Sono Te Hanasanaide
4 Capítulo IV
Notas iniciais
Jibun ga muryoku datte
Mesmo se eu não tiver poder
Utsumuki sou ni natte mo
E mesmo que isso me faça pior
Dareka no tame dekiru koto ga mitsukaru hazu as…
Por alguém, deve haver algo que eu possa fazer…
Sono egao boku ni misete
Me mostre seu sorriso
Capítulo 4
— Ei! O que você está fazendo?
— Anh? – Yuri olhou para o garoto loiro, que se erguia ao lado dele, irritado e com as mãos na cintura. – Você não brinca na areia?
— Eu não! Por que eu faria isso? – O loiro olhou para Yuri com se este estivesse pirado. Que sentido havia em colocar as mãos naquele lugar onde os gatos faziam suas necessidades?
— Porque é divertido! Olha só! – E, dizendo isso, jogou um bolo de areia na direção do pequeno loiro, que desviou, mas acabou caindo de joelhos na caixa de areia. Ele fitou, chocado, as mãos e os joelhos sujos, e Yuri se precipitou para desculpar-se, mas antes que pudesse fazer isso, o loirinho explodiu em uma gargalhada divertida, surpreendendo o moreno.
— Isso é tão... é tão... inesperado! – Ele disse, surpreso, e Yuri riu ao ver o sorriso tão raro iluminando o rosto do seu amigo. Descobriu que amava aquele sorriso, e que queria ser capaz de vê-lo muitas vezes mais. – O que você está fazendo na areia? — Indagou segundos depois, curioso.
— Eu estou fazendo um castelo de areia... Você não está vendo?
— Castelo? Esse amontoado de sujeira e areia? Não há nada que lembre nem remotamente um castelo!
— Você não sabe se divertir, não é? – Yuri comentou, como se sentisse muito, levantando-se e limpando as mãos na bermuda surrada.
— C-claro que sei! – O loirinho corou, ofendido. Yuri sorriu, solidário. – O que eu dizia era que esse seu monte de terra não se parece em nada com um castelo de verdade!
— Você conhece castelos de verdade? – Yuri espantou-se, vendo o loiro se levantar e espanar as mãos, fazendo cair a areia.
— Hunf! – O loiro bufou, convencido. – É claro que sim! Está vendo aquela torre lá longe? – Ele apontou para longe no parque, muito depois de onde começava a cidade. Parcialmente encoberto pela vegetação alaranjada do outono, cortando o céu, surgia a silhueta de torres escuras e indistintas. – É lá onde eu moro.
Yuri olhou para o lugar, assombrado. Era como um cenário de videogames medievais.
— Woow! É tão grande! E longe! – Yuri abriu os braços, tentando ilustrar o que via com o gesto. – Mas... parece solitário... – Ele disse, murchando lentamente ao dizer o que realmente pensava.
O loiro nada disse em resposta. Yuri tinha toda a razão.
~
Logo depois de deixar Miyako, sua prima, na sala do primeiro ano dela, Yuri dirigiu-se até o pavilhão antigo da escola, onde teria aulas hoje. Subiu as escadas que rangiam como se sentissem dor, e ouviu o estalar da madeira centenária daquelas paredes ecoando em seus ouvidos. Apressadamente, adentrou na sala de aula fria e afastada que era o laboratório de ciências, com o cheiro de produtos químicos, poeira e mofo ferindo seu nariz, e procurou com os olhos o seu lugar. Logo encontrou seu parceiro de laboratório, que olhava para o lado, emburrado e parecendo estar completamente entediado, com a vontade de estar em qualquer outro lugar que não aquele estampada nos olhos verdes. Respirando fundo para reunir alguma determinação, Yuri caminhou a passos decididos até a mesa, tomando o lugar ao lado do loiro.
— Bom dia, Wolfram! Você sempre chega cedo não é? – Yuri desse amigavelmente, tentando ser o mais agradável possível.
— Desde quando eu dei liberdade para você me tratar com tamanha intimidade? – Wolfram respondeu apenas, sem nem mesmo olhar na direção de Yuri, que sorriu amarelo diante de mais uma tentativa falha. Ele já havia perdido a conta de quantas vezes tentara aproximar-se de Wolfram, sem nenhum avanço, mas um Shibuya não desistia no primeiro obstáculo, e ele estava disposto a continuar tentando até conseguir derrubar a pose taciturna do colega, mesmo que já tivesse esgotado o seu repertório de frases para iniciar uma conversa.
Sem nada mais a dizer, Yuri fez como todos e vestiu-se com o jaleco de laboratório e os óculos de proteção, e assim, aguardou. Logo a professora Anissina entrou na sala, com muitas caixas repletas de coisas bizarras, que com certeza deveriam ser parte de alguma das suas invenções. Ela deixou as caixas em um canto, e dirigiu-se à turma.
— Bom dia a todos! Hoje, nós iniciaremos a parte prática do nosso projeto. Como estudamos a teoria ontem, acho que vocês já estão prontos para iniciarem a experiência. Com suas duplas, analisem a cada dia os seus experimentos, e façam um diário de pesquisa detalhado.
Yuri assentiu, e começou a olhar para os vários produtos que tinha a sua frente, completamente perdido. Por onde começar?
Antes que o moreno tivesse a oportunidade de ao menos raciocinar sobre o que estivesse fazendo, Wolfram ligou a chama do aparelho da sua classe, pegou alguns dos frascos mais próximos e iniciou os trabalhos, colocando uma quantidade ínfima de cada um no becker, medindo-os cuidadosamente. O líquido, inicialmente incolor, foi lentamente adquirindo um brilhante tom de azul, puro e claro. Yuri olhou admirado para o recipiente de vidro, e vacilando o olhar para o semblante concentrado de Wolfram, completamente absorto em seu trabalho. Wolfram estava sempre parecendo tão entediado e indiferente que Yuri se surpreendeu observando-o. Então ele também podia fazer aquele tipo de expressão!
— Que cara idiota é essa? – Wolfram bradou repentinamente, acordando Yuri do sua análise. – Apresse-se e faça algo de útil! Anote no caderno o que eu estou fazendo!
Yuri não gostou nem um pouco daquele tom autoritário de se dirigir a ele, mas mesmo assim abriu o caderno e pegou uma caneta, sem ideia do que raios o loiro estava fazendo.
— Então, o que os dois garotos estão fazendo? – Anissina se aproximou da mesa deles, avaliando-os.
— Anh... Nós estamos... basicamente...– Yuri enrolou-se, e olhou para Wolfram, como se pedisse ajuda. O outro apenas suspirou, explicando em uma linguagem completamente técnica, que mais parecia outra língua para Yuri, apesar de tratar-se unicamente de japonês. Ele escreveu imediatamente o que o loiro dizia no caderno, apesar de não entender o significado de nenhuma daquelas palavras compridas.
— Vocês são cuidadosos demais! – Anissina riu, com confiança, e tirou as ampolas das mãos de Wolfram. Completamente segura do que ia fazer, ela aumentou a intensidade da chama virou todo o conteúdo dos vidros no becker. A princípio, nada ocorreu. Porém, poucos segundos depois, o líquido mudou de azul para roxo-escuro, e começou a borbulhar e crescer dentro do frasco, soltando uma espessa fumaça.
Ninguém teve tempo de se impressionar. Milésimos de segundos depois, um estrondo se fez ouvir, e o frasco de vidro explodiu, em pequenos pedacinhos, manchando toda a mesa e o que estivesse por perto de roxo. Wolfram soltou uma sonora interjeição em outra língua, que podia muito bem ser um palavrão. Yuri tirou os óculos, cobertos pela pasta roxa, para enxergar o que se passava.
Anissina sorriu para os garotos, tirando parte da mancha pegajosa do rosto.
— Parece que vocês dois estão sem material para prosseguir. – Ela sorriu, sem parecer nem mesmo minimamente arrependida ou culpada. – Estão dispensados por hoje. O resto de vocês pare de olhar com essas caras assustadas para cá, e voltem ao trabalho.
Sem titubear, Wolfram tirou o jaleco completamente arruinado, pegou sua mochila e saiu porta afora, rápido como um furacão em atividade. Yuri fez o mesmo, correndo para alcançá-lo.
— Ei, Wolfram! Você não quer ver o que eu anotei? Nós precisamos conversar sobre esse trabalho, eu não entendi nada! – Yuri o perseguiu pelos corredores completamente vazios do prédio antigo.
— Pare de me seguir, fracote! – Wolfram berrou em resposta, aumentando a velocidade.
— Espere, por favor! – Yuri estava quase o alcançando, com o braço esticado em sua direção. Wolfram correu ainda mais rápido, mas Yuri tinha condicionamento físico para acompanhá-lo, e não tardou para conseguir segurá-lo pelo cotovelo. Wolfram, porém, virou-se com força desnecessária, e como estivesse correndo em alta velocidade, seus pés se perderam, levando-o em direção ao chão, e arrastando Yuri consigo.
Wolfram sentiu suas costas baterem no piso frio, e o peso acima do corpo. Com dificuldade, abriu os olhos. Próximo ao seu rosto, estava Yuri, com expressão de confusão estampada no rosto. Os dois estavam caídos, Yuri por cima, pressionando Wolfram com seu corpo e o impedindo de levantar-se.
Yuri o encarou por muitos segundos, completamente surpreso. Wolfram, que sempre mantinha aquela pose altiva, parecia completamente indefeso e adorável nesse momento, com seu rosto escarlate até as orelhas, e o olhar vacilando para o lado. Sem perceber, Yuri também corou, o admirando. Era a primeira vez que chegava tão perto do colega. Será que era possível um garoto cheirar assim tão bem? O perfume de Wolfram, que não lembrava nada do que Yuri já pudesse ter sentido, era absolutamente inebriante, e fazia o nariz do moreno formigar de uma maneira inexplicavelmente agradável.
— I-idiota, o que você está fazendo ainda em cima de mim?! – Wolfram gritou, empurrando o peito de Yuri com as mãos. Ele percebeu que ainda mantinha Wolfram preso, então se levantou, estendendo a mão, que o loiro rejeitou, erguendo-se sozinho. Ainda parecia inteiramente perturbado, e não ousava olhar na direção de Yuri. Seu rosto permanecia vermelho, o que só reforçava em Yuri a imagem de que ele era muito mais frágil do que sua aparência representava. Havia muito ainda oculto na personalidade difícil de Wolfram, e Yuri se surpreendeu desejando poder descobrir todas essas diferentes faces.
— Me desculpe. – Yuri pediu, ao ver Wolfram preparando-se para sair em disparada. O loiro parou, ainda de costas.
— Por que você é tão insistente? – Ele disse com a voz pálida. – Por que simplesmente não me deixa em paz?
Yuri abriu a boca para dizer algo, mas antes disso, Wolfram sumiu pelo corredor, sem esperar pela resposta. O moreno suspirou, derrotado. O que mais ele poderia fazer?
~
Depois da aula, Yuri andava lentamente, arrastando sua bicicleta, sem nenhum ânimo pela calçada. Miyako havia se separado dele, e foi para o distrito comercial fazer compras. Ele sabia bem que tipo de compras ela faria, então dispensou o passeio, e sendo assim, seguia sozinho para casa.
O ocorrido com Wolfram ainda estava perturbando-o. Não importasse o quanto o loiro fosse desagradável ou seco, Yuri simplesmente não conseguia ignorá-lo. Havia certa tristeza camuflada nos olhos verdes que chamava a sua atenção. Ele queria ser capaz de ajudar — era essa a sua natureza, ele não conseguia ir contra isso. E, mesmo depois de ter sido claramente recusado, no caminho de volta para casa, ele imaginava maneiras de se aproximar do príncipe mal-humorado.
Enquanto passava em frente à estação, algo o desprendeu do seu foco. Cabelos loiros de um tom absolutamente familiar atraíram seus olhos e, antes de qualquer outro pensamento, Yuri já havia se deslocado de seu caminho e seguia naquela direção. Estacionou a bicicleta no lugar certo, e adentrou a estação de trens, olhando para todos os lados. Havia realmente muita gente naquele lugar, mas a cabeça dourada se destacava na multidão escura. Yuri o seguiu, sem titubear, trombando por vezes nas pessoas, ou nas malas que estavam pousadas no chão. Depois de muitos pedidos de desculpas, tropeções e de passar no meio de um casal que se despedia aos beijos, o garoto finalmente encontrou seu objetivo.
Sentado no banco de madeira, com uma enorme mala ao seu lado, Wolfram olhava fixamente para o chão. Novamente, Yuri notou a sombra escura que se projetava naqueles belos olhos de esmeralda. Aquela figura pareceu tão solitária, que Yuri nada conseguiu dizer. Minutos depois, Wolfram ergueu os olhos e percebeu quem o observava. Seu rosto tornou-se pálido, completamente surpreso, para então contorcer-se em um semblante irritado.
— O que está fazendo aqui, Fracote?!
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