Sono Te Hanasanaide
55 Capítulo LIV
Surechigau kotoba ni chotto dake no koukai
Aquelas palavras carregam um pouco de remorso
Namida koborete
Não consigo evitar as lágrimas.
Isogashi kanjou wo kodou ni rinku suru
Esses sentimentos complicados unem-se aos meus batimentos
Chuuning tashikametainda
Eu gostaria de poder ajustá-los um pouco.
Mokuteki bakkari torawarete
Você faz o que for preciso pelos seus objetivos
Daijina mono ga kasunde miete
Mas mesmo assim a coisa mais preciosa escapou de você
Kyou mo risutaato
Hoje é um novo recomeço
~Capítulo 54~
Yuri pedalava tão rápido que já não sentia mais as pernas. A noite já havia caído, e enquanto ele seguia para a parte mais alta da cidade, o mais depressa que conseguia, planejava como faria para explicar tudo o que precisava para Wolfram. Aquela seria certamente uma longa e complicada conversa, disso tinha certeza. Estava completamente enrolado naquela rede de mentiras e mal-entendidos que não havia percebido se criar ao seu redor, e agora, não tinha ideia de como escapar disso.
Havia ligado para Miya tão logo saíra do treino, desesperado por respostas. Ela foi bem sucinta em sua explicação, e logo Yuri percebeu que tudo não passava de um gigante desentendimento causado por ele próprio, na sua tentativa de fazer algo especial para o aniversário de Wolfram, e havia acabado de uma maneira desastrosa, fazendo-o sofrer desnecessariamente. Como era tolo, de não ter percebido isso antes.
Porém, agora não adiantava culpar-se pela própria falta de sorte, e tudo o que podia fazer era explicar pessoalmente e consertar da maneira que pudesse todos os erros que acabara por cometer sem perceber durante aquelas semanas.
Freou bruscamente na calçada em frente ao enorme portão que dava acesso à casa, tentando normalizar a sua respiração alterada. Deixou sua bicicleta escorada no muro, enquanto apertava o botão do interfone e aguardava. Logo, viu a câmera de segurança mover-se na sua direção, e ouviu a resposta do outro lado.
— Senhor Shibuya, sinto muito… — Um dos seguranças entoou. Todos eles já conheciam Yuri bem, e sempre o deixavam entrar de imediato assim que o identificavam, então, aquela situação era, no mínimo, estranha. — Tenho ordens expressas do Senhor Wolfram para não deixá-lo passar, por ora.
— Mas eu… Eu preciso falar com ele! Por favor, me deixa entrar! — Yuri praticamente implorou, aproximando-se do interfone. Tinha noção de que deveria estar parecendo um maluco falando sozinho com o muro da casa, mas isso não importava agora. O fato de que Wolfram solicitou especificamente para que ele não fosse permitido em sua casa só o deixava ainda mais em pânico.
— Eu não posso, senhor… Ah… — A voz do segurança hesitou, pois ele pareceu assustar-se com algo. Yuri aguardou, tenso, do outro lado da linha, sem saber o que estava acontecendo.
— Podem deixá-lo entrar.— Ele ouviu a voz de Wolfram, fraca, provavelmente vindo de mais longe, interromper os seguranças.
Seu coração imediatamente acelerou de nervosismo, ao ouvir a voz dele. Apesar de ter deixado que entrasse, ainda parecia irritado. Agora, como iria explicar a Wolfram, de uma maneira que tudo ficasse claro e não restassem mais dúvidas? Era uma tarefa praticamente impossível. Ouviu o ruído do portão se abrindo, e pegou sua bicicleta, empurrando-a para cima, pelo caminho iluminado por postes até a entrada da mansão. Tudo o que podia fazer agora era esperar que tudo desse certo.
Wolfram saiu da sala de segurança batendo os pés. Havia ouvido a campainha tocar e, ao olhar pela janela do segundo andar, imediatamente identificou Yuri no portão sem muito esforço, mesmo estando escuro. Correu para avisar que ele podia entrar, porque havia decidido, enfim, deixá-lo esclarecer o seu lado da história. Não estava ainda inteiramente convencido da inocência que todos alegavam que Yuri tinha, mas não podia ficar remoendo eternamente aquela dúvida.
Foi assim que com muita relutância ele permitiu que Yuri entrasse, e foi se dirigindo até o hall de entrada para abrir a porta, afinal, já havia passado da hora em que as empregadas trabalhavam. “Aparecendo na casa das pessoas a essa hora, francamente, fracote imprestável…”, ele ia resmungando pelo caminho, embora estivesse secretamente um tanto satisfeito pelo fato de Yuri enfim demonstrar alguma atitude em resolver aquele assunto pendente.
Estava avançando pelo corredor quando, ao passar por uma das salas de tv, ouviu a voz da sua mãe, chamando-o.
— Foi a campainha que eu ouvi tocar, querido? — Wolfram sobressaltou ao ver um rosto verde encarando-o pelo encosto do sofá, com uma centena de rolinhos cor-de-rosa decorando a cabeça loira.
— Tocou, era… — a resposta de Wolfram à pergunta de sua mãe permaneceu incompleta porque, no momento, a imagem que passava pela televisão enorme do outro lado da sala prendeu sua atenção. Era uma imagem muito familiar, de fato.
Com seus cabelos luminosos e o sorriso descarado, a Sereia Maligna o encarava desafiadoramente na tela, rindo como se aproveitasse o seu sofrimento. Certo, essa era apenas a interpretação pessoal e exagerada de Wolfram, mas estava bem próximo disso. Era um daqueles shows de variedades que sua mãe adorava assistir, aos quais ele nunca havia parado para prestar atenção de verdade. Não sabia como era a dinâmica desses programas de televisão, mas era o garoto quem estava falando, com uma simpatia e sorrisos cordiais que ele tinha certeza de que eram totalmente falsos.
— “...como fazer novos amigos, por exemplo!”— Ele entoava com uma animação notável, embora continuasse acomodado em sua poltrona impecavelmente, como se estivesse em audiência com a rainha da Inglaterra. Nem o próprio Wolfram (que já havia de fato estado em uma audiência com a rainha da Inglaterra) ousava sentar-se de maneira tão solene, de pernas cruzadas e braços apoiados aos joelhos, fitando variavelmente ora apresentadora, ora as câmeras, completamente à vontade ali. — “Eu conheci recentemente uma pessoa, que é verdadeiramente fascinante. Muito sincera, aberta às possibilidades e vê a vida de uma maneira encantadora…”
— “Ara…”— A entrevistadora riu. — “Falando assim, até parece que está apaixonado, Sara-chan! Será que suas fãs devem se preocupar?”
— “Eu espero que não. Mas acredito que todas as minhas adoráveis fãs torceriam por mim, não importa o que aconteça, não é?” — Ele piscou para a tela, e Wolfram cerrou o punho em reflexo. — “Estou só brincando.” — Risos. — “Creio somente que, daqui em diante, eu e essa pessoa nos tornaremos amigos muito próximos… nee?”
Wolfram sequer pensou duas vezes ao sair pelo corredor batendo os pés, sentindo o sangue ferver com a raiva repentina que eclodiu como uma bomba atômica em suas veias. Se aquela pessoa estava realmente falando sobre Yuri em rede nacional, então era evidente que não se tratava de um engano. Os dois eram “amigos próximos”, o bastante para que Yuri fosse, inclusive, citado em uma entrevista! Ah, ele realmente pensava que poderia enganar Wolfram dessa forma? Aquilo era tão baixo, mesquinho… Ele poderia esperar uma traição como essa de qualquer um. Qualquer um, menos Yuri. E era por isso que doía tanto.
Mordendo os lábios com força para conter as lágrimas teimosas que queriam escorrer pelos seus olhos a todo custo, ele enfim chegou até a enorme porta de entrada da casa. Respirou fundo, reunindo toda a coragem que não tinha, e se esforçando para manter uma imagem, no mínimo, composta. Era o mínimo que podia apresentar. Isso iria requerer muito da sua habilidade de atuação, agora.
Abriu a porta em um rompante, e do outro lado, viu o semblante atrapalhado e assustado de Yuri, que riu sem graça ao perder o equilíbrio, pois estava se preparando para usar o batente da porta. Aquela visão desconcertou Wolfram por um breve segundo, no qual ele sentiu seu coração acelerar imediatamente, mas ele se manteve austero.
— Wolf, eu queria…
— Vá embora, eu não quero falar com você. — Ele se apressou em dizer tudo de uma vez, com a voz tremendo mais do que gostaria, e a mão segurando com força a maçaneta da porta, mantendo-a seguramente entreaberta, como se dessa forma pudesse não se render à qualquer vontade incoerente. — Não me procure mais, não fale comigo, não pronuncie o meu nome… dessa forma… — A última frase, mais do que uma ordem, soou como um lamento. — Eu não quero mais saber de você, Yuri. Não volte mais aqui.
Sem aguentar mais, e nem esperar resposta, Wolfram fechou a porta com força. Do outro lado, Yuri permanecia paralisado, ouvindo o som da fechadura sendo trancada.
—Wolfram! Eu preciso conversar com você, por favor, me deixa entrar! — Ele enfim se deu conta do que acontecia, e avançou contra a porta, batendo nela com os nós dos dedos. — Vamos resolver esse problema, me dê uma chance de explicar a você!
— Não preciso de explicações. — Ele ouviu a voz abafada do loiro, um pouco mais afastada. — E se quer conversar, converse com o seu novo amigo. Tenho certeza de que ele vai adorar ter a sua companhia.
Yuri continuou a bater na porta, pedindo à Wolfram que voltasse e o escutasse, mas ele não estava mais lá. Não estava entendendo mais nada. Tinha certeza de que havia ouvido claramente a voz de Wolfram no interfone deixando-o entrar, e ele com certeza não se daria ao trabalho de vir até ali apenas para expulsá-lo pessoalmente. Não fazia nenhum sentido que algo pudesse ter acontecido naquele ínfimo espaço de tempo que pudesse ter feito Wolfram mudar completamente de ideia de um segundo para o outro. Se bem que… Conhecendo o seu namorado de temperamento difícil como conhecia, não seria nenhuma surpresa que ele realmente tivesse feito alguma conexão inimaginável de fatos na sua cabeça, que justificasse uma mudança tão brusca de atitude como aquela. Nem seria a primeira vez que isso acontecia.
Antes que algum dos seguranças aparecesse por ali e o expulsasse de vez da propriedade, Yuri saiu pela lateral no jardim, ponderando quais seriam as opções que tinha agora. Podia voltar para casa e esperar até o dia seguinte, mas… Isso nem chegava a ser uma opção. Já havia levado tempo demais para resolver esse assunto, e estava convicto de que deveria acertar as contas com Wolfram agora mesmo, se não quisesse perdê-lo de vez.
Tinha certeza de que ficar chamando por ele, ou tentar ligar, não resultaria em nada, afinal, era de Wolfram que estava falando, e ele não daria o braço a torcer por nada, orgulhoso do jeito que era. Yuri sabia que grande parte da atitude dele era pura teimosia e birra, então teria que lidar com isso do jeito certo. Andou pelo jardim, analisando as possibilidades. Já era tarde, e nenhuma das portas deveria estar aberta mais. Talvez, pudessem ter esquecido a janela da biblioteca aberta, ou algo assim… Não custava tentar. Se isso não funcionasse, então, ele iria escalar até a sacada do quarto de Wolfram.
— Ótimo, plano perfeito. — Ele bateu as palmas das mãos, encorajando a si mesmo, como fazia antes de uma partida de baseball. Começou a andar mais rápido, prestando atenção em cada uma das inúmeras janelas que encontrava pelo caminho, esperando que ao menos uma delas desse algum indício de ser vulnerável.
Eram janelas que não acabavam mais, embora ele mal tivesse começado a sua ronda ao redor da casa, e nenhuma delas estava aberta, mas isso não diminuía o ânimo de Yuri. Estava disposto a ficar até amanhecer, se fosse preciso, mas não saíria dali antes de ter a chance de esclarecer tudo.
Aproximou-se, tentando abrir a janela da cozinha, que era maior, e abria para cima — mas, em meio à sua tentativa, ouviu um ruído próximo, e se colocou alerta. Como estava nos fundos da casa, a iluminação da piscina e do jardim dos fundos era suficiente para enxergar, mas não para distinguir bem as formas. Ele viu a porta da cozinha abrindo com um rangido, e se preparou para sair correndo no mesmo instante — embora estivesse, na verdade, travado pelo susto.
— O que está fazendo parado aí, garoto? Entre logo. — Ele ouviu a voz de comando e instintivamente obedeceu. Dentro da casa estava um pouco mais iluminado, e com surpresa, Yuri reconheceu o irmão mais velho de Wolfram, Gwendal.
— E-eu… — Ele queria dizer alguma coisa, mas o outro tinha objetos pontiagudos nas mãos, e sua voz morreu ali mesmo quando percebeu esse detalhe. — Eu n-não estou invadindo a sua casa… — Gwendal tinha um semblante naturalmente sério, e raramente sorria, então Yuri tinha motivos reais para acreditar que estava com problemas, recuando e colocando-se já em posição defensiva.
— Eu sei disso, ouvi os gritos. — Ele ergueu o que tinha na mão, e Yuri se encolheu. — Por causa do barulho, não consegui tricotar em paz.
— Ah… São agulhas de tricô… — Yuri riu, sem graça, ao entender que Gwendal estava tentando ajudá-lo, e não matá-lo, afinal. Ele sempre imaginou, lá no fundo da sua mente, que se alguém ali fosse puni-lo por ter conquistado o filho mais novo da casa, essa pessoa seria Gwendal.
— Vá logo conversar com aquele cabeça-dura e resolva o que precisa ser resolvido. — Gwendal expirou, dando um passo para o lado, abrindo passagem para Yuri. Já estava saturado com as teimosias infindáveis de Wolfram, e contava com Yuri para dar um jeito nisso.
— Ah…! Eu vou tentar, obrigado, Gwendal-san! — Ele acenou para o mais velho com um sorriso grato, e recebeu um grunhido em resposta.
Saiu apressado pelo acesso da cozinha aos outros cômodos, seguindo pelo caminho que já conhecia até as escadas de serviço, que ficavam atrás de uma discreta porta. Eram escadas mais estreitas do que as principais, mas garantiam acesso mais rápido ao andar superior, onde se localizavam os quartos.
Conhecia bem o caminho até o quarto de Wolfram, por isso, nem precisava de iluminação, embora os corredores tivessem lâmpadas de luz tênue a cada metro, que se acendiam enquanto ele passava. Parou em frente à porta, pronto para bater, mas pensou melhor e não o fez. Se Wolfram soubesse que estava ali, jamais deixaria que entrasse.
Minutos antes, depois de expulsar Yuri e voltar para o seu quarto, Wolfram vestiu a primeira roupa de dormir que encontrou — no caso, a camisola laranja e confortável que estava por perto -, apagou todas as luzes e se escondeu embaixo dos cobertores, querendo dormir e esquecer todos os problemas, desaparecer até que aquela dor passasse. As palavras que queria ter dito à Yuri ainda queimavam na sua garganta, mas ele não havia conseguido pronunciar antes, porque sabia que se olhasse para ele por mais tempo, teria se rendido.
Ele parecia arrependido e desesperado, era verdade, mas se estava sentindo culpa, era porque alguma coisa de errado havia feito, certo? Wolfram buscava de todos os modos justificar sua recusa em perdoar Yuri, porque sabia que tudo estava terminado, e não queria acabar voltando atrás na sua decisão. Queria esquecer tudo. Voltar a ser a pessoa que era antes de se apaixonar. Queria não sofrer.
No entanto, depois de ter seu mundo inteiro colorido com aquele sentimento, voltar a vê-lo em preto e branco era uma tarefa impossível. Wolfram era egoísta. Não queria abrir mão do que havia conquistado depois de tanto tempo. Mas ele não se sentia mais como ele mesmo, não sabia como agir, estava perdido. Com medo.
— Por que você me deixou sozinho, imbecil? — Ele sussurrou contra o travesseiro, encolhendo-se em si mesmo, desejando sumir.
Wolfram ouviu passos no corredor, ecoando no silêncio da noite, e imaginou que seria Gwendal, vindo tirar satisfações sobre os gritos no hall de entrada de antes, ou Cheri, querendo saber o que havia acontecido. Será que Yuri ainda estava batendo na porta? Não, impossível. Ele já devia ter ido embora, agora.
A porta abriu em um rompante segundos depois, sobressaltando Wolfram, que se sentou imediatamente na cama, assustado. A sua frente, via a silhueta familiar de alguém, recortada somente pela luz do corredor. Era Yuri. Seu coração acelerou vergonhosamente com a simples visão incerta dele, e Wolfram se amaldiçoou por isso. Como era fraco.
— Nós não terminamos de conversar ainda, Wolf! — Ele bradou, fechando a porta atrás de si e mergulhando o quarto novamente na escuridão.
— C-como você entrou aqui? — Wolfram, indignado, percebeu sua voz falhar.
— Não importa, nós precisamos conversar. Eu preciso te explicar tudo, Wolfram, por favor, me escuta! — Ele replicou, enquanto se aproximava da cama, inclinando-se para ligar a luz do abajur ao lado. Finalmente pôde enxergar o rosto de Wolfram mais de perto.
Levou alguns segundos para analisá-lo. Ele estava com visíveis olheiras abaixo dos olhos, que não continham mais aquele brilho resplandecente que ele estava acostumado a ver. Os cabelos estavam revoltos, emaranhados, como se ele já não cuidasse mais deles como antes. As mãos, apertadas sob os lençóis da cama, tremiam. “A culpa disso é minha…”.
Yuri inclinou-se quase instintivamente na direção dele e o abraçou, buscando acalentá-lo em seu braços e protegê-lo de toda aquela tristeza que via. Não aguentava vê-lo assim, e não fazer nada. De início, Wolfram deixou-se ser abraçado, sentindo seu peito apertar e aquecer-se, de volta ao lugar onde se sentia bem. Os braços de Yuri o envolviam por inteiro, enquanto ele por costume escorava a testa no ombro dele, escondendo-se ali, sentindo o calor e o perfume dos quais sentiu tanta falta. O conforto agradável o fez esquecer momentaneamente as preocupações, e ele inconscientemente ergueu os braços para responder ao contato — porém, a razão logo o chamou novamente, e ele se deu conta de que estava fraquejando, se deixando levar pelo toque que tanto ansiava. Afastou Yuri com um empurrão, aturdido. Por que ele ainda estava fazendo isso?
— Não! Não quero! — Wolfram pulou da cama, fazendo a volta para puxar Yuri pelo braço, o empurrando com todas as forças em direção à porta. — Não importa o que você diga, eu não vou acreditar, eu não quero ouvir! Vá embora!
Wolfram não era fraco, mas Yuri resistiu o quanto pôde, e enquanto o outro o empurrava, com o semblante ainda mais perturbado, tentava fazê-lo parar. O loiro se inclinou para mantê-lo afastado, enquanto alcançava a maçaneta da porta, e Yuri aproveitou a chance e segurou-o pelo pulso, impedindo-o que a abrisse.
— Eu só quero que você me escute, Wolfram! — Yuri ergueu a voz, sem soltá-lo. Wolfram o encarou, estarrecido, por alguns segundos. Yuri nunca gritava com ele. — Eu preciso te explicar tudo o que aconteceu, e você vai me ouvir, entendeu?
— Não, eu não quero ouvir nada, eu já disse! Não quero mais te ver, me deixa em paz. — Enquanto ele dizia tudo o que vinha a sua mente, seus olhos marejaram. Com somente a luz do abajur, ele não via mais Yuri, não enxergava mais nada. As lágrimas escorriam livremente por seu rosto, enquanto ele desejava que tudo sumisse, e levasse junto aquela dor aguda que ele não sabia de onde vinha, mas queria que parasse logo. Começou a distribuir golpes a esmo, com as mãos cerradas, acertando Yuri em uma tentativa de fazê-lo soltar seu pulso. — Não preciso de você, não preciso de ninguém! Eu quero ficar sozinho, me deixa aqui e vai embora logo!
Yuri conseguiu segurar os dois braços dele com firmeza, mantendo-os paralisados, e obrigando Wolfram a olhar para ele, apesar de todas as lágrimas.
— Eu não vou à lugar nenhum, está entendendo? — Falou lentamente, para que não restasse dúvidas do que estava dizendo, mas Wolfram parecia não querer escutar.
— Mas não é isso o que você quer? Ir embora? — Ele balbuciou, incoerente.
— Claro que não, de onde é que você tira essas ideias malucas? — Se a situação não fosse tão séria, Yuri teria rido. Wolfram se encolheu mais, ainda tentando soltar as mãos de Yuri, embora não com tanta força como antes.
Yuri deslizou as mãos acima, até os ombros dele, que estavam tensos e trêmulos. O loiro fez menção de se desvencilhar, mas Yuri foi mais rápido, e o conduziu de volta à cama, forçando-o a sentar, e tomando o lugar ao seu lado, sem dar a chance de Wolfram sequer entender o que acontecia. Não permitiria que ele continuasse a pensar besteiras sozinho, não mais.
— Agora me escuta, ok? Eu não estou te traindo, entendeu? — Ele afirmou resoluto, olhando diretamente nos olhos de Wolfram, sem hesitar. Sentiu-o estremecer, irritado.
— Claro que está, eu já sei… — Yuri não permitiu que ele continuasse a falar, passando a mão pelo seu rosto, acariciando de leve os cabelos com as pontas dos dedos, e erguendo-o para que o encarasse de frente. Wolfram engoliu o que estava prestes a dizer, permitindo se perder ligeiramente. Podia estar tentando enganar a si mesmo, mas não parecia haver qualquer sinal de que aquilo era uma mentira. E ele queria muito poder acreditar nisso.
— Não estou. — Ele prosseguiu. — O que você acha que viu, e o que aconteceu de verdade, são duas coisas completamente diferentes. — Enquanto falava, aproximou-se minimamente de Wolfram, fazendo suas defesas caírem pouco a pouco. Ainda acariciava de leve o lado da sua face. — Eu vou te explicar desde o início, então. Na verdade — Ele começou. -, eu realmente vinha escondendo algo de você, há algum tempo… — Sentiu Wolfram ficar rígido instantaneamente, fitando-o com fúria, e já foi logo completando: — Mas não é isso o que você está pensando! Eu tinha arrumado um emprego.
—... Um emprego? Você? — Wolfram recuou para enxergá-lo melhor, incrédulo, afastando a mão dele. — Você estava precisando de dinheiro? Por que não me contou? Eu teria te ajudado!
— Eu não poderia, e mesmo que fosse o caso, eu jamais teria aceitado seu dinheiro, Wolf. — Ele apenas afirmou, e Wolfram já imaginava que ele diria algo do tipo, portanto, não replicou. — É que… Eu estava planejando algo… — Yuri suspirou. O aniversário de Wolfram era somente dali há dois dias, e isso estragaria completamente a surpresa que ele estava idealizando há tanto tempo, mas não importava mais. Não havia como esperar tanto tempo para resolver aquele assunto, afinal. — O seu aniversário. — Ele esfregou a mão na nuca, rindo, sem graça. — Eu queria fazer uma surpresa. E precisava de dinheiro, para… comprar um presente bom, sabe?
Wolfram abriu a boca para responder, mas não conseguiu dizer nada. Com tudo o que acontecia, havia esquecido completamente do seu próprio aniversário, e o fato de que Yuri parecia tão empenhado nisso o deixava sem espaço para argumentar. Cruzou os braços, buscando não ser completamente convencido com somente aquilo.
— E onde você arrumou um emprego, posso saber?
— Acabou sendo meio por acaso. — Ele lembrou. — Lembra do dia em que você faltou aula, quando seu tio foi embora?
— Sim… — Wolfram franziu os olhos. Estava se esforçando ao máximo para não ser ludibriado por Yuri, enquanto ele parecia vagar por assuntos que não tinham nada a ver com o ponto principal. Isso podia muito bem ser uma maneira de enrolá-lo, mas ele estava preparado para isso. Não iria cair facilmente, não importando o que Yuri dissesse.
— Eu estava conversando com a Miya sobre a minha ideia de conseguir um emprego e, naquele dia, um colega nosso me ajudou, indicando um lugar que precisava de atendentes. Você sabe onde fica, a confeitaria Little Shimaron, certo?
— Sim, eu já fui lá. — Yuri ia responder “Eu sei” afinal, tinha se escondido para que Wolfram não o visse trabalhando, mas resolveu deixar esse detalhezinho de lado. Se a intenção era acalmar Wolfram, era melhor não arriscar, ainda mais quando enfim havia conseguido fazer com que ele o ouvisse.
— Então, foi lá que consegui um emprego de meio-período. Eu atendia no balcão, e ajudava com os pedidos…
— Tá bom, tá bom, eu entendi a parte do emprego — Wolfram foi logo o cortando, voltando ao que o interessava. — Mas isso tudo não justifica o que eu vi. Você, todo alegrinho, entrando em lojas abraçado naquela maldita Sereia Maligna…
— Sereia Maligna? — Yuri repetiu, contendo uma risada que ameaçou escapar. Não queria irritar Wolfram, de jeito nenhum, mas não podia negar, aquele apelido combinava demais com Sara. Exceto a parte do “maligna” — Sara era uma pessoa legal.
— Sim! — Wolfram se exaltou mais uma vez, dessa vez refletindo mais o seu lado ciumento e exagerado, o que fez Yuri acreditar que ele estava voltando ao seu normal. — Aquele garoto loiro, arrogante e presunçoso, que anda por aí como se fosse alguém muito importante. Ele estava agarrado em você, eu vi. E você, paspalho, rindo como um idiota, deixando ele fazer o que bem entendesse...
— Não foi bem assim, Wolf, se acalma… — Yuri se colocou em posição defensiva, e logo percebeu que havia errado na escolha de palavras.
— Me acalmar? Você está dizendo para eu me acalmar? — Ele baixou o tom de voz, inclinando a cabeça de maneira inquiridora. — Você não teve nem a ousadia de tentar negar! Eu sei muito bem o que eu vi! — Wolfram se ergueu, caminhando pelo quarto, a voz aumentando gradualmente enquanto ele gesticulava, absolutamente furioso mais uma vez. — Você e aquela... coisa loira andando abraçados na rua, rindo como um maldito casalzinho! Em um encontro! Ele… Ele estava colocando aquelas mãos cheias de dedos em você, e você estava adorando! Não estava sendo divertido? Ah, eu aposto que estava! — Ele jogou as mãos para o alto, exasperado.
— Não foi bem assim que aconteceu, na verdade, Wolf... — Yuri tentava ao máximo contar tudo de uma vez só, e de maneira bem sucinta, para que Wolfram pudesse entender de vez e resolver o problema por inteiro, mas esse nunca havia sido o seu forte. E quanto mais tentava se organizar para explicar, mais se enrolava, e piorava a situação para o seu lado. — Eu realmente estava com alguém, com o Sara, nesse dia, mas…
— Sara? Você chama ele de Sara? — Wolfram se virou de súbito, abrindo e fechando as mãos nervosamente, como se desejasse apertá-las ao redor do pescoço de Yuri com toda a força. — Já são tão íntimos a esse ponto? Ficaram amiguinhos bem rápido, não é? Onde você conheceu ele, afinal? O que estavam fazendo? Yuri, eu já estou perdendo a paciência com você…
Yuri sabia que a paciência citada por Wolfram nunca existira, para começar, então engoliu em seco, e segurou-o pelo braço, tentando encontrar um jeito de fazê-lo se acalmar e ouvi-lo de vez. Continuava fitando-o diretamente, sem nunca quebrar o contato visual.
— Eu conheci o Sara na confeitaria, ele é o dono do lugar. — Em contrapartida aos gritos cada vez mais altos de Wolfram, Yuri falava baixo e calmamente, querendo somente que ele não fosse tão precipitado, e o deixasse completar ao menos uma frase que fosse. — Meu chefe… sabe? Ele que me contratou.
Wolfram franziu os olhos, desconfiado. Nada, em toda aquela história tresloucada, sem pé nem cabeça, fazia sentido. Isso, muito menos. Yuri tentou trazê-lo para perto novamente.
— Dono de confeitaria? Você acha que eu nasci ontem, Yuri? — Ele soltou a mão dele do seu braço bruscamente, mas Yuri insistiu em puxá-lo, tentando faze-lo sentar novamente ao seu lado. Wolfram recusou, cruzando os braços. — Eu sei que ele é modelo! Não adianta tentar me enrolar!
— Você já conhece ele? De onde? — Yuri parecia genuinamente surpreso, e Wolfram queria socar a cara dele. Por que tinha que parecer tão inocente assim? Ficava difícil acusá-lo quando agia dessa maneira. Era por isso que ele acabava sendo enganado tão facilmente.
— Não interessa, continue. — Ele batia o pé descalço no chão, com os lábios se crispando impacientemente.
— Logo que eu consegui juntar dinheiro suficiente, e já que eu ia voltar a jogar, resolvi pedir demissão. Todos por lá sabiam o motivo de eu querer trabalhar, e o Sara — Cada vez que Yuri pronunciava esse nome, uma veia saltava na testa de Wolfram, enquanto ele cerrava os dentes numa tentativa de conter sua raiva. — se ofereceu para me ajudar. Ele foi muito legal comigo, durante todo o tempo que eu trabalhei lá, sempre me ajudava e era muito gentil, então…
— Trapaceiro miserável! — Wolfram interrompeu Yuri mais uma vez — Por que você fica falando bem dele na minha frente? Se ele é tão bom assim, vá lá, volte pra ele e me deixe em paz!
Yuri impulsionou-se para a frente, segurando Wolfram pela mão, e o trazendo de volta para o seu lado. Puxou-o pelos braços para fazê-lo sentar, e continuou encarando-o diretamente, muito mais próximo do que ele julgava necessário.
— Será que você pode deixar eu terminar de falar pelo menos uma vez, Wolfram? — Ele pronunciou, em voz baixa, suspirando. — Eu só queria que você soubesse que o Sara não é uma pessoa ruim, e que nada do que você está pensando é verdade. Ele estava me ajudando a escolher o seu presente. Naquele dia, ele estava comigo para comprar, porque eu não conhecia aquelas lojas. — Yuri não sabia mais o que poderia dizer para convencê-lo da verdade. Deixou seu corpo inclinar-se com o peso sobre Wolfram, ocultando o rosto na curva do ombro, soltando os pulsos para segurar as mãos dele. — Eu não estava te traindo, Wolf. Eu nunca faria isso com você.
— Yuri… — Wolfram teve o ímpeto de abraçá-lo, mas não o fez. O cabelo de Yuri roçava no seu rosto, e o calor irradiava na sua pele, daquela proximidade que ele tanto evitara, e agora, não queria encerrar. Era tão fraco diante de Yuri, e sabia que acabaria perdendo. Não sabia mais o que pensar, em meio à confusão de sentimentos conflituosos que se acumulavam em sua mente.
Tentou, com uma força quase inexistente, empurrar Yuri pelos ombros. Ele se ergueu, mas somente o suficiente para poder enxergá-lo. Afastou delicadamente os cachos que se espalhava no rosto de Wolfram, embora o loiro fechasse os olhos com força para não olhar para ele.
— Por que você não consegue acreditar em mim? Eu estou falando a verdade, mas você continua sendo pessimista, e esperando sempre o pior que pode acontecer. — Ele o olhava firmemente. Não havia o menor sinal de hesitação naqueles olhos negros, e Wolfram sabia disso. — Eu não estou mentindo pra você Wolfram. Eu sei que eu escondi algumas coisas, e talvez não devesse ter feito isso dessa maneira, mas eu estava pensando em você, o tempo todo. Eu só queria te fazer feliz… — Ele se afastou, enfim, e Wolfram o observava cuidadosamente. — Queria conseguir algo para você… Algo que fosse à sua altura, e que você pudesse usar sempre, e se lembrar de mim.
— Eu nunca pedi por nada disso… — Seus argumentos estavam no fim, mas ele ainda relutava em ceder. Apesar de tudo, ainda era o mesmo Wolfram orgulhoso lá no fundo, e aceitar facilmente tudo que estava sendo lhe dito não era nada confortável para ele.
— Fui eu que decidi fazer isso. — Yuri respondeu, seguro, calando-o mais uma vez. Moveu-se, procurando por algo nos bolsos do casaco, até tirar de lá uma pequena caixinha preta, com uma fita vermelha adornando o topo. Quando Wolfram percebeu, engasgou, sentindo os olhos secos arderem mais uma vez. Yuri aproximou-se um pouco mais e estendeu a caixinha na sua direção. — Foi a única coisa em que eu consegui pensar em comprar para você… Algo que tivesse valor, e algum significado…
Wolfram fraquejou, a respiração falhando em surpresa. Aceitou o presente, abrindo-o devagar, com as mãos trêmulas — e seu coração quase parou. Dentro da caixa havia dois anéis de prata, idênticos, reluzindo na luz suave do abajur. Ele não podia estar errado quanto ao significado daquilo. Fitou Yuri, abalado com o presente inesperado. O semblante dele demonstrava desapontamento, embora sorrisse. Não era dessa maneira que ele vinha planejando com tanto afinco durante semanas, mas se ajudasse Wolfram a perdoá-lo e derrubasse de vez toda a desconfiança dele, então ele faria o possível para conseguir isso.
— Yuri, isso é… — Ele olhava para as alianças, e de volta para Yuri, sem saber o que dizer. Parecia… um pedido de casamento. Ah, Wolfram não queria pensar precipitadamente em algo tão sério assim, e eles eram ainda tão jovens, tinham muito tempo para isso! Balançou a cabeça, afastando os pensamentos incoerentes.
— É um símbolo. De compromisso. — Abrindo um pouco mais o sorriso, Yuri retirou a caixinha da mão de Wolfram, roçando de leve seus dedos nos dele no processo, o que o fez estremecer por dentro. Pegou um dos anéis, o menor, embora houvesse pouca diferença entre os dois, e esticou a mão esquerda, pedindo pela de Wolfram.
Ele hesitou, mas respirando fundo, cedeu sua mão direita. Yuri segurou com firmeza a mão que ele tocava na sua com suavidade, e posicionou a aliança para colocá-la no seu dedo anelar. Wolfram notou que a mão dele tremia um pouco, também. Ele riu, nervoso, ao tentar encaixar o anel no dedo e errar. Wolfram quase deixou escapar um riso sem jeito.
— Por que… isso? Tão de repente.- Ele indagou em um sussurro, enquanto Yuri enfim, conseguia acertar a maneira de colocar o anel, empurrando-o até o final.
— Porque eu já decidi. Eu amo você, Wolfram, mais do que eu pensei que poderia amar alguém, algum dia. — Ele ergueu os olhos, sem soltar a mão de Wolfram em nenhum momento. Mesmo no quarto mal-iluminado, seus olhos brilhavam, enquanto ele sorria daquela maneira que fazia o coração de Wolfram bater descontroladamente. Ele sentiu todas as suas muralhas cuidadosamente forjadas desmoronarem com um sopro. As lágrimas que ardiam em seus olhos correram livremente, quando ele desistiu de contê-las. — Só você consegue fazer com que eu me sinta assim, e eu não sei onde encontrar uma explicação para isso… Pensando bem, não preciso de uma. Está tudo muito claro, pra mim. — Ele deslizou o polegar pelo rosto de Wolfram, juntando suas lágrimas. — Eu quero passar o resto da minha vida com você, Wolf. Para sempre. — Ele ergueu a mão que ainda segurava, repousando-a em seus lábios, sobre a aliança recém colocada.
—... F-fracote. — Wolfram soluçou, desatando a chorar ainda mais, enquanto de alguma maneira tentava ocultar o rosto com a mão livre. Não aguentou sustentar o olhar que Yuri trazia ao beijar sua mão. — P-por que... você tem que dizer essas coisas?
Yuri sorriu com a reação de Wolfram, aproximando-se e acolhendo-o em seus braços. Dessa vez, ele não resistiu, escondendo o rosto no seu peito enquanto sentia os cabelos sendo acariciados com ternura. Mordeu o lábio, numa tentativa de conter os soluços, e abraçou Yuri com força.
— Isso significa que você acredita em mim? — Yuri arriscou, recebendo um resmungo em resposta, que ele preferiu encarar como sendo uma resposta positiva. Puxou Wolfram mais para o seu colo, enquanto ele se encolhia como uma criança pequena em busca de proteção. — Ninguém poderia tomar o lugar que você tem na minha vida, Wolf. Ninguém jamais te substituiria, isso seria impossível. Por que você não consegue acreditar mais em si mesmo? Olha só pra você, e olha pra mim. Se alguém aqui poderia ser trocado, esse alguém seria eu, não?
— Claro que não… — Wolfram ergueu os olhos, a voz abafada. — Eu nunca vou amar ninguém além de você, fracote. — Sua voz se elevou minimamente, o suficiente para ser ouvido com clareza. Ele voltou a desviar o olhar, ao notar o sorriso cálido que Yuri lançava na sua direção.
— Então você sabe como eu me sinto, certo? — Ele argumentou. Wolfram manteve-se em silêncio, encabulado, voltando a se inclinar no ombro de Yuri. O moreno buscou novamente a caixinha, que estava esquecida sobre a cama, colocando-a diante dos olhos do namorado. — Aliás, eu comprei duas, viu? — Ele mostrou, parecendo orgulhoso por ter tido essa ideia. — Só para você não reclamar que seria o único usando uma aliança.
— Evidente. Eu nunca permitiria que você saísse por aí agindo livremente, como se ainda fosse solteiro. — Wolfram reclamou, retirando o anel remanescente da caixa, e segurando a mão de Yuri na sua, para posicioná-lo no dedo onde, ele esperava, fosse permanecer por muito tempo ainda. — Ao menos agora, qualquer um que resolver se aproximar de você, mesmo que seja um colega de trabalho, gerente, ou seja o que for, vai saber que você é comprometido. — Ele franziu os olhos, forçando um semblante irritado, embora agora Yuri pudesse dizer com segurança que o pior já havia passado.
— Exato. Todos podem ver claramente que eu estou preso a você para o resto da minha vida. — Ele segurou as duas mãos de Wolfram, reclinando-se na direção dele, e tocando de leve em seu rosto com a ponta do nariz. — Mas eu não estou reclamando, certo? — Riu fracamente, sua respiração fazendo a pele de Wolfram arrepiar-se em um instante. Gostava de saber que ainda podia provocar as mesmas reações nele, apesar de tudo. — Me desculpa… Wolf. Eu não devia ter deixado que esse mal-entendido se tornasse algo tão grande assim. — Ele se afastou apenas um pouco, voltando a tomar Wolfram em seus braços. Era fisicamente impossível para ele ficar afastado do outro agora. — Devia ter insistido em conversar com você, quando percebi que você não estava bem. Podia ter evitado todo esse problema...
— Eu também… Errei em não ter te ouvido desde o início. — Wolfram admitiu, em voz mais baixa, segurando-se ao casaco de Yuri. — Desculpa…
— A culpa não foi sua. — Ele sorriu, enrolando os cachos loiros nos dedos, enquanto falava. — Eu prometo que não vou mais mentir para você, nunca mais. Nem que seja por uma boa razão. Vou sempre contar tudo pra você, está bem?
Wolfram não conseguiu concordar de imediato. Sabia muito bem que Yuri não era o único ali escondendo fatos do outro. Hesitava, mas não queria mais se sentir culpado — tinha noção de que deveria compartilhar a verdade com ele também. Ergueu-se, embora ainda estivessem bem próximos, e fitou Yuri por alguns segundos, com a expressão séria.
— Sem mais mentiras, certo? — Ele indagou, e Yuri confirmou com um aceno de cabeça. — Então… Bem, eu também tenho algo para contar a você… — Ele não sabia se era essa realmente a melhor hora para isso, entretanto, se a premissa de toda essa conversa era de que não deveriam mais manter segredos entre si, deveria dar o primeiro passo para isso. Yuri aguardava pacientemente. — Lembra… daquele dia quando... — Ele se atrapalhou, nervoso com a escolha certa de palavras. — .… nós… Ahn… Sabe? Aquele dia embaixo da escada?
— Lembro. — Yuri respondeu, ficando imediatamente sério ao recordar. — Você estava com vários machucados…
— Sim, isso. — Wolfram respirou fundo, buscando uma maneira mais branda de contar o que havia acontecido. — Aquilo havia acontecido na noite anterior. Eu estava indo para a sua casa, queria saber o motivo do seu sumiço. No caminho, encontrei alguns imbecis, que guardavam algum rancor incompreensível contra nós, e resolveram que queriam descontar isso ali mesmo…
— O que eles fizeram com você, Wolfram? — Yuri alarmou-se, chocado. — Quem eram eles? Quantos? O que...
— Calma, já passou. — Wolfram relevou o assunto, repousando a mão sobre a de Yuri, em cima da cama, numa tentativa de acalmá-lo, por enquanto. — Foi somente aquilo que você viu. Eles… me bateram. Um pouco.
— Um pouco?? Wolfram, você estava cheio de hematomas! Como isso pode ser um pouco?
— Não exagera, Yuri… — Ele disse, embora não fosse nem de longe alguém com moral para um pedido desses. — No fim, tudo acabou bem, porque alguém me ajudou. Mas não importa mais. Era só isso. Agora já está tudo esclarecido.
— Eles bateram em você, não tem como eu deixar isso de lado! — Yuri ainda não conseguia engolir essa parte da história, e Wolfram suspirou, quase se arrependendo por ter contado. — Quem eram eles? Eram da nossa escola?
— Eu não sei, estava escuro e eu não vi direito. Mas tudo foi resolvido, entendeu? Eu só estou te contando porque não quero mais manter segredo nenhum de você. — Wolfram se apressou em querer dar aquele assunto por encerrado. — Se você quiser fazer alguma coisa, pode agradecer ao garoto que me ajudou ou algo assim, porque ele estuda na nossa escola. Mas além disso, não tem nada mais que precise ser feito. Eu… Eu não quero mais falar sobre isso, está bem? — Ele baixou o olhar, e Yuri achou melhor não insistir no assunto, que parecia ser uma lembrança nada agradável para ele, ainda mais quando eles estavam tentando acertar as coisas entre si.
—... Certo. — Yuri afagou o topo da cabeça de Wolfram, buscando de alguma maneira confortá-lo. — Eu prometo que jamais vou deixar alguém machucar você novamente, Wolfram. Nunca mais. — Ergueu o queixo de Wolfram, observando de perto os orbes esmeralda ainda úmidos das lágrimas recentes. Não queria vê-lo chorando mais. — Você confia em mim? — Sussurrou, aproximando-se diligentemente. Wolfram assentiu com a cabeça, deixando que ele chegasse mais perto, e inclinando-se quase automaticamente, com os lábios entreabertos.
— Se você se comportar… — Ele respondeu, encarando-o seriamente enquanto projetava um beicinho nada ameaçador. Yuri não conteve um riso aliviado, ao ver a usual personalidade dele de volta, e sem conseguir resistir, tocou levemente seus lábios, em um esboço de beijo.
Wolfram ameaçou resistir, porém, mesmo que insistisse, era óbvio que já não estava mais contrário à investida de Yuri como antes. Relaxou, quando Yuri o segurou em seus braços, e puxou seus cabelos delicadamente para trás, tocando em sua testa com os lábios por alguns segundos.
— Uma mágica pra afastar o medo… — Ele se inclinou e sussurrou em seu ouvido, sorrindo. Wolfram não se conteve mais, circundando seu pescoço com ambos os braços, quase fazendo-o perder o equilíbrio.
— E-eu te amo, Yuri. — Ele finalmente disse, tendo a certeza de que o outro o ouviria claramente. Não podia deixar de confirmar seus sentimentos mais uma vez, agora que aquela sombra de insegurança havia se dissipado, ao menos um pouco. Como estava praticamente de joelhos sobre a cama, acima de Yuri, precisou inclinar a cabeça apenas um pouco para baixo, encostando suas cabeças e roçando de leve o seu nariz com o dele. Fechou os olhos, aproveitando a sensação de proximidade que era tão confortável e segura. — Por favor… Não me deixe sozinho…
— Eu não vou. — Yuri o abraçou com força, e terminou com a mínima distância que havia entre eles. Wolfram inocentemente esperou por um toque nos lábios, que não veio. Ao invés disso, recebeu beijos no queixo, nas bochechas, na ponta do nariz, e por todo o rosto.
Wolfram precisou rir. Não apenas sorrir, como estava acostumado, mas rir, de verdade. Soava estranho, mas saia espontaneamente, e ele não conseguia controlar. Parecia muito mais uma criança. Sentia-se leve, sem aquele peso em seu coração, sem o sentimento de perda e de culpa que o assolavam. Era como se aqueles dias escuros que vivera não houvessem sido nada além de um sonho ruim. Yuri estava ao seu alcance novamente, e não iria a lugar algum — estava tudo bem.
Yuri também riu, segurando-o em seu colo, e mantendo-o tão perto quanto podia, apreciando aquele som tão doce. Tudo o que queria era ver Wolfram sempre assim, e ser capaz de fazê-lo feliz.
E, definitivamente, não iria falhar.
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