Os dias nos Campos Elísios eram perfeitos, plácidos e feéricos. Poucas coisas incomodavam de fato aquele paraíso. Mas algo dizia que aquela tranquilidade duraria pouco quando Hades decidiu sair do seu templo para ir a Giudecca, seu palácio no Submundo. Eram raras as situações que Hades trocava sua morada nos Elísios para o Submundo.

Por isso, irmãs andavam de braços entrelaçados pelos jardins do templo do imperador. Perséfone alegava calma, dizia confiar na decisão do marido em sair do Elísios, mas sua cosmo-energia mostrava outra coisa. Ela não a ocultava, mostrava a todos, deuses e espectros, que estava furiosa.

— Eu peço sinceridade e o que ganhou de volta? Nada! absolutamente nada. — Reclamava ela.

— Talvez seja pelo seu bem que Hades não disse nada. — A Graça tentava contornar.

— Omitir fatos e ficar calado não é pelo bem de ninguém. — Retrucou. Olhou-a de viés. — Hypnos te contou alguma coisa?

A graça negaceou. Desde o pronunciamento do imperador, Hypnos não dissera nada mas sabia que ele iria com o deus.

— Será que não é por causa de Ker? — indagou. — Ela disse que veio de um lugar inimaginável.

Perséfone riu com a inocência da graça.

— Ker esteve meses no Tártaro numa missão secreta, só isso. Se alguma coisa tivesse acontecido lá, todos nós teríamos sentido. — Ela franziu o cenho. — Se bem que quando ela pediu uma audiência com Hades, ele não me deixou participar. Hypnos não te contou nada sobre isso também, não é?

— Não... Mas — ela mordeu os lábios. — E se ela estiver escondendo?

— Ker não seria capaz disso. — deu um sorriso de canto. — Talvez eu devesse chamá-la e obrigá-la a me contar tudo que sabe. E Nix será que ela sabe de alguma coisa?

— Nix? — indagou surpresa. — Não...

A estrela em sua testa ardeu, fazendo-a parar de andar e dobrando o corpo.

Meu presente a você hoje.

Era a voz de Nix. Ouvia nitidamente. Piscou algumas vezes e pôde vê-la com seu vestido preto estrelado, mas o cenário em sua volta era um breu. Assistiu a deusa da noite lançar algo embrulhado no chão, engolido pela total escuridão.

A voz que respondeu fez Pasítea estremecer dos pés à cabeça.

Que porcaria, Nix! Você já foi mais generosa com os sacrifícios.

Era uma voz cruel, fria e medonha.

A deusa da noite não disse nada, olhou para trás e franziu o cenho, incomodada. Como da primeira vez, sentia que Nix era capaz de vê-la. Assustada, fechou os olhos com força.

— Pasítea! — chamou Perséfone assustada, olhando para deusa com o semblante paralisado em medo. — Pasítea!

Ela soltou o ar pela boca, olhou para a meia-irmã e desmaiou.

Em seu sonho ela viu um peixe dançar na água cristalina de um rio. Ele rodava, enxotava os outros peixes, descia para o fundo do rio e voltava. Era lindo, branco com algumas escamas douradas que brilhavam à luz do sol. Ela entrou na água encantada pelo animal e estendeu as mãos para ele. Desejava pegá-lo.

Ele a olhou, deu uma volta no rio e nadou em direção a ela, mas passou direto por suas pernas, ignorando suas mãos estendidas.

Ela olhou para trás, mas o peixe já não estava ali. Havia sumido.

Não. Ela sabia para onde ele tinha ido. Levou sua mão à barriga.

Acordou sozinha em seu quarto e com a mão pousada na barriga. Não sabia como reagir naquele momento, nem o que pensar, mas carregava uma pequena vida. Conseguia senti-la.

A porta do quarto abriu e Hypnos entrou. Ela sorriu para ele, apoiando-se nos cotovelos para se sentar na cama. Ele estava sério quando se sentou na beirada da cama.

— Como está se sentindo? — perguntou ele. — Lady Perséfone me contou o que aconteceu. O que viu desta vez?

— Eu já estou bem. — respondeu. Estava feliz, jubilosa, que a “visão” que teve e a voz cruel deixará de assombrá-la. — Tenho algo muito importante para lhe falar.

Ele tomou a mão dela.

— Eu também... mas conte o que viu primeiro. — ele se inclinou e beijou sua fronte. — Me desculpe, prometi que descobriríamos a causa disso e não pude fazer muita coisa.

— Não se desculpe, você não fez nada de errado. — Ela sorriu solidária. — Ainda vamos descobrir.

— Agora me conte. — Ela deu um grande sorriso. — O que viu.

Seu sorriso sumiu e deu um suspiro.

— Vi Nix... — respondeu, hesitante. — ela estava com alguém. Como daquela vez, senti que ela pôde me ver.

— Com quem ela estava? — indagou, franzindo o cenho.

Ela negaceou.

— Eu não o vi. Era totalmente breu, mas uma voz estranha respondeu a ela. — ela engoliu em seco, sentindo o medo daquele momento de volta. — Sabe o que ela poderia estar fazendo lá?

— Talvez... — respondeu, olhando para o cenário do lado de fora da janela. — Contarei pra Hades o que você viu.

Ela aquiesceu. Encostada na cama ela abraçou os braços.

— E o que você ia contar? — perguntou ela.

Ele abaixou a cabeça.

— O imperador decidiu ir para Giudecca, Thanatos e eu vamos acompanhá-lo. — contou ele.

— Eu já imaginava —disse ela. — Mas o que vão fazer lá? Quanto tempo ficarão?

— No tempo certo ficará sabendo. — respondeu. — Por enquanto, não quero preocupá-la. E o tempo, bem, não sei. Os espectros são inúteis e é bem capaz de termos que fazer o trabalho deles.

Ela virou o rosto. Ele demoraria para voltar, sabia disso. Seus olhos começaram a lagrimejar.

— E o que você ia contar? — Foi a vez de ele perguntar.

Ela o olhou para e deu um leve sorriso afagando a barriga que ainda não mostrava sinal da gestação.

— Estou grávida. — Anunciou.

— O que?

— Não sei como... mas tive um sonho! — disse, empolgada. — Eu vi um peixe e quando ele sumiu soube exatamente para onde ele foi.

Ainda surpreso, Hypnos colocou, delicadamente, a mão sobre sua barriga. Era capaz de sentir a centelha de vida dentro dela.

— Está feliz? — pergunta ela, incomoda com seu silêncio

— É claro! É nosso filho — respondeu. — Mas temo por você. — então riu com o pensamento súbito. —Pelos dois agora. Assim que eu partir para o Inferno você ficará sozinha.

— Não estarei sozinha, tenho as ninfas e posso ficar com Perséfone. — respondeu.

— Ainda assim...

— Estamos nos Elísios — disse, segurando a mão dele. — Nenhum mal acontece aqui. Eu e o bebê ficaremos bem. — apertou a mão dele com força, sentiu uma onda de medo e quis chorar. — Só volte para vê-lo nascer.

-

As ninfas estavam aos pés de Thanatos, oferecendo-lhe comes e bebes. O deus da morte as ignorava enquanto ficava ao lado do irmão, mas não deixava de apreciar a companhia delas.

— Então vai ser papai... — o deus abriu a boca para receber uma uva. — Parabéns. — Ele o olhou de viés. — Não parece feliz.

— Estou feliz — retrucou. — Poderia mandá-las se retirar?

Thanatos olhou para cada uma das ninfas e depois para o irmão.

— Não. — respondeu. — Pode falar, elas não contarão para ninguém.

O deus do sono deu um suspiro e revirou os olhos.

— Pasítea me contou que viu Nix conversando com alguém.

— Quem? — indagou ele, inclinando-se sobre seu assento.

— Ela não o viu. Disse que era totalmente escuro. Tem ideia de que lugar pode ser esse?

Thanatos deu de ombros.

— O Inferno. Todo aquele lugar é escuro.

Hypnos se arrependeu por querer conversar com o irmão. Havia dias que Thanatos era ótimo ouvinte e conselheiro, mas em outros só se preocupava com as ninfas e deusas em sua lista. O deus da morte se refestelou em seu assento enquanto sua taça era enchida e era massageado nos ombros.

— Acha que ela pode ter ido lá? — perguntou ele olhando o irmão gêmeo de canto.

— Tenho quase certeza. — respondeu Hypnos, sério. — Deveríamos ir com Ker dessa vez, so para ver com nossos próprios olhos se está tudo certo.

Thanatos soltou uma risada de escárnio e voltou-se a inclinar em direção ao irmão.

— É sério que quer abandonar sua esposa grávida? — arqueou as sobrancelhas. — O tempo que já vamos passar com o imperador será longo o suficiente, e agora quer estender? Você está louco!

Hypnos nada respondeu. Amava Pasítea e a vida que agora ela carregava, jamais os abandonaria, mas precisava garantir a segurança deles e de todo reino de Hades.