Sono Te Hanasanaide
24 Capítulo XXIV
Umaku iezu ni kimi wo komarasete shimau no nara
Se a minha incapacidade de demonstrar o que eu sinto causa problemas a você
Hitomi wo tojite sotto yudanete yo dakishimeru kara
Então feche os olhos, pois vou abraçá-lo…
Kimi no kimochi ni kizukezu ni ita to shitta toki wa
Porque quando eu aprender que não posso perceber seus sentimentos
Boku no chikara de dekiru koto subete todoketai kara
Vou fazer tudo o que estiver ao meu alcance
Capítulo 24
Tão logo subiu pelo caminho extenso da entrada da mansão, Yuri avistou Wolfram no pátio, embaixo da maior e mais frondosa árvore do pomar, usando uma velha camisa que ficava enorme no seu corpo magro, e um lenço na cabeça, que mantinha a franja longe dos olhos. Havia uma paleta de tinta em sua mão, e um cavalete de pintura à sua frente. Ele tinha um olhar severo quando Yuri se aproximou, e obviamente já sabia que ele vinha. Conrad era mesmo rápido.
— Oi… Wolfram… — Yuri balbuciou de mau jeito, sem nem saber como havia ido parar ali. Por que havia vindo mesmo? Ele queria muito ver Wolfram, queria sim. E pessoalmente, achava que nunca havia o visto tão lindo, com aquela camisa suja de tinta, o cabelo desarrumado, e o rosto irritado que olhava para ele. Mas agora que o encarava de fato, não sabia o que fazer primeiro. Olhou para os próprios pés, desconsertado e perdido; o que Susanna Julia havia dito a ele mesmo?
— Por que veio até aqui? – Wolfram bradou com o mesmo tom de voz arrogante de sempre. Nada parecia diferente entre eles. Então, por que, depois de apenas dois dias sem vê-lo, Yuri sentia que tudo havia mudado? O jardim parecia ainda mais brilhante e florido. O céu parecia mais azul. Wolfram parecia ainda mais lindo do que já era. Yuri sentia que queria apenas abraçá-lo e não soltá-lo nunca mais. Era isso, não era? Yuri percebia agora, o que levara tanto tempo para se dar conta, aquele sentimento que ocupava espaço no seu coração, que se inflava, quase transbordava, e que ele nunca havia sentido na vida. Agora, ele reconhecia, sabia que tinha um nome. E nem era tão difícil assim de acreditar. – Hey! Eu perguntei o que está fazendo aqui! – Wolfram insistiu, inclinando-se para Yuri com aquela cara enfezada que só ele sabia fazer, e com as mãos na cintura. Estava meio… perto demais. Yuri repentinamente sentiu-se consciente de toda a presença e a proximidade de Wolfram, e teve que recuar um passo, mantendo alguma distância com a mão espalmada. Estava suando frio, e seu cérebro tinha derretido completamente. O que ele supostamente deveria fazer agora?
— W-Wolfram… — Balbuciou, e todas as palavras de repente sumiram da sua mente. Levou mais alguns segundos para ele recuperar a lembrança de um vocabulário. – V-você pinta?
— Ehh? – Wolfram se afastou, indignado com a pergunta sem cabimento. Olhou ao redor, custando a acreditar. – Não, eu não pinto. Eu estou com uma paleta de tintas e um quadro na minha frente apenas para sujar essa camisa velha, Yuri, não estou pintando! – Reclamou, com exagerado sarcasmo. Yuri riu de leve, nervoso e sem saber como agir. Era raro que ele ficasse assim tão inibido, e por isso mesmo, já não sabia mais a que recorrer. Encolheu-se, fitando os próprios pés, e Wolfram suspirou, cansado. – Conrad me ligou e disse que você vinha. Não entendi nada. Parece que ele é o técnico novo do seu time, e então ele foi para a escola especialmente para lidar com isso, mas agora você apareceu aqui. Não devia estar com ele?
— Deveria. Q-quero dizer, eu estava, até agora… Mas havia algo que eu queria… queria dizer… talvez. – Yuri coçou o queixo, sem jeito. Wolfram apoiou o peso no outro pé, deixando a paleta e o pincel de lado para cruzar os braços. Pelo jeito, isso ia demorar. – Você… está pintando o que? – Wolfram revirou os olhos. Se Yuri estava a fim de agir como um completo idiota e enrolar, então fizesse isso longe dele. Estava pronto para expulsá-lo dali naquele exato momento, mas a pouca atenção do garoto já havia escapado para outro ponto. – Waaa~ essa é a sua cachorrinha? – Ele apontou para o lado oposto, em meio às flores do jardim, onde um cão estava sentado, ereto e imóvel, quase parecendo uma estátua. O cão o fitava com cuidado, parecendo que poderia partir para o ataque a qualquer segundo caso a situação a obrigasse.
— Essa é a Liesel, mas não mexa nela! Ela está posando para mim. – Wolfram respondeu com altivez, enquanto indicava discretamente a sua obra de arte, esperando algum reconhecimento. Yuri olhou para a pintura, mas só viu alguns riscos e quadrados disformes e de cores diferentes, que poderiam ser qualquer coisa, menos um cachorro. Ele até franziu os olhos, tentando enxergar alguma coisa ali no meio, mas desistiu mesmo depois de poucos segundos.
— Isso daí é a cachorrinha? – Ele arqueou uma sobrancelha. – Ela é muito mais bonita do que isso! Ah, quando o Conrad disse que você pintava, eu fiquei todo animado achando que era verdade e que você podia pintar um quadro meu, mas você só rabisca! Até criancinhas do primário poderiam fazer um cachorro parecer um cachorro… — Yuri engoliu em seco, quando percebeu o olhar repleto de hostilidade que estava recebendo do loiro. Ah, que idiota ele era! Não havia vindo até ali porque precisava dizer algo importante para Wolfram? E agora havia acabado com todas as suas chances, agindo todo nervoso como um garotinho da primeira série que implica com a garota que gosta porque não sabe o que deveria fazer…
— Eu não vou levar em conta a opinião de um reles mortal que não sabe nem mesmo a diferença entre um Picasso e um Monet. – Wolfram entoou com superioridade, completamente acostumado com a falta de sensibilidade do amigo. – Então, você disse que queria conhecer a Liesel, então deixarei que a veja de perto. Mas tome cuidado, ela é muito desconfiada, e não costuma ser amistosa com pessoas estranhas! – Ele alertou, e Yuri assentiu, repentinamente muito excitado com a ideia de conhecer a cachorrinha dele.
Wolfram fez um sinal com a mão, e chamou-a pelo nome. Ela se ergueu, saindo em disparada no mesmo segundo. Estava morrendo de vontade de correr até ali para cheirar Yuri desde o momento que o viu, mas é claro que ela não iria contra a ordem anterior do seu dono para ficar imóvel.
Assim que ela se aproximou, Yuri logo se arrependeu. Ela era muito maior do que parecia ao longe, e seus olhos azuis pareciam mortíferos e sanguinários. Ela rosnou baixinho, vendo a proximidade entre seu dono e Yuri, e começou a farejá-lo intensamente. Yuri mal se mexia, nem mesmo respirava, e Wolfram sorriu de canto, convencido. Porém, depois de fazer a sua minuciosa checagem, Liesel inesperadamente deitou-se no chão, de barriga para cima e língua para fora, olhando para Yuri com olhos enormes e pidões. Ele riu, ajoelhando-se para fazer carinho nela, e ouviu-a fazendo um som satisfeito e relaxado.
— Ela gostou de mim! – Yuri bradou como se essa fosse uma conquista épica. Wolfram virou o rosto, resmungando qualquer coisa sobre ser a primeira vez que Liesel fazia isso ao conhecer alguém. Realmente, na maior parte das vezes, ela era desconfiada e feroz. Nunca havia se comportado daquela forma. E agora estava ali, com o rabinho balançando para Yuri, toda feliz. – Quem é a menina bonita, ahn? Quem é? Quem é? – Yuri fazia uma vozinha de criança, enquanto coçava a barriga de Liesel, e ela se chacoalhava alegremente.
— Não ensine coisas idiotas para ela, seu fracote! – Wolfram repreendia-o. – Ela é de raça, tem pedigree! Não é como os vira-latas que você conhece por aí.
— Eu sei, eu sei. Mas um cachorro é um cachorro, não importa se nasceu na rua ou num palácio, eles ainda gostam das mesmas coisas. Como carinho, não é Liesel? – Ele riu, quando a cadela virou-se para baixo novamente, e pulou no seu colo, lambendo o seu rosto com vontade.
— Agora já chega, Liesel! – Wolfram interrompeu a brincadeira dos dois, quase alterado. Liesel entendeu o comando do seu dono, e voltou a sentar como se nada tivesse acontecido, embora ainda olhasse para Yuri com o canto dos olhos.
— Ah, ela é muito fofa, Wolfram… — Yuri riu, coçando a orelha da cadela, que ainda permanecia na mesma posição, embora apreciasse o carinho. – Se você tivesse me contado, eu teria vindo conhecê-la antes.
— Então você veio só pra ver a Liesel? – O loiro rendeu-se, sentando na grama ao lado de Yuri. O tempo já começava a esfriar com o inverno, mas como alguns raios de sol ainda batiam ali, mesmo com a árvore, o clima não era desagradável.
— N-não é bem isso, quero dizer… — Yuri tirou a mão de Liesel, e começou a esfregar uma na outra, nervosamente. Wolfram tirou o lenço que trazia na cabeça, e passou a mão entre os cachos, tentando reordená-los, embora fosse impossível agora. Yuri perdeu mais alguns segundos observando o gesto simples que, na sua visão, era algo incrivelmente admirável. Ele só voltou à realidade quando notou Wolfram encarando-o com cara de poucos amigos. – T-tem algo que eu queria contar. A-algo sobre mim, e b-bem, sobre você…
— Então diga logo, fracote! – O coração de Wolfram antecipou-se, e já batia acelerado, antes que sua mente pudesse pensar em uma razão plausível para aquele repentino chamado. Claro que ele inutilmente tinha esperanças. Era humano, afinal. Mas essas esperanças só faziam Wolfram perceber o quanto pessoas apaixonadas podiam ser patéticas. Ele preferia não ser assim.
— Etto… O-outro dia, eu estava na rua com o Murata, e encontrei a Susanna Julia-san…
— Sério? – Wolfram admirou-se. – Ela está bem?
— Sim, está muito bem, e muito feliz. Ela vai se casar, e nos convidou para a cerimônia, inclusive… — Yuri sorriu com a boa notícia, e Wolfram sorriu também. – Então, como eu ia dizendo, eu conversei com ela… — Ele desviou o olhar, embaraçado e sem rumo. O que deveria começar dizendo? Ah, isso era tão complicado! Bem que a Julia-san podia ter feito um roteiro, um mapa de rotas, algumas dicas… Qualquer coisa! Enquanto fitava a casa enorme logo à frente, pensando numa maneira de falar aquilo que sentia, o que não era nada fácil, Yuri notou algo se movendo em uma das janelas dos andares superiores. – Nee, Wolfram, você tem irmãs?
— Irmãs? – Wolfram bradou indignado. – Você está enrolando novamente para não chegar ao assunto, fracote?
— Não, é sério! Tem uma garota ali em cima, olha… — Ele apontou para uma figura pálida, de cabelos loiros e lisos, amarrados por uma fita atrás da cabeça. – N-não é um f-fantasma, é?
— Claro que não! Ela é Elizabeth Raven, é sobrinha de um conhecido do meu tio, que veio passar alguns dias com ele aqui em casa. – Wolfram respondeu de uma só vez, escorando-se no tronco da árvore, e fechando os olhos. – Ele quer que eu a “conheça melhor…” – Ele fez aspas com os dedos, deixando claro o quanto achava ridícula a ideia. Yuri ofegou. – É o plano maior dele, me fazer gostar dela o suficiente para pedi-la em noivado…
— O que? – Yuri se apoiou nos braços, inclinando-se até chegar perto de Wolfram. Seus olhos estavam quase saindo das órbitas. – Ela é sua… noiva?
— Não, idiota! Não ouviu o que eu acabei de falar? É o plano do meu tio, não significa que vai acontecer. No meu país, os noivados costumam acontecer por influência da família, que apresenta os noivos e espera que eles se entendam de alguma forma… Então Tio Valtrana trouxe ela até aqui, na esperança de que eu goste dela e a peça em noivado…
— Mas isso não vai acontecer, não é? – Yuri insistiu, quase em desespero. Olhou de relance para a janela, e percebeu que a garota ainda os observava atentamente, em um movimento que ela pretendia que fosse discreto, por entre as cortinas. Então, ele voltou-se de novo, para Wolfram, segurando-o pelo braço. – Você não vai se casar com ela, nee, Wolf, nem com ninguém mais?! Não é? Você não pode!
— Y-Yuri… — Wolfram murmurou, intrigado, vendo o semblante de quase desespero no rosto do sempre tão relaxado Yuri. Seu coração voltou a acelerar, enquanto sentia a mão que segurava seu braço abrandar, quando seus olhos se encontraram. Sem parar de fitá-lo, ele delicadamente deslizou a mão pelo braço de Wolfram, até encontrar a mão dele, e segurou-a com firmeza, em cima da grama. Ambos sentiram os rostos queimarem, ao mesmo tempo. Nenhum deles encontrava a voz para dizer qualquer coisa. – Yuri… P-por que você se importa com isso? Se eu vou me casar ou não, isso não tem nada a ver com você…
— Tem a ver comigo sim! Porque… Isso… Isso é porque...
— Wolfram, então é aí que você estava! – Uma voz grave cortou a conversa, e ambos soltaram a mão um do outro mais rápido do que Wolfram era capaz de gritar “fracote”. Vindo do lado de dentro da mansão, vinha um homem alto e garboso, de cabelos loiros e sedosos que chegavam até o queixo, e penetrantes olhos azuis. Ele tinha um porte altivo, até mesmo arrogante, muito parecido com o de Wolfram, embora eles tivessem aparência diferente, e Yuri paralisou, repentinamente temeroso pela aproximação daquele homem.
— Sim. – Wolfram se ergueu de pé, agindo de uma maneira respeitosa que Yuri raramente tinha a chance de ver. O moreno levantou também, embora estivesse nervoso sem nem saber o porquê. – Tio, este é Shibuya Yuri, um amigo meu do Japão. — Ele se apressou em apresentar, seriamente.
— Ah, sim, muito prazer. – O homem cumprimentou rapidamente Yuri à moda oriental, e ele fez o mesmo, exagerando um pouco na reverência. – Eu vim chamá-lo, Wolfram, para fazer companhia à Elizabeth. Ela está completamente sozinha lá em cima, e não tem nada para fazer, pobrezinha. Vá até lá e a convide para um chá no jardim, ela apreciaria muito a sua companhia. Você pode levar até mesmo seu amigo…
— Entendido, Tio. Eu farei isso. – Wolfram assentiu, e então virou-se para Yuri – Você… Você vem?
— Ah, eu não… quero atrapalhar. – Ele riu sem graça, desconfortável na presença quase esmagadora do homem mais velho, e sentindo ainda mais o peso dos olhares da garota lá em cima. Sentiu que não gostava dela, de repente. – Acho melhor ir embora. – Ele já ia dando as costas para sair, quando sentiu um rápido puxão na manga do seu casaco.
— Não tinha algo que você precisava me falar? — A pergunta de Wolfram soava quase como uma súplica, e Yuri se sentiu tentado a ficar. Tentar mais uma vez, quando tivesse alguma chance a sós com Wolfram, e dessa vez não falharia. Abriu a boca para responder, mas Valtrana foi mais rápido.
— Seja o que for, vocês se verão na escola, correto? – Ele segurou Wolfram pelos ombros, conduzindo-o para o lado oposto de Yuri. – Você precisa fazer companhia para Elizabeth, Wolfram, ela veio especialmente para ver você. Aja como um cavalheiro, sim? Mais uma vez, encantado em conhecê-lo, Senhor Shibuya. – Valtrana fez um pequeno sinal com a cabeça, e afastou-se com Wolfram. Não parecia nada “encantado” em conhecê-lo, de qualquer maneira.
Wolfram olhou para trás, enquanto ia sendo levado pelo tio. Yuri ainda estava parado no mesmo lugar, com o rosto sério, de uma forma que Wolfram quase nunca tinha a chance de ver. Parecia arrependido. Wolfram o xingou baixinho. Por que ele tinha que estar olhando para ele daquela forma? Maldito fracote, não devia ficar mandando aqueles sinais falsos, que só o faziam ter mais esperanças infundadas.
Yuri sentiu sua hora de ir embora, e a sensação de ser derrotado queimando a boca do seu estômago. Se ao menos ele não fosse tão hesitante. Se ao menos as palavras certas tivessem vindo para sua mente antes. Se aquela garota não estivesse os espionando, se o tio de Wolfram não aparecesse… Se ao menos ele tivesse mais coragem… Os “e se” na cabeça de Yuri não tinham fim, e ele tentava não pensar nisso por enquanto. Assim como quando perdia um jogo, sabia que não deveria ficar remoendo a derrota, mas sim pensar em uma maneira de ganhar a próxima partida.
Sempre haveria uma próxima partida.
~
Quando chegou em sua casa, cansado e perdido nos próprios pensamentos, Yuri logo notou o par de calçados a mais que estavam na entrada. E lá estava Murata, tomando chá com a sua mãe. Yuri havia o abandonado para sair correndo para a casa de Wolfram, o que no fim não adiantou nada, então é claro que ele acabaria vindo parar ali de qualquer jeito.
— Tadaima…
— Ah, okaeri, Yu-chan! – Miko sorria de maneira estranha, e pela expressão de Murata, ele já devia ter contado a ela algo desnecessário. Mas Yuri não estava com humor para aguentar a animação da sua mãe, e era uma sorte que Miyako estivesse trabalhando e não fosse perturbá-lo agora também, com interrogatórios intermináveis. Yuri suspirou quase depressivamente, e fitou os dois que o encaravam parecendo esperar por alguma coisa. O que será que eles pensavam que estava acontecendo?
— Hey, Murata… Vamos jogar alguma coisa ali no quarto, está certo? – Yuri convidou, achando que talvez fosse uma boa ideia conversar com ele longe dos ouvidos atentos de Miko, e ele concordou, seguindo-o até o quarto de Yuri.
Logo que entraram, Yuri fechou a porta e, depois de ter certeza de que Miko não teria os seguido para ouvir atrás da porta, sentou na cama, escorando-se na parede. Murata se acomodou na beirada, fitando-o com preocupação. Claro que Yuri parecia querer conversar, ainda mais porque ele nem mesmo chegou perto do vídeo game, então ele esperou pacientemente.
— Murata… Você é meu amigo não é? – Ele começou a falar, em voz baixa.
— Claro que sim, Shibuya! Que pergunta. – Murata não hesitou em responder. – E, antes que você continue enrolando, saiba que eu sei exatamente o que você quer contar, e que eu já desconfiava disso há muito tempo. E ainda, eu serei seu amigo de qualquer maneira, não importa para mim do que você gosta ou deixa de gostar, você poderia assaltar bancos vestindo uma sunga cor-de-rosa, e eu ainda seria seu amigo. – Ele disse rapidamente, e Yuri sentou direito na cama, em choque com aquelas palavras inesperadas.
— M-Murata… — Yuri fungou emocionado com as palavras do amigo. Sua intenção era contar tudo a Murata, fazê-lo entender e então pedir ajuda, mas parecia que seria muito mais fácil do que ele pensou. – E-então você já sabia? D-desde quando?
— Francamente, Shibuya, você era o único idiota lerdo que ainda não sabia de nada. Eu conheço você desde o primário, sei tudo sobre você! – Murata deu de ombros. – Quem é que sempre te ajudava quando você se metia em problemas, hein?
— Não sei. Você que não era nee, você sempre fugia… — Yuri ponderou, relembrando.
— Que seja, não importa. – Murata desconversou. – Você finalmente percebeu que está apaixonado pelo Wolfram, não é?
— É… — Yuri sentiu as orelhas queimando. – É isso… Era… tão óbvio assim? – Ele ergueu somente os olhos, parecendo uma criancinha que foi repreendida pela professora porque não sabia a lição.
— Claro. Sua mãe e a Miyako falavam disso o tempo todo quando você não estava. Sobre o quanto você parecia mais alegre e agitado quando estava perto de Wolfram, e como falava sobre ele cheio de orgulho. Ficava tagarelando sem parar sobre o quanto ele era incrível, e que ele lutava com espadas, e era inteligente, e era bonito…
— Tá, eu já entendi. – Yuri sentia-se ainda mais patético, por ter demorado a perceber o que era tão óbvio para todos, pelo jeito. – Você… não acha que isso seja um problema?
— Evidente que não! Você ainda é o mesmo Shibuya Yuri Harajuku Furi de sempre. – Murata riu. – Só que gosta de um garoto. Grande coisa. Se eu dissesse que gosto de algum garoto, você ia parar de falar comigo por acaso?
— Nunca! Você é meu amigo, Murata, eu nunca faria isso…
— Então, é a mesma coisa. – Murata encerrou o assunto, mais preocupado com as questões práticas do problema. – E o que você pretende fazer a partir de agora? Você foi até a casa dele para se declarar, não é?
— Eu acho que ia fazer isso, mas não consegui. – Ele resumiu toda a história do tio de Wolfram e da pretendente à noiva para Murata, enquanto ele resmungava em concordância a cada frase. — … então, eu acho que não sei fazer essas coisas. As palavras certas e tudo mais… Está tudo na minha cabeça, mas na hora, parecia que meu cérebro tinha derretido, eu não consegui falar nada! E depois, aquele tio dele apareceu e estragou tudo, bem quando eu ia falar…
— Por que você não escreve uma carta? – Murata sugeriu, simplesmente. Yuri o fitou como se ele tivesse um olho a mais no meio da testa.
— Carta?
— É. Escreve uma carta de amor para ele, e entrega na escola, ou pode colocar até no armário de sapatos. Então, ele encontra com você, e dá a resposta dele. Simples assim. Não tem como ninguém atrapalhar, e você ainda vai ter tempo de pensar bem nas palavras antes de colocá-las no papel, é perfeito.
— Mas… mas… Se eu fizer isso… — Yuri mordeu os lábios, nervosamente. – E se ele me rejeitar, Murata? E se eu escrever alguma coisa idiota demais?
Murata riu para si mesmo, sabendo muito bem que ele não corria esse risco. Wolfram aceitaria Yuri de qualquer maneira, qualquer um podia enxergar, inclusive. Mas é claro que Yuri não.
— Então você pode optar por serem apenas amigos, ou algo assim. Pense nisso depois, não seja tão pessimista. – Ele tentou tranquilizar o outro. Yuri apaixonado era algo que ele nunca havia tido que lidar antes, mas até agora estava sendo muito cômico. – Por que você acha que seria assim?
— Não sei… Wolf é tão lindo… — Ele abraçou as pernas, escondendo o rosto corado entre os joelhos, e Murata deu mais uma risada. Jamais havia pensado que veria o amigo daquela forma. Ele parecia mais uma garotinha apaixonada. Uma carta de amor assentava mesmo com essa atmosfera. – Você não acha que ele combinaria muito mais com uma garota fofa do que… comigo? Alguma como aquela Elizabeth sei lá do que…
— Em Shin Makoku, essas coisas não são comuns? – Murata lembrou, e Yuri assentiu. – Então, ele não vai achar estranho ou nojento você se confessar para ele. E vocês são amigos de infância, não são? Ele vai entender… Ele pode sentir o mesmo, você já pensou nisso? Ele pode estar pensando em você nesse exato momento, inclusive. Mas, se você não tentar, nunca vai saber.
—... Sim, você tem razão, Murata. – Yuri olhou em frente, e sorriu, com a motivação repentinamente renovada, e o coração batendo rápido. — Eu devo pelo menos… tentar… Não é?
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