Perséfone acompanhou Pasitea até a saída do palácio. Era nítido que o aparecimento repentino de Hypnos mexera profundamente com a Graça — que não temia uma reprimenda dele, mas de tê-lo magoado. Atrás delas, as ninfas caminhavam a passos curtos, igualmente apreensivas com o silêncio da Graça.

Nas escadarias que levavam ao jardim do palácio de Hades, as irmãs se despediram.

— Hypnos compreenderá, Pasí — solidarizou Perséfone.

— Espero que sim…

O retorno ao palácio de sono pareceu rápido demais para Pasitea. Cada passo dado em direção a sua casa era acompanhado por um turbilhão de pensamentos, tentando encontrar as palavras certas para enfrentar o marido. Dizer a verdade parecia a única saída, mas era um caminho que magoaria a ambos. A simples possibilidade de Hypnos imaginar que ela não confiava nele, ou que duvidava de sua capacidade de proteger a família, doía tanto que seus olhos marejavam.

— Milady? — Chamou uma ninfas, preocupada com a repentina parada da Graça em frente aos portões do palácio. — Está bem?

A Graça aquiesceu e entrou. O palácio estava como deixara quando saiu mais cedo, mas ao subir para os aposentos, as ninfas que deveriam estar fazendo companhia a Oneiros estavam todas no corredor. Ao notarem a presença de Pasitea, a reverenciavam, mas mantiveram a cabeça baixa.

Pasitea fez um aceno sutil para que as ninfas que a acompanhavam se juntassem às outras no corredor. Sozinha diante da porta do quarto, a Graça respirou fundo, levou a mão trêmula até a maçaneta e a abriu.

A cena era bonita: Hypnos em pé próximo a janela com o filho no colo, que mexia em seus cabelos dourados. No entanto, a doçura daquele momento familiar não foi capaz de dissipar a tensão que habitava o aposento. Hypnos não se virou imediatamente. Ele continuou embalando o filho com delicadeza, mas o silêncio dele deixava claro sua irritação.

— Ele sentiu a sua falta — a voz de Hypnos soou fria, quebrando o silêncio sem desviar os olhos do filho. — E eu também procurei por você. No entanto, não imaginei que a encontraria barganhando o destino de nosso filho pelas minhas costas.

Aquilo doeu, mas prometeu a si mesma não chorar. Pelo menos, não agora.

— Eu não estava barganhando, Hypnos…

Ela caminhou lentamente em direção ao marido, mas parou a poucos passos de distância com o olhar inquisidor lançado por ele sobre ela. Embalado nos braços do pai, Oneiros esticou as mãozinhas na direção de Pasítea, balbuciando e pedindo o colo da mãe. Mas o pedido do menino foi negado; o Deus do Sono sutilmente mudou a criança de posição, mantendo-o afastado.

— Eu estava desesperada — continuou ela, engolindo em seco, as mãos firmemente presas ao tecido de sua túnica. — A mensagem de Zeus… Eu estava… Estou tão aterrorizada! Eu me senti inútil. E você estava naquela sala e eu não sabia o que estava sendo decidido e…

— E a sua solução para o desespero foi usar a autoridade de Hades contra mim? — rebateu Hypnos, a voz calma e desprovida de emoção. Ele caminhou até o berço, deitando a pequena divindade com extremo cuidado antes de se voltar para a esposa. — Você foi ao Imperador pedir uma permissão que sabia que eu jamais concederia. Ao fazer isso, Pasitea, você não apenas desrespeitou a mim, mas tirou das minhas mãos o direito de defender e lutar por você! Minha esposa!

— Eu fiz isso para poupar você, para poupar o Submundo! — rebateu ela , dando mais um passo à frente, os olhos brilhando com as lágrimas nos olhos. — Se eu subir ao Olimpo por minha própria conta, Zeus não poderá dizer que o Submundo o afrontou. Eu posso defendê-lo, Hypnos. Sou filha dele, sou uma Graça...

— Você era uma Graça, Pasitea! — interrompeu Hypnos. A frase cortou o ar de um jeito que ela não esperava. — Quando subir àquele monte, não será recebida como filha. Será recebida como a mulher que se casou com um filho de Nix, que vive no Submundo, cujo filho é um mistério para os deuses do Olimpo. — Hypnos caminhou até ela, parando a poucos centímetros. — Perséfone não a alertou sobre o que a espera na superfície?

Pasítea engoliu em seco e aquiesceu.

— Alertou. E vou assim mesmo.

Hypnos olhou para ela por um longo momento e depois olhou para o berço, onde Oneiros havia encontrado o próprio pé e o examinava com concentração total, completamente alheio ao mundo.

— O Imperador deu a permissão que você buscou, e a palavra de Hades é irrevogável. Você subirá ao Olimpo sozinha, já que assim desejou — concluiu ele. Fechou a distância entre eles envolvendo o rosto de Pasitea com as mãos. — Ainda assim, farei questão de estar por perto.

— Como…? — A dúvida era genuína

— Esqueceu-se de quem governa o descanso dos deuses? — murmurou ele. — Esqueceu-se do que Hera nos pediu no passado? Ela sabe perfeitamente a dívida que carrega comigo e com você.

Pasitea mordeu os lábios, temerosa com a menção a Hera. Ainda temia a possibilidade de Zeus descobrir como perdera a guerra de Tróia. Hypnos percebeu o leve tremor da esposa e acariciou sua bochecha com doçura.

— Ele não vai descobrir — garantiu Sono. — Ficará tudo bem.

Pasitea envolveu a mão de Hypnos com a sua. Seus lábios tremiam pelo choro que represava.

— Me desculpe, por favor! Eu fiquei apavorada.

— Não vou mentir que não fiquei irritado — admitiu Sono com um suspiro —, mas fico também feliz por vê-la disposta a lutar. Mas preferia que confiasse mais em mim e nas minhas decisões.

Desta vez, foi Pasítea quem envolveu o rosto de Hypnos com ambas as mãos, forçando-o a olhar no fundo de seus olhos.

— Eu confio em você! Eu o amo! Você me deu uma família, Hypnos. Eu não poderia deixá-lo lutar sozinho por ela.

O Deus do Sono fechou os olhos por um instante, aceitando o calor do toque dela. Quando os abriu, a trégua estava selada e a beijou.

***

A manhã seguinte veio bela e cálida como sempre, mas ao virar o rosto e não ver Hypnos na cama, Pasitea sentiu o peito doer. Acostumada a presença dele, a ter o corpo dele junto ao dela, sentia a dor da ausência muito antes da partida.

Levantou da cama e foi ao quarto de Oneiros. O filho ainda dormia. Ficou olhando para ele por um tempo que não soube medir. Para os cabelos cinzentos espalhados no travesseiro, para os punhos fechados perto do rosto, para a curva do nariz que era igual ao do pai e a cor da pele que era igual a dela.

— Vou voltar — disse ela, baixinho. — Você não vai nem perceber que fui.

Oneiros revirou-se no sono sem acordar, os lábios se movendo em algo inaudível. Pasítea sorriu, apesar de tudo.

Ouviu passos na porta e ao olhar, sorriu ao ver Hypnos ali.

— Está acordado há quanto tempo? — perguntou ela.

— O suficiente. — Nos braços, Hypnos carregava uma túnica de tecido escuro escura. — As ninfas já estão prontas.

Pasitea olhou para o filho uma última vez.

— Me deixa acordá-lo — pediu ela.

Hypnos assentiu. Ela se abaixou sobre o berço e beijou a testa de Oneiros com delicadeza. O menino abriu os olhos devagar e a olhou com a expressão sonolenta e satisfeita de quem acorda sem nenhuma preocupação no mundo.

— Mamãe vai fazer uma viagem — disse ela, acariciando o rosto dele. — Mas volta logo. Tá bom?

Oneiros esticou os bracinhos para ela. Ela o pegou no colo e o abraçou mais forte do que pretendia. Ele reclamou com um som de protesto, mexendo os pés, e ela afrouxou o abraço e riu baixinho contra os cabelos dele.

— Tá bom — disse ela, mais para si mesma do que para ele. — Tá bom.

Quando entregou o filho para Hypnos e pegou o tecido escuro das mãos dele, seus olhos se encontraram por cima da cabeça da criança. Mesmo com o filho nos braços, ele usou a mão livre para envolver a nuca de Pasítea, puxando-a suavemente para perto. O beijo que se seguiu foi lento, profundo, carregado de uma urgência silenciosa que nenhum dos dois ousava dizer. Quando se afastaram, Hypnos colou a testa na dela.

— Volte para mim — murmurou ele contra os lábios dela — Esta casa estará fria demais sem você aqui.

Pasítea sorriu entre as lágrimas que finalmente teimaram em descer, acariciando o braço dele.

— Eu sempre volto para você.

Ela se afastou com relutância, e sob o olhar atento do marido, vestiu a túnica de seda escura, cujos intrincados bordados em ouro pálido reluziam fracamente.

***

No barco de Carontes, Pasitea recordou do desejo que tinha quando recém casada de voltar ao Olimpo, de rever as irmãs e os pais. Naqueles dias jamais imaginara que se sentiria dividida ao sair dos domínios de Hades.

— Aqui a deixo, milady. — Pronunciou a Estrela Celeste de Lacuna, parando o barco. — Há quem a espera na saída.

Ergueu-se do barco com cuidado e agradeceu ao espectro, que saiu remando. A abertura que levaria a superfície brilhava esplendorosamente. Conseguia, de longe, notar a silhueta de duas pessoas na entrada.

Ela subiu a escadaria de mármore com passos medidos, as vestes do Submundo contrastando com o brilho forte do Sol do mundo mortal, do calor, dos sons dos insetos e do farfalhar das folhas.

Do lado de fora, com um adorno dourado na cabeça e o cabelo basto preso no penteado elaborado, Aglaia disparou para abraçar a irmã mais nova em um abraço apertado, completamente extasiada por tê-la de volta.

— Você é louca — murmurou Aglaia contra os cabelos de Pasítea. — Completamente louca de ter vindo.

— Eu sei.

— Zeus está…

— Eu sei.

Aglaia se afastou para olhá-la. Seus olhos percorreram o rosto da irmã com atenção minuciosa, notando as mudanças e se acostumando a elas. Com delicadeza tocou na estrela de cor púrpura na testa da irmã.

— Você está diferente — disse ela, por fim.

Pasítea esticou os braços mexendo as mangas diáfanas de seu vestido escuro. Totalmente diferente de suas veste de outrora, quando habitava o Olimpo.

— Eu sei. — repetiu.

— É bom revê-la, Pasitea!

A voz alta e autoritária fez com que a Graça notasse então a presença de Hefesto. De braços cruzados, o deus ferreiro assomava sobre as duas como um obelisco.

— Grande Hefesto — A Graça fez uma breve reverência ao deus olímpico. — Obrigada por me receberem.

Aglaia recuou um passo, pondo-se ao lado do marido. A Graça do adorno deu um sorriso pequeno, quase triste.

— Nosso pai queria que ninguém a recebesse. — Informou. — Ele pode estar com a fúria que for, mas não pode me obrigar a não cuidar de minha irmã mais nova. — Ergueu o olhar trocando um olhar cúmplice com o marido. — Ficará conosco no palácio.

O acolhimento da irmã foi bem-vindo por Pasitea, mas também acendeu o alerta do tamanho do isolamento que Zeus pretendia impor a ela.

— Você estará segura lá até o momento da audiência. — Disse Hefesto. —É bom estar ciente que Zeus pretende te fazer esperar

— Então vamos esperar — respondeu Pasitea com um suspiro. Olhou para trás imaginando o que Hypnos e Oneiros estariam fazendo naquele momento.

— Venha, Pasí — A Graça do adorno a chamou. — Tália está ansiosa por vê-la. Uma pena não poder ter trazido seu filho, estávamos ansiosos por vê-lo. Com quem ele parece?

— Um pouco dos dois. — Respondeu envolvendo o braço da irmã e caminhando juntas


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