Notas iniciais
Aaah~ mais um capítulo -v- eu estou realmente empolgada com essa parte, não consigo parar de escrever kkkkkkkk espero que gostem o//

Kao o awashitara kenka shite bakari

Sempre que nos víamos tudo que fizemos foi brigar

Sore mo ii omoide data

Mas aquilo eram também lembranças maravilhosas.

Hitori demo yuku yo tatoe tsurakute mo

Eu vou por mim mesmo, mesmo que isso pareça doloroso,

Kimi to mita yume wa kanarazu motteku yo

Eu vou sempre continuar o sonho que eu tive com você.

Kimi to ga yokatta hoka no dare demo nai

Estar com você era tão maravilhoso, não havia mais ninguém.

Demo mezameta asa kimi wa inai nda ne

Mas quando eu acordei de manhã, você não estava lá



Capítulo 20

Yuri sentia algo pressionado sob seus lábios, e imaginava se não deveria estar tendo outro daqueles sonhos com sua garota predestinada. A sensação era exatamente a mesma. Era macio, e cálido… De repente, sentiu que havia algo úmido tocando seu rosto. Eram lágrimas? Com o choque perpassando pelos seus nervos, ele percebeu que não podia ser sonho, se ele estava acordado… Afastando-se subitamente, ele abriu os olhos, vendo o rosto em choque de Wolfram, que o encarava, com o rosto vermelho lavado de lágrimas, paralisado e sem reação aparente pela atitude brusca de Yuri.

— W-wolfram… E-eu… Só… Q-quer dizer… — Quando percebeu que era incapaz de dizer qualquer coisa que fosse, e que as feições atônitas de Wolfram mostravam que ele também não estava em condições de se impor, Yuri se arrastou para longe, erguendo-se aos tropeços. – M-me desculpe. – Foi a única coisa que ele conseguiu gaguejar, antes de sair correndo. Wolfram ouviu o barulho dele patinando pelo piso do seu quarto, e então a porta batendo com força.

Ainda não havia acreditado no que acabara de ocorrer. Lentamente, levou os dedos aos lábios, e a percepção de tê-los junto aos de Yuri ainda era nítida na sua lembrança. Ele fechou os olhos, apenas para provar daquela sensação mais uma vez, em sua mente. Ele havia mesmo feito aquilo... Havia tido a iniciativa, Wolfram não fizera nada para que ele agisse assim. Dessa vez, ele estava acordado, e havia agido por vontade própria. O coração de Wolfram acelerava loucamente apenas em pensar nessa constatação.

— F-fracote… — Murmurou, pressionando mais uma vez a região com a ponta dos dedos gelados por causa do frio do lado fora. Esse beijo tinha mesmo algum significado? Wolfram desejava tão ardentemente que sim… Seria bom se Orihime e Hikoboshi tivessem ouvido seu pedido, e o tornassem realidade.

Assim que saiu para o lado de fora, Yuri bateu a porta do quarto de Wolfram, escorando-se nela para tentar colocar alguma ordem na sua frequência cardíaca e respiratória. O que raios ele havia acabado de fazer?! Certo… Ele apenas ficou assustado de ver Wolfram chorando de repente na sua frente, e sentiu-se inútil por não poder fazer nada… E então, o que ele costumava fazer quando se via encurralado daquela forma? Ah, sim… Agir seguindo seus impulsos. Ele fazia muito isso, mesmo… As imagens ficaram tão confusas na sua mente, e ele se lembrou de quando eram crianças, e Wolfram chorou… Ele quis fazer aquela mágica de novo, ele queria acabar com o choro de Wolfram… E aquilo acabou acontecendo!

— Aaaah, por que eu tenho que ser tão idiooota! – Ele exclamou de repente, apertando a cabeça com as mãos para ver se ela começava a funcionar como deveria. Que tipo de pessoa era capaz de fazer esse tipo de coisa dessa forma?? Yuri, baka, baka, baka! Como ele ia encarar Wolfram agora?? Será que havia roubado seu primeiro beijo? Bem… Ele era estrangeiro, então talvez esse tipo de coisa não fosse realmente importante… Não, sem chance, sem chance! Isso com certeza era um problema! Ah, se Yuri apenas pudesse pensar em alguma maneira de consertar as coisas…

— Você está perdido? – Uma voz grave ressoou no escuro, e Yuri viu uma silhueta de alguém grande se aproximando.

— E-eu… acho que sim… — Yuri disse, tolamente, embora a pergunta não estivesse se referindo ao seu estado mental especificadamente. Olhou melhor para a figura que se aproximava, e quando finalmente ele havia chegado próximo o suficiente para ser iluminado pela luz que vinha de fora, percebeu que se tratava de Gwendal, irmão mais velho de Wolfram.

— O quarto que foi arrumado para você fica aqui ao lado. – Ele disse, com a voz séria, e Yuri viu que ele apontava para a porta logo à direita da do quarto de Wolfram. – Era isso o que você procurava?

— S-sim… Era… — Ele respondeu, incerto, sem saber se devia dizer que provavelmente estava planejando fugir na calada da noite e nunca mais teria coragem de olhar para Wolfram novamente depois de tudo.

— Então está bem. Boa noite. – Ele disse, fazendo um aceno de cabeça e continuando a caminhar corredor adentro.

Quando se viu novamente sozinho no escuro, Yuri resolveu entrar logo no quarto que foi indicado, sem nenhuma outra opção em vista. Acendeu a luz de uma luminária de parede, que iluminou tenuamente, e ele pôde ver o cômodo. Era ligeiramente menor que o quarto de Wolfram, mas ainda muito maior do que o seu próprio, todo decorado em tons pastéis, com os móveis de madeira mais escura, e a impessoalidade do local deixava claro que era destinado a hóspedes.

Yuri correu e deitou na cama, com as roupas que estava mesmo, cobrindo-se até a cabeça. Fechou os olhos com força… O quarto tinha mesmo que ser ao lado do de Wolfram? Ele se sentia desconfortável só de pensar que o loiro estava logo ali ao lado, depois de tudo o que aconteceu. Se ele fosse até a varanda, poderia vê-lo. Será que ele ainda estava ali fora ou já havia entrado? Yuri havia sido muito irresponsável, saindo correndo daquela forma depois do que fez. Remexeu-se na cama, inquieto, sentindo-se culpado. O que Wolfram devia estar pensando dele agora? Com certeza, estava odiando-o! Devia pensar que ele era desprezível, nojento, fazendo uma coisa como aquela tão facilmente, sem nem pedir permissão antes.

— Yuri, por que você tem que ser tão idiota… — Ele resmungou, escondendo o rosto embaixo dos cobertores, de vergonha. Ainda não conseguia encontrar a razão por aquele ato tão imprudente, mas sabia que não seria tão fácil se justificar. Por que ele havia feito aquilo mesmo? Apenas ver Wolfram chorar não era um motivo contundente. Tinha que haver algo mais! Algo que nem ele mesmo tivesse notado…

Não importando o que fosse que tivesse o levado a fazer isso, já havia acontecido, não tinha como evitar. Yuri desejava realmente poder dormir e acordar no outro dia descobrindo que tudo não passava de um sonho. Um sonho completamente desvairado, sem razão ou circunstância. Mas… Ei! Isso já não tinha acontecido antes?

Yuri sentou na cama, com os olhos arregalados em surpresa. Sim! Ele já havia sonhado antes que beijava Wolfram! Há muito tempo, é verdade, e não lembrava mais disso, mas acontecera de fato. Aquele sonho o incomodara por semanas, e ele se sentia muito estranho perto de Wolfram depois disso, mas acabou por esquecer espontaneamente desse fato, e enterrou a memória no fundo da sua mente. Em algum momento, esses sonhos se misturaram com aqueles que ele vinha tendo com a tal “garota predestinada” e ele enfim esqueceu completamente.

Voltando a deitar, Yuri sentia sua cabeça girar em uma confusão constante. Não seria esse outro sonho detalhado e complexo que ele tinha por sabe-se lá que motivo? Talvez ele só estivesse solitário porque não tinha uma namorada? Não, sem chance… Yuri já havia tentado sair com uma garota, e decididamente não foi a sua melhor escolha na vida, não tinha como ser isso. E mais… Aquele beijo… Não havia como ele imaginar daquela forma tão real, nem em um milhão de anos. O beijo fora legítimo, sem sombra de dúvidas. Agora, pensando melhor no assunto… Yuri havia beijado um garoto! A ficha finalmente caíra, ele havia acabado de beijar o seu melhor amigo! E… o mais assustador de tudo era que… aquilo não fora ruim, de forma alguma…

~

Wolfram abriu os olhos, sentindo a luz branca que vinha do céu nublado machucar seus olhos. Ele não havia dormido a noite inteira, rolando de um lado para o outro da cama sem descansar nem mesmo um segundo. Levantou-se, preguiçosamente, e se colocou de frente para o espelho na parede. Seu estado era deplorável. As olheiras se formavam abaixo dos olhos inchados, e seu cabelo estava completamente arruinado, cheio de cachos apontando para fora, depois de ficar se mexendo sem parar durante toda a noite.

Lentamente, ele ergueu os dedos, tocando com as pontas deles os lábios ressecados. O toque havia sumido, mas sua lembrança ainda era o suficiente para fazê-lo corar, apesar do cansaço. Ah, sim… Aquilo havia mesmo acontecido…

— Aquele… — Ele fechou os olhos, forçando-se a não pensar nisso. Caminhou a passos duros até a porta, reunindo coragem para enfrentá-lo. Precisava dizer a ele a verdade, de uma vez por todas. Que verdade? Nem mesmo Wolfram sabia ao certo, mas tinha que dizer algo para Yuri, antes que explodisse com aquele amontoado de sentimentos que estavam quase transbordando do seu coração.

Sem se importar com o fato de ainda estar usando pijamas, ou de estar de pés-descalços, ele marchou até o quarto ao lado, onde certamente Yuri devia ter ido dormir na noite anterior. Não se preocupou em bater na porta ou se anunciar, apenas abriu-a com o máximo de força que podia. Mas o quarto estava completamente vazio.

— Eu não acredito! Aquele covarde idiota fugiu! – Wolfram resmungou, indignado. Entrou no cômodo, olhando ao redor para garantir que Yuri não estava escondido atrás de uma cortina ou debaixo da cama. Estava indo olhar dentro dos armários, quando ouviu uma musiquinha abafada vindo ao longe. Era seu celular!

Saiu correndo de volta para seu quarto, pulando sobre a cama para alcançar o aparelho que tocava e vibrava. Era uma mensagem. Era uma mensagem dele.

Desculpe por ser um fracote. Eu não devia ter fugido.

Yuri.

— Aquele… aquele… fracote imbecil!!! – Wolfram bradou, abafando o ruído com o travesseiro.

Um misto de irritação e raiva, por ele ter ido embora sem nem falar nada, e ainda alívio por ele ainda manter contato, fizeram Wolfram ter vontade de gritar. Ele precisou de alguns minutos para se recuperar, e ter condições de escrever uma mensagem de resposta. Uma que parecesse saudável e calma, para que Yuri não pensasse que aquele beijo o havia abalado de forma alguma.

Depois de pensar bem no assunto, Wolfram só podia concluir que aquilo não significara nada… Depois de tudo, Yuri era um idiota que não pensava em suas ações, e ele sabia disso muito bem! Não havia por que esperar algo mais disso. Ele não agiria como uma garotinha tola e iludida, que toma cada pequena ação como uma grande prova de afeição. Não, mesmo! Wolfram era um garoto maduro e centrado, que sabia muito bem diferenciar atos impulsivos dos verdadeiros, e não se deixaria levar por apenas sensações e pensamentos incoerentes formados pela sua mente imaginativa. Não, ele se manteria inabalável, tranquilo, como sempre… mas, antes disso… precisava reordenar as batidas incontroladas do seu coração…

~

Fracote.

Era a única palavra que continha na mensagem que Yuri acabara de receber. E ele não pôde deixar de sorrir, apesar do xingamento, sentindo-se um pouco aliviado depois disso. Estava imaginando que Wolfram ignoraria a sua tentativa patética de fazer contato, e ele certamente faria isso se estivesse com raiva. Wolfram era orgulhoso e tratava com hostilidade aquilo que não o agradava. Nesse ponto, ele era muito sincero com seus sentimentos. Então, Yuri sabia muito bem que ele não faria algo como responder apenas por educação, e nem mesmo se dignaria a ler a mensagem se estivesse com raiva de Yuri.

Por isso, se ele havia se dado ao trabalho de responder à sua mensagem, e tão rápido, então era evidente que o perdoara. Se não completamente, ao menos não estava com muita raiva, ou ainda, com nojo. Yuri já conseguia respirar aliviado agora, pois Wolfram jamais escreveria algo para ele se não estivesse disposto a retomar sua amizade. Yuri não sabia nem mesmo do que tinha medo com relação à reação do outro ao beijo, mas sabia que não queria ter que ficar longe dele por algo assim…

Afundou no sofá, deixando o celular de lado, e suspirou. Estava morrendo de sono. Havia saído da casa de Wolfram tão cedo quanto pôde, depois de uma noite absolutamente mal dormida. Deu qualquer desculpa para a empregada que queria servir a ele o café da manhã, e saiu de lá correndo. Quando chegou em casa, seu irmão e seu pai haviam acabado de sair para o trabalho, mesmo sendo sábado, e sua mãe também não estava. A única que devia estar dormindo ainda era Miyako. Ele agradeceu por não ter que se explicar para ninguém. Como iria dizer que fugira da casa do seu amigo depois de beijar ele na noite anterior?! Aaah, e para piorar, essa cena não parava de se repetir na sua cabeça, como em um looping infinito, sempre voltando e voltando… Yuri abraçou a almofada, contorcendo-se sobre o sofá como uma minhoca exposta ao sol, tentando se controlar.

— Yuri-nii-chan… O que está fazendo em casa tão cedo?

— Miyako! – Yuri caiu no chão, ainda abraçado com a almofada. Olhou para trás, com a visão invertida por ter caído de costas, e viu sua prima de cabeça para baixo, usando um vestido de maid, e com os cabelos amarrados em duas marias-chiquinhas, e uma touca de lã com orelhinhas de urso. – Por que você está acordada? E vestida desse jeito?

— Eu vou trabalhar hoje também… — Ela respondeu, enquanto pegava um pedaço de bolo para comer. Yuri se levantou, sentando novamente no sofá. – M-mas… Você não estava na casa do Wolfram-kun? Aconteceu alguma coisa? – Ela se apressou em correr para o lado dele, preocupada.

— Claro que não aconteceu nada. Touca legal. – Ele elogiou, apenas para mudar de assunto.

— Ah! Foi o Wolfram-kun que me deu… — Yuri se remexeu, incomodado, ao ouvir o nome dele. — … parece que foi o irmão dele quem fez e… Você está bem, Nii-chan?

— Sim, claro que estou! Você… Quando o Wolfram te deu esse presente? Vocês… se dão muito bem, não é? – Ele disse, claramente perturbado.

— Ele está sendo mais legal comigo ultimamente. – Ela respondeu, estranhando o comportamento do primo. Poderia ser que ele estivesse com ciúmes? Ah, seria uma dádiva dos céus se fosse realmente isso! – Então, como foi na casa do Wolfram-kun? – Ela não se conteve ao perguntar, ávida por mais informações.

— B-bem… — Yuri hesitou. Sempre fora um péssimo mentiroso, e Miyako podia ver perfeitamente através das suas reações se quisesse.

— Não me diga que…. – Ela disse cada palavra pausadamente, com a conclusão se formando na sua cabeça. – N-não me diga que… você se descontrolou e atacou o Wolfram-kun??

— Claro que não, que loucura! – Yuri rebateu, virando o rosto para o outro lado, evitando qualquer contato visual. Parecia que estava sendo interrogado pela sua própria mãe!

— Ele não estava preparado ainda e ficou traumatizado!!! – Ela deduziu por si mesma, e começou a ponderar descontroladamente. – Não, Yuri-Nii-chan, você está fazendo errado! Essas coisas precisam de preparação, preparação! Se você não preparar o Wolfram-kun direito, ele vai sentir dor, e…

— Do que você está falando, Miya-chan? – Yuri indagou, e Miyako corou ao perceber que havia falado mais do que pretendia. – E-eu não ataquei o Wolf! Pelo menos eu acho que não… Enfim, eu não entendi nada do que você está falando! Eu só vim para casa mais cedo, foi só isso!

— Mas… vocês não brigaram, não é? – Ela inclinou a cabeça, com curiosidade.

— Não. Nós não brigamos, mas… — Yuri suspirou longamente. – Eu não sei o que está acontecendo… — Ele foi sincero. – Tudo está muito confuso na minha cabeça!

— Ah, Nii-chan… — Miyako se ergueu, afagando o topo da cabeça do primo compreensivamente, com um sorriso gentil nos lábios. – Você está começando a entender, finalmente, eu sinto isso! Tenha paciência com o Wolfram-kun, ele é um tsundere afinal! Você tem que saber lidar com ele com cuidado… E converse com ele direitinho, para que vocês não fiquem de mal! Ah, a Miya tem que ir agora, está atrasada!!! – Ela pegou um longo casaco para colocar por cima da fantasia de empregada, e acenou para Yuri no caminho para a porta da frente. – Eu quero saber de todos os detalhes, não esconda nada da Miya, certo?? Quando eu voltar, a gente conversa, nii-chan!

Yuri ouviu a porta da frente fechando, e largou-se mais uma vez no sofá. Suspirou. Já havia suspirado quantas vezes, só nessa manhã? Perdera a conta, de verdade. E não entendia o que acontecia na sua mente. Estava tudo girando, e ela estava começando a doer, tanto pelo esforço em pensar quanto pela falta de sono. Yuri estava sozinho agora, e não havia ruído nenhum na casa, mas aquele silêncio também era esmagador.

Por que um simples beijo havia o deixado tão confuso? Nem mesmo havia sido um beijo de verdade! Quando Mariko fez o mesmo com ele, e daquela vez tinha durado bem mais tempo, e com mais intensidade, ele não havia sentido nada, definitivamente nada. Nem mesmo cócegas. E não ficou pensando nisso nem por um segundo depois de acontecer! O que era estranho, considerando que fora seu primeiro beijo de verdade. Mas… Ele não tinha que pensar naquela garota. Porque Wolfram estava lá com ele! Ah, de alguma forma tudo sempre acabava retornando para Wolfram, não é? Bem, Yuri não queria pensar naquela garota, Mariko, de qualquer forma. O beijo de Wolfram era muito melhor do que o dela…

— Ei, não, espera! – Yuri assustou-se com o próprio pensamento repentino, pulando do sofá. Ele havia mesmo gostado de beijar Wolfram?! Bem, ele podia admitir que não se incomodaria se acontecesse, por acaso, uma segunda vez, m-mas… não, não, não, isso estava completamente errado!! Ele chacoalhou a cabeça, tentando reordenar sua linha de pensamento. Wolfram o espancaria se soubesse que ele havia acabado de visualizar a si mesmo agarrando-o novamente. Miyako certamente teria um ataque…

Ah! Era isso! Miyako!! Yuri podia até ouvir o som da lâmpada acima da sua cabeça se acendendo. Todo esse mal entendido dentro da sua cabeça podia ter alguma relação com os livros estranhos que ela lia sem parar. Ei! Nos livros dela, coisas desse tipo aconteciam o tempo todo! Yuri nunca havia parado para ler aquelas coisas, então, não sabia como a história acabava no final, no entanto... Ele estava sozinho em casa agora, e se desse uma olhadinha, ninguém saberia, certo? Ele só queria encontrar alguma resposta sobre o que estava acontecendo com ele, ora! Ninguém podia julgá-lo por isso!

Sentindo-se o pior dos bandidos, ele enfim resolveu ir até o quarto da garota. Andou pé por pé, espreitando como se realmente houvesse ali alguém além dele. Deslizou a porta do quarto dela, silenciosamente. Seu coração batia rapidamente, com a adrenalina de estar fazendo algo completamente ilógico – e errado. Ele acendeu a luz e, só por precaução, olhou mais uma ou duas vezes pelo corredor. Até sua respiração estava ofegante. Francamente, ele mais parecia um pervertido!

Colocou-se dentro do quarto, que tinha as paredes todas revestidas com cartazes e pôsteres de animes, a maioria deles com personagens masculinos ilustrados. Havia ainda figures, bonecos de pelúcia, miniaturas, e todo tipo de brinquedos. Todos pareciam estar olhando para ele com aqueles olhos inquisidores, sabendo exatamente o que ele pretendia. Pareciam vigilantes, e certamente contariam para Miyako mais tarde o que ele andou fazendo. Tentando ignorar a sensação de estar sendo vigiado, mesmo que por pôsteres, ele andou até a estante, que estava atulhada com todo tipo de título. Havia ainda algumas caixas contendo os volumes que não cabiam na estante, em cima dela.

Yuri olhou com a atenção para todos os títulos, tentando encontrar algum que pudesse ajudá-lo de alguma forma e, embora nenhum deles parecesse suficiente para esse fim, ele ainda estava curioso. Não sabia nem mesmo o que estava procurando ali, mas tinha que fazer alguma coisa, depois de invadir o quarto de Miyako, afinal! Fechou os olhos e puxou um volume ao acaso, torcendo para que não houvesse nada nele capaz de traumatizá-lo para sempre.

Pegou mais alguns sortidos, tomando o cuidado de selecionar aqueles que não possuíam avisos de idade na capa, e sentou no chão para examiná-los. Não havia nada de muito comprometedor em nenhum deles, na verdade, pareciam mais com histórias de romance normais, a única diferença era que ambos eram garotos. Embora alguns fossem tão femininos que poderiam passar facilmente como garotas. Inclusive, em alguns dos livros, eles se vestiam como garotas! Em resumo, na maioria dos mangás, um dos personagens podia ficar confuso por algum tempo, mas todos eles chegavam à mesma conclusão ao final. Era amor o que sentiam.

Decididamente, nenhum daqueles mangás podia ajudá-lo. Realmente, o que ele esperava? A resposta dos seus problemas não iria cair do céu, justamente em um livro ilustrado em preto e branco, ainda por cima. Yuri tomou cuidado de colocar todos os títulos de volta aos seus lugares, esperando que Miyako nunca notasse que ele esteve ali. Estava terminando de guardar quando um volume de outro mangá perdeu o equilíbrio, abrindo-se na metade ao cair. Yuri abaixou-se para juntá-lo, e então viu. Aquilo que estava tentando evitar a todo custo. Não havia nenhuma censura naquilo! Sua priminha realmente lia aquelas coisas??

Ele viu as cenas intermináveis de dois garotos… fazendo… coisas imorais. Yuri não conseguia se impedir de continuar olhando. Um deles dizia “não me toque aí”, mas era óbvio que ele queria ser tocado. Que confuso! Era isso o que Miyako chamava de tsundere? Apesar disso, ambos pareciam estar aproveitando bastante, embora o que estava por baixo reclamasse de dor. Então… Isso realmente doía? Ei, era disso que Miyako estava falando mais cedo?! Yuri corou furiosamente, tentando esquecer o que havia acabado de ver. Fechou o mangá com um estampido, arrependido por ter cedido à curiosidade, e colocou-o de volta no lugar, sentindo aquela dor de cabeça aumentando.

— Eu vou tomar um banho… — Ele soltou o ar, derrotado.

Sentia todo o seu corpo pesar, cansado como depois de um jogo difícil. Entrou no banheiro, ligando a torneira da banheira, que logo começou a encher o lugar com o vapor suave da água, e começou a tirar a roupa lentamente deixando-a largada em qualquer lado. Quando enfim estava cheia, ele se colocou lá dentro, soltando um longo suspiro de alívio ao sentir a água quente relaxando seus músculos. Sua banheira era muito boa, apesar de não ser gigantesca como a da casa de Wolfram…

Esse pensamento desencadeou uma sequência de imagens, do banho que havia tomado com ele no dia anterior. Yuri engasgou, temendo o rumo que sua mente seguia. Mesmo que na hora não tivesse prestado atenção, era fato que havia visto Wolfram naquela situação, e mesmo que não entendesse o motivo, aquela imagem estava gravada no seu inconsciente permanentemente.

Sem perceber, Yuri já estava figurando sobre essa passagem, lembrando-se do que havia acontecido. Na hora, ficou assustado com o desmaio de Wolfram, mas agora que relembrava disso, ele havia carregado o garoto desacordado por todo o banheiro, ambos completamente despidos… Isso era bem estranho. Só que ao analisar melhor o que viu, Yuri não podia deixar de pensar que Wolfram era bonito… Mesmo sem roupa… E ele tinha uma pele suave, também… Será que o corpo de uma garota também era assim?

Antes de se dar conta do que estava realmente na sua cabeça, Yuri recordou do que havia acabado de ler no quarto de Miyako. E sua mente foi ainda mais além, quando os dois pensamentos se misturaram, e o garoto acabou por imaginar Wolfram naquela situação…

Y-yuri, seu fracote… Não me toque aí… A-ah...!

— Aaaahh!!! O que eu estou pensaaaaaaando!!!!!! – Yuri se agitou dentro da banheira, derramando água pelo chão todo. Esfregou com as mãos os cabelos, com o rosto afogueado, e semblante perturbado. Era evidente que estava com algo errado na sua cabeça… Será que ele havia finalmente ficado maluco? Era alguma doença? Qualquer que fosse a razão, isso parecia ser sério!

Yuri afundou-se na banheira, deixando apenas os olhos de fora da água. Tentou normalizar as batidas do seu coração. Esses pensamentos malucos continuavam apenas vindo e vindo, sem controle, e Yuri já não sabia mais o que estava sentindo, nem o que pensar sobre isso. Estava perdido.

— Eu preciso… decididamente… conversar com alguém…

Notas finais
Nyaan~ o que vocês estão achando, hein, heeein?? Será que Yuri finalmente está chegando a uma conclusão sozinho ou não? ah, quero saber o que achaaram *u* [Revisado]