Observava os três juízes do inferno ajoelhados diante de seu trono. Hypnos e Thanatos estavam ao seu lado, flanqueando-o. A deusa do infortúnio também estava presente. Diferente dos irmãos que não escondiam o quanto o lugar e os espectros eram insignificantes à eles, Ker exibia um sorriso de canto.

— Levante-se! — ordenou o imperador.

Assim fizeram.

— Qual é a situação? — inquiriu o imperador, sem rodeios.

Radamanthys deu um passo à frente e disse:

— Não há indícios de movimento, meu senhor, as correntes, os escudos e o selo estão intactos. — respondeu o Juiz. — É impossível que ele saia de lá.

— Idiotas... — resmungou Thanatos, olhando para seu gêmeo. Nada era impossível para os deuses, apenas difícil. — Quem enviou pra lá?

— Meu subordinado, Zeros de Sapo.

Hypnos deu uma risada de escárnio.

— Outro inútil! — escarniou. — Por acaso ele viu alguma coisa?

— Um breu total, deus Hypnos..., Mas as correntes estavam lá — respondeu fitando os olhos dourados do deus. — Talvez a prisão de um deus deveria ser visitada por outro, e não por espectros inúteis.

Hades fechou os olhos por alguns instantes e os abriu novamente.

— Está dispensado — fez um gesto displicente com a mão. — De qualquer forma, são informações que não batem. Enviei Ker a uma missão ao Tártaro — olhou-a de viés. — Ela relatou-me que foi difícil, como imaginado do lugar mais profundo do inferno. Mas ele estava inquieto, não é mesmo, Ker?

A deusa aquiesceu.

— Sim, meu imperador. Não estava sozinha, fui como um grupo de espectros. — Informou ela. — O breu é fato, o Tártaro é totalmente escuro, frio e sem esperança. Quando cheguei pude senti-lo ás vezes triste, outras furioso. E falava também, mas não conseguia entendê-lo. Ao meu ver, o Tártaro já não é mais uma prisão pra ele, mas um santuário...

— Aiacos, — chamou o imperador de repente. — O que tem a dizer?

O espectro de garuda deu um passo à frente.

— Que há um traidor entre vossos seguidores, minha majestade.

Hades arqueou as sobrancelhas, numa falsa surpresa.

— É mesmo? — indagou, dissimulado. — Quem?

— Os descendentes deles, talvez. — Respondeu Radamanthys, cortando Aiacos.

A reação foi instantânea para todos, exceto Hades que se manteve impassível em seu trono.

Minos e Aiacos viraram a cabeça para ele embasbacados, indagando qual o problema no juiz para afrontar diretamente os deuses gêmeos.

A reação de Thanatos foi estender sua mão pronto para dizimá-lo. Nenhuma tortura em nenhuma das prisões daquele lugar o faria pagar pela ofensa a ele e a seus irmãos. Hypnos não deixou transparecer sua emoção, mas seu cosmo ameaçador falou por si. Ker, por outro lado, desceu os degraus do tablado e foi até o juiz.

— Quem? — ela sibilou, a centímetros de seu rosto.

Antes que Radamanthys respondesse, Hades levantou do trono farfalhando sua túnica escura. Queria respostas e agora via seus subordinados em atrito.

— Estão todos dispensados. — disse. — Amanhã discutiremos melhor.

**

Sentado na escadaria de Giudecca, Hypnos observava o céu avermelhado de nuvens escuras do inferno. Pensava no que o espectro havia dito e, de fato, estava certo; havia um traidor. Muitas coisas estavam estranhas, coisas que por éons não haviam mudado. Como a prisão de Érebus.

Nix

— Está muito pensativo, irmão — comentou Ker enquanto descia as escadas. — Será que é por causa do bebê?

O deus sorriu ao pensar na vida que Pasítea carregava.

— Talvez. Espero poder voltar logo para vê-lo.

— Não se preocupe. Você o verá. Vejo-o com ele no colo.

— Ele — arqueou as sobrancelhas. — é um menino?

— Sabe que é só modo de dizer. Não vou estragar a surpresa.

Hypnos deu de ombros e perguntou sobre o que de fato estava pensando:

— O que você acha do aquele maldito espectro falou?

— Do traidor? — arqueou as sobrancelhas. — Disso tenho certeza, e tenho mais ainda de que não é nenhum de nós. Se não fosse por mim, aquele lá teria virado poeira e estaríamos enfrentando a fúria do imperador Hades.

— Você não consegue ver nada?

Ela negaceou.

— Dele, absolutamente nada. Na verdade, nem tento, sei que o que veria é tudo escuridão. Às vezes me pergunto se ele não se tornou o próprio breu.

— Não creio nisso. Se bem que nunca o vimos de fato. Ver sucesso na nossa missão?

Ela sorriu.

— Eu o vejo com o bebê no colo, Hypnos, então é provável que sim.

— E o traidor?

Ela revirou os olhos, pois sabia bem de quem ele falava.

— Talvez sua mulher tenha sonhado, Hypnos. Nix não faria uma coisa dessa. Ela mesma ajudou Zeus a prender Erebus!

— Pasítea viu, eu tenho certeza.

— Ela está grávida! Tudo isso pode ter isso algo criado pelo bebê.

— E sobre o dia que você chegou? — indagou. —Ela viu e ouviu o que estávamos falando. Também acha que foi um sonho?

Ker cruzou os braços e virou o rosto. Hypnos deu um suspiro e disse:

— Também não quero acreditar nisso, mas há forte evidências .

— De qualquer forma, ela está lá e nós estamos aqui. Se por algum momento ela pisar no Tártaro saberemos. — Ela virou nos calcanhares e por sobre o ombro disse: — Agora tenho que ir a um lugar. Vejo algo especial me esperando. — Deu uma piscadela, antes de sumir.

***

A barriga não mostrava sinais da gestação, mas Pasítea sabia que logo mais ela cresceria. A gestação era rápida, às vezes durando dias, por isso a graça aproveitava cada momento com aquela pequena vida ainda se desenvolvendo dentro de si. E não era a única a isso, as ninfas estavam animadas com a expectativa de um novo deus, de um bebê nascer e crescer naquele paraíso. Perséfone era outra que enchia a meia-irmã de cuidados e mimos. Não desgrudava dela e agora que tanto Hypnos e Hades estavam longe, ambas ficavam na companhia uma da outra.

Deitada em um divã, a Graça tinha as mãos sobre a barriga a esperar de qualquer movimento, ansiosa por sentir seu bebê, mas nada acontecia. Ele ainda é pequeno demais.

— Assim vai acabar o incomodando. — comentou Perséfone, indo se sentar à frente da Graça. Colocou a mão sobre a barriga dela. — O que acha que será? Um menino ou uma menina?

Ela ponderou por alguns instantes e então respondeu:

— Não sei..., mas espero que seja uma menina.

— E já pensou em algum nome? — perguntou de novo.

Pasítea negaceou.

— Deixarei isso com Hypnos.

— Mas se for uma menina, você terá que escolher. — Insistiu Perséfone.

Pasítea ponderou. Não tinha nenhum nome em mente para seu bebê e mesmo antes de Hypnos sair para a Giudecca, ele não havia falado nada.

— Quando nascer saberei que nome dar. — respondeu. — Sei que minha mãe e minhas irmãs vão querer conhecer.

—Nosso pai ficará tão feliz em ver mais um netinho! — disse a deusa animada.

Pasítea sorriu ao imaginar o pai, mas logo seu sorriso sumiu ao imaginar Hera sentada ao lado dele com seu rebento no colo como se nada tivesse acontecido. Indagou-se se Zeus ainda continuava a suspeitar sobre a guerra de Tróia e o que ele faria caso soubesse.

— Pasí, você está bem? — Perséfone colocou a mão sobre o ombro da Graça, com medo que ela voltasse a desmaiar. — Está tendo alguma visão de novo? — Pasítea negaceou. Um pouco mais aliviada, a imperatriz do Submundo perguntou: — Então assim que nascer vai levar ao Olimpo?

— Si... — começou.

— É claro que não! — interveio Nix. A deusa da noite apareceu no jardim do templo de Hades repentinamente, andava altiva e majestosa. Fez uma breve mesura a Perséfone e virou-se para a Graça: — Pouco importa que seja neto de Zeus, o bebê não vai sair tão rápido daqui.

Pasítea a encarou boquiaberta, indignada por ela interferir em sua vida. Fechou o rosto e a encarou, desde a última visão que terá não olhava a deusa da noite com bons olhos. Desconfiava muito dela, principalmente agora que os deuses estavam na Giudecca e havia pouquíssimos espectros por ali.

— O filho é meu! — Retrucou.

A deusa sorriu.

— Quando nascer vai perceber que nenhum filho é realmente nosso.

— Lady Nyx só está preocupada com seu filho, Pasí. — disse Perséfone na tentativa de acalmá-las. — O que uma avó não faz pelo neto, não é, Nix?

Pasítea deu de ombros.

— E por que eu não posso levá-lo ao Olimpo?

— Pelo simples fato de que não queremos que nenhum mal a atinja. — Ela se sentou na beira do divã e pôs a mão sobre a barriga da Graça. — Lady Perséfone falou tudo agora, sou apenas uma avó preocupada com meu primeiro neto. — Sua mão era fria sobre a barriga dela. — Ele está se desenvolvendo muito rápido aí dentro. Deveríamos já dar um nome.

— Não — respondeu, afastando a mão da deusa. — Hypnos fará isso. Fico feliz que se preocupe tanto com meu bebê.

— Pasí... — Perséfone a censurou. — A desculpe, lady Nix, com certeza é o bebê mexendo com ela.

— Não duvido disso... — disse. — Fico encantada de como as duas são tão apegadas. Uma pena que não sejamos assim, não é, Pasítea?

A Graça cruzou os braços, virou o rosto e ficou quieta.

— Uma criança ainda. — Murmurou a deusa da noite, sorrindo. Ela pôs-se de pé e reverenciou Perséfone. — Com sua licença, milady.

— Um instante, Nix! — chamou Perséfone antes que a deusa sumisse de novo. — Agora que Hades não está ficarei imensamente grata em receber seus conselhos.

A deusa deu um largo sorriso.

— Com todo prazer, milady.

A deusa fez mais uma mesura e sumiu. Pasítea olhou para a meia-irmã com cenho franzido, sem entender.

— É um plano. — respondeu a deusa a pergunta silenciosa da irmã. — Você desconfia de Nix, e com razão. Eu também desconfio dela. Como Hades está no Submundo, nosso dever agora é proteger o Elísios.

— Acha que ela pode tentar alguma coisa?

— Creio que não, mas é bom ficarmos de olho. Até Hades voltar vamos mantê-la conosco, perto dos nossos olhos. Ela não pode ir pro Submundo sem Hades saber agora. E, se acontecer alguma coisa, você pode ir para Yumekai.

— Não! — espantou Pasítea. — Não vou te deixar sozinha.

A deusa de cabelos ruivos deu de ombros.

— Tem que se preocupar com seu bebê agora. — Ela levantou-se e estendeu a mão para a Graça.

**

Ker andava pela 7° prisão ouvindo os gritos, os choros e os pedidos de ajuda e compaixão. A deusa os ignorava, estava atrás das almas vingativas que vagavam pelos fossos daquele inferno.

Assim que encontrava uma alma, estendia a mão e a absorvia. Ao sentir raiva e a vingança deles, sorria. Sua cria estava pronta. Atravessou os dez fossos naquelas prisões até a cachoeira de sangue.

Colocou as mãos no sangue e nas lagrimas daqueles condenados que, ironicamente, alimentavam o único ser vivo daquele mundo. Soltou as almas naquele rio e se afastou, esperando o resultado.

O sangue passou a borbulhar, as bolhas estouravam soltando o forte cheiro de ferro. Subitamente, algo explodiu da água e alcançou o céu, molhando a deusa de sangue. Ele voltou e flutuou sobre aquele rio.

Sua forma, misturada com todas as almas vingativas, era espectral de um brilho rubro. Seus olhos e boca eram escuros.

— Seu nome será Lemur. — A forma espectral aquiesceu. — Eu, Ker, sou sua deusa — dizia ela com os olhos fixos em sua cria. —, a única que deverá servir e obedecer.

A forma espectral voou ao seu redor, dos pés à cabeça, e aquiesceu. A deusa virou nos calcanhares e rumou de volta para a Giudecca com Lemur voando ao seu lado.