Sono & Relaxamento
19 Capítulo 19
Notas iniciais
A mensagem de Zeus dada por Hermes assombrou Pasitea por dias. A deusa do relaxamento se tornara incapaz de usar seu cosmo, ou de criar ilusões no Yumekai que pudesse acalmá-la. Nem a atenção e carinho dado por Hypnos afastava sua mente da possibilidade de perder o filho, de passar a eternidade longe de Oneiros, sem vê-lo crescer, sem vê-lo sorrir.
Mamãe ficou assim? Pasitea pensou em Eurínome. Quando minhas irmãs e eu fomos enviadas para o Olimpo?
Afastando tais pensamentos, ela beijou os cabelos cinzentos do filho que dormia no berço e saiu do quarto. As ninfas que a aguardavam do lado de fora do aposento entraram para fazer companhia à pequena divindade na ausência da mãe.
Duas ninfas a acompanharam pelos corredores. Hypnos estava no palácio do imperador, em mais um de seus trabalhos como conselheiro. E Pasitea sentia que, independente do que fosse decidido, tinha que dar sua opinião. Era a vida de seu filho em jogo.
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Dentro do suntuoso e sombrio palácio de Hades, a grande porta de ébano que levava a sala do conselho estava fechada de tal forma que dava a impressão que jamais seria aberta.
— Milady, talvez seja melhor retornar. — Sugeriu a ninfa do lado esquerdo, de cabelos azuis e ondulados. — Essas reuniões podem levar o dia todo..
Era uma possibilidade real. Pasitea jamais havia acompanhado os conselhos do imperador, e Hypnos costumava retornar às vezes muito tarde, às vezes dias depois. Os assuntos para lá dos Campos Elíseos a assustavam, como a prisão de Erebor e o paradeiro de Nix.
Ela fixou os olhos na imensa porta de ébano. Se Nix realmente estivesse tramando nas sombras do abismo, e se Zeus estivesse pronto para rasgar os céus para arrancar Oneiros de seus braços, ela não podia se dar ao luxo de esperar no quarto, fingindo que o mundo não estava desmoronando.
A Graça respirou fundo, apertando os dedos contra o tecido fino de sua túnica.
— Não vou voltar — respondeu. Olhou para o extenso e vazio corredor. — Venham.
Dando as costas à imensa porta, Pasitea começou a caminhar a passos largos e decididos, sendo seguida de perto pelas duas ninfas, que trocaram olhares preocupados. Sua educação rigorosa dada por Hera e Eurínome a fizera respeitar profundamente as autoridades e, embora decidida a lutar pelo filho, não tinha coragem de abrir a porta e interromper o conselho. E também não queria que Hypnos soubesse de sua decisão.
Seus passos apressados a levaram para locais mais escuros e, ainda assim, belos, que exibiam a sutil influência de Perséfone na arquitetura daquele palácio. De repente, uma silhueta emergiu diretamente da parede. Uma das Lâmpades, as ninfas ctônicas que habitavam o palácio do Imperador, materializou-se diante delas. Vestia uma túnica escura que parecia flutuar como fumaça e segurava uma longa tocha de bronze, cuja chama purpúrea projetava sombras distorcidas nas paredes.
As duas ninfas de Pasítea recuaram um passo, intimidadas pela presença da criatura das profundezas. Pasítea, porém, manteve-se firme, embora tenha se assustado com a repentina aparição.
— Lady Pasítea — a voz da ninfa ctônica ecoou pelas paredes. — O que traz a personificação do descanso e a joia do Olimpo ao palácio do Imperador?
— Estou procurando a sala de audiência particular do Imperador. — respondeu Pasítea, controlando o tom de voz para soar imponente. — O conselho de Hades está trancado. Preciso que me leve a sala ao qual ele e Perséfone sairão. Preciso me encontrar sozinha com eles.
A Lámpade estreitou os olhos gélidos. A chama de sua tocha oscilou violentamente, lançando sombras longas e distorcidas que pareceram com as sombras que um dia vira no berço de Oneiros.
— Pede algo audacioso, Olimpiana — sibilou a Lámpade. — O conselho do Imperador não é um teatro para os dramas da superfície. Hades e Perséfone debatem o equilíbrio deste mundo.
Pasítea não recuou, embora a ausência de seu cosmo fizesse a aura da criatura pesar como chumbo sobre seus ombros. Ela manteve o queixo erguido.
— Eu não sou mais apenas uma jóia do Olimpo, Lámpade — retrucou Pasítea, a voz firme, embora suas mãos estivessem firmemente cerradas. — Sou a esposa do conselheiro do Imperador e mãe de uma divindade deste reino. O que se decide naquela sala trancada diz respeito ao sangue do meu sangue. Leve-me até ela.
A serva de Hécate estudou o rosto pálido de Pasítea por longos e agonizantes segundos. A ninfa virou o corpo de lado e estendeu a tocha para iluminar uma passagem estreita e quase invisível na parede, bem atrás de onde ela surgira.
— Há uma galeria que circunda os fundos do salão de julgamentos. É por onde a Rainha Perséfone costuma se recolher quando não deseja ser vista, mas ouvir tudo que é dito dentro daquela sala. Se for por ali, estará no caminho deles antes que os portões de ébano se abram para o resto do palácio.
A ninfa deu um passo atrás, misturando-se novamente à escuridão da reentrância e desaparecendo. Pasítea fez um sinal discreto para que as duas ninfas que a acompanhavam ficassem guardando a entrada daquela passagem oculta. Sozinha, a Graça respirou fundo e adentrou .
O caminho era claustrofóbico e mergulhado em uma penumbra quase total, iluminado apenas pelo reflexo distante de lavas subterrâneas ou pelo brilho bruxuleante de alguma tocha ctônica nas paredes. Na sala que se abriu a sua frente havia poucos móveis: cadeiras dispostas ao longo da parede de pedra e uma porta menor, uma imitação da porta de ébano. Pasitea sentou-se em uma das cadeiras e, ansiosa, batendo os pés, esperou.
Por fim, após um tempo que pareceu infindável para a Graça, onde não pôde ouvir nada além de seus pensamentos, a porta se abriu sem um rangido sequer. A primeira a passar por ela foi Perséfone, que não escondeu o choque ao dar de cara com a irmã.
Logo atrás dela, a silhueta imponente do Imperador Hades preencheu o vão da porta. Os olhos gélidos do senhor do Submundo fixaram-se na Graça.
— Pasítea? — Perséfone quebrou o silêncio, dando um passo à frente. — O que faz aqui?
Da cadeira, a Graça deslizou para o chão, ajoelhando-se diante dos soberanos em uma súplica silenciosa. Perséfone olhou para o marido de expressão impassível, preocupada com o que Pasitea tinha a dizer e ele, o que iria responder.
— Majestades... — começou ela, a voz oscilando por um breve segundo antes de se firmar. — Perdoem a minha ousadia em cruzar caminhos que não me pertencem. Mas eu não podia mais esperar no palácio do sono enquanto o destino do meu filho é selado.
Hades manteve os olhos gélidos fixos nela, a expressão esculpida em mármore, ilegível e severa. Perséfone, por sua vez, deu mais um passo à frente, o semblante suavizando-se por piedade.
— Sabe que este não é o lugar para buscar respostas, Pasítea — respondeu Perséfone. — Tudo que teve para falar sobre Zeus foi dito. Hypnos pode lhe contar tudo assim que retornar para sua casa. Como pode ver, o imperador encerrou suas atividades.
Pasitea não levantou. Permaneceu firme, com um dos joelhos no chão e os olhos fixos nos de Hades.
— Zeus quer ver meu filho, pois teme que ele seja algo… perigoso. E ele não é! — Sua voz saiu suplicante. — Permita que a filha dele suba ao Olimpo e defenda sua criança.
Perséfone abriu a boca para responder, sua expressão era assustada, mas o sons dos passos de Hades a silenciou. O Imperador caminhou devagar até ficar diante de Pasítea, olhando-a de cima com aquela expressão que não era crueldade, mas igualmente esmagadora.
— Está se oferecendo para retornar ao Olimpo?
Pasítea sustentou o olhar, recusando-se a desviar.
— Sim, Vossa Majestade — respondeu. — Estou me oferecendo.
— Sabe o que significa subir ao Olimpo agora?
— Sei que é perigoso — admitiu Pasítea. — Mas sei também que Zeus não virá até aqui pedir o que quer de forma gentil. Tal decisão é melhor que dispor de um seus soldados
Perséfone deu um suspiro. Era nítido sua preocupação para com a irmã.
— O Imperador não está preocupado em poupar seus soldados, Pasítea. O Submundo não teme a guerra contra a superfície — declarou a Perséfone. — O que nos cabe é o equilíbrio. Se permitirmos que Zeus estenda suas mãos para dentro de nossos domínios para ditar quem vive e quem morre, o pacto que sustenta as eras se desfaz.
— Eu sei, Majestade… Não vim para enfraquecer o reino, mas para…
— E Hypnos não vai permitir — interrompeu Perséfone, em voz baixa. — Você sabe disso.
— Por isso precisava falar com Vossas Majestades primeiro. — Pasítea ergueu levemente o queixo. — Se o Imperador me der permissão, Hypnos não poderá se opor sem desrespeitar a coroa.
O silêncio que se seguiu foi absoluto. Hades olhou para a esposa e, após um breve consentimento mútuo e silencioso entre os soberanos, ele voltou seus olhos para a Graça.
— Ponha-se de pé — ordenou. Ela obedeceu, devagar, sem desviar os olhos dos dele. — Dou-lhe permissão de subir ao Olimpo. Mas não como uma súplica de paz, e sim como a resposta do meu reino.
Pasítea sentiu o ar escapar de seus pulmões, e aquiesceu.
— Se o senhor dos céus exige explicações sobre seu neto, ele as terá de sua própria filha — continuou Hades. — No entanto, você irá sozinha. Seu filho permanecerá sob a minha proteção. Porém, você não comeu nada deste mundo. Enquanto não fizer, não pertence a este reino pelo que a lei divina reconhece. Se Zeus tentar retê-la no Olimpo para nos forçar a entregar o menino, saiba que não poderia fazer muito por você.
O silêncio que se seguiu pesou sobre Pasítea como pedra. Nix quisera que ela bebesse algo e Hypnos garantira, na época, que não beber não lhe daria problemas. Bem, o agora o problema estava diante dela.
Olhou para Hades, depois para Perséfone, que a encarava com uma expressão que dizia claramente que entendia o que era ser filha de Zeus sem pertencer mais ao Olimpo.
— Você está jogando o jogo de nosso pai, Pasítea, e os dados dele sempre são viciados — alertou Perséfone, dando um passo na direção da Graça. — E entenda uma coisa: aos olhos do Olimpo, você não é mais a Graça inocente que partiu. Para eles, você agora exala o cheiro dos mortos. Na superfície, será vista e tratada como uma divindade do Submundo. Mas a palavra do Imperador foi dada. Vá, e defenda Oneiros. — Perséfone sorriu.
Antes que Pasítea pudesse agradecer, a temperatura da sala, que já era gélida, despencou abruptamente.O ar tornou-se denso, pesado com o aroma sutil de papoulas e o calor reconfortante do Palácio do Sono. Da escuridão de um dos cantos da sala, a sombra de Hypnos surgiu alta e aristocrática. Sua sombra pairou sobre Pasitea, que estremeceu, sentindo a pressão de sua cosmo energia como uma advertência, pesada e repreensiva.
— Meu Imperador, Minha Imperatriz— a voz de Hypnos ecoou pelo recinto. — Temo ter chegado tarde para o desfecho de uma audiência que não foi anunciada.
Hades fitou a manifestação de seu conselheiro, mantendo a expressão imutável de quem governa a eternidade.
— Chegou a tempo de saber que sua esposa partirá para o Olimpo, Hypnos. Por decreto meu. — sentenciou o Imperador.
Diante das palavras do Imperador, a silhueta escura de Hypnos não se moveu, mas seus olhos dourados brilharam com uma intensidade fria e dolorosa antes de começarem a se desmanchar.
— Que a vontade do Imperador seja feita — a voz do Deus do Sono ecoou uma última vez, sumindo com sua manifestação.
Pasítea engoliu em seco, olhando para o espaço agora vazio onde o deus do sono estivera. O vislumbre daquela sombra era o aviso: o verdadeiro Hypnos a aguardava e a atmosfera lá estaria longe de qualquer calmaria.
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