Sonhos e Realidades
23 Capítulo 19 - Fugitivos
Notas iniciais
Fiquei ali, sentada nos bancos esperando alguma notícia do Do Contra. A demora estava me deixando aflita. Logo percebi que eram 22:00 PM. A essa hora, Cebola já deve ter voltado à Mansão e percebido meu sumiço.
Aqui realmente era um lugar seguro, pelo menos por enquanto.
Um médico de aparentemente uns 40 anos de idade apareceu na minha frente, segurando uma papelada.
— É difícil encontrar brasileiros tão jovens ainda nessa época de ano. — Comentou o homem à minha frente, me olhando com um sorriso no rosto. Ele era brasileiro afinal, apesar do leve sotaque francês. — Pelo que eu saiba, ainda são épocas escolares mesmo estando em Dezembro. — Mantendo o sorriso no rosto, ele parecia saber que eu não morava na França. Ou achava que eu estava matando aula.
— Doutor, é verdade, apesar de eu estar aqui de férias. — Respondi sem muito ânimo.- São assuntos particulares. — Completei, não dando brechas para suas suposições.
— Bem senhorita, Mônica Sousa Certo? — O doutor à minha frente começou a folhear a papelada em sua mão.
— Mônica Sousa? — Estranhei no modo de como ele sabia meu nome. Mas deixei pra lá.
— Bom, eu encontrei o documento daquele rapaz que você trouxe. — Ele analisou a ficha.
— Maurício Takeda, 22 anos, certo? — Fui pega de surpresa, mesmo sabendo que esse era o nome do DC. — O médico fez uma careta, pois a demora de minha confirmação estava estranha.
— S-Sim. É esse o nome dele, é que sempre nos chamamos por apelidos. — Confirmei, olhando em seus olhos.
— Obrigado por confirmar. Agora vamos falar sobre o seu amigo. — Prendi minha respiração. — Ele ainda está um pouco fraco, mas creio que a mocinha ajudou, estancando o seu sangue antes da ambulância chegar, mais algumas demoras e acho que ele não teria resistido. Fizemos uma transfusão de sangue, apesar de seu tipo sanguíneo ser meio raro de se achar, tivemos sorte. — Soltei minha respiração tão forte que achei que fosse desmaiar.
— Por um acaso... Vocês se envolveram em alguma briga? A facada que ele levou na lateral de sua barriga seria fatal se tivesse atingido algum órgão. — Ele me olhava desconfiado, esperando que eu respondesse.
Minha expressão estava séria. Eu não poderia contar o que estava acontecendo para o Médico. Mas se eu não respondesse, ele poderia chamar a polícia e assim não teria como eu impedir o casamento de Cebola e Penha, sem nenhuma prova.
— Eu... — Baixei meu olhar.
— Enfim, seja o que for, tome cuidado vocês dois. Não se metam em encrencas. Se algo parecido ou pior acontecer, acho que não conseguiremos ajudar. — Neste instante,percebi ele sacar o celular e digitar alguma coisa. Mas logo ele guardou o aparelho e sorriu para mim de novo.
Meu rosto se iluminou com isso. Esse doutor era gente boa, ou pelo menos eu imaginava que fosse.
— Quando ele vai ser liberado? — Perguntei, antes que ele fosse embora.
— O ideal seria que ele ficasse uns dias em observação, mas acho que não é preciso, já que ele já estava caminhando no quarto. Recomendo que fiquem aqui por alguns minutos, só para ver se ele não terá algum problema. Só evite esforços muito bruscos, o corte foi costurado, mas pode abrir sem muito esforço. Agora vá vê-lo. — O homem sorriu, vi sinceridade em seu rosto e agradeci por DC estar vivo.
— Muito obrigada.
Fui em direção ao quarto que DC estava, mas quando cruzei o corredor, vi ele caminhando em minha direção com certa dificuldade.
— DC! — Corri em sua direção e abracei-o.
— Nossa, acho que eu preciso me estatelar todo mais vezes, já que a recepção é tão boa. — Tomei cuidado para não apertá-lo demais.
— Eu estou tão feliz em te ver bem. — Dei um beijo em seus lábios.
DC passou as mão em meu rosto e analisou-o bem, tentando achar alguma coisa.
— O que foi? — Perguntei, corando um pouco.
— Estou vendo se ele não te machucou. — Seu rosto estava sério.
— Eu estou bem. Mas como você sabia que eu estava lá? E o que aconteceu pra você ter ficado nesse estado? — Eram muitas perguntas.
— Aquele canalha chamou um capanga para dar um fim à mim. Eu consegui nocauteá-lo, mas o cara era bem rápido. — DC parou um momento e olhou por trás do meu ombro.
— Acho que temos visitas... — Ele murmurou para mim, assim me deixando tensa.
Olhei para trás e vi três homens corpulentos olhando para onde estávamos.
— Devemos correr? — Perguntei à ele, mesmo sabendo da atual situação em que DC se encontrava, não poderíamos deixar aqueles homens nos pegarem. DC olhou para trás e encontrou uma enfermeira que passava no local.
— Enfermeira, acho que a minha amiga não está passando bem, pode nos levar até o pronto socorro? — DC falava em francês com a moça. Olhei de soslaio para onde aqueles três homens se encontravam, e percebi que eles estavam começando a caminhar em nossa direção.
A enfermeira concordou e fomos até ela, com passos largos. Entramos no elevador e DC apertou o botão do último andar.
— Rapaz, mas o pronto socorro é no Térreo. — A enfermeira reclamou com voz de brava. Vi quando os homens perceberam que estávamos dentro do elevador, assim eles começaram a correr em nossa direção. Um deles sacou uma arma, fazendo com que a enfermeira gritasse de espanto. Por sorte, a porta havia fechado bem na hora.
— Meu deus, o que está acontecendo? — Olhei para DC, que pousou a mão no ombro da mulher.
— Eles acham que estamos indo para fora do hospital, assim teremos tempo de fugir, eles são bandidos que querem nos pegar, vamos para o último andar e você se esconda em qualquer sala e tente chamar ajuda. Não se preocupe conosco, se preocupe com a sua segurança. — Não entendi muito bem o que DC estava falando, mas sabia que estava falando para ela ficar salva.
Chegamos no último andar. A enfermeira tocou no meu braço e entregou-me uma chave.
— O que é isso? — Eu perguntei, fazendo com que a moça respondesse o que era para o DC. Logo em seguida, ela desapareceu no corredor.
— Ela está nos dando a chave do carro dela. Ela também disse que tem uma saída de emergência no final desse corredor. Ele dará na garagem do hospital, assim conseguiremos fugir daqui.
Agarrei a mão do DC e andamos rapidamente até o final do corredor. Alguma coisa estava errada. Como sabiam que estávamos naquele hospital?
— DC... Por um acaso, algum doutor de aparência gentil e idade de uns 40 anos te atendeu no quarto? — DC me olhou confuso e esboçou um pequeno sorriso.
— Isso não é lá uma boa descrição de uma pessoa. Mas, se você quer saber se tinha alguém estranho fazendo perguntas de nós, sim, tinha um cara assim. Aliás em nenhum momento ele perguntou meu nome nem nada, apenas queria saber quem era você.
— Ele me disse que encontrou a sua carteira. — Eu disse, olhando em seus olhos.
— Minha carteira está na Mansão, Mônica. — Respondeu, convicto.
Então minha ficha caiu. Aquele doutor que parecia gentil, denunciou que estávamos ali, certamente aquela mensagem que ele estava mandando era para o Cebola. Tínhamos sido descobertos.
— DC para onde nós vamos... E Sabrina... Ela... — Eu tentava falar, mas a imagem da garota caindo na minha frente era perturbadora.
DC ficou em silêncio. Continuamos andando até chegarmos ao estacionamento.
Do Contra rapidamente olhou em volta e apertou o botão do alarme do carro, assim, achando o carro da enfermeira. Entramos e ele ligou virou a chave, dando partida no motor. Saímos de lá tão rápido que em poucos minutos estávamos bem longe daquele local.
— Você acha que eles ainda estão lá? — Perguntei para ele, que estava concentrado em olhar para a rua.
— Acho que devem estar ouvindo um monte do Cebola, por terem nos deixado escapar.
— Pra onde vamos? — Eu estava cansada e não sabia mais o que fazer.
— Precisamos ir para um lugar onde ficaremos seguros. Vamos achar um hotel pequeno e assim, poderemos pensar no que fazer. — Ele olhou para mim e tocou meu rosto.
— Vamos ficar bem, Mônica.
Tudo aquilo era tão estranho. Há uns meses atrás, eu era apenas uma garota apaixonada por um garoto que não fazia mal à ninguém. Hoje, esse mesmo garoto se tornou um homem que não tem dó nem piedade, para conseguir alcançar seus próprios objetivos.
Já eram quase uma da manhã quando encontramos um hotel pequeno. Ficava do outro lado do centro da cidade, assim, bem longe da Mansão de Penha.
O dono do hotel, era uma senhora de idade. Ela sorriu quando nos viu.
— Que bom encontrar jovens de meu país de origem. — Ela era brasileira.
— Como ela sabe? — Sussurrei para o Do Contra que apenas apertou de leve meu ombro.
— A senhora pode nos ceder um quarto? Pagamos adiantado se precisar. -DC colocou umas notas de Euro em cima do balcão. Pelo menos ele estava com algum dinheiro nos bolsos.
— Claro meu jovem, mas só tenho um quarto com uma cama, tem problema? — Ela me olhou por cima do ombro de DC.
— Não tem problema, só queremos um lugar para ficar, e só vai ser hoje. Amanhã já estaremos indo embora.
— Preciso dos seus nomes. — Minha respiração falhou. Não devia ser difícil para Cebola rastrear nossos nomes nos computadores e descobrir o nosso paradeiro. Olhei aflita para o DC, que viu a minha reação de preocupação.
— João e Maria. — Ele respondeu da maneira mais natural que existia.
A senhora não questionou a resposta do DC, nem nos pediu os documentos para comprovar, apenas marcou no velho computador nossos nomes e nos entregou a chave.
— Tenham uma boa noite, jovens. — Seu olhar acompanhou nossos passos até desaparecermos no corredor.
— João e Maria? Acha que estamos num conto de fadas? — Falei pra ele, com certa raiva.
— Bem, eu gosto de João e Maria. Mas a minha vontade era de ter dito Alice e Chapeleiro Maluco. — DC sorriu para mim, atenuando a minha raiva.
— Vou tomar banho. — Ele me disse.
Olhei ele tirar a camisa e vi o enorme curativo na lateral de sua barriga.
— Você... Acho que você não consegue fazer isso sozinho né? Não direito pelo menos. — Minha voz saiu como de uma mãe preocupada.
— Se isso for uma desculpa para me ver pelado, acho que eu posso aceitar a sua ajuda. — Eu estava me preparando para xingá-lo, quando ele continuou. — Mas eu não vou te obrigar a tirar suas roupas, não se você não quiser. E eu posso colocar uma toalha se isso te incomodar.
Apesar de ele ter se declarado para mim, ele ainda não me tratava como namorada. Acho que ele sabia como eu me sentia. Eu não tinha dito Eu Te Amo, ainda para ele. Minha cabeça estava tão confusa. Depois de descobrir os planos do Cebola, eu tinha certeza de que eu não poderia mais ficar com ele. Mas ainda assim. Num momento como esse, não era ideal eu me declarar para ele. Eu precisava resolver esse problema antes. Cebola tinha que ser parado o mais rápido possível.
Entramos no banheiro e liguei o chuveiro. A água escorreu no seu corpo e senti que ele estava relaxando. Tomei cuidado para que a água não caísse diretamente no machucado.
Passei o sabonete em seu dorso e fiquei maravilhada com a cena. Ele era realmente lindo. Claro que já nos vimos de uma maneira bem mais íntima, mas era diferente. Eu estava cuidando dele. E ele de mim. Era uma sensação diferente. Ele me dava segurança.
DC segurou meu pulso quando eu estava colocando o sabonete na prateleira. Ele puxou meu corpo para perto de si, não se importando com o meu ruído de protesto por ele ter me molhado toda. Meu rosto se aproximou do seu e seus lábios envolveram nos meus num beijo calmo. Suas mãos trataram de tirar minha blusa, eu não me importava com que ia acontecer, só queria aquele momento.
Me livrei rapidamente das minhas roupas. Corei um pouco com seu olhar em meu corpo. Ele apenas sorriu e me abraçou, voltando a unir nosso lábios num beijo mais quente.
Era tão reconfortante. DC era meu porto seguro. Todo o meu corpo relaxou em contato com a água e suas mãos estavam me massageando toda. Logo nossos corpos estavam pedindo por mais. A paixão estava grande. Nossos corpos estavam pegando fogo.
Fizemos amor ali mesmo. Foi diferente daquela primeira vez no hotel, quando chegamos aqui. Dessa vez, tinha certa urgência de nos amarmos. Era como se fosse a última vez que estaríamos juntos.
Não deixaria que fosse a última vez. Isso eu tinha certeza.
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