Sono Te Hanasanaide
54 Capítulo LIII
Ikutsu mono itami mo ikutsu mono zasetsu o
Nós sentimos muita dor, frustração
Kurikaeshite susunde yuku
Mas continuamos a caminhar pra frente
Bukiyou na mamaippo zutsu
Desajeitadamente um passo de cada vez ...
Kizutsukerareru koto ni nareta bokura wa shitteru
Estamos acostumados a nos machucar, por isso sabemos
Hontou wa aisaretakute shikata ga nai koto o
Que querer ser amado é algo que não podemos evitar
Mitomeru yuuki ga motenai no nara
Se não temos coragem para aceitar isso
Mou mayowazu te o nobasou
Vamos levantar as nossas mãos, sem hesitação
Yasashisa toka omoi dake ja ikite yuke wa shinai
Nós não vamos continuar a viver apenas com gentileza
Dakarakoso jibun rashiku aritai negau no de
É por isso que queremos permanecer nós mesmos
Kibou kazoete ashita kazoete
Contando as nossas esperanças, contando nossos futuros
Sou yatte bokura aruiteku
É assim que continuamos caminhando
Mada minu ashita e aruiteku
Nós caminhamos para um novo amanhã...
~Capítulo 53~
Era tão estranho estar ali agora. No meio da quadra, que sempre foi tão familiar e reconfortante para ele, Yuri se sentia desconfortável. Seus colegas de time — não todos, ele precisava reconhecer — o olhavam como se ele não pertencesse àquele lugar. Conrad o assegurara várias vezes que ele não teria dificuldades, e que todos o aceitariam de volta sem maiores problemas, mas ele não tinha tanta certeza assim disso.
O pior de tudo era que Yuri não conseguia se concentrar inteiramente nessa questão no momento, porque ainda estava com a cabeça cheia de pensamentos sobre Wolfram e o que estava acontecendo — que ele ainda não compreendia, mas queria resolver o mais rápido possível. Como havia chegado depois, trocou-se rapidamente sozinho no vestiário, antes de chegar e se juntar ao resto do time, então todos que já estavam reunidos ali apenas fitavam a ele e Conrad, esperando por instruções. Yuri acenou ligeiramente, tentando trazer algum clima mais ameno, mas ninguém respondeu ao seu cumprimento, nem ao menos ao seu sorriso forçado. Ele suspirou. Ainda havia um longo caminho a percorrer ali, por mais que Conrad tivesse dito que tudo estava bem.
Cabelos loiros. Sua atenção foi imediatamente captada quando ele notou uma movimentação do outro lado da quadra, onde o time de vôlei treinava. Podia ter jurado que havia visto Wolfram lá, mas como estava no meio de um semicírculo formado pelos jogadores, eles atrapalhavam sua visão. Quando ele olhou novamente, não havia ninguém lá.
— Hey, Yuri? Está me ouvindo? — Yuri assentiu rapidamente, percebendo que Conrad já começara a falar. — Coloque seu equipamento e fique em posição. Vamos começar com um jogo leve, veteranos contra calouros, apenas para aquecer, ok? Yuri, você fica no time dos calouros, que têm menos pessoas.
— Osu! — Yuri fez como ordenado, embora seu olhar ainda escapasse para o lado oposto, enquanto ele colocava o capacete e o colete de proteção. Colocou-se atrás do rebatedor do time adversário, e se preparou. Sim, aquela era sua função, era o que ele sabia fazer. Precisava se concentrar nisso, por enquanto.
Mas Wolfram parecia tão abatido, durante o tempo que pode vê-lo durante a aula… Ele estava magoado? O que Yuri poderia ter feito de errado? Como poderia se desculpar? Não, agora não. Concentração, Shibuya. Baseball. Nishimura era o rebatedor. Ele costumava ser ruim com bolas lentas, era melhor como pitcher. Yuri sabia exatamente como fazê-lo errar. Fez o sinal para o lançador do outro lado, que era um kouhai cujo nome ele não lembrava imediatamente, mas era algo como... Yonezou, talvez. O garoto menor, de cabelos castanhos claros volumosos que escapavam do boné na sua cabeça, assentiu, com um meio sorriso cúmplice que fez Yuri se sentir um pouquinho melhor. Sim, quando estavam jogando, todos estavam do mesmo lado. Não havia diferença quando o objetivo comum era ganhar.
Yonezou se preparou e lançou a bola, conforme Yuri havia orientado. Nishimura chacoalhou seu bastão de forma precisa, mas alguns centésimos de segundos mais rápido do que deveria. A bola se encaixou com perfeição na luva de Yuri, e ele ouviu Conrad gritar “Strike One”. Riu fracamente, levantando-se e jogando a bola novamente para Yonezou. Nishimura lançou para ele um olhar irritado, raivoso. Yuri o fitou de volta. Queria entender de onde vinha tanta animosidade.
Olhando ao redor, percebia que ninguém do time estava tão averso assim ao seu retorno. Continuaram a jogar normalmente, e Nishimura perdeu mais uma bola, até enfim rebater a terceira. O time dele ganhou, no fim, mas Yonezou e mais outros calouros vieram conversar com Yuri, indagando sobre o que teriam feito de errado e como poderiam melhorar. Nishimura trincou os dentes, encarando Yuri de longe, e parecia não estar gostando nem um pouco do rumo que a situação tomava.
Depois daquele jogo de aquecimento, Conrad ordenou que todos começassem a correr ao redor da escola, como forma também de aliviar os humores que, ele reparou, ficaram um pouco mais exaltados depois do breve jogo. Yuri se juntou aos colegas sem hesitar, pois, pensou, dessa forma poderia ainda procurar por Wolfram pelo pátio sem precisar sair do treino. Não demorou a avistar alguém realmente familiar, mas que, infelizmente, não era Wolfram.
Miya acenava de longe para Yuri, alegre por vê-lo no clube de baseball novamente, e acompanhada da garota que causara confusão na confeitaria da última vez, como sempre, aliás. Yuri reduziu o ritmo em que corria, parando ao chegar até elas, deixando que o resto do time seguisse sem ele.
— Oi, Onii-chan! Está indo bem na prática de… — Ela parou na metade da frase, ao reparar bem no semblante de Yuri. Apesar de ser compreensivo que ele pudesse estar cansado enquanto treinava, a expressão que trazia era muito mais carregada do que deveria. — Aconteceu alguma coisa? Eles estão sendo cruéis com você? Falaram alguma coisa?
— Não, não aconteceu nada com eles. É outra coisa… — Ele suspirou longamente, antes de decidir se contava tudo agora ou esperava até chegar em casa. Como Miya parecia absolutamente preocupada, e ele não sabia mesmo o que fazer agora, resolveu que era melhor dizer tudo de uma vez. Além do mais, a amiga dela não parecia ser alguém que se incomodaria com os seus assuntos amorosos de qualquer maneira (na verdade, ela parecia bem curiosa para saber).
— Conta logo, Nii-chan! — Miya o apressou, com Natsume assentindo enfaticamente ao lado dela.
— Acho que eu fiz alguma coisa errada… O Wolfram não fala comigo desde manhã cedo… Bem, na verdade, desde o fim de semana, porque ele não atendeu minhas ligações também, e eu não sei mais o que fazer. Já tentei conversar com ele, mas ele conseguiu fugir de mim e se esconder, e eu não consigo encontrá-lo em lugar nenhum...
— Mas… o Wolfram-kun não costuma ser assim… — Miya ponderou, um tanto intrigada. — Ele geralmente fala quando tem algum problema, e vai tirar satisfações diretamente, não é? Eu sempre ouço quando ele vem gritar com você por qualquer coisa...
— Sim, por isso eu não sei o que fazer. Ele parecia muito abatido, também. Quase… Quase como ele era quando se mudou para o Japão, ano passado. Eu não gosto de ficar sem fazer nada, quando vejo que ele está assim… — Yuri escondeu as mãos nos bolsos, balançando-se inquietamente nos próprios pés, enquanto olhava para o chão. Estar impotente diante de uma complicação era uma das piores sensações que ele conhecia, e odiava sentir-se assim, principalmente quando o assunto envolvia Wolfram.
— E o que pode ter acontecido para ele agir assim...? — Natsume indagou, também pensativa.
— Eu não faço ideia, nada vem na minha cabeça… Se ao menos eu soubesse, poderia me desculpar direito, mas nem isso…
— Quer que a Miya pergunte? — Miyako sugeriu, rapidamente, sorrindo de maneira solícita.
— Você faria isso? — Ele repetiu, incrédulo. Não sabia se essa era uma boa ideia, de fato — mas, desesperado do jeito que se encontrava, agarraria-se em qualquer solução.
— Claro! — Ela logo se animou. — Eu posso passar na casa dele agora mesmo, e fazer ele falar tudo! Depois, eu conto para o nii-chan, e tudo se resolve, certo?
— Acho que sim… — Ele coçou a nuca, incerto. — Você ao menos sabe onde é a casa dele?
— Claro que sei! Eu já fui tomar chá da tarde com a Cheri-san! — Ela contou, como se fosse uma situação corriqueira. Yuri não sabia disso. Não sabia nem que Miya conhecia a mãe de Wolfram. Repentinamente, sentiu-se vulnerável. Eram tantas coisas que ele não sabia… — E a Natsume-san vai comigo, não vai?
— Eu vou? — Ela pareceu também surpresa.
— Se não se incomodar, seria bom, porque a Natsume-san é muito boa em conversar com as pessoas, certo?
— Ah… Se você diz…
— SHIBUYA! — O grito que cortou o ar sobressaltou os três adolescentes. Yuri se esquecia do quão alto Conrad podia berrar quando estava no seu modo “técnico”. Nem parecia a mesma pessoa cordial e sorridente de sempre.
— Tenho que ir, muito obrigado, Miya, Natsume-san — Ele já ia correndo enquanto falava, e logo sumiu na direção por onde o resto do time tinha ido, deixando as duas garotas sozinhas, ambas refletindo sobre como conseguiriam convencer Wolfram a conversar sinceramente com elas.
~
Wolfram encarava o dossel da sua cama. Ao chegar em casa, completamente exausto mentalmente, se jogou ali de qualquer jeito, e permaneceu por um período de tempo indeterminado. Não dormiu, mas não conseguia encontrar disposição para sair daquele lugar. As horas passavam, mas ele só tinha consciência disso porque a iluminação que entrava pela sacada mudara, e agora, tingia seu quarto de um pesado tom de laranja. O céu no Japão tinha sempre cores intensas, ofuscantes, e ele não queria ver nada disso agora. Não queria se mover.
Tudo ao seu redor lembrava demais Yuri, fosse o céu, o golfinho de pelúcia na sua estante, a foto dos dois logo ao lado, ou o globo de neve na sua mesa de cabeceira. Para onde quer que olhasse, a presença do outro enchia seus olhos e sua cabeça.
Ele sabia muito bem o que estava fazendo. Adiando a derradeira conversa, que encerraria tudo, e deixando para depois, simplesmente, porque não aguentaria. Shuuhei tinha toda a razão, mesmo que a verdade fosse difícil, ele precisava ouvir, e ter certeza. Só não sabia como encarar Yuri, afinal. Não sabia o que dizer para ele quando chegasse a hora. Quando tudo terminasse, eles continuariam amigos? Wolfram não suportava essa ideia, e só de pensar em ter que ver Yuri com outra pessoa, seja quem fosse, sentia vontade de sumir para sempre. Talvez, pudesse enfim aceitar a sugestão do seu tio para estudar fora. Fugir, como estava acostumado a fazer, para não precisar dizer a Yuri que tudo ficaria bem, mesmo depois do fim. Até porque, ele sabia que não ficaria.
E não, ele não conseguia pensar positivo — isso sempre havia sido o papel de Yuri, afinal. Para ele, o fim era consumado, imediato, estava decidido. Wolfram era teimoso, e quando uma ideia se encravava na sua mente, não havia maneira de tirá-la de lá. Talvez, até houvesse, mas o único que sabia como realizar essa façanha era o próprio Yuri.
Ele sentia o seu celular tocar e vibrar dentro da mochila, ao pé da cama, mas não atenderia. Não importava quem estivesse ligando, certamente não era ninguém com quem ele quisesse falar agora. O celular tocou por mais alguns minutos, insistentemente, e Wolfram já estava levantando para desligá-lo, ou jogá-lo na parede, quando ouviu batidas na porta do seu quarto. Não teve tempo de pedir para a pessoa em questão ir embora, pois a porta já foi sendo aberta no mesmo instante.
— Senhor Wolfram, o senhor tem visitas. — Uma das empregadas, Margareth, inclinou-se educadamente ao chamá-lo, sem adentrar o quarto. Wolfram gelou por dentro.
Era isso. Yuri havia vindo para terminar tudo. Maldito fracote imbecil, como é que Wolfram não pensou nisso antes? É claro que ele não era do tipo que consegue mentir e enganar, escondendo as coisas por tanto tempo. Ele era honesto, afinal, era uma das coisas que Wolfram tanto admirava nele, então é claro que seria sincero até o fim e viria esclarecer as coisas pessoalmente.
— Diga ao Yuri que eu não estou disposto. Não quero vê-lo agora. — Ele virou o rosto, voltando a deitar na cama.
Margareth pareceu confusa.
— Não é o Senhor Yuri que veio vê-lo… Na verdade, trata-se da Lady Miyako, Senhor… — Ela informou. Wolfram sobressaltou, erguendo-se. Miyako? Certo, já era surpresa que Miya estivesse frequentando a sua casa o suficiente para que as empregadas a tratassem pelo primeiro nome, mas o que raios a prima de Yuri teria para tratar com ele, pessoalmente, acima de tudo? Yuri não era covarde, para terminar tudo por meio de terceiros, isso ele sabia. Então, mais uma vez, estava confuso.
Decidiu se levantar, e ir ao encontro de Miyako. Quanto antes resolvesse o assunto que a trouxera até ali, mais rápido poderia voltar a fazer nada no seu quarto. Ia descendo as escadas principais, que eram em um delicado meio espiral, quando ouviu vozes um tanto quanto animadas, dando risada, no andar de baixo. Uma, era uma voz feminina, e a outra era… de Gwendal?
Ele se apressou em descer, até visualizar o hall da escada, onde havia uma simples ante-sala. No pé da escada, Miyako esperava, sorrindo e parecendo tensa, mas não foi isso que captou a atenção imediata de Wolfram enquanto ele descia.
Seu irmão mais velho, Gwendal, estava acomodado em um dos pequenos sofás do local, rodeado por novelos coloridos de lã, botões, fitas e animais feitos à mão. Não era novidade nenhuma para ninguém que o hobbie do sempre tão taciturno filho mais velho de Cecilie era tricotar animaizinhos, então, isso não seria nenhuma surpresa — se, ao lado dele, não estivesse sentada uma completa desconhecida, rindo e conversando como se fosse uma antiga frequentadora daquela casa, completamente a vontade.
— Quer dizer que se eu fizer esse ponto aqui na região do nariz, ele vai ficar mais redondinho? — A garota perguntou à Gwendal, enquanto segurava a linha de lã que ele usava para tricotar.
— Sim, mas você tem que usar a agulha mais fina, ou vai ficar grande demais. — Ele respondia tranquilamente, mostrando à garota o que estava fazendo mais de perto. — Viu? Então, se você emendar essa parte aqui...
Quem raios era aquela garota?
— Wolfram-kun, oi… Eu… — Miya começou a falar hesitantemente, mas, ao perceber o semblante de evidente confusão no rosto do loiro, decidiu explicar tudo primeiro. — E-essa é Natsume, é minha amiga da escola, acho que você já deve ter visto ela antes…
— Sim, mas… — Ele olhou novamente para aquela conjuntura completamente surreal. Havia caído da escada e ido parar em uma realidade alternativa? Desde quando Gwendal era tão… amigável assim, com pessoas que acabara de conhecer? Quem costumava ser assim era Conrad. — Como? — Ele apontou para tudo aquilo, buscando uma explicação.
— Bem… Logo que nós chegamos, Natsume-san identificou que aquele cachorro ali — Ela sussurrou, apontando para um dos animais que Gwendal havia acabado de tricotar — … era na verdade um canguru. E, ao que parece, ela também gosta de tricotar, então… acho que o Gwendal-san a “aprovou” ou algo assim…
— Ah… Porém, eu posso afirmar com certeza, vocês duas não vieram aqui para que Gwendal discutisse com a sua amiga sobre qual o tipo de lã mais macia pra fazer aquele porco…
— É um gato. — Natsume entoou em um coro quase coordenado com Gwendal, e só então percebeu que Wolfram finalmente havia descido, e que o motivo pelo qual ela estava ali realmente não era o tricô. — Ah, certo… — Ela foi se levantando, deixando as coisas que tinha no colo e nas mãos de volta no lugar do sofá. — Eu já volto, Gwen.
— Gwen?! — Wolfram chocou-se mais uma vez, e então balançou a cabeça, tentando não se deter nos detalhes irrelevantes. — Ok, tanto faz. — Ele voltou a olhar para Miya, e Natsume que agora estava ao lado dela., suspirando longamente. — O que trouxe vocês até aqui, afinal?
— Hm, acho que é um assunto bem longo… — Miya respondeu, incerta de como começar. Wolfram passou a mão nos cabelos, impaciente. Podia imaginar qual era o motivo da visita repentina, mas não fazia ideia do que possivelmente Miya poderia falar, que ele já não fosse capaz de deduzir sozinho.
— Certo, vamos sentar lá fora…
Wolfram as conduziu por dentro da casa, até uma das saídas para o quintal; Miya não cansava de admirar o tamanho e a beleza do local, embora já tivesse visitado-o muitas vezes, mas Natsume estava absolutamente encantada com toda a suntuosa decoração, e tantas coisas para olhar ao mesmo tempo. Acomodaram-se em uma mesinha de madeira que ficava no deque do jardim, embaixo de algumas árvores que providenciavam uma sombra agradável, embora o sol já estivesse sumindo no horizonte avermelhado, e isso não fosse mais necessário. As luzes externas já estavam acesas, e a atmosfera era iluminada e confortável. Logo Margareth veio com chás gelados para todos, embora Wolfram não tivesse solicitado nada, e afastou-se com um sorriso simpático, ao deixá-los a sós novamente.
— Pode começar quando quiser, Miyako, estou ouvindo. — Wolfram entoou. Seu tom de voz não era rude, nem impaciente. De fato, estava muito comedido, esperando que Miya introduzisse o assunto, e isso a surpreendeu de certa forma. Ela aproveitou para tomar um gole de chá, antes de pensar de que maneira iniciar.
— Bem, Wolfram-kun deve imaginar que eu estou aqui porque soube que você e o Yuri-nii-chan não estão muito bem… — Ela sorriu sem graça, vendo o semblante de Wolfram se fechar completamente, com a simples menção do assunto. — Eu realmente não sei o que está acontecendo entre vocês, mas pensei que se conversasse com você, poderia tentar ajudar… Eu sei que o Nii-chan pode ser muito avoado às vezes, e não sabe transmitir as coisas que ele pensa da maneira certa, mas eu gostaria muito de entender por que você não quer falar com ele, afinal…
— Eu… Você não entenderia… — Ele baixou os olhos, incerto como prosseguir. Pronunciar suas inseguranças desmedidas em voz alta de repente parecia muito difícil. Ele sabia que Miya não iria acreditar na hipótese de Yuri estar traindo-o, e isso só o fazia sentir-se ainda mais paranóico. Mas ele sabia também que ela não aceitaria ir embora dali sem uma resposta.
Natsume, que até aquele momento se manteve em silêncio, apreciando a exuberância do local, resolveu se pronunciar.
— Olha, eu sei que eu aqui sou só uma forasteira deslocada, e que nem conheço vocês direito ainda, mas será que eu posso dizer a minha opinião? — Wolfram a fitou, e ela não esperou por resposta. — Se você acha que as pessoas não vão te entender, então explique. Ninguém sabe ler mentes, e por mais que você pense que as pessoas podem saber o que você acha só porque te conhecem bem, não é assim que funciona… E, além disso, eu e a Miya-chan viemos aqui para ajudar, mas fica meio difícil se você não nos disser o que aconteceu, sabe?
Wolfram estava muito inclinado a recusar qualquer ajuda, e sair dali sem dar satisfações a ninguém, afinal, aquelas duas não tinham nada a ver com a sua vida, certo? Mas ele não conseguia. Não conseguia reconhecer de onde vinha essa inquietação, mas simplesmente, não sabia como se obrigar a dar as costas às pessoas, como estava acostumado a fazer.
— Está bem. Eu vou contar. — Ele inclinou a cabeça para trás, fechando os olhos. — Miyako, eu sei que você não vai acreditar em mim. — Ele se colocou à frente, voltando com os olhos esmeraldinos quase marejados, ao fitá-la. — Mas o seu primo, ele está me traindo. Eu tenho certeza disso.
— É… o que? — Natsume quase engasgou, olhando de um para outro com semblante incrédulo.
— Wolfram-kun…. Me desculpe, mas eu não consigo acreditar em uma coisa dessas. — Miya afirmou, muito segura. — Nii-chan pode ter muitos defeitos, mas ele jamais seria capaz de fazer uma coisa dessas, ainda mais com você. Ele te ama tanto, não vejo como isso pode ser verdade. Deve ser apenas um mal-entendido, eu tenho certeza.
— Não, eu vi com os meus próprios olhos, não tenho dúvidas. — Ele reafirmou, resoluto. — Eu pensei muito nisso, e sei que o Yuri é estúpido demais para enganar qualquer um, mas talvez nem ele mesmo saiba o que está fazendo. Ele está cego, foi completamente enganado por aquela Sereia Maligna, e não tem nenhuma noção do que está fazendo!
— Sereia Maligna? — Natsume repetiu, arqueando uma das sobrancelhas.
— Sim! — Wolfram afundou o rosto nas mãos, bagunçando os cabelos. — E eu não sei o que fazer… Eu acho que ele cansou de mim, deve ter desistido… E então, encontrou alguém mais interessante, mais bonito, que saiba conversar e goste de sair com ele para vários lugares, e faça as coisas que ele quer fazer…
— Não, não, isso nunca aconteceria! — Miyako defendeu. — Deve haver outra explicação, eu tenho certeza disso! Yuri-nii nunca iria se cansar de você, Wolfram-kun, ele ama você! E até ontem mesmo, ele não parava de falar sobre você e as coisas que ele planejou… — Miya travou, percebendo que estava prestes a cometer um erro e revelar todo o segredo que Yuri lutou tanto para esconder, sobre os planos para o aniversário de Wolfram. Olhou para Natsume, buscando algum auxílio, e ela logo entendeu o recado.
— Para o futuro de vocês. Juntos, sabe? — Ela tentou consertar, falando a primeira coisa que vinha à cabeça. — Coisas como… casamento?
— Casamento?! — Wolfram bradou, sem acreditar.
— É! Não! Não sei…! — Natsume se enrolou, olhando de um lado para o outro, como se fosse encontrar ajuda no meio das flores do jardim. — Um dia, talvez? — Riu, sem graça.
— O casamento da Suzanna Julia-san. Ele estava falando sobre como vocês iriam juntos à cerimônia, certo? — Miyako, com uma inspiração divina vinda do nada, conseguiu uma saída.
— Ah… Sim. Com tudo o que aconteceu, eu acabei esquecendo disso… — Ele recordou, baixando os olhos melancolicamente. A última coisa que queria era ter que ir a uma festa de casamento, onde as pessoas celebram o amor, do jeito que estava agora.
— Wolfram-kun… Você tem certeza de que o Nii-chan é o único escondendo coisas de você? — Miya aproveitou a mudança de assunto para chegar ao ponto principal. — Ele mencionou que você andava estranho nos últimos dias…
— E-eu? Não. Não! Claro que não. — A resposta foi tão defensiva que não era preciso pensar muito para notar que ele realmente estava escondendo algo. Natsume sabia que assunto era esse, e Miya pensou em perguntar, mas talvez fosse melhor não. Por mais que ela estivesse tentando ajudar, ainda era um assunto entre Wolfram e Yuri, e que só eles poderiam resolver. — Não tem nada disso.
— Não importa quem está escondendo o quê, vocês deveriam conversar logo e resolver o assunto de uma vez. — Natsume reafirmou, parecendo esquecer momentaneamente o fato de que não era tão íntima assim dos envolvidos no caso para dizer o que pensava.
— Por que você não quer falar com o Onii-chan, Wolfram-kun? — Miya questionou. — Tenho certeza de que se ele explicar tudo, você irá entender e tudo ficaria bem de novo.
— Eu não quero ouvir nada do que ele tem a me dizer. — Ele virou o rosto, obviamente incomodado.
— Por que? — Ela insistiu.
— Eu já sei o que ele vai dizer, não preciso disso. — Ele atestou, soltando o ar pesadamente. — Eu tenho certeza de que… tudo vai terminar, quando eu falar com ele…
— Não vai, Wolfram-kun, eu sei…
— Pode ser que não seja dessa vez — Wolfram encarou as garotas seriamente, prosseguindo. -, mas haverão outras situações, eventualmente. Yuri vai perceber que eu e ele não combinamos em nada, que nossas vidas… Eu e ele… somos diferentes demais… E então, ele vai ter cansado de mim. Vai ter encontrado outra pessoa mais fácil de lidar, que possa fazê-lo rir, se divertir, e sentir-se bem, de uma maneira que eu nunca poderia. Nesse caso, eu prefiro não ouvir nada, não saber de nada.
Miya e Natsume suspiraram de maneira audível, quase ao mesmo tempo.
— Por que você tem que ser tão teimoso, Wolfram-kun? — Miya exasperou-se, e sua voz até se alterou um pouco, o que já era por si só uma raridade, embora ela não parecesse nem de longe uma pessoa “irritada”. — Pare de ver as coisas de maneira tão pessimista, é óbvio para qualquer um que o Yuri-nii nunca pensaria dessa forma!
— Até eu, que sou uma observadora externa, posso ver isso. — Natsume reinterou, também sem entender o motivo de tanta relutância. — Vocês formam um casal tão bonito, e já passaram por tantas coisas juntos! Eu ouvi as coisas horríveis que falaram e fizeram para vocês desde que descobriram tudo na escola e, falando sério, não é qualquer um que aguentaria tudo isso de cabeça erguida, sabe? Ele realmente ama você, então, essa insegurança que você insiste em manter não vai te levar a lugar nenhum.
— Por favor, Wolfram-kun, aceite ao menos conversar com o Yuri-nii! Ele vai te explicar tudo. Ele tem esse direito, certo?
— Além disso, você também tem muitas coisas que quer dizer a ele, não tem? — Natsume inquiriu, e Wolfram a fitou, com ar desconfiado. Como é que aquela garota poderia aparentar saber tanto, afinal? Bem, isso não tinha importância. A cabeça dele estava girando, e ele não tinha mais paciência para ouvir qualquer uma das coisas que elas quisessem dizer a ele, já estava cansado de tudo isso.
Bateu as mãos na mesa e se ergueu, sobressaltando as suas visitantes com a atitude inesperada.
— Eu vou pensar sobre o assunto, está bem? Vou pensar sobre isso e conversar com o Yuri! Satisfeitas? — As duas se olharam, perdidas com a súbita mudança. — Mas eu não garanto que irei acreditar no que ele me disser. Minha cabeça está doendo, eu não consigo mais raciocinar… — Ele bagunçou os cabelos, cerrando os dentes. — Não sei o que pensar. Não importa o que vocês digam, ou aquele garoto, também…
— Garoto? — Miya o interrompeu, curiosa como sempre. Wolfram percebeu que havia falado sem pensar, novamente.
— Apenas uma pessoa intrometida que eu conheci por acaso, e que me falou exatamente a mesma coisa que vocês disseram agora. — Ele respondeu, impaciente, querendo encerrar aquele assunto de uma vez por todas. — Deveriam ir conversar com ele, vocês são muito parecidos. — Ele resmungou, olhando principalmente para Natsume.
— E como ele era…? — Miya indagou, surpresa. Não era comum Wolfram se aproximar de… Bem, outros seres humanos no geral. Ainda mais, conversar com um desconhecido, sobre seus próprios problemas, dessa maneira.
Wolfram franziu a testa, não entendendo o propósito daquela pergunta — porém, os acontecimentos ao seu redor já andavam tão fora de ordem que ele nem se importava mais.
— Eu não sei. — Ele resmungou, crispando o lábio, já perdendo o restinho de paciência que ainda possuía, com o interrogatório a que havia sido submetido. — Ao que parece, ele joga vôlei. Mas tem uma péssima atitude e, pelo jeito, o hobbie dele é se meter na vida dos outros, assim como o de vocês.
— Vôlei, é… — Natsume semicerrou os olhos, ignorando por completo a hostilidade de Wolfram, e Miyako sentiu uma aura perigosa se espalhar rapidamente, vindo dela.
— Ahn, hmm… Então você deveria nos ouvir, certo? — Miya tentou mais uma vez. Wolfram cruzou os braços, desviando o olhar para o lado oposto. Ela tinha certeza que sua atitude de agora era pura teimosia, e que ele sabia muito bem o que era o certo a se fazer.
— Apenas… me deem licença. — Ele saiu sem se despedir, nem pedir para que se retirassem. Somente deu as costas à elas e se afastou sem dizer mais nada, batendo os pés e resmungando como uma criança que fora contrariada.
— Tsundere… — Miya e Natsume murmuraram, em uníssono, concordando com um menear de cabeça, sobre a conclusão que haviam chegado ao mesmo tempo.
— Acho que de devemos ir, agora… — Miya completou, torcendo para que tivesse conseguido ajudar em alguma coisa, com aquela breve e confusa conversa.
— Ah, sim. Tem um assunto que eu preciso resolver, agora mesmo. — Natsume voltou a ter um semblante carregado, como se estivesse enxergando um alvo bem à sua frente, prestes a acertá-lo. Miya sentia muita pena desse tal alvo.
~
Shuuhei ouviu os barulhos vindo do andar de baixo. Alguém abrindo a porta, e comprimentando sua mãe na cozinha. E então, passos ruidosos e firmes, na escada. A porta se abriu em um rompante, e ele quase deixou cair o controle do videogame com o susto. Natsume estava lá, com um semblante impassível e inquiridor, e um ar tão ameaçador que Shuuhei não ousou nem mesmo respirar, e só moveu minimamente o dedo polegar para apertar o botão de pause do jogo.
— Oi, Natsume… Chegou tarde, hoje, não? — Ele riu de nervosismo, encolhido em cima da cama, como se isso pudesse protegê-lo da ira que sentia irradiar da garota, que se aproximava lentamente na sua direção.
— Você conversou com o Wolfram, e não me contou? — O tom de voz dela era tão comedido que Shuuhei sentiu um arrepio na espinha. Ela nunca falava tão calmamente, ou seja, estava realmente furiosa, agora. E ele deveria temer pela sua vida.
— Sim… Eu… eu te contei.. sobre a briga na rua… — Ele tentou desconversar, mesmo que já soubesse pela expressão no rosto da sua vizinha que não era sobre isso que ela estava falando.
— Estou falando sobre a conversa que você teve com ele hoje. — Ela afirmou, cruzando os braços e esperando a justificativa. Shuuhei soltou o controle e sentou melhor na cama, pensando em como resolver esse assunto de maneira rápida, e de preferência, indolor. — Por que não me contou?
— Veja bem, foi uma coisa de momento, eu não planejei… E, além disso, como você mesma já soube… Sabe-se lá como… — Ele a fitou brevemente, desconfiado, imaginando que tipo de contatos e/ou bruxaria Natsume usava. Caramba, ela sempre sabia de tudo! — … Isso aconteceu hoje, e eu nem te vi na escola, como é que eu ia te contar?
— Já ouviu falar de uma novidade tecnológica que permite contato à distância chamada celular? — Natsume respirou fundo, esforçando-se para se controlar. — O que você disse pra ele? — Indagou. Shuuhei engoliu em seco. Era um campo minado, e qualquer passo em falso que ele desse agora, tudo iria pelos ares com o ataque de fúria que ele pressentia estar próximo.
— Eu falei que ele deveria conversar com o Shibuya, afinal, ele não sabe o que está acontecendo de verdade. — Ele deu de ombros, e Natsume assentiu. — E também, que se o Shibuya estivesse mesmo enganando ele, era melhor terminar tudo de uma vez... Mas é claro que ele não vai fazer isso, né? Afinal, o Shibuya não está traindo ele, só estava trabalhando...
— Cara, tu é idiota? Comeu areia do parquinho? — Natsume puxou a almofada mais próxima, e a transformou em arma, investindo com ela pra cima de Shuuhei em golpes certeiros e diretos. E seus braços acostumados aos treinos de vôlei estavam longe de serem fracos. — Por que disse isso pra ele?? — Mais golpes, nos ombros, nas costas, na cabeça. Shuuhei tentava responder, mas sua voz era abafada pelos protestos de dor e almofadas na cara. — Aquele cara é precipitado, eles vão acabar terminando o namoro, e a culpa vai ser sua!!
— Eu queria ajudar! — Ele argumentou rapidamente, entre uma almofadada e outra. Podia ver chamas saindo dos olhos da garota.
— E quem foi. Que disse. Pra eu não. Me meter?! — Cada parte da sentença, bradada a alto e indignado som, era pontuada por um golpe direto na cabeça. Shuuhei não conseguia mais se encolher nem desviar, quanto mais se defender. Natsume enfim recuou, mais por estar cansada de bater nele e precisar respirar, do que por misericórdia, mas manteve a sua arma em mãos, caso necessário.
— Eu sei! Eu sei, tá legal?! — Ele voltou a sentar direito, ajeitando os cabelos, que haviam se misturado em um ninho acima da sua cabeça, com as mãos. Seu rosto estava todo vermelho, por conta da surra. — Eu nem pensei muito, só fui lá e falei o que eu achava. Não te contei porque eu sabia que você falaria exatamente isso. Eu disse pra você não se envolver na história dos outros, e acabei eu mesmo fazendo isso, então, não é certo… Eu sei… É hipocrisia da minha parte. Desculpa, Natsume.. Mas se você estivesse na minha situação, e encontrasse o garoto lá todo perdido, com aquela cara de cachorro abandonado, teria feito o mesmo! Certeza!
— Talvez eu realmente fizesse o mesmo. — Ela soltou o ar, ligeiramente conformada, mas ainda estava bastante irritada, e só por isso, não soltou a almofada. — Mas isso não justifica você não me contar! Eu odeio quando você faz isso!
— Isso o quê?
— Esconder as coisas de mim, por ficar prevendo as minhas reações. Você faz isso o tempo todo, e eu detesto. Me conta primeiro, e depois você vê como eu reajo! — Ela exclamou, exasperada.
— Ok, entendi. Foi mal, é sério… — Ele jogou os cabelos pra trás, voltando a pegar o controle do video-game que, com toda a confusão, havia caído no chão. — Mais alguma coisa?
— Por enquanto é isso. — Ela resolveu, jogando a almofada pra cima de Shuuhei, e dando meia volta para sair do quarto. — Sua mãe está fazendo takoyaki, eu vou ajudar ela.
— Mentira, você tá querendo é arrumar lugar para jantar, que eu sei — Ele resmungou, entredentes, não ousando falar em voz alta desta vez, para não invocar a ira do Natsu-Oni* novamente.
— Sabe que eu acho que você não foi punido o suficiente? — Ela comentou, enquanto ainda estava de costas. Aparentemente, havia ouvido o comentário sussurrado do garoto, e ele sabia muito bem que ela não esqueceria desse assunto tão facilmente, não enquanto não pudesse ter uma vingança apropriada, ainda mais depois de ter sido provocada novamente. — Tenho a impressão de que a minha mensagem não foi clara o bastante, e você vai voltar a fazer o mesmo assim que eu virar as costas…
— Claro que não, Natsume, eu já entendi… — Ele travou na metade da frase, ao vê-la aproximar-se perigosamente da televisão a sua frente. — Natsume… O que…
— Você tem que aprender uma lição, Shuu-chan. — Ela repousou a mão delicadamente no fio da tomada. Os olhos de Shuuhei se arregalaram, enquanto ele se levantava lentamente, sem movimentos bruscos, e erguia a mão na direção dela.
— Não...
Tec. A tomada foi retirada, e o lamúrio de dor de Shuuhei se espalhou, ao ver a tela se apagar subitamente, levando consigo todos os seus progressos no jogo.
— Opa… — Ela sorriu maleficamente, apreciando seu momento de glória. O choque no rosto lívido do garoto logo se transformou em indignação, e então, irritação completa.
— Ah, não, Nanica, você não fez isso… — A voz dele baixou para um murmúrio. Natsume o fitou sobressaltada, como se só então houvesse percebido a gravidade das suas ações, ainda paralisada e com os restos do seu crime na mão. Ela sentiu um alerta vermelho piscando na sua mente, e sabia que tinha exagerado, só um pouquinho, e feito uma merda irrepáravel. — Você tá tão ferrada…
— Ahn… Me chamaram ali, tchau… — Ela nem esperou resposta, e sem olhar para trás, saiu correndo em disparada porta afora. Shuuhei nem mesmo hesitou em ir atrás.
Na cozinha, a Senhora Asahina cozinhava ouvindo o barulho vindo do andar superior, de passos correndo, gritos de desespero, pedidos de socorro, e talvez, coisas caindo.
— Vá lá e diga para o seu irmão e a Natsu-chan não quebrarem a casa toda e irem se matar lá fora! — Ela pediu ao seu filho menor, Kyouhei, que estava brincando ali por perto. O garotinho assentiu, indo para cima no mesmo instante, sem nada temer, provavelmente também acostumado a esse tipo de situação mesmo fazendo pouco tempo que Natsume voltara a morar ali. — Eu acabei de limpar a casa... — Ela murmurou, inconformada.
— Ah, a Natsume está aí fazendo confusão de novo? — A vizinha do lado, mãe da garota, se aproximou da janela da casa ao lado, preocupada. Como as casas eram próximas, podiam conversar mesmo estando cada uma em um lugar.
— Shuuhei deve ter feito alguma besteira, eu senti a aura assassina dela quando ela entrou pela porta — A outra mulher riu, sem se importar, aproximando-se também da janela. O barulho havia diminuído, então Kyouhei provavelmente tinha tido sucesso em passar o recado. — Esses dois vivem brigando, mas não se desgrudam. Sendo sincera, senti falta dessa animação quando ela não estava aqui.
— Eu também… — A senhora Sunohara completou, pensativa. E então, como se tivesse pensando em alguma piada interna, riu para si mesma. — Se eles já brigam e discutem por qualquer coisa assim, imagina quando se casarem…
As duas mulheres riram juntas, daquela conspiração que dividiam há tantos anos, e que tanto Shuuhei quanto Natsume reviravam os olhos ao ouvir.
— O importante é que depois das discussões, eles sempre fazem as pazes.
— O que vocês estão mancomunando aí embaixo? — Natsume vinha descendo as escadas, ao ouvir a voz da sua mãe. — Já falando mal de mim?
— Claro que não, Natsu-chan — A mãe de Shuuhei foi quem respondeu, virando-se ao ver a garota entrar na cozinha seguida pelos seus dois filhos. — Eu só estava convidando a sua mãe para jantarem aqui em casa conosco. — Ela virou-se discretamente para a amiga, piscando um olho.
— Acho uma ótima ideia, já estou indo.
— Não gosto quando essas duas ficam de sorrisinhos por aí… — Shuuhei sussurrou para Natsume, temeroso. Provavelmente já havia esquecido tudo sobre a briga de minutos antes, como sempre acontecia.
— Nem eu. — Ela concordou, fitando de soslaio. — Mas vamos lá, vou recuperar todo o seu jogo em cinco minutos, e você vai poder parar de chorar. — Ela riu de canto, virando-se e voltando a correr para a escada.
— Qual é, eu não tava chorando! — Ele saiu correndo logo depois. Ouviu-se os barulhos de passos dos dois e da porta do quarto se abrindo lá em cima. — Natsume, não… Solta esse controle!!
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