Sono Te Hanasanaide
37 Capítulo XXXVII
Notas iniciais
Boku wa kimi wa suki ni natta
Eu me apaixonei por você
Yuugure no kaze no nioi
Em um pôr do sol, com o cheiro de vento
Boku wa omoidashite ureshikunaru
Imediatamente fico feliz quando me lembro
Kimi no koe sono waraikata
de sua voz e seus sorrisos
Boku wa kimi wa suki ni natta
Eu me apaixonei por você
Dare ni mo mada ietenai
Ainda não havia contado a ninguém
Hitori omoidashite ureshikunaru
Mesmo sozinho, eu fico feliz quando me lembro
Sono koe shaberikata
da sua voz e do jeito que você fala
Capítulo 37
O dia seguinte teve início de forma incrivelmente calma. Céu ensolarado, a neve derretia lentamente no parapeito da janela, e os raios fracos do sol de inverno apenas incomodavam o sono, não sendo o bastante para esquentar.
Yuri despertara primeiro, mas, como Wolfram ainda ressonava tranquilamente ao seu lado, tentou não acordá-lo. Relembrando a noite anterior, seu rosto já ficava todo vermelho — ele mal podia acreditar que aquilo havia mesmo acontecido. Porém, ao olhar para o lado e ver a face adormecida de Wolfram, tão pacífica, quase angelical… Não tinha possibilidade de ele se arrepender. Dormindo, ele parecia até mais novo do que era. As mãos encolhidas perto do rosto, os lábios rosados, entreabertos, o peito subindo e descendo lentamente pela respiração calma… Yuri podia ficar horas apenas olhando-o em silêncio – e, sendo ele tão agitado e incapaz de ficar parado para o que quer que fosse, isso era algo incrível.
Apoiando o rosto em um dos braços, de lado na cama, Yuri moveu a mão lentamente pelo rosto de Wolfram, rodando o dedo pelos cachinhos que caiam sobre os olhos dele. Um sorriso calmo se formou, enquanto ele pensava em tudo o que acontecera com eles, desde o momento em que se encontraram pela primeira vez, a cada pequena experiência juntos, chegando até ali. E, mesmo depois de tanto tempo e de tantas coisas boas que aconteceram, ainda era difícil para Yuri acreditar que tudo fora real.
Após tanto tocar em Wolfram, acariciando seu rosto e seus cabelos, é claro que ele acabaria despertando. Primeiro, ele entreabriu um dos olhos, tonto de sono. Um pequeno sorriso adornava sua face sonolenta. Quando enfim abriu os dois olhos e eles se focaram em Yuri, as imagens da noite anterior tomaram sua mente em uma enxurrada, e ele lembrou-se de tudo de uma só vez. Sua face mudou do sono para o choque completo, incredulidade, indignação, e, por fim, a vergonha. Yuri se afastou, imaginando que ele poderia estar constrangido demais para ficar perto dele agora, e Wolfram recuou, afundando o rosto no travesseiro enquanto murmurava coisas ininteligíveis na sua língua materna.
— Hm… Wolf, está tudo bem com você? – Yuri resolveu arriscar, incerto. Ia acariciar os cabelos dele, mas resolveu recolher a mão e esperar.
— C-c-como você espera q-que eu esteja bem, e que aja normalmente d-d-depois de… Depois de o-ontem… — A voz dele saiu cortada e abafada, enquanto ele se afundava ainda mais para se esconder. Yuri riu meio sem graça, bagunçando os cabelos com a mão, e então voltou a deitar, virado para cima.
— Você… preferia que não tivesse acontecido? P-porque, se estiver arrependido, eu vou entender…
— Não! – Wolfram se ergueu de súbito. Seus olhos se encontraram com os de Yuri, e ele viu um sorriso fácil se formando na face do asiático. – V-você só está brincando comigo, não é?? – Ele atirou a almofada mais próxima na cara de Yuri, e voltou a se esconder. – Seu fracote, indecente, pervertido… O que você fez c-comigo?!
— Hey, espera, o que eu fiz com você? – Yuri se sentou imediatamente, segurando a almofada na mão. – Você que invadiu meu quarto no meio da noite!
— E você me atacou repentinamente! – Wolfram acusava, inflamado por uma irritação superficial que só podia ser decorrente do constrangimento extremo que sentia.
— Ataquei? Você fala como se não tivesse gostado! – Yuri afirmou, cruzando os braços. – Até mesmo pediu “mais...”! – Ele tentou imitar a voz ofegante de Wolfram, sem muito sucesso, mas foi o suficiente para fazer o loiro travar, corando furiosamente. Ele também corou, embaraçado pelo que acabara de proferir, mas sem dar o braço a torcer. Um silêncio constrangedor para ambos se formou.
A verdade é que tudo havia acontecido de forma tão natural que não havia como questionar ou se culpar. Wolfram se encolheu nos cobertores, e se aproximou discretamente. Era sua forma de dizer que estava tudo bem, embora estivesse morrendo de vergonha por dentro.
— Você é muito imoral! M-mas, por hora, eu vou perdoar seu comportamento indecoroso… — Ele murmurou, cobrindo ainda mais o rosto nos cobertores. – T-tenho parte da responsabilidade, também. – Ele soprou baixinho, esperando que Yuri não tivesse ouvido, e voltando a se ocultar.
Yuri voltou a deitar, e, em um gesto amplo, abraçou o monte de cobertores que era Wolfram naquele momento. Ele estremeceu, e então relaxou nos seus braços, tirando apenas a parte dos olhos.
— Eu não fiz nada de errado, não é? – Ele indagou de repente, soando preocupado. Wolfram avançou para esconder o rosto no peito dele, antes que ouvisse qualquer coisa mais embaraçosa. — Foi… F-foi… bom?
Wolfram soltou um grito abafado de indignação, e empurrou Yuri, mas ele foi mais rápido e o segurou novamente.
— Q-que pergunta é essa??
— Só responde… — Yuri havia baixado a voz, e agora não sorria como antes. Wolfram podia perceber que agora ele estava realmente preocupado. – E-eu nunca tinha… c-com ninguém… Algo assim… Eu só…
— Não fale mais nada! – Wolfram bradou, escondendo o rosto. Yuri só via o topo da cabeça loira se retorcendo contra ele. – E-eu não teria d-deixado você f-fazer o que bem entendesse d-daquela forma… Se não estivesse s-sendo… a-a-agradável… E-então não pergunte mais uma coisa dessas!
Yuri sorriu, aliviado, envolvendo Wolfram da maneira que podia. Seu rosto estava ligeiramente ruborizado, também.
— Bem, então…
— F-formidável. F-foi formidável. E não toque mais no assunto!!
— Okay… — Yuri relaxou, deitando ao lado de Wolfram.
Já tinha pensado que ele voltara a dormir, mas, repentinamente, Wolfram se moveu, retornando do seu ninho de cobertores com os cachos completamente revoltos, o rosto ainda vermelho, e a camisola meio desajustada no corpo.
— É melhor eu voltar para o meu quarto antes que alguma das camareiras perceba… — Ele anunciou, ajoelhando-se sobre a cama, e fazendo um esforço enorme para parecer tranquilo e natural.
— Eu acho melhor ir para casa, também… Eu saí ontem de manhã e não voltei, meu irmão deve ter colocado a polícia atrás de mim… — Ele riu, sem graça, sabendo muito bem como Shori podia ser dramático às vezes, embora ele tivesse ligado para casa para avisar que dormiria fora. – Além do mais… Tem algo que eu preciso falar para eles, não é?
Wolfram soltou o ar, fechando os olhos. Procurou pela mão de Yuri sobre os cobertores, e segurou firmemente.
— Suponho que sim. Eu também estou planejando como vou fazer isso hoje… — Ele pronunciou. – Nós nos sairemos bem. Mas, ao menos, tome o café da manhã aqui. Não gosto de pensar na ideia de que você fugiu de repente durante a manhã depois de… de tudo o que aconteceu. — Ele desviou o olhar e pigarreou, disfarçando como podia.
— Como você quiser. – Yuri respondeu, apenas, sorrindo animado.
Wolfram se apressou em sair, antes que acabasse cedendo à vontade de permanecer ali por mais tempo. Sentando na beirada da cama, voltou o olhar para trás mais uma vez, e ali estava Yuri, ainda sorrindo como um idiota para ele. Seu coração se acelerou, da mesma forma como na primeira vez que colocou os olhos naquele sorriso. Em um impulso, ele se inclinou de volta para trás, e roçou os lábios contra os de Yuri superficialmente, em um selinho rápido, mas cheio de significado.
—… Bom dia. — Ele disse apenas, antes de se afastar em um pulo e sair do quarto batendo a porta atrás de si, sem ficar para ver qual seria a reação de Yuri. E, enquanto retornava para seu próprio quarto, e deitava na cama que permanecia da mesma maneira que ele havia deixado quando saiu dali durante a noite, um pequeno sorriso teimava em não sair do seu rosto.
Depois disso, os dois garotos saíram dos quartos, devidamente vestidos e preparados, como se nada houvesse acontecido na noite anterior. Ou, pelo menos, os dois gostariam de dizer que sabiam disfarçar bem. Tão logo despontaram para o café da manhã, Cecilie os saudou com um sonoro “Vocês parecem tão bem dispostos! Aconteceu alguma coisa?”, que parecia muito sugestivo. Apesar disso, nenhum dos dois disse nada, e o café da manhã correu bem, com uma variedade enorme de bolos, pães, frutas e sucos a escolher. Yuri estava com o humor tão bom que nem mesmo a presença de Elizabeth ou de Valtrana o incomodou dessa vez.
Ao terminar, ele então se despediu de todos e enfim foi embora. O recesso de inverno terminaria em poucos dias, e Wolfram voltaria a vê-lo antes disso, muito provavelmente, mas isso não fazia com que a sua vontade de estar com Yuri todo o tempo diminuísse. Assim que se viu sozinho novamente, temendo que as lembranças ainda bem recentes na sua mente tomassem toda a sua atenção, ele se dirigiu para a biblioteca. Ainda estava planejando exatamente o que pretendia dizer à sua mãe mais tarde, e uma boa leitura era tudo o que ele precisava para passar de forma saudável e enriquecedora o tempo livre, acalmando seus pensamentos. Ou, ao menos, foi o que ele pensou.
Tão logo se acomodou em uma das poltronas da biblioteca, a mais perto da janela, com o livro que estava lendo atualmente, as portas se abriram, e Elizabeth entrou por ela, muito tranquilamente. Sentou-se na poltrona logo ao lado, com uma xícara de chá em mãos. Wolfram a fitou por um breve segundo, e retornou à leitura, esperando que fosse o suficiente para ela entender que a sua presença não era requisitada. Mas, como era de se deduzir, ela apenas ficou encarando-o com discreta curiosidade, como se estivesse apenas aguardando que ele iniciasse algum assunto. Poucos minutos disso, e Wolfram já não aguentava mais.
— Precisa de alguma coisa, Elizabeth? – Ele indagou, um pouco mais rude do que pretendia, mas a garota não pareceu perturbar-se.
— Na realidade, não preciso de nada. Estava apenas pensando sobre alguns assuntos, Wolfram, e imaginei que você seria uma boa companhia. Como sempre é, devo acrescentar…
Wolfram não conseguia imaginar nenhuma situação onde tivesse sido de fato uma boa companhia para ela, mas relevou. — E no que eu posso ajudá-la? – Quanto antes pudesse se livrar da presença imposta de Elizabeth, melhor.
— Eu estava pensando sobre a prima Amélia… — Ela divagou, olhando pela janela. Wolfram a fitou, intrigado. Ela iria dizer que gostava de garotas, agora? – Sabe, a reação do senhor Valtrana diante desse assunto me deixou muito assustada. E eu me surpreendi imaginando, se ele já se encontra nesse estado enervado frente a essa questão, com alguém tão distante quanto ela… Como seria se ele se encontrasse em uma situação semelhante, com um membro da família mais próximo…
Wolfram ergueu os orbes verdes das palavras à sua frente, e fitou Elizabeth diretamente.
— Aonde você quer chegar com essa conversa? – Ele indagou simplesmente, não demonstrando qualquer alteração. Viu o sorriso de Elizabeth alargar gradualmente, e isso não parecia de nenhuma maneira conveniente.
— Eu estava um pouco inconformada por você ter me ignorado durante todo o tempo em que estive aqui, na maior parte das vezes, me trocando em favor desse seu amigo japonês… Mas eu entendia, e, lá no fundo, mantinha uma esperança de que você estivesse com ciúmes de mim, tentando me manter afastada dele… — Ela comentou sonhadoramente, como se narrasse alguma história de romance épico na qual ela era a protagonista indefesa. Wolfram não sabia nem mesmo de onde Elizabeth tirava tantas ideias estapafúrdias. – Ontem, quando você saiu com ele para cavalgar, eu aproveitei que Josephine estava com a sela posta, e os segui. Pensei que pudesse me juntar a vocês, e talvez você parasse de ser tão frio comigo… — Ela voltou o olhar para ele, e Wolfram já suspeitava onde tudo aquilo terminaria.
— Chega de enrolar. O quê você viu? – Ele indagou diretamente, e Elizabeth ofegou, indignada, porque provavelmente planejava um discurso bem mais longo e dramático para narrar suas desventuras.
— Vi você e o seu precioso amigo, Yuri… — Ela disse finalmente, deixando cair os ombros, como se estivesse muito decepcionada. – Rolando na neve, indecorosamente… Uma cena lamentável, devo acrescentar. Nunca pensaria isso de você, Wolfram, querido… Imagine apenas o desgosto do senhor seu tio Valtrana, se ele viesse a saber… Acredito que ele jamais se recuperaria de tamanha decepção.
Wolfram sentia uma profunda vontade de desmanchar aquele semblante desolado do rosto de Elizabeth, tão falso, com um certeiro tapa, mas sabia que não importava o que ela dissesse, nada justificaria bater em uma mulher. Por mais que fosse alguém tão ardilosa e desagradável.
— Certo, você viu isso. Nada do que eu diga vai mudar as conclusões às quais você chegou, e, sinceramente, eu nem tenho vontade de desmentir. – Ele revirou os olhos, repousando o livro que tinha em mãos na mesa logo ao lado. Inclinou-se na direção de Elizabeth, com os braços apoiados nas pernas. – Eu amo o Yuri, Elizabeth. Ele é o meu namorado. Essa é a verdade, e não importa o que você diga ou pense, nada irá mudar.
Elizabeth parecia absolutamente chocada, como se houvesse ouvido alguma grande revelação. Levou alguns segundos para absorver a informação, e sua face tornou-se tensa. Dessa vez Wolfram havia virado o jogo, e agora era ela quem estava sem palavras, encurralada.
— Você não sabe do que está falando, querido. — Sua voz pretendia soar carinhosa, mas hesitava, e tremia a cada sílaba. – Isso… Você está confuso, mas é apenas uma fase, nada demais… Alguém como aquele garoto jamais serviria para você! Você não o ama! Não é possível que algo assim aconteça. Você só está deslumbrado com a nova vida no Japão, mas eu tenho certeza de que, a partir do momento em que pisar novamente na Europa, ou em qualquer lugar com o ar mais puro do que aqui, sua mente voltará a funcionar normalmente, e…
— Já chega, Elizabeth! Sua voz é irritante, e está me dando dor de cabeça. – Ele esfregou os dedos nas têmporas, e se levantou de uma vez, dando as costas a ela. – Você já disse o que queria dizer, e eu fui sincero com você. Nenhuma ameaça sua me apavora, saiba disso. Não tenho medo de dizer a verdade, e, se você achava que eu teria vergonha do que eu sinto por Yuri, está muito enganada. Não é um “caso”, uma fase, ou qualquer coisa que você queria empurrar para mim. Eu tive uma manhã tão agradável, e você conseguiu estragar tudo em apenas cinco minutos… — Ele suspirou consigo mesmo, inconformado, tomando o caminho para sair da biblioteca.
Subitamente, Elizabeth pulou da poltrona, e segurou-o pelo pulso, impedindo-o de prosseguir. Se antes ela parecia muito segura de si, agora estava completamente o oposto. Beirando o desespero, tentava manter Wolfram com todas as suas forças, como se apenas o fato de ele sair daquele cômodo fosse uma prova definitiva de que ele sumiria da sua vida para sempre.
— Não, Wolfram! Você está errado! Isso tudo está errado! Alguém como você, tão nobre, e importante… C-com um garoto como aquele, rude, sem a mínima instrução, com uma aparência daquelas…
Wolfram soltou o braço que Elizabeth segurava com um empurrão, quase fazendo-a cair sentada de volta na poltrona. Ele não pretendia ser grosseiro ou agressivo, mas a garota já havia abusado da sua paciência, insultando Yuri daquela forma.
— Faça o que bem entender com essa informação, Elizabeth, eu não me importo. Porém, não vou admitir que volte a falar de Yuri dessa forma. Você não o conhece, então seja prudente, e fale somente sobre assuntos dos quais tem ciência, ou apenas parecerá tola. – Ele voltou a encará-la, e repentinamente seus orbes esmeralda pareciam estar em chamas. Elizabeth nunca havia visto Wolfram, a quem conhecia desde que era criança, tão determinado e intenso. Engoliu em seco, sem coragem para dizer mais nada. – Eu. Amo. Yuri. Trate de se acostumar com isso.
Sem mais nada a acrescentar, Wolfram deixou para trás a atônita garota, e saiu da biblioteca batendo a porta atrás de si, andando a passos firmes pelo corredor. Já havia adiado por tempo demais – tinha que conversar com sua mãe, e a hora era agora.
~
Yuri chegou em casa mais rápido do que supunha. Nem havia reparado que estava tão ansioso assim, mas mal abrira o portão e entrara no pátio, e seu coração já estava descontroladamente acelerado. Ele nem sabia ao certo por que estava tão ansioso para contar a verdade para a sua mãe, mas não tinha medo.
Na realidade, estava feliz porque finalmente dividiria aquela felicidade enorme que sentia todos os dias desde que começara a namorar Wolfram, com as pessoas que amava. Logo que chegou à sala, foi saudado por uma surpreendentemente animada Miyako, que pulou nos seus braços antes mesmo dele conseguir distingui-la.
— Onii-chaaan! Como foi lá na casa do Wolfram-kun? Vocês se deram bem? – Ela perguntou rapidamente, muito curiosa. Ela parecia bem melhor do que quando Yuri havia a visto pela última vez, então ele nem mesmo se preocupou com a pergunta obviamente de dupla conotação que a garota desferiu, e limitou-se a sorrir.
— Foi tudo bem. — Ele optou por uma resposta sincera e evasiva, torcendo para que Miyako se contentasse com isso, enquanto a soltava de volta no chão. – Aquela tal de Elizabeth estava lá também, não nos deixou em paz…
— Ah, garota chata, Miya não gosta dela! – Ela bufou, cruzando os braços. – Mas, mesmo assim… Yuri-nii-chan está com bom humor… Parece bem animado… alguma coisa aconteceu, não é mesmo? A sua pele até parece mais reluzente! Então, onii-chan?? Você foi o seme, não foi?? Atacou o Wolfram-kun durante a noite ou… Ah, ele tem cara de ser um uke bem ativo também… Será que foi ele quem atacou o Onii-chan? Ou vocês combinaram juntos quem iria…
— Miyako, chega! – Yuri a interrompeu antes que as fantasias tresloucadas da garota (que, no entanto, não eram tão fantasiosas assim) acabassem indo longe demais. – Não adianta você insistir, eu não vou contar!
Miyako se encolheu, com os olhos claros tornando-se enormes e suplicantes por trás dos óculos que escorregavam pelo nariz.
— M-mas… A Miya estava torcendo tanto… — Ela projetou o lábio inferior, parecendo ainda mais um filhotinho com fome. Yuri suspirou. Apesar de tudo, não gostava de ver a prima triste, ainda mais depois do que acontecia com ela e Benjamin.
— Okay… E-eu respondo as suas perguntas depois… – Ele não resistiu, mas, tão logo viu Miyako se recuperar na velocidade da luz, toda empolgada de novo, já se arrependeu. – Mas agora, eu tenho uma coisa mais importante para fazer… Onde está a minha mãe?
— Ela está na cozinha, mas… Espera… Nii-chan! Você vai contar para a Oba-san…? – Ela sussurrou a última parte, surpresa e extasiada. Yuri não conseguiu conter um sorriso constrangido.
— Eu vou. Mas sem escândalo, está bem? – Ele bagunçou rapidamente o topo da cabeça da garota, e foi andando em direção à cozinha. – Vou fazer isso agora.
— Boa sorte! – Ouviu o desejo de Miyako antes de, enfim, encarar sua mãe. Ela estava secando a louça e colocando de volta no lugar, usando o avental amarelo que Yuri deu a ela de Dia das Mães anos atrás, cantarolando baixinho uma música que ele não conhecia, mas que provavelmente ela havia inventado na hora. Assim que o viu parado na entrada da cozinha, ela sorriu amplamente.
— Yu-chan! Eu pensei que você só ia voltar mais tarde! – Ela olhou bem para Yuri, e então soltou o pano de pratos sobre o balcão, vindo até a sua direção. – Aconteceu alguma coisa? Precisa de algo, querido? Você está com uma carinha tão preocupada… — Ela segurou o rosto de Yuri entre as mãos, acariciando-o afavelmente. Era como quando ele era criança, exceto que, agora, ela precisava olhar para cima ao dirigir-se a ele. Quando foi que o seu bebê crescera tanto? – Quer me contar o que está acontecendo?
— Sim, mãe… Eu quero conversar com você… — Ele não podia deixar de se surpreender com a habilidade da sua mãe da deduzir o que acontecia. Miko sorriu, segurando a mão de Yuri e fazendo-o sentar-se com ela à mesa redonda da cozinha. Depois de se acomodar, repousou ambas as mãos sobre a mesa, esperando pacientemente que ele começasse, com um sorriso no rosto. – Mãe… T-tem algo que eu venho mantendo segredo há algum tempo, e acho que está na hora de contar para todo mundo…
— Ara, o meu Yu-chan está escondendo algo da sua Mama? Isso não está certo!
— Eu sei, mãe! Eu… Só não sabia como contar… — Ele baixou os olhos. Agora, parecia mais difícil falar do que ele imaginara. Um nó na garganta prendia sua voz, e ele sentia-se prestes a engasgar. Como sempre, optou pela forma mais direta e simples, sem rodeios. – Eu estou namorando. E é um garoto. O Wolfram. Eu estou namorando o Wolfram… É isso.
Yuri fechou os olhos, esperando uma explosão, uma reação exagerada e escandalosa, uma interjeição de surpresa que fosse, mas nada disso veio. Ele voltou a olhar para a sua mãe, e ela estava ainda encarando-o, como mesmo sorriso animado, e nem mesmo piscava. Ela havia ficado atônita? Aquela reação… Isso seria ruim? Será que ele havia sido precipitado ao pressupor que sua mãe aceitaria tudo facilmente, e surpreendentemente, ela se colocaria contra o seu namoro? Isso parecia tão infundado… Yuri conhecia sua mãe, ela jamais pensaria dessa forma!
— Só isso? – Foi a primeira coisa que ela disse. Yuri piscou duas vezes, sem entender. – Era só isso que você queria me contar?
— Bem… Era? – Ele olhou para os lados em tom de dúvida, sem saber se sua mãe se dirigia a ele mesmo.
— Querido… Eu fico muito feliz que você tenha tido esse esforço todo em me contar a verdade, mas… eu já sabia! – Ela riu, como se achasse realmente muito engraçada a cara que Yuri fazia agora. – Você me deu um susto agora, Yu-chan, pensei que alguma coisa grave havia acontecido! Não me assuste assim!
— M-mas… Como? – Ele ainda custava a acreditar. Miyako jamais teria contado, e ele não se lembrava de ter dito nada comprometedor na frente da sua mãe. Como ela poderia saber? Miko sorriu ainda mais amplamente ao ver a incredulidade estampada no rosto do filho.
— Yu-chan, eu conheço você desde que nasceu! Acha mesmo que consegue esconder alguma coisa da sua Mama? Eu sou Hamano Jennifer! E eu sei de tudo! – Ela se colocou de pé, as mãos na cintura triunfantemente. – Eu já desconfiava há um bom tempo, desde que vocês se conheceram, na verdade. Depois, apenas confirmei minhas suspeitas. Você não pode mentir para a pessoa que limpa o seu quarto, Yu-chan! Eu vi as cartas que você escreveu para o Wolfram-kun, vi os ingressos que você comprou para levar ele para patinar no gelo… E. também... Hm, eu ouço alguns ruídos vindos do seu quarto, quando ele vem visitar você…
— Tudo bem, eu já entendi, mãe! – Yuri levantou, o rosto em chamas, interrompendo antes que sua mãe tivesse oportunidade de dizer qualquer coisa mais embaraçosa. Se ela sabia esse tempo todo, podia ter dito a ele! Sentia-se patético por todo o nervosismo anterior, e por ter hesitado tanto em contar. – Por que não disse nada?
— Eu estava esperando que você fosse me contar algum dia – Ela sorriu, aproximando-se em um salto para abraçá-lo, tão forte que ele mal podia respirar. – Ahh, Yu-chan, Mama está tãaaao feliz por você!! Você finalmente encontrou o amor, e o Wolfram-kun é tão fofo!! Você precisa trazê-lo aqui em casa, para apresentar oficialmente a ele seu pai e o Sho-chan, eles vão adorá-lo!!
— E-está tudo bem, mesmo? – Yuri custava a acreditar, enquanto sua mãe ria alto e o apertava nas bochechas, parecendo orgulhosa e animada com as perspectivas de reunir as famílias, e, sinceramente, nem o ouvia mais. – Sabe… S-sobre sermos… Dois garotos…
— Eu sempre soube que seria assim. – Ela voltou a encará-lo, com um brilho alegre nos olhos castanhos. – Eu sou sua mãe, afinal. Desde pequeno, você admirava tanto os jogadores de baseball, mas não demonstrava interesse nenhum em garotas, mesmo depois de já estar na idade… Mesmo tendo aquelas revistas e tudo mais, eu sabia que você não era como os outros garotos, e não olhava para aquilo da mesma maneira. Eu sei que isso não significa nada, mas eu simplesmente sabia. Coração de mãe nunca se engana! – Ela sorriu mais amplamente enquanto falava. – E, você pode nem se lembrar, mas, quando conheceu Wolfram-kun, ainda crianças, e nós voltamos para o Japão, você falava sobre ele o tempo todo. Eu nunca havia visto você, que sempre se interessou mais por esportes ou por desenhos e tinha a atenção desviada tão facilmente, ligado dessa forma a outra pessoa antes. Depois que você reencontrou-o, nem percebeu, mas se tornou alguém mais enérgico, mais animado do que já era, mais motivado… Era o seu destino encontrar o Wolfram-kun, e eu tenho certeza disso. Então, estou muito feliz por você ter percebido isso!
— Mãe… Obrigado… — Ele bagunçou os cabelos da nuca, constrangido. – Eu realmente amo muito o Wolf, e… Eu estou feliz por ter contado para você, finalmente. Mas… Sobre o pai, e o Shori...
— Seu pai já sabe sobre tudo, eu conversei com ele. – Miko abanou a mão, relevando o assunto.
— Mesmo? E ele não se incomoda? – Yuri estava em choque. Como assim, todos já sabiam sobre isso, menos ele próprio?
— Nem um pouco! Está feliz por você também. Vamos conversar sobre isso quando ele chegar. Sobre o Sho-chan… Bem, deixe tudo comigo, eu converso com ele. Agora… — A expressão dela se tornou um tanto séria, e Yuri engoliu em seco. – Você demorou tempo demais para contar, Yu-chan! Mama está decepcionada!
— D-desculpa, mãe… Eu… q-queria mesmo contar, mas…
— Sem “mas”! Você não confia na sua mãe, Yu-chan? – Ela repreendeu, e Yuri se encolheu instintivamente com aquele tom de voz. – Sem sobremesa para você!
— Mas… Mãe!
— Sem sobremesa! Agora, vá para o seu quarto, fazer suas tarefas! Logo as aulas recomeçam e você não fez nada, ficou só brincando com o Wolfram-kun! Como você espera dar um bom futuro para ele se não se dedicar aos seus estudos, hein?
— Está bem… — Ele foi saindo da cozinha de ombros baixos, mas sabia que sua mãe estava sorrindo lá atrás. Ele também estava satisfeito. Sentia como se um peso tivesse sido tirado dos ombros, e, ainda, seu pai já estava até mesmo sabendo de tudo! Tudo havia saído melhor do que ele esperava, na realidade. Ele só conseguia então esperar que Wolfram tivesse uma sorte parecida, quando fosse fazer o mesmo.
~
Wolfram bateu na porta e esperou alguma resposta do outro lado. Pouco tempo depois, uma das empregadas abriu a porta para ele. No centro daquela que parecia uma pequena clínica de estética, mas era apenas o banheiro da sua mãe, estava uma cama de massagens, e ela estava deitada sobre ela, com uma toalha ao redor do corpo e outra nos cabelos, um creme de aparência densa, verde, cobrindo todo o rosto, e duas rodelas de pepinos sobre os olhos.
— O que foi, querido? Você nunca me procura a essa hora do dia… — A voz estava um pouco contida, já que ela não podia mexer muito o rosto.
— Preciso conversar com você, mãe. A sós, se possível. – Ele especificou. As duas empregadas que cuidavam do tratamento de beleza de Cecilie se curvaram rapidamente, antes de sair a passos rápidos dali, fechando a porta atrás de si. Wolfram tomou uma cadeira ao lado da mãe, e ela retirou os pepinos dos olhos para olhar para ele, enquanto se sentava sobre a cama.
— Aconteceu algo? – Ela o encarou, preocupada. Embora o estado em que se encontrava não fosse exatamente o ideal, ela ainda estava empenhada em ajudar os seus filhos, da maneira que fosse.
— Na verdade, já vem acontecendo há um bom tempo, mas apenas agora eu… Nós decidimos contar a verdade para você…
— É algo muito sério, honey? – Cheri se inclinou para afagar o rosto do filho. Ele ergueu o olhar, preocupado.
— Depende do seu ponto de vista. – Ele respirou fundo, antes de prosseguir. – Eu me apaixonei por alguém, mãe. — O rosto de Cheri se iluminou. -… Mas essa pessoa é um garoto. É o Yuri.
— Oh, meu Deus, isso é verdade? – A voz dela ficou mais alta e aguda, enquanto ela batia palmas e dava pequenos pulinhos, como faria uma colegial, e não a mãe de três filhos adultos e antiga Rainha de um país. Ainda não podia demonstrar uma expressão facial intensa, por causa das limitações impostas pelo produto no seu rosto. – Vocês finalmente se acertaram? Não me diga que já estão namorando?! Wolfram, você devia ter contado isso antes!
— Eu sei, mãe… — Wolfram desviou o olhar. – Nós… estamos namorando, na verdade…
— Ah, eu sabia, eu sabia! Você achou mesmo que eu não iria desconfiar?? Agora mesmo eu estou vendo essas marcas no seu pescoço, e sei muito bem que tipo de mosquito o picou aí! – Ela riu alto, e Wolfram corou furiosamente, levantando a gola do casaco para cobrir melhor a região.
— I-isso não vem ao caso agora...
— Por que você parece tão preocupado? Isso é algo feliz, não devia fazer essa carinha. — Ela apertou o rosto de Wolfram nas mãos, observando-o bem de perto. – Desse jeito, vão nascer rugas na sua testa… — Imitando voz de bebê, ela esfregou o rosto de Wolfram.
— Mãe… Eu sabia que você não seria contra nem nada assim, mas o Tio Valtrana… Ele… Aquelas coisas que ele disse no almoço, na frente do Yuri… — Wolfram se afastou minimamente, apenas o suficiente para sair do alcance das mãos incansáveis da sua mãe, e oscilou.
— Não liga para o seu tio! Ele é desse jeito superprotetor com você, desde que o seu pai morreu, mas ele ama você, e quer ver a sua felicidade, assim como todos nós. Tenho certeza de que ele se acostumará com a ideia. E, mesmo que ele não se acostume, eu sou sua mãe, e é isso o que importa.
— Mas eu não sou maior de idade ainda, e escolhi o sobrenome do meu pai. Se ele quiser, pode tomar decisões por mim, afinal, ele é o meu tutor legal, nas leis de Shin Makoku… — Wolfram levantou os olhos. – Se ele quiser, pode me levar daqui quando...
— Você quer ir embora daqui, Wolfram? – Cheri segurou Wolfram pelos ombros, indagando de forma direta.
— Não, eu não quero. – Ele não titubeou em responder.
— Se você não quer ir, ninguém pode te levar para lugar nenhum. Nem Valtrana, nem eu, nem pessoa nenhuma. A vida é sua, quem decide o que fazer com ela é você. Entendido?
— Entendido… — Wolfram gostou de ouvir isso. Todavia, ele costumava pensar demais nas coisas, e tinha certeza de que esse assunto não sairia da sua cabeça por um bom tempo ainda, por mais que ele tentasse não se preocupar antecipadamente.
— Então me dê um abraço! Ah, estou tão feliz por você, meu filho! – Cecilie agarrou Wolfram, sujando-o com o seu creme de beleza, mas sem se preocupar nem um pouco com isso. Wolfram retribuiu ao abraço, deixando escapar um pequeno sorriso. Também se sentia aliviado de ter dito a verdade para ela. – Finalmente você vai conhecer a alegria que é amar e ser amado por alguém! Qualquer coisa que quiser saber, sinta-se livre para me questionar a qualquer hora!
Wolfram duvidava muito que iria mesmo procurar sua mãe para responder às suas dúvidas, mas a intenção dela era genuína. Ainda queria falar com Conrad e Gwendal ainda hoje, e teria que se apressar para procurá-los o quanto antes. Naquele instante, sentia-se mais confiante em falar com eles, e, ainda mais depois do que eles disseram durante aquele almoço, não duvidava mais de que seria apoiado.
E, enquanto pensava no quanto era satisfatório poder dizer a todos sobre a melhor coisa que já havia acontecido na sua vida, nenhuma outra preocupação ousava assolá-lo. Sua mãe tinha razão. Ninguém poderia comandar a sua vida, e seu tio não poderia tirá-lo dali contra a sua vontade. Ele ficaria no lugar onde escolhera para passar a sua vida.
E esse lugar era ao lado de Yuri.
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