou a jaqueta que usava na guarda da cadeira disponível à frente da sua mesa. Acomodou-se na sua própria cadeira, que girou levemente com o movimento, colocou os óculos de leitura, mas não buscou pelos papéis que deveria estar lendo e assinando. Estava estressado… Não, não era exatamente essa a palavra, mas, de qualquer forma, não era nada agradável. Incomodado, talvez. Cansado da monotonia que mais uma vez se instalava em seus dias.
Era um ciclo repetitivo e com o qual ele já deveria ter se acostumado. Algo despertava sua atenção e ele se movia em direção a isso, e facilmente se integrava ao seu objeto de interesse, para que então ele deixasse de ser tão interessante assim e fosse esquecido sem demora. Sara vivia assim, saltando de ponto em ponto sem nunca fixar lugar, fazendo apenas aquilo que julgava ser agradável para si.
Dessa vez, porém, tudo parecia diferente e fora do lugar. O tédio estava retornando, mas Sara não havia chegado ao ponto de descartar o divertimento encontrado. Na realidade, nem ao menos pôde obtê-lo. Yuri escapou por entre seus dedos sem que ele tivesse tempo de começar a agir da forma que pretendia, e ele ainda não havia conseguido pensar em nada para contornar essa situação e virá-la a seu favor, como sempre fazia.
Talvez fosse esse o motivo da irritação latente que vinha crescendo nos últimos dias. Sara precisava de distração. Ou melhor, Sara precisava que as coisas acontecessem da forma que ele planejava. Isso sim o deixaria muito satisfeito. Mas Yuri tinha que ser o ser mais indecifrável e imprevisível que ele conhecera recentemente, e simplesmente não agia de acordo com seus planos. Yuri não trabalhava mais para ele, e, apesar das poucas mensagens trocadas durante aquelas últimas semanas, era um fato que o contato formado havia se perdido. Ele não sabia o que fazer quanto a isso.
E isso o frustrava de uma maneira imensurável.
As conversas vindas da recepção da confeitaria invadiam o espaço da sua sala. Ah, ele não havia fechado a porta completamente ao entrar. Com um resmungo baixo para si mesmo, Sara se ergueu. Seria mais fácil simplesmente pegar os documentos e levá-los para seu apartamento, mas, já que ele já estava ali, não perderia a viagem.
— O-oi! Hori-san, não é? Eu vim… Ahn, saber se o Shuuhei está por aí?
Sara achou a voz da cliente — que parecia nervosa e hesitante — ligeiramente familiar. Com a porta ainda entreaberta, ele inclinou a cabeça, apenas o suficiente para visualizar a entrada da confeitaria sem levantar suspeitas. Como esperado, a atendente, Hori, estava em seu posto atrás do balcão, e, diante dela, uma figura de cabelos azuis, que, gesticulando a cada palavra pronunciada, tentava dizer algo.
Ele lembrava superficialmente sobre aquela garota. Com aquela cor de cabelo, era difícil confundí-la, afinal. Não sabia muito além do fato de que ela conhecia um dos seus funcionários e tinha algum nível de proximidade com Yuri, mesmo que recente e tênue. Mais do que isso, não precisava observar muito para ter a constatação de que ela também não era completamente alheia à sua presença. Na verdade poderia apostar, e tinha certeza de que ganharia, que aquela garota era certamente uma fã.
Havia uma maneira muito simples de identificar fãs, e Sara possuía um método próprio para classificar essa categoria de pessoas. Havia aqueles que não eram realmente fãs do seu trabalho, mas utilizavam-se desse pretexto para tentar se aproximar dele e garantir vantagens de qualquer natureza, sempre com elogios vazios e risadas em excesso. Irritante. Havia outros que realmente o reconheciam, mas fingiam desinteresse em sua pessoa para tentar uma aproximação em nível pessoal. Simulavam uma familiaridade inexistente, tentando invadir seu espaço. Ainda irritante.
E então, havia aquela categoria que englobava a grande maioria das pessoas que tentavam chegar até ele. Era fácil notá-las, quando elas o olhavam com os olhos arregalados, perdendo completamente o curso das palavras, com os rostos corados enquanto gaguejavam pedidos de autógrafos e fotos. Estas eram simples fãs. E Sara sabia, sem precisar pensar muito, que aquela garota era definitivamente uma representante dessa classe.
Sara puxou o celular do bolso da calça, e só precisou de alguns toques para chegar até o perfil de Yuri, seu mais novo “amigo” nas redes sociais. De lá, não foi difícil encontrar a garota de cabelo azul — Yuri não tinha tantos contatos assim. Natsume, era o nome dela, ele conseguiu lembrar agora. Repetiu mentalmente para gravar melhor a informação, e olhou mais uma vez pela fresta na porta. Ela ainda estava ali, e agora, conversava com Hori sobre bolos ou qualquer coisa assim, parecendo menos nervosa e mais animada.
Hm. Talvez ele pudesse trabalhar com isso.
~
Wolfram não costumava mandar mensagens pelo celular — qualquer coisa que ele queria dizer, preferia dizer isso pessoalmente, para enfatizar cada palavra, e aos gritos, dependendo da situação. Na verdade, era raro ver Wolfram utilizando qualquer tecnologia por muito tempo, e, mesmo dos jogos que Yuri trazia para ambos jogarem, ele cansava rápido. Wolfram não era como qualquer adolescente da sua idade, nesse quesito. Às vezes, ele era como um velho de 80 anos.
Por isso, quando Yuri recebeu uma mensagem do seu namorado naquela manhã, logo depois de sair do treino de baseball, chamando-o para ir até a sua casa naquela tarde, não pôde evitar a surpresa. Ele até usou um emoji! Bem, o emoji só mostrava um rostinho entediado, e talvez ele tivesse enviado por engano, mas isso por si só já era uma novidade.
Empolgado, Yuri respondeu positivamente sem nem hesitar, e seguiu assoviando uma música qualquer enquanto pedalava para casa. Estava tudo indo tão bem ultimamente, com Wolfram, e com o baseball. Não havia como pedir por mais. Às vezes, ele parava para pensar em como sua vida havia mudado tanto — e para melhor, no decorrer daquele ano, em especial nos últimos meses.
Yuri nunca havia sido o tipo de pessoa que para o que está fazendo para pensar e contemplar a vida, ou que gosta de analisar cada aspecto das situações, mas, nessas ocasiões, isso ocorria espontaneamente. E quando ele pensava sobre isso, a presença de Wolfram em seus dias era tão plena e impactante que ele mal conseguia lembrar como era seu cotidiano antes da vinda dele ao Japão. O que ele costumava fazer antes de encontrar Wolfram de novo?
Ele tinha a impressão de que não era o único com essa sensação. A cada dia que passava, Yuri percebia como Wolfram parecia se transformar diante dos seus olhos, abrindo-se para ele e para o mundo, sorrindo cada vez mais, e falando mais abertamente sobre seus pensamentos e seus desejos e… Ah, Yuri não poderia negar, ver Wolfram florescer e crescer de forma tão incrível todos os dias era algo que o fazia sentir-se realizado também.
No início, a forma como Wolfram agia foi o que chamou sua atenção. Ele estava sempre defensivo, afastando quem ousasse se aproximar, fechado em si mesmo. Protegendo-se. Isso despertava em Yuri a vontade de entender o motivo por ele ser dessa forma, e querer ajudá-lo. Foi assim quando eles se conheceram, quando crianças. E foi assim quando Yuri o conheceu novamente, no ano anterior.
Wolfram estava mudando. Era algo visível, mesmo para quem não o conhecia tão bem. Ele interagia com Miyako, e agora com Natsume e Shuuhei também. Ele demonstrava interesse em outras pessoas e nas atividades ao seu redor de uma forma que nunca havia feito antes. Ultimamente, havia um brilho em seu olhar, algo novo, que Yuri ainda não havia testemunhado em todo o tempo em que eles estiveram juntos, mas que parecia, de alguma maneira… livre. Pronto para tentar algo novo. Yuri mal podia esperar para ver esse lado diferente de seu namorado, que ele não conhecia completamente ainda.
Era incrível imaginar que aquele simples impulso de querer ajudar um garoto que parecia solitário iria também transformar sua própria vida a este ponto.
Yuri sempre soube o que as pessoas pensavam dele. Ele tinha ideais fortes demais, hobbies chatos demais, não hesitava em apontar as coisas que achava que deveriam mudar e, além disso tudo, ele só pensava em baseball. Era o único assunto sobre o qual ele conhecia o suficiente para não se sentir acuado, e gostava tanto que poderia falar o dia inteiro sem se cansar. E ele tinha plena consciência do quanto isso era inconveniente para os outros.
Não era nenhuma surpresa que Yuri nunca tivesse conseguido uma namorada. Ok, ele estava sendo modesto. Se não contasse Murata, nem amigos ele tinha direito. Claro, os colegas de time eram legais, mas seu relacionamento com eles terminava assim que colocava os pés fora da quadra. Era um pouco hipócrita, realmente, que ele passasse tanto tempo insistindo para que Wolfram saísse de sua concha e se relacionasse com os outros, quando ele próprio era assim, mas a verdade é que ele nunca se importou em se aproximar tanto assim de qualquer um. Para ele, o que ele tinha estava de bom tamanho.
Então, ele encontrou Wolfram. E tudo pareceu fazer sentido. Ele percebeu que havia algo faltando dentro de si, algo que ele nunca percebeu, mas que agora, havia encontrado. E nunca, nunca, deveria perder novamente.
Não podia negar que eles haviam passado por alguns obstáculos nesse percurso, que poderiam ou não ter sido evitados com alguma comunicação, mas ele estava trabalhando para evitar isso no futuro. Yuuri ficava feliz com a forma como tudo evoluía entre eles, apesar disso, e gostava do conforto e da intimidade que se instalava naturalmente no relacão dos dois.
Mas, claro… Havia aquele acontecimento durante o casamento de Suzanna Julia que talvez ele ainda estivesse evitando pensar, o que feria diretamente a sua declaração de desenvolver melhor a comunicação dentro do seu relacionamento, mas era necessário no presente momento. Yuri simplesmente não sabia lidar com a forma como as coisas correram tão rápido naquela noite. Principalmente com o fato de Wolfram ter sido tão… objetivo em afirmar suas vontades.
Yuri não sabia como fazer isso. Não sabia como abordar o assunto de forma natural, para que eles pudessem conversar sobre, e então, ele poderia descobrir se Wolfram estava mesmo bêbado demais para falar qualquer coisa coerente ou se aquela era uma vontade sua que ele só conseguiu verbalizar graças ao álcool. Dependendo do resultado dessa conversa, eles poderiam decidir — juntos — que rumo tomar a partir de então. Por que ele não era bobo, sabia muito bem a que lugar essa conversa levaria, e que assuntos deveriam ser resolvidos entre os dois. Eles nunca haviam falado diretamente sobre isso, embora fosse natural pensar que, em algum ponto, o relacionamento deles guiaria a este fim. Yuri só não sabia se Wolfram estava pronto para isso. Não sabia se ele próprio estava pronto para isso! E se Wolfram confirmasse suas suspeitas e dissesse com todas as letras que queria… que queria... com ele… Argh! O que ele deveria fazer nesse caso?! Yuri não tinha a menor ideia!
E guardar essas dúvidas para si era uma tortura lenta e insustentável.
~
Shuuhei havia enfatizado sistematicamente que Natsume não deveria ficar se esgueirando perto do emprego dele. Ele sabia muito bem que tipo de motivações obscuras a levariam a praticar tais atos. Ela também sabia. Isso não significava que ela daria ouvidos a ele, obviamente, e ele era tolo por acreditar que isso aconteceria, depois de mais de uma década de convivência provando exatamente o contrário.
Hori havia informado que Shuuhei estava fora, fazendo entregas, então ela estava salva, por enquanto. Ela ainda não havia encontrado vestígios da presença do principal motivo da sua visita repentina, e não havia reunido coragem para perguntar, casualmente, se ele estava por ali.
— E como está o Yuri-kun? Você é amiga dele, não é? — Hori perguntou. Ela era simpática, e Natsume achava fácil falar com ela, por isso, apoiou os braços no balcão confortavelmente para dar continuidade à conversa. — Ele não nos visitou mais, e eu queria saber como as coisas correram com o namorado dele…
— Ah, sim! Eles estão muito bem, mesmo. Parece que andaram tendo algum desentendimento, mas eles conversaram e já foi tudo resolvido! — Natsume contou, animada só de lembrar das cenas que foi capaz de testemunhar graças a isso.
— E ele gostou do presente que o Yuri-kun comprou? — Ela apoiou o rosto na mão, aproximando-se de Natsume, curiosa em saber mais. Apesar de Yuri passar a maior parte do tempo gabando-se sobre seu namorado, ela nunca havia visto os dois juntos pessoalmente.
— Muito! Não sei se você soube, mas ele comprou um par de anéis para os dois. Wolfram não tira o dele por nada no mundo, e eles parecem praticamente noivos!
— Yuri-kun falava tanto do namorado “tão fofo e perfeito” dele quando estava aqui que eu sinto como se já conhecesse ele também. É bom saber que eles estão bem.
— Eu também fiquei feliz de ver isso! Quer dizer, eu conheço os dois há pouco tempo, e, de início, o Wolfram era tão fechado, mas aos poucos ele está se acostumando com todos. Shuuhei me contou que até conseguiu conversar com ele outro dia, e ele prometeu emprestar um livro… Achei um grande avanço, quer dizer, ele não falava com ninguém, sabe? E o Shuuhei chega lá e sem nenhum esforço já consegue se aproximar e conversar com o garoto como se não fosse nada demais. Shuuhei é uma peste, você deve imaginar, mas nesses casos ele consegue ser bem incrível quando quer.
— Ah, sim! — Hori riu, admirada com a repentina evolução de Natsume, que havia aparecido ali tão contida, e agora tagarelava sem nenhuma restrição, como se as duas já fossem amigas de infância. — Você tem certeza que vocês dois não estão namorando? — Ela perguntou, com um tom desconfiado formando-se. Natsume abanou a mão, despreocupadamente, tão acostumada com a conclusão a que todos chegavam sobre eles dois que mal reparava quando isso acontecia.
— Certeza absoluta. — Ela respondeu, naturalmente. — Não entendo como as pessoas podem achar isso.
Hori riu mais uma vez, como se achasse que Natsume estava contando a melhor piada do dia. No entanto, sua risada parou repentinamente, quando ela percebeu algo atrás de Natsume, e voltou a ocupar-se com suas funções, normalmente, com o sorriso simpático padrão de sempre. Natsume sentiu algo frio correr em sua espinha. Um péssimo pressentimento.
Não precisou olhar para trás para ver qualquer coisa, pois logo uma voz suave e terrivelmente familiar a saudou.
— Você realmente voltou a aparecer, Natsume! Que ótima surpresa!
N-Natsume? Natsume era ela, não era? Por que aquela voz estava dizendo seu nome, de forma tão casual, como se não fosse nada? Será que “Natsume” deveria significar outra coisa? Ou o nome de Hori era Natsume? Ela pode ter lido o crachá errado.
Claro, claro, só poderia ser isso, digo, em que realidade paralela ela teria que ter caído para algo como o modelo internacional mais famoso do Japão atualmente, do qual ela por acaso era uma admiradora discreta e ocasional, estar chamando pelo seu nome como se eles fossem apenas conhecidos que coincidentemente encontram um ao outro em uma confeitaria, em uma bela e iluminada tarde de sábado? Totalmente improvável.
Mesmo assim, com todas as estatísticas gritando sobre a improbabilidade do fato dele a conhecer pelo nome, lá estava ele, parando exatamente ao seu lado, com o mesmo sorriso que ela via todos os dias ao acordar e olhar para as paredes do seu quarto. Ela esqueceu brevemente como se fazia para respirar. Engasgou com o ar que entrou e não encontrou lugar para sair.
Os cabelos platinados estavam presos em um coque um tanto desleixado, com fios caindo sobre o olho, e que dizia claramente “acordei e fiz isso rapidinho antes de sair”, mas que, mesmo assim, era como se cada mecha de cabelo encontrasse o lugar exato para se encaixar no penteado perfeito. E, ah, não, ele estava usando óculos! Óculos de leitura, de armação fina com estrutura de cor clara e ligeiramente arredondada, descendo levemente pela ponte do nariz para que ele pudesse olhar por cima deles. A blusa de mangas compridas caía perfeitamente no corpo magro, deixando aparente o pescoço longo e parte da clavícula. É claro que as calças pretas tinham que ser justas. E… Ah! Aquelas botas de cano curto com fivelas, Natsume precisava de botas como aquelas na sua vida. Como é que um ser humano conseguia se vestir de forma tão casual e ainda assim, ainda assim….
Ok, ela tinha se distraído por um período de tempo excessivo, o que tornava toda a circunstância na qual ela estava envolvida um tanto quanto bizarra. Porém, ele continuava a sorrir para ela, esperando apenas por alguma resposta. Natsume bem que tentou dizer qualquer coisa, mas estava começando a sentir-se tonta. Provavelmente era a falta de oxigenação no cérebro, depois que ela parou de respirar.
— Você lembra de mim, não é? — Ele continuou, como se ela não estivesse agindo de forma absurda diante dos seus olhos. — Eu sou Saralegui, gerente da confeitaria…
— Eu sei! — Ela respondeu rápido demais, alto demais. Encolheu-se, forçando a sua frequência respiratória a voltar a funcionar, para poder falar de forma (quase) normal. — E-eu lembro.
— Que ótimo! — Ele bateu palmas uma vez, parecendo animado com a perspectiva. — Fico feliz que tenha aceitado o convite para retornar. Não quer me acompanhar em uma xícara de chá, ou café? Por conta da casa. — Indicou com uma das mãos as mesas vazias dispostas próximas à parede. Enquanto Natsume ainda balbuciava tentativas de respostas, ele já ia a conduzindo para o lugar disponível, puxando a cadeira para que ela a ocupasse. Ela simplesmente não teve opção de recusa, ou, pelo menos, foi assim que justificou mentalmente a falta de reação imediata.
Sara insistiu para que ela aceitasse uma xícara de chá e um pedaço do novo sabor de bolo que estavam testando na cozinha, pedindo sua opinião sobre ele. Contou para ela sobre a pilha de documentos que ele tinha que reler e assinar, sobre o fornecedor de amêndoas e nozes que havia se atrasado naquela semana, acabando com todo o planejamento prévio, e como estava sendo difícil encontrar um funcionário que ocupasse o lugar de Yuri, desde que ele havia saído.
Apesar da dificuldade inicial, Natsume apreciou a cordialidade de Sara e o fato de ele ser tão comunicativo, e, aos poucos, conseguiu desenvolver algo que se aproximava de um diálogo com coerência e sentido. O bolo era ótimo, o chá também. Talvez ficasse melhor com chocolate amargo (e ele anotou a sugestão, prontamente). Ela podia imaginar o quanto era difícil conciliar a administração de um lugar como aquele com seu trabalho como modelo — e nesse momento, ele pareceu lisonjeado por ela saber sobre este detalhe — e ela disfarçou um gaguejado “Shuuhei comentou comigo antes” como desculpa.
Sobre Yuri, um assunto que ambos tinham em comum, foi fácil contar como ele andava se esforçando no time de baseball agora, e que ele e Wolfram estavam em uma fase quase lua-de-mel, depois do aniversário dele. Inclusive, Wolfram andava mais amigável, podemos classificar assim, e até conversava com mais pessoas. Sara pareceu bastante admirado ao saber que Shuuhei havia conseguido de alguma forma se aproximar do garoto, com os interesses compartilhados que os dois possuíam em literatura, e, como ela se empolgava rapidamente com qualquer assunto, logo estava se sentindo mais à vontade para falar sobre Shuuhei e suas proezas.
Sara prestava atenção em tudo o que ela contava, sem nunca parecer entediado ou desviar o olhar. Natsume estava no paraíso. Por isso, não viu o tempo passar, e quando percebeu, já havia passado muito mais do que o planejado ali. Shuuhei poderia chegar a qualquer momento, e… Bem, ela não estava tentando esconder nada dele, claro que não. Inclusive, adoraria contar a ele tudo sobre aquela… surreal… tarde, imediatamente, se fosse possível. Só não sabia como deveria reagir se Shuuhei aparecesse e a visse dividindo a mesa com… ele. Conversando de forma quase natural, como se fosse apenas mais uma tarde de sábado comum e sem nada de extraordinário. Ele provavelmente falaria alguma coisa que ela não estava com vontade de ouvir.
Era um choque de universos que ela não queria presenciar, pelo menos não agora. Porque Shuuhei sempre parecia desconfortável em todos os momentos em que Natsume resolvia citar a sua “pequena” admiração pelo modelo, e isso havia se instalado de forma definitiva depois que ela o viu pessoalmente pela primeira vez. E ela só não queria causar nenhum tipo de situação estranha entre todos. Só isso.
Então, quando ela percebeu o passar das horas, ergueu-se quase de súbito, surpreendendo o outro, que estava no meio de uma história incrível sobre como a companhia aérea errou sua passagem e ele teve que passar uma semana inteira preso em um hotel no Alaska por causa de uma nevasca não esperada.
— Ah, desculpe, me desculpe! Eu não quis interromper. Eu só… acho que eu tenho mesmo que ir embora agora.
— Ora, tão cedo? — Ele se ergueu também. Natsume engoliu em seco. Ela simplesmente não conseguia lidar com a expressão que ele estava fazendo agora. Um misto indecifrável de compreensão e alguma outra coisa que ela não conseguia ler, e argh! Era demais para processar.
— Bem, já está ficando bem tarde, na verdade… — Ela riu, um tanto sem graça, amaldiçoando-se imediatamente pela risada estranha que saiu. — Eu agradeço pelo bolo, estava delicioso, de verdade! Deveria colocar no menu, estava mesmo muito bom. E, ahn… obrigada pela… conversa, também… — Ela se atrapalhou com as palavras novamente, e escolheu sabiamente manter-se em silêncio.
— Eu que agradeço. — Sara sorriu, colocando uma mecha de cabelo atrás da orelha. Wow. Aquilo era o cabelo dele refletindo o brilho do entardecer? Porque Natsume quase podia ouvir o coro dos anjos cantando naquela luz. É, era hora de ir embora, definitivamente. — Adorei conversar com você, certamente me salvou de horas de aborrecimento com os meus documentos.
Natsume não sabia muito bem o que responder, mas esperava que as sílabas desconexas que escaparam soassem como um agradecimento ou uma afirmação, enquanto ela se dirigia de volta à entrada. Sara, como o gentleman que era, a acompanhou até a porta.
Ela acenou rapidamente para Hori antes de sair, e então, ao seguir para a calçada, reuniu coragem para virar para trás e abanar a mão para Sara. Ele ainda sorria, movendo os dedos de forma graciosa para ela em resposta.
— Pode voltar sempre que quiser, Natsume. Estarei esperando.
Naquele momento, o sol poente bateu nas lentes dos óculos de leitura que Sara usava, e Natsume não pôde ver a expressão no rosto dele. Ela não pensou muito nisso, e seguiu seu caminho, sentindo o coração tão acelerado que era quase como se fosse levantar voo, sozinho. Não conseguia conter o sorriso que insistia em se exibir em sua expressão.
— A Miya não vai acreditar quando eu contar pra ela…
~
Quando chegou à casa de Wolfram, Yuri não precisou esperar muito para entrar. Saudou os funcionários da casa que conhecia pelo nome, e foi imediatamente informado que Wolfram estava na varanda, nos fundos da casa. Provavelmente não o esperava tão cedo — Yuri havia se afobado e saído de casa antes do horário planejado, mas isso não seria um problema.
— Wolf? — Ele espiou pela ampla abertura de vidro que dava acesso aos fundos, olhando para os dois lados. — Tá aí?
— Chegou cedo, Yuri.
A voz veio por trás, e Yuri sobressaltou, girando o corpo inteiro até perceber Wolfram parado, balançando-se suavemente nos próprios pés e com um sorriso calmo no rosto. Yuri sentiu o mesmo sorriso espelhar-se em sua expressão, e puxou-o pela cintura, repousando a mão ali, em um meio abraço. O ato havia sido automático, e Wolfram cedeu ao seu toque normalmente, como sempre, deixando-se ser abraçado, e apoiando os braços nos ombros de Yuri em resposta.
Yuri sentiu algo em si travar, ao perceber a proximidade do outro. Tentou disfarçar, com um beijo longo na bochecha de Wolfram, antes que ele avançasse mais, e sorriu, sem se afastar.
— Por que me chamou hoje? Parecia que tinha algo para me contar. — Como Wolfram ainda parecia tranquilo, Yuri não se preocupou tanto, mas ainda estava intrigado com aquele chamado tão repentino.
— Na verdade, tenho sim. — Wolfram se afastou apenas o suficiente para encará-lo enquanto falava. — Mas não precisa ser agora. Não quer subir? — Ele deslizou a mão pelo braço de Yuri até entrelaçar seus dedos, e começar a puxá-lo em direção ao interior da casa. Yuri não se moveu.
— Ahn, subir? Onde? — Ele indagou, claramente confuso, ou melhor seria, nervoso. Wolfram apenas arqueou uma das sobrancelhas.
— No meu quarto? Podemos conversar, e assistir alguma coisa… — O sorriso que se espalhou lentamente no rosto do loiro sugeria algo mais do que inocentemente assistir televisão no quarto, e Yuri engoliu em seco. Isso não podia estar acontecendo. O universo estava o testando, só podia ser isso.
Sozinho com Wolfram, sem a possibilidade de alguém interromper, sem distrações, e, mais importante, em cima de uma cama. Depois de toda a confusão ocasionada no interior na mente do pobre Yuri ao lembrar do seu dilema referente à fatídica noite do casamento naquele quarto de hotel. Este era um perfeito exemplo de situação que ele deveria evitar a todo custo, ao menos até organizar seus pensamentos referentes a isso. Não seria nada justo deixar Wolfram tão perturbado quanto ele se encontrava no momento, principalmente quando parecia que ele não lembrava de nada específico sobre o que fez — e disse — naquela noite.
— É que… tá quente hoje. Não é? — Yuri puxou Wolfram para o lado de fora, onde era seguro ter uma conversa madura e respeitosa com seu namorado. Em público, e as empregadas da casa poderiam passar a qualquer hora, ocupadas com uma ou outra tarefa. Eles não estariam completamente sozinhos dessa forma.
— Eu tenho ar condicionado no quarto. — Wolfram replicou, sem entender. Yuri soltou uma risada desajeitada.
— Mas seria um desperdício ficar lá dentro e não aproveitar esse dia lindo que está fazendo! Você tem um jardim tão bonito aqui… — Yuri indicou amplamente o pátio ao redor da varanda onde se encontravam, parecendo mais entusiasmado com o paisagismo do local do que seria de se esperar. Wolfram deu de ombros, aquiescendo. Realmente, o dia estava muito bonito. Eles deveriam aproveitar.
— Já que está com calor, nós poderíamos usar a piscina. — Wolfram sugeriu. Yuri inclinou a cabeça para o lado.
— Piscina? Existe uma aqui?
— Depois do jardim — Wolfram apontou — Quase nunca usamos, mas ela está lá. Não quer?
— Ahn… Parece bom? — Yuuri murmurou, incerto. — Mas eu não trouxe roupa de banho nem nada…
— Besteira, eu empresto para você. Vamos. — Decidido, Wolfram puxou Yuri de volta para dentro da casa, e ele nem teve tempo de opinar ou argumentar. Só então ele compreendeu inteiramente as implicações que aquela simples oferta trazia.
Piscina. Roupa de banho. Pele exposta.
Yuri estava tão ferrado. Será que era muito tarde para voltar atrás e aceitar a proposta de assistir televisão no quarto? Ao menos eles estariam com roupas.
A resposta era sim, era tarde demais para voltar. Quando percebeu, Yuri já estava metido em um calção de banho cinza-escuro que Wolfram emprestara — e que ele fez questão de vestir no banheiro social do andar de baixo, e, por isso, já estava a caminho da piscina, levando no ombro uma toalha que uma das criadas gentilmente ofereceu, enquanto cuidava de recolher as roupas de Yuri para que ele voltasse a usá-las depois.
Yuri sentou na beirada da piscina, colocando os pés na água e balançando lentamente. Não era uma ideia ruim, afinal, estava mesmo calor naquele dia. O que de tão ruim poderia acontecer numa simples atividade de lazer como aquela? Eles iriam se molhar, brincar um pouco na água, e sair. Simples assim. Sem situações desconfortáveis, sem assuntos que ele tentava evitar trazidos à tona, sem conversas embaraçosas e difíceis. Não havia como isso dar errado.
Ele notou a movimentação ao longe, e ergueu o rosto. Péssima ideia. Wolfram vinha caminhando na sua direção, um passo de cada vez, e parecia que o mundo inteiro estava rodando em câmera lenta naquele momento. Porque o cabelo de Wolfram se movia tão suavemente com a brisa leve, e ele não estava vestindo nada além de um traje de banho azul-marinho, pouco maior do que uma sunga, mas que não chegava a ser um calção propriamente dito. Havia uma palavra para aquele tipo de peça de roupa, mas o cérebro de Yuri se recusava a processar a informação. De qualquer forma, a peça era justa demais em partes que não importavam, e Yuri sentiu toda a sua racionalidade derreter e parar de fazer sentido no mesmo instante.
Wolfram devia estar fazendo de propósito. Essa era a única explicação plausível.
— Desculpa a demora, eu estava passando protetor solar… — Wolfram informou, enquanto deixava a sua toalha em uma das cadeiras ao redor da piscina, e contornava a mesma, para ajeitar o guarda-sol próximo para que ele projetasse sua sombra na água.
Quando ele virou de costas para fazer isso, Yuri sentiu alguns anos da sua vida sendo arrancados à força, na tentativa hercúlea de controlar o rumo dos seus pensamentos, que continuavam vagando contra sua vontade para aquela bunda... Noite! Para aquela noite! Quer dizer, ele não devia estar pensando naquela noite também! Argh!
Wolfram sobressaltou ao sentir água respingar em si e o barulho de algo se jogando na piscina, e, ao olhar para trás, Yuuri já havia mergulhado com tudo, sem nem esperar por ele. O rosto de Yuri emergiu da água, com um sorriso sem graça.
— Ahn… A água está boa, hehe.
Wolfram revirou os olhos e não hesitou em acompanhá-lo, embora de forma bem menos espalhafatosa que o namorado. Apenas sentou na borda e pulou para a água. Estava um pouco gelada para seu gosto, mas ele não se importou. Mergulhou mais uma vez, com graciosidade inata, na direção de Yuri, surgindo novamente exatamente na frente dele.
Com os dedos, ajeitou o cabelo molhado para longe da testa de Yuri, penteando-os para trás, e sorriu, sentindo as mãos dele segurando-o pela cintura, dentro da água. Yuri o fitou por alguns segundos, e logo depois desviou o olhar, mantendo-se ligeiramente afastado, mas não totalmente. Sua pele havia se arrepiado instantaneamente, e não era pela água fria.
— O que você queria me contar, mesmo? — Ele indagou. — Está me deixando curioso, sabe?
Wolfram riu baixinho, avançando alguns passos. Eles estavam na parte mais rasa, e a água chegava até pouco abaixo dos seus ombros. Yuri sentiu suas costas baterem na parede da piscina, e o corpo de Wolfram pressionando-se por inteiro contra o seu, as mãos apoiadas contra seu peito.
— Isso pode ficar para depois.- Lá estava de novo, o sorriso perigoso de Wolfram von Bielefeld, só esperando para corromper toda a preparação mental que Yuuri estava construindo antes dele aparecer.
Flashs de lembranças da Noite-Que-Não-Deveria-Ser-Relembrada facilmente penetraram pelas muralhas de proteção que Yuri tentava em vão erguer, e ele se sentiu encurralado novamente. Agir normalmente era impossível para ele, ignorar as preocupações que rondavam sua mente, mais ainda. Na tentativa de desviar os olhos do rosto de Wolfram, Yuri esbarrou em outra visão daquela noite que tentava afastar. Com o corpo dele diante de si, tão próximo e descoberto, e ele só precisava mover a mão para sentir a textura da sua pele novamente, explorando cuidadosamente cada canto, cada parte, cada nova sensação… Ele lembrava claramente de tudo isso, com uma esmagadora nitidez, e isso estava o levando à loucura.
O cheiro de Wolfram, tão familiar, misturado ao cloro e ao protetor solar, um aroma único que lembrava verão e férias de uma forma distante, invadiu o olfato de Yuri de uma só vez, quando o loiro inclinou-se na sua direção, e tomou seus lábios sem nenhuma hesitação. O beijo foi impetuoso, mas breve. Wolfram roçou seu nariz molhado contra o de Yuri, indicando que desejava prosseguir com o contato.
— W-Wolfram, você está bem… apressado, hoje.. O que aconteceu? — Por mais tentador que parecesse seguir beijando Wolfram, Yuri resolveu seguir por outro caminho.
— Não aconteceu nada? — Wolfram parecia não ter entendido o motivo da pergunta. — Eu só… estava com saudades. — Ele admitiu, mais honestamente do que Yuri esperava que ele fizesse, embora ele tivesse virado o rosto para o lado, e aquele adorável tom rosado permanecesse colorindo sua face e as pontas das suas orelhas. — Eu sei que é inevitável agora, mas parece que faz uma eternidade desde que nós conseguimos passar algum tempo juntos. Ultimamente só nos vemos durante a aula e no caminho para casa…
— Ah… — Yuri passou a mão pelos cabelos úmidos, e baixou o olhar. — Eu não sabia que você se sentia assim… Fiquei tão envolvido com o baseball, de novo, e eu queria mostrar pro time que eu podia voltar, então…
— Ei, eu nunca disse que isso era um problema. — Wolfram ainda sorria calmamente, envolvendo o pescoço de Yuuri com seus braços, aproximando seus rostos. — Na verdade, eu gosto quando você fica tão compenetrado em alguma coisa assim, e eu fico feliz de ver que o time está indo bem e que você pode jogar de novo. Eu sei o quanto você ama baseball, o quanto se esforçou por isso, e eu quero apoiá-lo da melhor forma possível, porque eu também sei que se a situação fosse o contrário, você faria exatamente o mesmo por mim.
Yuri sorriu, acariciando o rosto de Wolfram com o polegar, enquanto sua outra mão ainda o segurava pela cintura embaixo d’água. Às vezes, sobretudo em momentos como esse, ele se perguntava como raios havia merecido um namorado como Wolfram em sua vida. A aliança, nova e brilhante em seu dedo, cintilou contra o sol, como se confirmasse sua conjectura interna. Era a sorte de uma vida inteira, certamente.
— Eu prometo compensar por essa ausência, Wolfram… Nós podemos marcar um encontro no próximo final de semana, se você quiser. Nós podemos ir ao cinema e comer alguma coisa, também…
— Não precisa nada disso, fracote. — Wolfram revirou os olhos. — Não foi isso o que eu quis dizer. Não estou reclamando. Só acho que nós deveríamos aproveitar ao máximo esse tempo que temos agora, é isso. — Ele se aproximou mais uma vez, fazendo a água ao redor de si se mover, enquanto ele colava o corpo contra o de Yuri, sem dar a ele qualquer chance de escapar. — Entendeu agora? — Ele soprou contra a pele de Yuri, fazendo-o estremecer levemente.
— A-acho que entendi. — O cabelo de Wolfram estava molhado, e pingava lentamente quando ele se movia. Haviam gotas de água percorrendo seu rosto e seus ombros, fazendo sua pele refletir a luz do sol de uma forma que Yuuri mal conseguia conceber. Um breve pensamento nada virtuoso sobre percorrer caminhos por aquela pele iluminada com seus lábios o fizeram tentar recuar um passo, sobressaltado (o que se provou ineficaz, já que ele estava completamente encurralado no canto da piscina).
Wolfram não pareceu perceber esse detalhe, já que, convencido de que sua mensagem havia sido transmitida corretamente, ele já avançava para conseguir o que queria, e, dessa vez, Yuri não encontrou em si argumentos para se convencer de que não deveria permitir que isso ocorresse.
Então, Wolfram o beijou, com a experiência adquirida em meses e a avidez acumulada por semanas. E Yuri não pôde fazer nada além de corresponder às expectativas dele com semelhante entusiasmo. O loiro o trazia para mais perto, entrelaçando os dedos em seus cabelos, e acariciando seu maxilar com a outra mão. Yuri o abraçou com mais vontade, apertando as mãos contra suas costas, e trazendo-o junto a si.
Seu coração acelerou de uma forma inacreditável, mesmo depois de tudo, e Yuri sentiu sua cabeça girar, cada vez menos coerente, focando apenas na sensação quente de ter Wolfram em seus braços, em um forte contraste com a água fria ao redor. Era como abraçar fogo, e ele queimava sua pele da maneira mais deliciosa que poderia imaginar.
Uma das mãos de Wolfram viajou livremente pelo seu tórax, por baixo da água, os dedos percorrendo cuidadosamente o caminho até seu abdômen. Ele interrompeu o contato entre seus lábios, imediatamente depositando breves beijos no caminho pela sua mandíbula, até pouco abaixo da orelha. Yuri deixou escapar um resmungo contido com o contato inesperado, e isso incentivou Wolfram ainda mais. A mão curiosa dele contornou sua cintura e repousou na perigosa região do cós do seu calção, parando ali, enquanto ele descia ainda mais seus lábios, até o pescoço de Yuri, provando sua pele com a língua.
Seu corpo reagiu.
“Eu quero… dentro… de mim…”
“Você...”
Yuri abriu os olhos de súbito — quando exatamente ele havia fechado? — e em um reflexo impensado, afastou Wolfram pelos ombros. Ele o encarou, assustado, confuso, preocupado. Yuri também se sentia assustado, confuso e preocupado. Os dois se encararam pelo que pareceu uma eternidade, com olhos alertas e respiração levemente ofegante, mas não mais do que dois segundos se passaram. Yuri não sabia por onde deveria começar a se desculpar.
— O que houve? — Wolfram indagou, a voz fraca. Yuri ouviu algo implícito naquele tom de voz, um tipo de “o que eu fiz de errado?” que não deveria estar ali, e sentiu um peso afundar em seu estômago. A única pessoa errada naquele momento era ele próprio. Deveria ter exposto suas dúvidas para Wolfram há dias, no exato momento em que elas começaram a surgir. Adiar isso só estava levando a criar ainda mais problemas, todos desnecessários.
— Wolf, acho… Acho que nós temos que conversar.
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