Notas iniciais
Gomen pela demora, minna-san *faz dogeza* prometo que vou tentar não repetir. O problema foi mesmo o final de semestre, mas agora de férias, eu vou voltar com regularidade o/ (graças às ameaças da Teffy-chan, se quiserem agradecer a alguém, a culpada é ela e a sua naginata... ) Enfim, boa leitura o/

Hoshikuzu no naka de anata ni deaeta

Eu pude te encontrar em meio às estrelas

Itsuka no kimochi no mama aetara yokatta

Seria ótimo se meus sentimentos nunca mudassem

Modoranai kako ni naita koto de sae

Eu chorei pelo passado que nunca mais voltará

Umarekawatte ashita o kitto terashite kureru

Mas as lágrimas um dia vão iluminar meu amanhã



Capítulo 6

A noite estava anormalmente quente para essa época do ano, e as cigarras gritavam em polvorosa, muito antes do seu tempo. As estrelas brilhavam fulgurosamente, perfeitamente visíveis naquela região isolada, longe das luzes da cidade, dos anúncios de neon e da agitação que a tudo isso se remetia.

Na estação de trem do pequeno vilarejo, os únicos presentes eram dois garotos, aparentemente do Ensino Médio, que estavam sentados no chão do lugar, com malas espalhadas ao seu redor, cada um de um lado da pilastra de sustentação. A estação era bem pequena, no tamanho de uma casa normal, o que evidenciava que o lugar onde eles estavam deveria estar nas mesmas proporções.

— Está vendo, é tudo culpa sua, seu fracote! Se não tivesse me seguido, eu estaria bem longe daqui! – O loiro resmungava sem parar, de braços cruzados e sentindo-se como um mendigo sentado naquele chão imundo.

— A culpa não é minha! Você disse que estava tudo bem em estar no trem sem passagem! – Yuri tentou se explicar.

— Eu nunca disse que estava tudo bem! – Wolfram tornou a se exaltar, encerrando o assunto.

O que acontecera era muito simples, na verdade. Yuri estava muito bem dormindo no trem, com a cara esfregando no vidro, quando o cobrador passou recolhendo as passagens. Wolfram entregou a sua, e Yuri acordou com o movimento, limpando a baba do canto da boca. O cobrador pediu a dele, e obviamente, ele não possuía. Sendo assim, na próxima parada do trem, Yuri foi escorraçado, e Wolfram acabou por ir junto com ele, vendo que estava, segundo seus argumentos, sem opção. Nisso, já era noite, e os dois foram soltos na estação de uma cidade desconhecida, sem dinheiro e sem ter onde ficar. Wolfram não parou de reclamar nem mesmo um segundo, sempre retornando ao fato de a culpa por estar nessa condição ser toda e inteiramente de Yuri.

Um ruído longo e arrastado, como o último lamento de um animal entre a vida e a morte, se fez ouvir. Yuri corou, colocando os braços em torno do estômago. Wolfram suspirou.

— Eu também tenho fome. Nós deveríamos procurar um lugar para passar a noite, já que não vai dar para voltar hoje...

— Você sabe onde estamos?

— Não faço ideia! Esse é o seu país, não o meu, diga-me você! – Wolfram bradou, levantando-se num pulo e pegando uma das malas. Yuri o acompanhou, pegando a outra antes que ele tivesse a oportunidade de ser mais rápido, e saiu andando na frente. – Ei! Onde você vai?

— Como disse, esse é meu país, eu tenho que fazer alguma coisa então. – Yuri pronunciou com confiança, e restou a Wolfram apenas segui-lo em silêncio. Ele chegou até o balcão da bilheteria, mas não havia ninguém ali. Chamou por alguém alguns minutos ainda, mas ninguém aparecia. – O jeito é andar até encontrar uma pousada ou algo assim... – Ele deu a única solução que via a sua frente, e Wolfram bufou em desconformidade, também não conseguindo pensar em nada melhor do que isso.

Os dois saíram da estação, carregando as malas. Como estavam ambos usando os uniformes escolares, Wolfram teve que carregar nos braços o seu suéter e Yuri amarrou na cintura o gakuran, abrindo os primeiros dois botões da camisa. Estava sufocantemente quente ali. Havia apenas um caminho a seguir, numa estrada deserta e reta, ladeada por campos com alguns arbustos e árvores baixas. Não havia iluminação além da parca luz da estação atrás deles e da lua minguante, que parecia uma risada no céu. Logo, a luz da estação também sumiu, e restou aos dois torcerem para encontrar alguma coisa no meio daquele breu.

Alguns minutos depois de caminharem com apenas os ruídos de insetos os acompanhando, Yuri sentiu-se impaciente. Ele já estava suando muito, e com as pernas cansadas, além dos braços que reclamavam pelo peso da mala, mesmo que ele tivesse revezando entre os dois braços. Com toda a certeza, aquela era a mala mais pesada, pois Wolfram não demonstrava sinais de cansaço, e já havia parado de reclamar por ter que andar.

— Hm... A noite está bonita nee? – Yuri falou, olhando para o céu estrelado, tentando iniciar algum assunto, já entediado com a paisagem e com o silêncio.

— Eu apreciaria mais se estivesse em algum lugar confortável, com ar condicionado e depois de um bom banho. – Wolfram resmungou, altivamente.

— Então por que você fugiu de casa? – Yuri deixou escapar, e Wolfram retesou. A pergunta o pegou desprevenido. De fato, ele não pensara em sua fuga desde a hora em que Yuri foi expulso do trem, mas agora, todos os motivos que via para fugir voltaram a sua memória. Fechou os olhos, irritado por ter que responder isso logo para aquela pessoa. Será que ele não se lembrava de nada mesmo? Depois de tudo o que aconteceu, o mínimo a se esperar era que Yuri se lembrasse do seu rosto. Será que o acontecimento de tantos anos atrás não teve tanta importância para ele quanto teve para Wolfram? Era possível que sim.

— Eu não estou fugindo de casa. – Wolfram se pegou dizendo antes que pudesse se controlar. Ele queria realmente falar sobre isso, mais do que deixava transparecer. – Estou voltando para ela. Minha casa não é aqui, você sabe. Eu ia pegar o trem até o litoral, e de lá, tomar o navio de volta para o meu país. Eu quero viver novamente em Shin Makoku... Eu me preparei tanto tempo para governá-lo, e nem mesmo tive a chance de fazer algo relevante para o meu amado país. Eu queria ter feito a diferença... Eu tinha tantos projetos... E agora... Agora... Eu não tenho nada! Eu me esforcei tanto, abdiquei de coisas que eram importantes para mim, e tudo... Tudo o que eu tinha, tudo o que era, foi tirado de mim! – Wolfram berrava, e logo depois, lágrimas de raiva, quentes e abundantes, lavaram seu rosto.

Yuri espantou-se. Não podia imaginar que havia tantos sentimentos imergidos abaixo daquela pose soberba do colega. Deixou a mala cair, e se apressou na direção do garoto, que parecia ainda mais furioso por ter demonstrado fraqueza naquele momento, e sem pensar duas vezes, circundou os braços ao seu redor.

Wolfram arregalou os olhos, e seu primeiro impulso foi o de se afastar, mas Yuri o segurou com firmeza, afagando suas costas. Aquele abraço… era tão confortável, tão gentil, que Wolfram apenas apoiou sua cabeça no ombro de Yuri, desajeitadamente segurando a camisa de Yuri com os dedos fracos, como se para que ele não sumisse de repente. As lágrimas que ainda restavam terminaram de cair, e ele sentiu uma grande onda de calma invadir o seu ser. Fechou os olhos, sentindo a mão de Yuri acariciando seus cabelos.

Depois de ver Wolfram chorar, de uma maneira que ele nunca pensou que seria possível presenciar, Yuri apenas agiu por impulso, como, aliás, era sua maneira usual de agir. Sentiu o garoto tremer em seus braços, e depois, o toque ínfimo da mão dele segurando sua camisa, quase sem forças. Pensou se deveria dizer alguma coisa agora, porém, parecia que apenas aquele ato já era o suficiente. Tocou os cabelos de Wolfram, que eram ainda mais macios do que ele imaginara, e sentiu o cheiro suave e doce dele, que não parecia pertencer a um garoto.

Levantou os olhos, depois de algum tempo abraçando Wolfram — que ele não saberia precisar se foram segundos ou minutos — e olhou para o lado oposto do qual saíram. Ao longe, pode distinguir alguma coisa longínqua e remota que poderia muito bem ser uma luz.

— Wolfram... – Ele sussurrou chamando a atenção do loiro, que pareceu se lembrar da realidade, e soltou Yuri como se este desse choques, afastando-se e secando disfarçadamente as lágrimas que ainda repousavam sobre suas bochechas. – Eu acho que tem alguma coisa logo ali. – Ele apontou para o lado da luz.

— Então o que estamos esperando? Vamos lá! – Wolfram tomou a dianteira, pegando sua mala e muito mal disfarçando o seu constrangimento. Yuri o seguiu.

Os dois andaram em silêncio, vendo a luz crescer contra a escuridão. Logo puderam distinguir suas formas. Era algo como uma antiga e grande casa colonial, um refúgio europeu no meio do nada. Destoava da paisagem tipicamente japonesa, parecendo recortada, destacada, e de alguma maneira, errada. Yuri se apressou, passando a frente de Wolfram, e correndo até a entrada, intensamente iluminada pelos lampiões que estavam fixados em postes, e bateu no batente da porta, agitado.

Wolfram logo se aproximou, ainda andando no seu passo normal, e colocou a mala de pé no chão, sentando nela e esticando suas pernas, que latejavam e protestavam pelo esforço a que ele não estava acostumado. Ruídos de alguém se aproximando foram ouvidos e, logo depois, o barulho das trancas da porta sendo movidas. Com um longo lamento, a porta se abriu, revelando a figura pálida de uma mulher, de longos cabelos azul-claros, que trajava uma simples blusa branca de rendas, com uma comprida e leve saia que ia até seus tornozelos. Ela tinha os olhos de um brilhante azul, mas estranhamente parados, olhando para um ponto fixo no horizonte, e sorriu docemente para os desconhecidos.

— C-com licença, senhora... Nós dois estamos perdidos aqui, acabamos de sair da estação, e não sabemos onde estamos e nem para que lado ir. Será que a senhora poderia nos informar? – Yuri articulou, notando rapidamente o fato da jovem mulher ser cega, e por isso, não estar olhando para ele nesse instante.

— Informar? Ah, é claro! Mas antes, vocês não querem entrar, tomar um banho, jantar conosco e então, decidir o que fazer? Eu posso perceber pelo seu tom de voz, e se me permite dizer, pelo seu cheiro também, que vocês estão andando há bastante tempo já. Não gostariam de descansar na minha casa?

— Senhora… — Wolfram se levantou, pronunciando-se pela primeira vez. – Se me permite dizer… Não seria muito perigoso para a senhora abrigar dois desconhecidos? Quero dizer… E se nós fossemos mal-feitores?

— Ah, eu posso garantir que não são. Apenas o fato de estar fazendo essa pergunta, em um tom de preocupação, já denota isso. E também, vocês dois não são desconhecidos. São meus hóspedes. Vamos, não se acanhem, entrem! – Ela abriu mais a porta, deixando espaço para que os dois adentrassem. A decoração interior era tão imponente quanto o lado de fora, e mostrava bom gosto e formas delicadas.

Os dois jovens, ainda hesitantes, pegaram as malas e entraram no cômodo, e a mulher sorriu gentilmente, fechando a porta e os conduzindo a frente.

— Eu sou Shibuya Yuri. – Ele apressou-se em dizer, enquanto seguia a mulher pela sala, achando que já estava na hora de se apresentar. — E esse é Wolfram von... von... o que mesmo?

— Wolfram von Bielefeld .– ele completou, com orgulho pungente na voz.

— Muito prazer! – A mulher exclamou, animada. – Meu nome é Susanna Julia von Wincott. Sou de um país vizinho ao seu, Príncipe Wolfram, mas é realmente muito pequeno, você nem deve ter ouvido falar. Ele foi dissolvido e anexado ao Império muito antes de você sequer ter nascido. – Ela falava, e parecia realmente gostar muito de falar, então nem deu atenção ao ofegar de surpresa que Wolfram deixou escapar por ter sido reconhecido em um lugar tão remoto. – Eu moro aqui com meu noivo, Adalbert, mas ele está viajando.

Yuri ouviu a tudo com atenção, achando que era um perigo uma mulher gentil e aparentemente indefesa como Susanna Julia ficar sozinha, abrindo a porta para estranhos e os convidando para entrar sem nem saber sobre suas histórias ou intenções.

— Muito obrigado por sua hospitalidade, Lady von Wincott. – Wolfram, por outro lado, parecia muito à vontade. Aquela casa era toda decorada no estilo mais clássico de Shin Makoku, e ele sentiu o cheiro da comida da sua terra a cada passo que dava. Aplacar parcialmente as saudades de casa, somadas à perspectiva de ter a fome e o cansaço sanados, deixaram-no inexplicavelmente calmo.

— Aqui! – Ela finalmente chegou ao que parecia uma sala de jantar, delicadamente decorada. – A mesa será posta em instantes, eu já ia mesmo jantar… – Disse, e pela porta oposta surgiu uma empregada, com uniforme e tudo. – Por favor, arrume um banho em dois banheiros para os meus convidados, e também prepare o quarto de hóspedes.

— Sim. – A empregada assentiu e se retirou. Julia dirigiu-se então para os dois garotos.

— Vocês não gostariam de conversar, até que seus banhos e o jantar estejam prontos? Vamos até a varanda, aqui está muito quente. – Ela disse, e então, começou a andar na direção oposta, onde havia uma grande porta que se abria para o lado de fora, com algumas cadeiras colocadas. Os três tomaram lugares, sentindo a brisa fresca tocar seus rostos. Wolfram chegou a fechar os olhos, sentindo-se refrescar com aquele ventinho. – Então, queridos, vocês podem me contar o motivo que os traz até tão longe? Por que, até onde eu sei, o Príncipe Wolfram está residindo em Tókio.

— Bem... Tudo começou quando... Etto... Quero dizer... Ah, eu não sei dizer! — Yuri atrapalhou-se, completamente aparvalhado. Estava metido até a cabeça naquela confusão, mas não sabia nem por onde começar a se explicar. Quando exatamente ele tinha se metido nisso?

— Eu não acho que seja possível explicar nossa situação. – Wolfram elucidou, coerentemente. – Acho que é um tanto... complicado... de se pôr em palavras. Na verdade, nem nós mesmos sabemos como acabamos parando aqui... Seja lá que lugar for esse.

— Bem, se me permitirem fazer suposições, eu acho que posso fazer uma ideia do caminho que trilharam até chegar aqui. Aliás... Eu gostaria muito que me deixassem o fazer, eu realmente adoro histórias! – Susanna Julia disse, um tanto quanto animada. – Eu acredito que vocês dois... Bem, sejam amantes em fuga. É isso. Vocês estão em busca de um lugar onde possam viver suas vidas em paz, longe de olhares estranhos e repreensão. Eu pensei nisso no instante em que bateram a minha porta. O sentimento entre vocês é tão pungente que até mesmo eu pude enxergar. – Ela riu da própria piada, e os dois garotos se entreolharam, confusos. – Eu sempre fui muito perceptiva com esse tipo de situação, e posso entender que estejam passando por dificuldades. Wolfram é um membro da realeza e você, Yuri, é apenas um plebeu, por mais nobre que seu coração possa ser. Sempre haverá pessoas contra o relacionamento entre vocês. Se me permitirem ser um pouco mais invasiva do que já estou sendo, eu diria que fizeram bem em fugir. Sim, eu dou todo o apoio para vocês. Podem ficar comigo o tempo que precisarem!

— Lady von Wincott... A senhora está errada, eu e esse fracote não temos nada... – Wolfram começou a dizer, regulando seu tom de voz para não parecer rude, embora estivesse irritado e constrangido, visto que falava com uma dama, e uma de sua própria nação ainda por cima.

— Ah, não precisa se retratar, Wolfram, querido. Eu não vou contar a ninguém sobre esse fato. Apenas me prometam que não vão deixar as pessoas interferirem em seus sentimentos, e que serão felizes, e isso me bastará. Agora vamos, os banhos de vocês devem estar preparados.

Dizendo isso, Susanna Julia levantou-se e, sem dar chance de resposta aos garotas, ela os conduziu pela casa. Parecia estar convicta na teoria de que eles eram amantes, e nada a faria mudar de ideia, isso era fato. Ela também parecia muito entusiasmada com essas possibilidades. Depois de mostrar a eles dois banheiros diferentes, ela voltou a descer, juntamente com a empregada, para terminar de organizar o jantar. Wolfram e Yuri tomaram seus banhos, cada um em seu lugar, e vestiram as roupas que foram oferecidas, que eram muito mais frescas e confortáveis do que o uniforme que vestiam.

Depois disso, ambos desceram ao mesmo tempo para o andar de baixo, andando um pouco envergonhados pelos corredores até encontrar novamente a sala de jantar onde ela os esperava, com a mesa posta com todo tipo de comida. Decididamente, era comida demais para apenas três pessoas.

Eles tiveram um excelente jantar, à moda de Shin Makoku, durante o qual Julia contou toda a sua história, desde quando ela deixou o país, vindo morar com o seu então namorado, Adalbert von Grantz, no Japão, para onde ele havia sido transferido. Os dois moravam assim, desde então, nesse pequeno palacete que Julia construiu, e que era uma réplica exata da casa onde ela cresceu em Shin Makoku, o que explicava o fato de ela conseguir se locomover tão bem no espaço. Ela sempre hospedava andarilhos perdidos que vinham da estação, sem rumo e sem lugar para ficar, assim como Wolfram e Yuri, de modo que tinha sempre ótimas histórias para contar. Wolfram também contou as últimas notícias do seu país para a mulher, e Yuri narrou rapidamente sobre sua família incomum e sobre seu interesse em baseball, e Julia parece interessada em tudo o que os dois garotos tinham para falar, até o detalhe mais banal. Depois do farto jantar, quando os dois garotos já não tinham mais espaço para comida, e nem para histórias, visto que estavam ambos cansados demais depois daquela cansativa viagem, Julia declarou que já era hora de dormir, e os guiou até o quarto de hóspedes.

Deixando-os na porta do mesmo, ela desejou uma boa noite, e se retirou. Yuri então, abriu a porta, adentrando-o, e Wolfram fez o mesmo. O cômodo era decorado como todo o resto da casa, requintadamente. Em um canto, as malas de Wolfram já estavam postas, e os uniformes de ambos os garotos estavam lavados e dobrados sobre o móvel. Havia ali todos os aparatos necessários em um quarto, e bem no centro, uma grande e aparentemente confortável cama de casal.

— Só tem essa cama? Wolfram, como nós vamos fazer? – Yuri indagou, preocupado.

— Ora, é óbvio! Nós falamos para a Lady von Wincott que não podemos dormir ambos em uma única cama, ela entenderá. – Wolfram esclareceu, reprimindo um bocejo.

— Mas... Ela está sendo tão gentil em nos acolher, não podemos fazer a ela uma desfeita. Ela também já deve ter ido dormir…

— Então, obviamente, eu dormirei na cama e você se ajeita naquele sofá ali! – Wolfram apontou para o móvel adiante, que parecia extremamente confortável, mas ainda era pequeno para alguém do tamanho de Yuri, ainda que ele não fosse muito alto.

— Não mesmo! Eu caminhei tanto quanto você, e estou morrendo de cansaço! Não vou dormir ali! Se quiser, durma você, eu estou indo para a cama! – E, dizendo isso, Yuri correu para a cama, pulando sobre ela e se cobrindo com o lençol.

— M-mas... Mas eu quero dormir! Não posso dividir a cama com um garoto... E logo com você! – Wolfram irritou-se, fazendo o possível para não parecer patético enquanto dava um verdadeiro ataque.

— Sinto muito. Eu não sairei daqui. – Yuri bradou, já de olhos fechados. Wolfram bufou de impaciência. Não estava acostumado a ter seus pedidos negados, mas não iria dar uma de menino mimado agora, depois de tudo o que aconteceu. Ainda contrariado, ele rodeou a cama e se deitou do outro lado, fazendo o máximo para que não houvesse possibilidade de tocar Yuri. Ajeitou o travesseiro, e puxou o lençol com força.

— Ei! Eu também quero me cobrir! – Yuri reclamou, tentando puxar o lençol de volta.

— Não era você que reclamava do calor na estrada? Então, aproveite para se refrescar! – Wolfram rebateu, enrolando-se no lençol como uma bolinha.

Yuri não teve paciência, nem fôlego, para discutir. Estava exausto. Deitou-se novamente, virando-se de lado e fechando os olhos. O clima era realmente quente, e o lençol não fazia a menor falta. Alguns minutos depois, quando estava prestes a cair no sono, sentiu algo tocar suas costas. Seria Wolfram?

— Hmm... Yuri... – Ele chamou com voz fraca, irreconhecível, no escuro do quarto. Yuri não abriu os olhos. – Yuri, você está acordado?

— Estou… — Ele murmurou em resposta, com a voz rouca de sono, e Wolfram se sobressaltou ao ouvi-lo responder.

— Você... realmente... Realmente não se lembra de mim? – O loiro indagou baixo, arrependendo-se logo após proferir aquela pergunta.

— Lembrar? – Yuri abriu os olhos, intrigado. – Lembrar do quê?

— Nada. Não é nada. Deixa para lá. – Wolfram resmungou, virando-se para o lado de fora. Yuri ia perguntar a ele o que houve, mas nem para isso ele tinha forças agora. Calmamente, ele se entregou ao sono, mas a pergunta de Wolfram continuou a ecoar em seus pensamentos. Imagens indistintas, de um passado distante, se formavam. Aos poucos, elas se organizaram coerentemente. E então, Yuri sonhou.

Notas finais
Espero que tenham gostado! Kisu~ [Revisado]