Sono Te Hanasanaide
48 Capítulo XLVII
Notas iniciais
Bokura wa nanimo nanimo mada shiranu
Nós ainda não sabemos de nada
Udatte udatte udatteku
Fervendo, fervendo, estou fervendo
Kirameku ase ga koboreru no as
Estou transbordando com um suor brilhante
Daiji ni shitai mono motte otona ni narunda
Há coisas que quero tornar preciosas e levar comigo enquanto me torno um adulto
Donna toki mo hanasazu ni mamori tsuzukeyō
Coisas que eu jamais deixarei que sejam levadas e continuarei a proteger
Soshitara itsu no hi ni ka
E ao fazer isso, algum dia
Nanimo kamo wo waraeru sa
Vamos olhar para trás e rir de tudo isso
Hirari to hirari to matteru
Flutuando, flutuando e dançando
Konoha ga tonde yuku
As folhas voam por ai
~Capítulo 47~
Miya estava quase arrependida de ter contado tudo o que aconteceu à Ben. É claro que ele ficaria furioso, ela pretendia mesmo guardar segredo, dizer que apenas tinha tropeçado na escada e por isso tinha quebrado seus óculos e estava com o nariz machucado, mas Yuri se adiantou em falar que não havia sido um acidente, e ela acabou tendo que explicar a ele todo o acontecimento.
Ele queria ir resolver esse assunto no mesmo instante, ter uma “conversinha” com a tal Mariko, mas Miya o dissuadiu a se acalmar e pensar melhor no assunto antes de agir por impulso. Garantiu que poderia fazer alguma coisa por si só… até porque, agora, ela contava com uma aliada, ou quase isso. Pelo menos com esse argumento, Benjamin ficou mais tranquilo, e também satisfeito em saber que Miyako havia finalmente feito uma amiga na escola, já que o preocupava o fato de ela estar aparentemente sozinha o tempo todo.
Eles estavam naquele momento na sala dos funcionários, e Miyako, apesar de ter vindo com intenção de trabalhar, usando o uniforme e tudo, estava sentada ali, impedida por Ben e pelos outros funcionários de fazer qualquer coisa. Considerando que ela estava sem os seus óculos, e os novos que foram encomendados demorariam a ficar prontos, era bem evidente o motivo pelo qual ela não poderia ser colocada com uma bandeja cheia de coisas “quebráveis” andando por aí.
— E-eu já disse que isso vai sarar logo, não precisa se preocupar, Ben-kun… ai... — Ela reclamou de novo, sentada na cadeira de metal da pequena sala de descanso, enquanto o namorado, sentado logo à frente, refazia o curativo no seu nariz. Havia apenas um corte ali, nada com o que ele devesse se preocupar, mas ainda estava bem roxo e inchado, e é claro que Ben jamais a deixaria andar por aí com aquele curativo desajeitado que ela tentou fazer sozinha.
Ben terminou o que fazia, e colocou a caixa de primeiros socorros de lado, segurando o rosto pequeno de Miya entre as suas mãos, acariciando de leve o rosto dela com os polegares. Ela corou imediatamente, como sempre fazia quando ele a tratava daquela maneira, apesar de já estarem juntos há tantos meses. Ben não poderia dizer que algum dia iria se cansar desse lado dela.
— Eu apreciaria muito se a senhorita passasse a se apoiar mais em mim, sabia? — Ele entoou, com um semblante sério. Miya tentou desviar o olhar daqueles olhos azuis que a esquadrinhavam com tanta intensidade, mas ele não deixou, e continuou a segurar o seu rosto. — Você tenta sempre aguentar tudo sozinha, e diz que vai ficar tudo bem, mas eu sei que não vai. Na verdade, a tendência é que as coisas piorem, e não há ninguém que possa impedir essa garota de fazer o que bem entender…
— Eu vou dar um jeito, Ben-kun! Por favor, confie em mim. Eu sei que agora eu sou fraca e não tem nada que eu possa fazer… mas eu vou fugir sempre que puder, e vou evitar ficar sozinha também… uma hora ela vai cansar disso tudo, eu acho. — Miya mirou o chão, e sorriu de maneira que pretendia tranquilizar o outro.
— Não, você não deveria se conformar dessa forma. Ela está errada, e tem que ser parada! Olha só para você, Miya, você se machucou! Eu não quero mais te ver assim, você está me entendendo? Eu quero te proteger! — Ele a puxou para um abraço, segurando com delicadeza a parte de trás da sua cabeça, como se pudesse dessa forma esconder Miya do resto do mundo e impedir que ela continuasse sofrendo. De fato, era exatamente isso que ele desejava fazer. — Por que você não muda de escola? Venha estudar na minha! Eu sei que ela é um pouco mais longe, e é mais difícil do que a escola que você estuda agora, mas… ao menos lá, eu posso cuidar de você, e essa garota não vai poder te alcançar lá.
— Ben-kun… isso… eu… eu ficaria mesmo muito feliz de poder estudar com você, mas não posso fazer isso. — Ela ergueu os olhos claros. Mesmo daquela distância, era complicado discernir o rosto de Ben com sua visão limitada, porém, aquele tom de ruivo dos cabelos dele continuava inconfundível. — Acho que… é um problema que eu mesma devo enfrentar. — Ela afirmou, resoluta. — Ainda não sei como vou fazer isso, ou se vou conseguir, mas… não posso fugir para sempre, não é? — Ela riu de modo contido.
— Se é isso o que você decidiu... então tudo bem. Mas não pense que pode tentar esconder as coisas que acontecem de mim! — Ele entoou em tom sério, segurando-a pelos ombros, e Miyako assentiu, mesmo que contrariada. — E mais! Se você aparecer aqui com qualquer outro machucado, um arranhãozinho que seja, eu não vou mais te escutar, e vou resolver as coisas com essa garota eu mesmo. Entendeu?
— Entendi… — Ela murmurou mesmo contra a vontade, fazendo um biquinho não muito satisfeito. Não gostava de preocupar as pessoas, principalmente Ben, com aquele assunto. Era como se com isso Mariko vencesse, e conseguisse perturbar a sua vida da maneira que intencionava. Não, Miya não queria isso, definitivamente, e não deixaria aquela garota interferir nos seus assuntos mais do que ela já fazia. — Eu não quero mais falar sobre isso… — Baixando o olhar, ela deixou o rosto descansar no peito dele, que a abraçou mais uma vez. — Você não vai me deixar trabalhar hoje mesmo?
— Nem pensar. Se você enxergando já é um perigo para si mesma, imagina assim! Não, eu gosto muito das xícaras que nós temos aqui. Vai ficar aqui onde é seguro e você não pode machucar ninguém. — Ele entoou com ar muito sério. Miyako riu, afastando-se para bater no seu braço. Ben riu também, e aproveitou para tocar levemente nos lábios dela com os seus, tão brevemente que nem poderia ser chamado de beijo. — Eu prometo que vou proteger você, você querendo isso ou não.
Ela ficou um tanto surpresa por meio segundo, mas acabou aceitando, o rosto corando rapidamente pela aproximação. O que mais poderia dizer? Ben era um cabeça-dura e não iria mudar de ideia por nada.
— Hm.. desculpa atrapalhar…
Miyako tomou um susto, ao olhar na direção da voz que chamou sua atenção, e ver uma das funcionárias mais antigas do café, rindo disfarçadamente enquanto observava os dois que ainda estavam bem próximos um do outro. Miya era a garçonete mais nova do lugar, então era mantida como uma irmãzinha, ou melhor, uma mascote, pelas outras, e havia até mesmo uma aposta entre elas para saber quando é que Benjamin ia finalmente se declarar para ela. Evidente que todas ficaram em êxtase quando descobriram que eles estavam juntos.
Ben não se importava, mas Miya ainda ficava com muita vergonha, então se afastou ligeiramente para ouvir o que Kana, a mulher que vinha dar um recado, tinha a dizer.
— Ali na frente, tem uma garota chamando por você, Miya-chan. Ela diz que é sua amiga da escola. — Kana disse.
— Não me diga que aquela garota veio perseguir você aqui também, Miyako! — Ben precipitou-se, já deduzindo que se tratava de Mariko.
— Não! Eu acho que não. Deve ser a Natsume-san…. — Ela murmurou. — Eu contei a ela onde trabalhava, e ela disse que vinha me visitar…
— Ah… — Ben se acalmou. — Então é melhor você ir vê-la. Eu também tenho que voltar ao trabalho…
— Sim, eu vou lá. Acho que nós vamos ir até um lugar… já que você não vai me deixar trabalhar mesmo.
— Está bem. — Ele pousou a mão no topo da cabeça dela e bagunçou ligeiramente seus cabelos. — Divirta-se com a sua amiga.
Miya sorriu para si mesma, e assentiu com energia. O nariz ainda doía. — Eu vou. — Ela se equilibrou na ponta dos pés para depositar um rápido beijo no rosto do rapaz — Até mais! — saiu apressada, não sem antes notar o olhar sugestivo de Kana, que a deixava constrangida.
— “Eu vou proteger você, Miya-chii”. — Kana imitou grosseiramente a voz de Benjamin, rindo alto logo depois. Ele ficou rapidamente vermelho, e as suas sardas se destacavam ainda mais.
— Aaah, cala a boca.
Quando Miya saiu da sala dos funcionários, logo notou Natsume sentada em uma das mesas do canto, acenando animadamente para ela. Caminhou rapidamente, desviando das outras atendentes como estava acostumada a fazer, e por puro hábito, parou logo ao lado da mesa, segurando as mãos em frente ao corpo, e sorriu discretamente.
— Waaaa, Miya-chaaan! Você fica tão fofa com esse uniforme!! — Ela nem esperou por resposta, e aproveitando a baixa visão da garota, tirou uma foto disfarçadamente. — Eu adorei este lugar!
— Ah, muito obrigada! — Miya corou de satisfação, orgulhosa pela apreciação do seu local de trabalho. — Você vai querer alguma coisa?
— Você está trabalhando? – Natsume indagou, curiosa. Era verdade que ela e Miya não se conheciam há muito tempo, mas ela gostaria de poder conversar mais, visto que tinham tanto em comum, apesar de não ter tido chance de se aprofundar mais em qualquer assunto, pressentia isso.
— Hoje não, não deixaram... – Miya. murmurou com um muxoxo, olhando de canto para trás, onde Ben acenava inocentemente.
— Mas isso quer dizer que nós podemos aproveitar e ir até aquele lugar? — Natsume sugeriu, animada. Miya sorriu, daquela maneira que sorria quando tinha um plano em mente. Não podia negar que se sentia à vontade para ser menos contida perto da garota, que acabara de conhecer. Mesmo assim, apesar de ambas desejarem, ainda tinham certo receio de conversar muito abertamente, e afastar a outra. Nenhuma das duas era habilidosa com relação a traquejo social, no fim das contas.
— Sim! – Miya deu uma resposta animada, apesar de tudo. Não iria mais disfarçar o entusiasmo que sentia, e isso parecia o certo a fazer.
~
— Você aprende bem rápido, Shibuya-kun. — A atendente que estava ensinando Yuri a fazer o seu trabalho na confeitaria elogiou, enquanto observava o garoto cortar as fatias de bolo da maneira correta para servir aos clientes dali. Yuri sorriu, assentindo com satisfação. Nunca havia praticado muitos serviços domésticos, sua mãe sempre fazia questão de cuidar de tudo, mas estava conseguindo lidar bem com o trabalho agora. Os outros funcionários eram pacientes e gentis, e o garoto chamado Sara gostava de conversar, e Yuri havia se dado bem com ele. Depois de atender às mesas, ele retornou ao balcão, onde teria que repor os bolos que haviam sido entregues.
— Este bolo de nozes você pode colocar na embalagem, Yuri-kun, é uma encomenda.
— Ah, ok. — Yuri assentiu, ao notar o jovem gerente logo atrás de onde ele estava. Apesar de quase nunca haver tarefas para ele realizar, Sara parecia alguém esforçado, que estava sempre buscando estar por perto e ajudar. Quando estava do lado de dentro do balcão, como agora, prendia os cabelos longos de alguma maneira, o que sempre fazia com que ele se parecesse ainda mais com uma garota.
— Os pedidos dessa manhã já foram entregues?
— Foram sim, eu vi o Asahina-kun levando eles. — Além dele próprio e da outra atendente, havia apenas mais dois confeiteiros e o garoto das entregas.
— Ótimo. — Sara sorriu. — Eu fico muito feliz de ver você tão ciente dos assuntos da loja, Yuri-kun, mesmo estando aqui há tão pouco tempo. Às vezes, tenho a impressão de que você sempre esteve aqui… — Ele comentou, e Yuri riu sem graça, coçando o lado da bochecha. — O uniforme ficou muito bem em você. Preto lhe cai bem.
Yuri olhou para a própria roupa, que se resumia em camisa branca, colete, gravata, calça social, e um avental que ia até o tornozelo, todos pretos.Yuri não gostava muito de roupas como essa, que limitavam seus movimentos, mas tinha que admitir que adoraria ser visto por Wolfram agora, só para ver a sua reação.
O sino acima da porta, que indicava clientes, soou, e Yuri automaticamente virou-se. Percebeu que se tratava de Miya, acompanhada daquela garota que estava com ela na enfermaria no outro dia. As duas conversavam em voz baixa, e admiravam o local, mas quando Miya percebeu onde Yuri estava, se apressou para ir até o balcão.
— Oooi, Nii-chan! Como está indo o trabalho?
— Está indo bem. — Ele respondeu sorrindo, como sempre. Miya já ia começar a tagarelar sobre as coisas que ela viu em algumas lojas no caminho para lá, e que ele poderia comprar para Wolfram, quando notou a pessoa que estava logo atrás de Yuri, parecendo alheio àquela interação, prestando atenção no tablet que tinha em mãos. Ele era inacreditavelmente bonito, e ela perdeu alguns segundos imaginando o que alguém como ele estava fazendo ali. — Ah, sim, este é o gerente da loja, Sara… Saralegui.
— Ahn… p-prazer em conhecer… — Logo que sentiu que estava sendo observada, ela logo se atrapalhou.
— É sua irmãzinha, Yuri-kun? — O loiro sorriu, aproximando-se de Yuri, e ele logo começou a explicar para ele sobre Miya ser sua prima que morava na sua casa.
— Você vai querer pedir alguma coisa, Natsume-san? — Miyako virou-se para a garota, mas ela parecia ter acabado de enxergar na sua frente um futuro apocalíptico e sem esperança. Estava completamente pálida, com os olhos vidrados para frente, arregalados, e a boca entreaberta a meio caminho de proferir alguma coisa. Parecia congelada no mesmo lugar. — Você… está bem?
— E-e-e-eu... — Os olhos dela ainda estavam fixos, mas Miya, que estava mais perto, podia reparar bem no quanto ela tremia. Só então, notou que ela estava olhando diretamente para o garoto loiro ao lado do seu primo, que parecia ligeiramente confuso, mas nada que abalasse o seu sorriso perfeitamente formado. — E-eu tenho que ir… a-agora… eu…
Natsume girou para um lado e para o outro, perdida e atrapalhada como Miyako nunca imaginou que ela poderia ficar. Parecia em desespero, querendo sair logo dali, ou se esconder embaixo da primeira mesa que encontrasse. Miya tentou ajudá-la, mas antes que pudesse, Natsume saiu em desabalada correria, em direção à saída. No meio do caminho, tinha uma garçonete.
Tudo aconteceu em câmera lenta. Natsume invadiu a rota que a mulher, que momentos antes ajudava Yuri, fazia com sua bandeja. As duas esbarraram uma na outra, cada uma caindo para o lado, e o prato com bolo de morango girou no ar. Natsume ainda tentou pegar, mas já estava no chão, e seu movimento foi inútil.
Todos correram, alarmados, na direção da garota, que murmurava para si mesmo algo como “Eu quero morrer. Agora”. Aceitou a mão que estava sendo estendida na sua direção, e tarde demais, percebeu quem era o dono dela.
— Você está bem? Se machucou? — Sara entoou enquanto a ajudava a se levantar. Sua voz era gentil, e ele ainda sorria. Natsume soltou um meio grunhido em choque, e se desvencilhou, correndo como podia para fora dali.
No meio do caminho, pareceu lembrar de alguma coisa. Virou-se novamente e se curvou para pedir desculpas duas vezes, rapidamente, na direção da atendente que derrubara e de Miya, e então fugiu imediatamente, sem olhar para trás.
Todos se olhavam, ainda meio atônitos e sem entender direito o que havia acontecido. Yuri ajudava sua colega a recolher o que havia caído no chão. Sara ainda ria para si mesmo.
— Hm… acho que eu vou atrás dela… está bem, Nii-chan?
— Pode deixar que eu levo o seu bolo para casa. — Ele concordou, enquanto terminava de limpar.
— Ok, até depois. — Ela abanou para o irmão, e acenou brevemente com a cabeça para Sara, antes de sair apressada atrás da garota que já corria há quadras de distância dali. Miya não conseguiria correr para alcançá-la, mas ao menos era insistente.
~
— Aaah, fracote idiota, por que ele não me liga?
Conrad sorriu para o irmão, como se não soubesse exatamente qual era a causa do seu aborrecimento. Observou ele jogar o celular com raiva na poltrona da biblioteca, e então andar de um lado para o outro, bufando impaciente.
— O que houve, Wolfram? Algum problema?
— O Yuri está agindo muito estranho! Acho que ele está escondendo alguma coisa. Não, ele com certeza está escondendo alguma coisa de mim, eu sei disso! Aquele fracote não serve nem para disfarçar…
— Por que está dizendo isso? Yuri nunca mentiria para você… por razões erradas. Tenho certeza de que não há nada demais no comportamento dele.
— Pois eu acho que tem! E eu o conheço muito melhor do que você, Conrad, você não sabe de nada! — Wolfram tinha tendência a ser muito mais ríspido quando estava irritado, mas Conrad estava acostumado com isso, desde que ele era pequeno, e jogava seus ursinhos de pelúcia nele porque não queria dormir. — Eu só o vejo durante as aulas, e ele some logo depois. É final de semana, e ele não deixou que eu fosse até a casa dele, e nem veio para cá. Não me mandou nenhuma mensagem hoje de manhã, e não atende ao celular! Liguei para a casa dele, e a Miya só disse que ele estava ocupado! Tem alguma coisa aí, eu sei que tem. Conrad, ele está me traindo! — Ele bradou a última frase como uma conclusão incontestável. Parecia pronto para sair dali em disparada e arrancar quem quer que fosse que estivesse em cima do seu Yuri, para então esfregar a cara dele no asfalto. Sim, ele faria exatamente isso naquele mesmo instante.
— Claro que não, Wolfram! Não fique imaginando besteiras. Sua mente é fértil demais, mas isso é um problema quando você se deixa levar.
— Então… — Ele se inflou, pensando no que o irmão falava. — Então eu vou até lá! Vou até a casa dele, e vou confirmar por mim mesmo! Resolvido.
— Não, Wolfram. Se você fizer isso, só irá se mostrar como alguém inseguro, e que não confia no seu namorado. É esse o caso? Você quer que o Yuri perceba que não possui a sua confiança?
— Não é isso! Eu confio nele! Uns 89% acho… quero dizer… eu sei que ele não faria nada de errado de propósito! Mas… ele é tão idiota, tão cego pra perceber as intenções das pessoas, pelo amor de Shin’ou, ele acredita em qualquer coisa que disserem pra ele! Ele pode ser enrolado por qualquer um! E aí… e aí ser roubado de mim…
Conrad indicou a cadeira logo à frente da mesa onde estava, e previu uma longa conversa adiante. Serviria como distração, para Wolfram não sair correndo atrás de Yuri e estragar a surpresa antes do tempo, e, além disso, ele já estava querendo ter uma conversa sincera com o seu irmão mais novo há bastante tempo. Na verdade, era o único sensato ou sensível o bastante dentro da família que poderia ter aquela conversa com ele, isso era um fato.
Meio relutante, sentou, cruzando os braços e murmurando alguma coisa em voz baixa, como sinal de que não concordava completamente ainda. Conrad cruzou as mãos fitando-o com cuidado, como se analisasse cuidadosamente as suas próximas palavras.
— Do que você tem medo, Wolfram? De perdê-lo? De que ele o abandone? De que você não seja bom o bastante para estar ao lado dele, e de que ele perceba isso a qualquer momento, e vá embora?
—… Talvez. — Wolfram olhou para o outro lado, encolhendo-se. Parecia que Conrad estava colocando em palavras todos aqueles pensamentos absurdos que estavam o tempo todo rondando a sua cabeça, e ele fazia o possível para ignorar.
— Wolfram. Olhe para mim. — Ele disse, e o irmão o fez, ainda de sobrancelhas franzidas. — Eu sei que você não se julga merecedor da felicidade que sente quando está com ele, e que está o tempo todo temendo que tirem isso de você. O motivo pelo qual você se sente assim, não sei dizer, e nem você deve saber, mas não é verdade. Eu conheço Yuri há tempo suficiente para afirmar com segurança que ele ama você. Ama tanto quanto você o ama, e nada no mundo pode mudar isso. Por que você não pode acreditar em algo tão simples?
— E-eu não sei…? — Wolfram murmurou, mordendo o lábio inferior. — Eu não quero pensar essas coisas, mas… elas continuam vindo até a minha cabeça, e não consigo evitar. Eu só… eu só acabo pensando que logo, o Yuri não vai mais gostar de mim... e que tudo isso vai acabar… e eu não quero, não quero que ele vá para longe!
— E ele não vai. Você pode não confiar nele, ou confiar em si mesmo, mas confia em mim. Não confia?
— Em você sim…
— Então, eu digo que tudo vai ficar bem.
— Você tem razão… — Wolfram murmurou para si mesmo, como se dizer em voz alta fizesse a ideia fixar melhor na sua cabeça — Sim, você tem razão! Yuri é idiota demais para esconder o que seja sem deixar rastros, e além do mais, ele jamais me trairia! Por que ele iria procurar outra pessoa quando tem o melhor namorado que poderia querer bem aqui?
— Isso, é assim que se fala…
— Eu vou agora mesmo até a casa dele! Preciso vê-lo, essa conversa toda me fez sentir saudades. Vou fazer uma surpresa! — Wolfram levantou, cintilante, como se tivesse tido a melhor ideia de todas bem agora. Conrad teve uma breve crise moral internamente, percebendo que teria que ludibriar o mais jovem para cumprir a sua promessa com Yuri.
— Não, Wolfram! Sente aí, eu não terminei de falar com você. — ele fez o possível para não parecer suspeito, mas Wolfram arqueou uma sobrancelha.
— Por que você quer tanto que eu fique aqui, hm? Está planejando alguma coisa pelas minhas costas? Você está me enganando, está acobertando aquele estrupício? O que é? Pode me falar, eu aguento! O que ele fez, hein?
— Se acalme, por favor, Wolfram, não é nada disso. Eu só quero ter uma conversa entre irmãos, será que é pedir muito? Para falar a verdade, eu já planejo ter essa conversa com você há muito tempo, aconteceu apenas que hoje é uma ótima oportunidade para isso.
— E do que você quer tanto falar, posso saber? Se for outra vez aquele assunto de ir estudar na Europa, eu já deixei bem claro que…
— Não, não é nada disso, Wolfram. Por que é que você sempre se precipita? — Conrad balançou a cabeça, e com aquela pergunta retórica, conseguiu fazer seu irmão se calar finalmente. O loiro cruzou os braços e soltou o ar pelo nariz, contrariado. Às vezes, Conrad não percebia o quanto ele havia crescido em todos aqueles anos. Era praticamente um homem, fazendo as decisões da sua vida e defendendo suas opiniões e pontos de vista com veemência. Ele sempre fora assim, desde pequeno… — Wolfram, você e o Yuri-kun já estão em um relacionamento sério há bastante tempo, e isso é de conhecimento geral, correto?
— Bem, sim. — Wolfram confirmou, sem entender aonde Conrad esperava chegar, com aquelas confirmações tão óbvias. — Acho que já são… Seis meses? Sete talvez? Estranho, parece bem mais… Enfim, é algo em torno disso. Por que está falando disso?
Conrad parecia pensar dezenas de vezes nas palavras que ia usar, para não afugentar Wolfram. Era um terreno perigoso, qualquer passo em falso, e ele escaparia das suas mãos. Apesar de estar servindo como distração para que ele não saísse correndo e descobrisse o segredo de Yuri, ainda era uma tarefa importante que ele tinha, como irmão mais velho. Orientar seu inocente irmãozinho .
— Vocês estão avançando um pouco mais na relação a cada dia que passa, e eu sinto que é importante haver algum tipo de orientação nesse sentido… tanto para você, quando para Yuri…
— Espera… o quê? — Os olhos de Wolfram se arregalaram assim que ele se deu conta da real intenção de Conrad. — Não, não, não, não, eu não vou ter essa conversa com você! Não com você! E não essa conversa! Fora de cogitação, pode esquecer, estou saindo daqui!
— Wolfram, é importante! Por favor, me escute! Eu sei que pode ser embaraçoso, e é tanto para mim quanto para você, mas pense bem nas suas escolhas. Prefere ter essa conversa com o Gwendal? Com o seu tio, Valtrana? Ou com a nossa mãe…
— Não, já entendi! Ok, fala o que você quer falar, e eu vou sair daqui, está bem? E nunca mais falamos sobre isso! — Ele parecia muito relutante em ficar, e só estava ainda naquela sala por causa da consideração que tinha pelo irmão. Conrad era mesmo a sua melhor opção, considerando sinceramente as outras que possuía, e era a pessoa da sua família com quem ele poderia manter um diálogo mais próximo de “normal” considerando sua tendência a não ser honesto consigo mesmo. Conrad sabia interpretar aquilo que ele não conseguia dizer em voz alta como ninguém, e sabia a coisa certa a dizer para acalmá-lo. Só esperava que essa conversa não acabasse sendo tão ruim quanto previa.
— Certo. Vamos ser francos e objetivos, certo, Wolfram? — Conrad deu um sorriso que parecia tentar ser cordial, mas soava como quase debochado naquela situação. — Você e o Yuri são jovens, saudáveis e cheios de energia. É natural que sintam certas… vontades. Até onde vocês dois já foram?
Wolfram ficou inteiramente vermelho, e engasgou três vezes antes de conseguir se recompor. Mas o que ele estava pensando quando resolveu ficar ali? Não iria aguentar falar sobre a sua vida amorosa daquela maneira, não mesmo!
— C-co-con-conrad! N-n-não… e-eu… o quê?!?
— Certo, se não quer, não precisa falar tudo. Eu posso deduzir por mim mesmo. Conhecendo os dois, eu presumo que devam ter avançado em alguns pontos, mas não totalmente ainda. Ah, a juventude é mesmo uma época maravilhosa… Bem, de qualquer maneira, vamos prosseguir… Eu sei que vocês devem ter pensado que qualquer tipo de cuidado seria desnecessário, ou nem devem ter pensado sobre isso ainda, por serem ambos garotos, ou por ser a primeira experiência dos dois e… — Conrad sentiu que a expressão perturbada de Wolfram se alterava drasticamente a cada palavra dele, e resolveu ir mais rápido antes que o perdesse de vez. — O fato é que não é bem assim. A relação entre duas pessoas, apesar de parecer algo incrível, e maravilhoso, ainda é complicado e pode ser mais difícil do que vocês pensam… na afobação juvenil, vocês podem acabar esquecendo disso, e...
— CONRAD! Seja direto, por tudo o que você mais preza, e vá logo ao ponto! Eu não vou aguentar muito mais disso! — Wolfram o interrompeu indignado, completamente descompensado depois daquela conversa mais do que embaraçosa.
O homem encarou o irmão mais novo seriamente, resumindo mentalmente toda a conversa que queria ter com ele em duas simples palavras.
— Usem camisinha.
— CONRAD!! AH, não, eu quero morrer agora, alguém me mate!- Ele se ergueu de súbito da cadeira, escondendo o rosto entre as mãos. Suas orelhas queimavam em brasas por entre os cachos loiros que ajudavam a esconder a expressão de completo desconsolo. — Eu preferia ser surdo a ter que ouvir isso!!!
— Eu estou sendo sério aqui, meu irmão! Você fez alguma pesquisa, está bem informado? A relação entre dois homens é completamente diferente, e exige preparações prévias! Eu ouvi dizer que pode machucar, causar problemas futuros, eu estou preocupado com você, Wolfram!
— JÁ CHEGA! — Ele gritou, chegando ao ápice de todo constrangimento. Poderia sair correndo e se atirar daquela janela naquele momento. — EU NÃO POSSO MAIS OUVIR ISSO, NÃO QUERO, NÃO FALE MAIS SOBRE ISSO POR FAVOR, CONRAD! EU JÁ ENTENDI, JÁ ENTENDI!
— Mas, Wolf…
— NÃO! — ele se preparou para sair daquela biblioteca, e não encarar ninguém por pelo menos uma semana, até poder tirar aqueles pensamentos que zanzavam pela sua mente agora. — NÃO FALE MAIS NADA! SILÊNCIO!
— Você vai ligar para o Yuri para conversar com ele sobre esse assunto tão importante? — O sorriso de agora era inegavelmente uma provocação, mas Wolfram estava atazanado demais para notar.
— CLARO QUE NÃO! — Se pudesse, não falaria com Yuri tão cedo. Não depois de tudo aquilo! E a missão de Conrad estava cumprida…
Ele saiu correndo e bateu a porta da biblioteca. Conrad sentia por ter deixado o irmão tão perturbado e… Ah! A quem ele queria enganar! Aquilo tudo era a sua razão de viver, ver Wolfram que sempre fora tão composto, ter sua imagem austera ruindo dessa maneira, era a melhor coisa no seu dia, de longe. Tudo graças a Yuri, sem sombra de dúvidas.
Minutos depois, uma frestinha da porta dupla da biblioteca se abriu, e Conrad pôde visualizar os brilhantes olhos do irmão, ainda constrangido, por ela.
—…. Eu fiz uma pesquisa, tá?...... — Ele balbuciou, batendo a porta e saindo correndo logo depois.
Ele não pôde conter a risada que se seguiu. Bem, de qualquer maneira, Wolfram não iria contatar Yuri tão cedo, então, estava tudo bem. Então, ele não podia se sentir culpado por estar se divertindo um pouquinho, não é?
Fale com o autor