Kimi ga iru to kikoe te ta

Eu podia ouvir quando você estava lá

Uta ni natta waraigoe

O riso que se transformou em uma canção

Kazareru kotoba nante nani mo nai

Não foram necessárias palavras elaboradas

Jikan wa tomatte suroo de nagare teru

O tempo pára, e está fluindo lentamente

Hanare ta tte heiki da ne

Quando estávamos separados era certo, não era?

Omoide wa iroase nai

Nossos sentimentos não desaparecerão



Capítulo 9

O loiro observava atentamente, com seus olhos incrivelmente verdes, cada movimento que o time de baseball realizava. Não entendia absolutamente nada daquele jogo confuso, em que havia uma bola pequena e rápida demais para que seus olhos destreinados seguissem, um bastão sendo brandido no ar, e uma quantidade ridiculamente grande de garotos gritando ao mesmo tempo, e correndo para direções opostas. Porém, ele também não estava preocupado em aprender as regras do jogo. Estava ali com somente um propósito, ainda que este não estivesse muito claro em sua mente atualmente.

Sentado na primeira fileira da arquibancada de pedra, ele apenas estava entediado com tudo aquilo, mas, ainda assim, persistia em assistir Yuri jogar, vendo-o correr e gritar no seu uniforme. Ele ficava bem usando aquilo, era a verdade. Mas Wolfram não entendia de onde vinha aquele repentino e bizarro interesse, essa vontade inexplicável de ficar apenas ali, vendo o treino de um jogo que ele não conhecia. A única suspeita que tinha, era a de que algo estava diferente.

Durante a viagem de volta da casa de Suzanna Julia, Wolfram teve muito tempo para pensar. Reavaliou suas atitudes recentes, e as mais distantes, e chegou a algumas conclusões, apesar de continuar tendo dúvidas sobre muitos assuntos. A primeira das certezas era: Ele e Yuri eram amigos.

Porém, Wolfram não entendia o sentimento de amizade. Não sabia por que as pessoas se associavam através desses laços tão tênues, ou por que elas tinham a necessidade de estar por perto ou de manter relações mútuas de interesse e convivência. Porém, havia algo que podia ser classificado como amizade, dentro dos parâmetros da sociedade, entre ele e Yuri. Então essa era uma certeza.

A segunda certeza era um pouco mais difícil. Wolfram queria continuar a ter essa relação de proximidade com Yuri, mas sentia que a qualquer momento, ele poderia sumir, assim como aconteceu quando eram crianças. Era um medo infundado, talvez um trauma ou qualquer coisa assim, mas… Wolfram não podia evitar. Ele não queria que Yuri sumisse da sua vida novamente, e iria mantê-lo para si a qualquer custo. Só que, para isso — e mesmo alguém cabeça-dura como Wolfram podia notar — era necessário que ele tivesse algo a oferecer em troca. Não bens, ou favores, como acontecia frequentemente nas relações diplomáticas às quais Wolfram foi doutrinado, mas algo imaterial, abstrato. O que era usado como moeda de troca nas relações de amizade? Não sabia ao certo, mas sentia instintivamente, que deveria ser mais agradável para manter Yuri por perto.

Era essa a terceira certeza de Wolfram. Se quisesse Yuri em sua vida, teria que mudar. Tornar-se alguém de quem ele precisasse, alguém cuja companhia fosse algo agradável, desejável, necessário. Era puro egoísmo de Wolfram, claro que era. E cada atitude “agradável” que ele se forçava a ter, como convidar a prima de Yuri para sair com eles, ou conversar com Murata na primeira vez em que se encontraram, parecia evidentemente falsa. Tanto que Wolfram sentia vontade de vomitar. Mas Yuri não ligava para isso, e parecia tão contente em apresentá-lo como seu “amigo de infância” para os outros, que o loiro pensava que também podia não ligar para isso.

E lá estava Yuri, acenando tolamente para Wolfram do meio da quadra. O loiro acenou de volta, relutante. O treinador deu outro grito, e todos começaram a se dispersar, caminhando em grupos para o vestiário. Yuri tomou a direção contrária, e correu até onde Wolfram estava. Escorou-se nas grades que margeavam o campo, e sorriu para ele, com o rosto brilhando de suor, e a franja colando na testa, por baixo do boné.

— E aí, o que achou, Wolfram? – Indagou, sorrindo animadamente logo depois. Não parecia nem um pouco cansado, ou desanimado, depois de tanto tempo treinando. Pelo contrário, parecia ainda mais brilhante e vivaz do que nunca.

— Foi… formidável. – Wolfram respondeu, incerto sobre a escolha das palavras. Yuri assentiu, embora não soubesse ao certo o significado de “formidável”. Os dois se encararam sem nada a dizer um para o outro por alguns segundos, apenas pensando em algo bom o suficiente para ser dito, sem muito sucesso.

— Etto… Você não quer tentar? – Yuri convidou, indicando a mão que ainda estava coberta com a luva.

— Tentar o que?

— Baseball. Não quer jogar? – Yuri se animou um pouco mais, e antes que se percebesse, havia contornado a grade e puxava Wolfram pelo pulso na direção do meio da quadra, já vazia a essa altura.

— O q-que? Eu nunca joguei isso, nem mesmo sei as regras! – O loiro protestou, embora fosse óbvio que seus lamentos não alcançavam os ouvidos de Yuri. — Não quero fazer isso!

— É só uma tentativa! Não é como se você fosse tentar entrar no time de baseball! – Yuri replicou, e tirou seu próprio boné, colocando-o desajeitadamente sobre os macios cachos de Wolfram.

— Certo. – Wolfram suspirou, derrotado. Seguindo sua lógica atual, não poderia negar nada a Yuri, correto? – O que eu tenho que fazer?

— Apenas fique aqui! – Yuri respondeu alegremente, indicando um lugar. Logo depois, brandiu no ar um dos tacos, e os colocou nas inexperientes mãos de Wolfram, fechando bem os dedos dele na base. – Eu vou jogar a bola para você, e você tem que rebater, entendeu? É só acertar a bola com isso daqui, não tem mistério.

— Entendido. – Wolfram encarou sua frente com furor, aceitando por completo o desafio. Ergueu o taco na altura do ombro, imitando aquilo que havia visto anteriormente durante o treino. Se ia mesmo fazer algo, era melhor que desse tudo de si nisso. Seu olhar era tão compenetrado e sério que Yuri teve vontade de rir.

— Então, aqui vou eu… — Yuri avisou, colocando-se alguns passos para trás. Segurou a bola com a mão livre e a cobriu com a mão que estava de luva, e então, preparou-se para atirá-la, erguendo um dos pés do ar, para então arremessar a bola com o mínimo de força e efeito que era capaz, em uma perfeita linha reta. Ele seria capaz de rebatê-la com facilidade, sendo tão lenta e reta.

Wolfram cerrou os dentes, se preparando. A bola vinha em sua direção, e ele brandiu o taco no ar, como se esse fosse uma espada. Fechou os olhos, sem ver mais nada, girou uma e duas vezes no mesmo lugar, e acabou por cair no chão. Era como uma cena de filme, cômica e muda, rápida demais para se acompanhar. Tudo o que o bastão acertou foi o ar, pois a bola picava tranquilamente logo atrás dele.

— Ah, que droga… — Wolfram resmungou, irritado. O fato era que odiava perder, seja lá no que fosse. Odiava ainda mais fazer papel de bobo. E estava realizando as duas coisas ao mesmo tempo, e parecia que de alguma forma, fazer isso na frente de Yuri deixava tudo ainda pior.

— Está bem? – Yuri indagou, dando o máximo de si para não rir. Estendeu uma mão à Wolfram, que ele aceitou com relutância, erguendo-se e espanando a poeira.

— De novo. – Ele disse apenas, encarando o bastão com irritação. Agora era pessoal.

— Está bem, mas antes, vamos arrumar a sua posição. – Yuri começou a falar, com a calma de quem entende do assunto. Aproximou-se de Wolfram, fechando bem as mãos dele ao redor do bastão. Tocou brevemente nos seus cotovelos, ajustando a altura, e então circundou seu corpo, pressionando suas costas para corrigir a posição da coluna.

— O q-que pensa que está… — Wolfram balbuciou, visivelmente perturbado com aquela aproximação inesperada.

— Só corrigindo sua posição, eu já disse. Agora afaste um pouco mais as pernas… Isso, pronto. Tente agora… — Ele indicou, afastando-se um passo para avaliar o desempenho do novato, e o viu brandir sua nova arma no ar, pensando estar fazendo da maneira correta. – Não, não está certo. – Yuri balançou a cabeça, sorrindo afavelmente. Wolfram não pôde deixar de se surpreender com o semblante maduro que o quase sempre avoado Yuri apresentava agora. Realmente, baseball deveria ser a única coisa que ele levava a sério na vida.

— O que eu fiz agora?

— Está colocando muita força nos ombros. – Ele disse, e se aproximou novamente. Colocou-se por trás do loiro, apoiando as mãos em seus ombros. Wolfram reprimiu um arfar de surpresa, sentindo o toque leve e discreto de Yuri. – Faça mais suavemente, não precisa se afobar… Com calma… — Ele diminuiu o tom de voz para um raro ronronar, que fazia cócegas nos ouvidos de Wolfram. Baixou as mãos, deslizando-as por toda extensão dos braços do garoto, até que estivesse juntos segurando o taco de baseball.

— Q-q-que raios v-v-você está fazendo, f-fracote...? – Wolfram bradou com dificuldade, preso entre os braços de Yuri. Tentou se remexer, mas a proximidade dos seus corpos naquele abraço o impediu de ir adiante. Sentia seu rosto queimar com intensidade, enquanto o riso de Yuri repercutia através do seu corpo.

— Só ensinando. – Yuri respondeu calmamente, apoiando a cabeça no ombro de Wolfram. Não parecia nem um pouco abalado com a situação, o que só deixava o outro ainda mais alterado. Se Wolfram não tivesse a cabeça no lugar, poderia supôr que Yuri estava… tentando seduzi-lo. Mas é claro que aquele garoto era muito burro, até para isso. – Agora, segure assim… — Ele dizia, alheio às hipóteses levantadas pelo amigo, enquanto ajustava a altura dos cotovelos de Wolfram, relaxando o aperto dele ao redor do bastão. – Isso, assim…

— P-pare de sussurrar no m-meu ouvido, maldito… — Wolfram rosnou, e Yuri novamente riu. Ele era mesmo muito sensível. Seu coração acelerou ao máximo, mesmo que ele não tivesse feito nenhum exercício de fato até agora. Batia alto e rápido, e Wolfram temeu que talvez Yuri pudesse ouvi-lo, estando tão perto. Quase em uníssono com o dele, outra batida distante, mas muito alta e veloz, se juntava a sua. Era o coração de Yuri, também acelerado?

— Agora, se movimente dessa maneira… – Yuri continuou a ensinar, demonstrando como era a maneira certa de mover.

— Está bem… — Wolfram não prestava atenção a uma única palavra do que ele dizia, muito menos na forma como deveria rebater. Sua mente havia derretido, como um picolé ao sol em um dia de verão, e não havia previsões de voltar ao normal.

Transtornado, sentindo seu corpo inteiro reagir e tremer, ele deu um passo em falso, movendo-se bem mais do que o necessário, e encostando ainda mais em Yuri, se é que isso era possível. Seu corpo remexeu-se de forma pouco natural, tentando retornar à posição anterior, e Yuri, que ainda tagarelava qualquer coisa sobre alongamentos, parou subitamente de falar, com os olhos crescendo e o rosto afogueando-se.

Imediatamente soltou Wolfram, como se este desse choques, e correu na direção oposta, até o ginásio que se erguia ao lado da quadra aberta.

— Continue praticando…! – Gritou, enquanto corria a toda velocidade, até se esconder atrás do prédio, que felizmente estava vazio àquela hora, deixando para trás um Wolfram atônito e definitivamente aborrecido.

Cobriu o rosto corado com a mão livre, deixando todo o seu espanto escapar. Ele não havia… Não era possível que… Sem chances que Yuri tinha realmente… tido esse tipo de reação com Wolfram!

NÃO! NÃO, NÃO, NÃO, DE FORMA ALGUMA, NUNCA, JAMAIS, EM HIPÓTESE NENHUMA!

Isso… Esse… Esse tipo de coisa… Só havia acontecido algumas vezes, enquanto ele folheava as suas revistas secretas, no meio da noite… E mesmo assim, não com tanta intensidade. Não havia possibilidade de ele verdadeiramente ter tido uma… Com outro garoto… E ainda mais se tratando de Wolfram! Imperdoável!

— N-não… Isso não foi nada... Nunca aconteceu… — Ele disse para si mesmo, sem pensar no quanto parecia idiota falando sozinho com aquele semblante atordoado e o rosto enrubescido. Na verdade, ele agora lembrava alguma garotinha apaixonada que havia visto o objeto de sua paixão em alguma situação favorável. Era tão ridículo que chegava a ser trágico.

Claro, isso deveria ser apenas uma resposta fisiológica, algo instintivo. Talvez fosse resultado de muito esforço físico durante o treino, quem sabe? Não, ele não podia aceitar que algo assim tenha realmente acontecido. Decidido que deveria apagar para sempre esse assunto da sua mente, Yuri correu para o vestiário, necessitando mais do que nunca de um banho, de preferência gelado.

Alguns minutos depois, ele retornou ao campo, onde Wolfram impacientemente o esperava, sentando em um dos bancos destinados aos jogadores reservas do time. Ainda usava o boné que Yuri havia colocado sobre sua cabeça.

— Onde você estava fracote, achei que não ia voltar nunca! – Wolfram gritou, esquecendo-se completamente da sua política de bom amigo, e retornando inteiramente ao seu normal. Yuri evitou encará-lo diretamente, com o rosto adquirindo novamente cor.

— Eu fui tomar banho antes que fechassem os vestiários e eu ficasse seu meu uniforme... – Mentiu, encarando a grama sob seus pés como se essa fosse absolutamente interessante.

— Então a minha aula acabou, certo? – Wolfram deixou o bastão de lado, soltando o ar, aliviado. Havia decidido por si só que baseball não era seu esporte, embora fosse de certa forma algo divertido. Estava satisfeito apenas em olhar, de qualquer forma.

— Hmm.. Vamos para casa, então, eu acho… — Yuri se atrapalhou, tropeçando nos próprios pés enquanto virava-se na direção da saída. Wolfram arqueou uma sobrancelha, intrigado, mas não disse nada.

Os dois começaram a caminhar em um ritmo mediano, na direção da saída. Wolfram, com sua pasta nas mãos, apenas olhava para frente. Yuri se contorcia constrangido, evitando de qualquer forma qualquer contato direto ou indireto com o loiro, olhando para os lados sem enxergar realmente nada.

— Certo… Wolfram… É… — Yuri não gostava do silêncio, e como estava andando ao lado de Wolfram agora, achou que seria melhor iniciar algum assunto, apenas para não pensar em outras coisas perturbadoras. Assim que chegaram à rua, ele tomou coragem para dizer alguma coisa, e Wolfram apenas o fitou com atenção. – V-você… Sabe, eu posso estar ficando louco, mas notei uma coisa recentemente… Acho que deveria confirmar com você. – Ele disse, lembrando-se de algo em que havia pensado alguns dias antes.

— Do que está falando? – Wolfram replicou rispidamente, com milhares de possibilidades, uma pior do que a outra, passando pela sua cabeça. Repentinamente, pareceu lembrar-se da sua missão “ser agradável”, então mudou de expressão, forçando um sorriso nada natural, mas que ainda era belo. – Q-quero dizer… C-como eu posso ajudar?

— Exatamente isso! – Ele apontou acusadoramente para Wolfram, sobressaltando-o. – Você fica falando de um jeito todo educado, não parece você!! O que aconteceu? Sua mãe mandou você ser bonzinho… ou você quer ser um bom garoto e ganhar presentes de Natal…?

— Pare de falar besteiras!! – Wolfram estourou, interrompendo as divagações sem sentido do garoto. – E-eu não estou… É claro que eu não… Argh! Eu não sei do que você está falando!

— Ah, b-bem… É que eu pensei que talvez você pudesse… Sei lá, estar tentando ser mais legal… — Yuri ponderou, fitando Wolfram de soslaio enquanto andava, vendo-o reagir de forma delatora. – Sabe… Isso é bom, você querer mudar, mas… Se estiver se forçando a isso, acho que não é necessário. Na verdade, acho que é muito melhor o jeito que você é normalmente, sabe? Mesmo sendo esquentado, egoísta e meio mandão… Eu acho que gosto muito mais do Wolfram de sempre… — Ele admitiu, baixando o olhar, e o loiro corou até a raiz dos cabelos, indignado demais para falar qualquer coisa. De repente, Yuri pareceu perceber as palavras que proferira, e se assustou. – Q-q-q-quero dizer… E-eu não quis… — Ele gesticulava febrilmente, com o rosto aflito, se apressando em dizer tudo ao mesmo tempo. – N-não é como… C-claro que eu q-quis dizer “gosto”… Mas não como em “gosto”, mas no sentido de “gosto”… C-c-como um amigo ou q-qualquer coisa… E-e-e-eu não… N-não é como se eu sentisse coisas estranhas, por f-favor não pense…

— Do que está falando, fracote? – Wolfram replicou, com seu usual semblante superior. – Eu não entendo o que está tagarelando tão rápido, meu japonês não é assim tão fluente!

— Esquece o que eu disse, então. – Yuri suspirou, exausto. – Apenas… continue sendo Wolfram… — Ele sorriu fracamente, fazendo o loiro novamente arquejar.

— Pare de dizer coisas constrangedoras de propósito! – Ele gritou, empurrando Yuri com força. Por um instante, achou que ele ficaria bravo por ter feito isso tão repentinamente, mas Yuri apenas riu alto, voltando e fazendo o mesmo com ele.

Uma risada escapou, e algo se aqueceu dentro do peito de Wolfram. Algo novo e ao mesmo tempo familiar. Como aquele sentimento há muito esquecido, que ele aprendeu com um garotinho desdentado em um parque de Shin Makoku. Algo vermelho como folhas de outono ao pôr-do-sol.

Era isso o sentimento de amizade? Essa coisa vermelha e cálida que parecia querer inflar o coração de Wolfram até que explodisse? Isso era tão complicado… Talvez ele estivesse ficando doente. Wolfram não entendia… Mas aquilo o fazia tão feliz… que talvez não importasse.

Notas finais
[Revisado]