—"Morangos, champanhe e Paris... o que uma garota poderia desejar?" — a voz feminina e sedutora perguntou para Dan. Ela estava dentro de uma grande banheira cheia de espumas, a pele pálida como uma pérola brilhava por causa da combinação luz/reflexo d'água, os cabelos curtos e negros em um penteado todo para trás por conta da umidade faziam com que ela estivesse ainda mais sexy do que o normal.

Os lábios carnudos e rosados se entreabriram e ainda olhando fixamente para a sua plateia particular, ela colocou um morango na boca e — ele só poderia descrever aquilo como um beijo quente — mordeu a ponta do morango. Após engolir, ela passou a língua para limpar o sulco da fruta que escorria no canto inferior esquerdo de sua boca e sorriu de um jeito travesso.

—"Não vai entrar?" — perguntou apoiando sua cabeça sobre os braços cruzados na borda da banheira. O fato de ela ter o quadril largo e estar parcialmente de lado fez com que Dan pudesse ter um vislumbre da pele pálida e macia de sua grossa coxa fora d'água. Ele podia sentir o calor aumentar descendo de sua cabeça e indo direto para o meio de suas pernas. -"Você sabe, nessa banheira cabe perfeitamente um casal apaixonado..." — ela nem precisou terminar para que ele tirasse a calça de moletom que vestia e voasse como uma flecha diretamente para dentro da banheira. A água elevou quando Dan se acomodou fazendo com que caísse para fora e derramasse no chão, provocando risos em ambos.

—"Eu esperei tanto tempo para saber como seria..." — ele havia se encostado no outro lado da banheira e agora olhava fixamente para ela. Tinha um dos pés de sua amada entre suas mãos e sentia o prazer se intensificar a cada gemido que ela soltava conforme a massagem seguia. Nessa posição ele tinha visão total dos seios fartos, com mamilos rosados e empinados sendo beijados delicadamente pela água, mas para ele, nada se comparava àquele par de íris cor de âmbar fitando-o atentamente como que suplicando para que ele nunca parasse de desejá-la.

— “O que... você esperou... para saber?” – perguntou entre um gemido e outro.

— “Como seria lhe pertencer realmente.” – respondeu dando um beijo suave no pequeno pé e com cautela, porém rapidamente indo de encontro aos lindos lábios rosados...

— “PPPPPEEEEEENNNNNNNNN... PPPPPPPPEEEENNNNN!” — o barulho ensurdecedor do despertador fez com que Dan abrisse os olhos amaldiçoando pela interrupção sobre o maravilhoso sonho que estava tendo.

Fazia algum tempo que sonhos como aquele vinham o perturbando, ou melhor, o “infernizando”. Dois anos, três meses e sete dias, exatamente..., mas quem estaria contando? Bem, isso era tudo o que ele podia fazer dadas as condições. Havia ocorrido a pior coisa que poderia ocorrer há alguém na posição dele, tinha se apaixonado por sua superiora. Não que ele fosse do tipo carente ou algo do gênero, mas aconteceu de forma tão simples que quando ele se deu conta, Lúcia – sua superiora – havia rompido e invadido seu coração com tal autoridade que apenas tê-la por perto como uma colega de trabalho fazia com que seu coração acelerasse. E para que tudo fosse ainda mais melodramático, havia uma terceira pessoa na jogada, o marido de Lúcia. Pois sim, casados faziam dez anos, os dois eram como “Brangelina” o casal mais lindo, perfeito e feliz que ele jamais vira.

— “Você está começando a soar como alguém mal-amado...” — Dan ouviu a voz interior e sorriu com tristeza tendo que concordar com o que dizia. Bem, em sua defesa, ele não era mal-amado, apenas se sentia triste por ter tal sentimento por alguém que nunca seria uma opção real para ele. Sabia que tanto Lúcia quanto Edgar faziam o casal feliz e real, mas nunca em todo o seu desejo e amor por ela, teria a coragem necessária para sequer insinuar qualquer coisa referente aos seus próprios sentimentos. Em seu íntimo sabia como amá-la deveria ser principalmente torcer pela felicidade dela incondicionalmente, não importando o que ele seria para ela, um colega de trabalho ou apenas um conhecido. Mas, também precisava admitir que era tão difícil se portar como tal diante de alguém que fazia seu coração esquecer que tinha trinta anos e acelerar igual ao coração de um adolescente de treze.

Ele havia levantado da cama, ido ao banheiro e tomado uma ducha fria quando se pegou lembrando o seu primeiro dia na empresa, o primeiro dia em que o mundo dele começou a virar de cabeça para baixo.

Dan vinha se preparando e estudando a possibilidade de conseguir vaga numa empresa renomada há meses. Como um jovem homem adulto que trabalhava no mesmo lugar em que estagiara há tantos anos, ele sentia que seu tempo lá já estava muito além do fim, sendo assim fazia algum tempo que focara no cargo de gerente de investimentos em uma das empresas mais premiadas de toda a cidade, a High Investimentos. Aquela sim era a empresa que qualquer profissional do ramo sonhava em trabalhar... não pela alta remuneração, mas por ter a reputação de ser uma empresa que se preocupava com seus funcionários acima de tudo. Tinham como lema: “Se crescemos, devemos tudo aos nossos parceiros” e a política da empresa era exatamente essa. Não deixavam seus funcionários — ou parceiros como eles gostavam de chamar o operacional da empresa — na mão.

Quando o dia da entrevista final chegou, Dan sentia-se inquieto. Como se soubesse que ali, bem a sua frente, estava a chance de sua vida. A chance em um milhão. Após um longo teste e rigoroso estudo de currículo que a empresa fazia com seus funcionários, ele só precisava de mais uma única entrevista com o chefe do seu setor – seu futuro superior, quem sabe? – e assim poderia comemorar os frutos daquela jornada.

Vestiu-se da melhor forma possível aquele dia. Colocou seu melhor terno, sua melhor gravata; penteou o cabelo negro encaracolado de maneira que ficasse o mais apresentável; fez a barba negra e dando uma olhada no espelho agradeceu por ter decidido frequentar a academia há anos, seu corpo magro e atlético ficara simplesmente perfeito dentro daquele terno risca de giz. Sim, ele estava se sentindo o máximo. Fora assim até chegar na porta da empresa onde executivos e muitas outras pessoas entravam e saiam apressadas por grandes portas giratórias muito atarefadas para prestarem atenção ao gigante edifício de metal. Era lindo. Sem palavras.

Respirou fundo, tomou algum ânimo e adentrou o castelo metalizado. Lá dentro, passou pela recepção do prédio, subiu de elevador até o décimo oitavo andar e novamente aguardou na recepção do setor em que pretendia atuar. Todos, sem exceção, foram tão simpáticos que aquele nem mesmo parecia ser o prédio focado no setor financeiro.

Sentado no pequeno sofá de dois lugares à frente da mesa da recepcionista, ele checou o horário notando que faltava menos que cinco minutos para que a sua entrevista começasse. Agora a inquietude retornava e o que parecia ser adrenalina e ansiedade corriam livres por todo o seu corpo. Quando se preparava para se levantar e andar um pouco a fim de liberar toda essa energia, a recepcionista pediu que a acompanhasse até a próxima sala. Enquanto todos lá dentro sorriam, conversavam e trabalhavam arduamente sem perceber sua presença, Dan olhava para tudo e todos. Sentia-se como uma criança num parque de diversões. Os dedos formigavam de ansiedade a cada passo que ele dava e chegava cada vez mais próximo da porta. A recepcionista loura que fora tão simpática com ele, agora o fitava de forma séria, porém gentil.

—Pode aguardar só um minuto, por favor? – pediu. Ela entrou, mas não demorou muito. Ao sair abriu espaço para que ele mesmo seguisse sozinho.

Mais uma respiração e então seguiu.

Dan mal entrou no grande escritório e já ouviu o som mais agradável que ele algum dia poderia ouvir: a risada feminina e espontânea. Atingiu seus ouvidos e o tocou de uma forma estranha e ótima ao mesmo tempo. Como se por trás de aquela risada houvesse o convite subliminar para chegar e se aconchegar.

Na mesa próxima a janela com vista para a Av. Paulista, atrás de uma grande cadeira encontrava-se um homem barbudo, já na casa dos sessenta, ele segurava a xícara de café perto de sua boca, entretanto Dan teve a impressão de que aquela xícara era pequena e frágil de mais para um homem tão bruto como aquele. O homem olhava para a sua acompanhante no outro lado da mesa, uma mulher, rindo juntamente com ela, mas o único som que chegava aos ouvidos de Dan era a da voz feminina.

Ao notar a presença de Dan, o homem endireitou-se no seu assento e disse:

—Ora, parece que acabei me distraindo de meus deveres... veja só, temos um convidado, Lúcia! – ele chamou a atenção da mulher e ela que até então estava virada de costas para Dan, ao virar-se teve o mesmo efeito que ondas do mar se quebrando na praia. Ela era simplesmente linda. O cabelo curto e negro estilo “pixie” ficava tão charmoso e ressaltava o rosto com formato de coração; com maçãs altas e gordas, levemente ruborizadas. Sua pele era pálida, entretanto combinava perfeitamente com seus olhos do tom mais puro de âmbar; seus lábios... aqueles lábios pintados num tom vermelho escarlate seriam capazes de fazer qualquer homem perder o juízo.

—Rapaz, não precisa ficar acanhado, não mordemos! – o homem brincou rindo. Dan engoliu em seco quando sorriu para ambos.

—Sente-se conosco, estou apenas terminando meu café e já poderão começar a entrevista... – Lúcia explicou.

—Ah, mas já irá me abandonar?

—Gustavo, sabe que só vim porque precisava da sua opinião... eram cinco minutos que se tornaram trinta. – falou em tom de bronca e depois virou novamente seus preciosos olhos para Dan que continuava parado como um tolo próximo a porta. – Venha, não precisa ficar nervoso, Gustavo é um amor.

Por alguma razão, pareceu uma eternidade até que enfim ele se aproximou do assento vago ao lado da mulher. O perfume dela cheirava como oceano também e ele ficou surpreso por pensar sobre isso em um momento tão esperado como aquele. Quando seu foco deveria estar cem por cento direcionado para a entrevista.

—Desculpem pela falta de delicadeza ao entrar, eu estou tão maravilhado com todo esse ambiente profissional que acho que ainda não me caiu a ficha que estou realmente aqui. – Dan disse.

—Pois não se sinta nervoso realmente, todos nós, quero dizer, eu, sei que a entrevista de emprego pode ser completamente apavorante, mas se há algo que realmente tentamos manter é o clima mais relaxado possível. Seria absurdo perder o que talvez pode vir a ser uma parceria incrível por conta do nervosismo. – Lúcia falava tudo isso de forma tão gentil e fitando tão fixamente os olhos de Dan que por alguns segundos fora difícil prestar atenção ao que ela falava.

—Sim, mas antes de começarmos a entrevista deixe-me despedir de minha querida amiga e pedir um café para o senhor também.

Ambos se levantaram de seus assentos, inclusive Dan, e se despediram de forma cordial. Dan manteve a compostura diante das lindas formas que o corpo de Lúcia amostrava. Ela tinha coxas grossas, quadris largos abraçados por uma calça de linho clara que marcava cada linha de seu maravilhoso corpo. Era gorda, com seios fartos, cintura marcada com um cinto e a blusa social branca era um tom transparente, mas não vulgar.

Lúcia se despediu de seu amigo com um abraçado demorado e após isso, virou-se na direção de Dan e ergueu sua mão direita a fim de cumprimentá-lo. Por hábito, seus olhos seguiram a linha dos braços roliços de Lúcia somente para acabar na grande decepção ao notar a grande aliança de casamento em seu dedo.

—Novamente, não se sinta nervoso e espero que você seja contratado. Algo me diz que você é especial. – Lúcia disse sorrindo só para fazer o coração de Dan aquecer um pouco mais.

— “Como ela faz isso?” — ele pensava quando Gustavo pigarreou retornando à atenção de Dan para si.

—Bem, sei que Lúcia é encantadora, mas vamos começar a nossa conversa, sim? – falou sorrindo e logo trazendo um tom sério a reunião a fim de começar a entrevista.

Após mais ou menos uma semana Dan recebeu o telefone dizendo o quando a empresa estava feliz em contratar alguém com tanta experiência. Ele não poderia ter ficado mais feliz. Havia chegado ao seu objetivo. Desde então, durante esses dois anos de trabalho árduo e significativo, Dan e Lúcia mantinham contato em algumas ocasiões como alguns jantares de negócios – jantares esses em que ela sempre ia acompanhada do marido, Edgar -, encontros casuais no elevador da empresa onde ela sempre era educada com todos e, é claro, como sua superiora – ela era diretora-geral de investimentos internacionais – em raras ocasiões ela o chamava em sua sala para pedir informações de uma ou outra coisa. Dan envergonhava-se em admitir, mas em quase todas as vezes que subira até o vigésimo quinto andar, além de ter o coração quase saindo pela boca, ele adquirira o hábito de passar alguns minutos em frente ao espelho checando se estava tudo certo. Sim, nesses momentos ele se sentia ridículo, entretanto não conseguia evitar. Ainda mais constrangedor era o fato de que, embora tanto tempo houvesse passado, ele ainda tinha sentimentos por essa mulher que nunca seria dele. Seu cérebro tentava ajuizar seu coração, mas o teimoso não desistia.

—Bom dia, senhor Albuquerque! – sua secretária, Matilde saudou quando Dan atravessou a porta de vidro na entrada do seu andar. – Hoje o senhor tem algumas reuniões, incluindo uma com a senhora Davilla. Ela pediu que eu entregasse este recado para o senhor.

Os dois caminhavam juntos até a sala de Dan quando ele pegou o recado por escrito que Lúcia havia mandado para ele.

—Obrigado, Matilde! Pode me fazer a gentileza de pedir um café com açúcar? Peça um para você também... – falava em automático.

A secretária o deixou sozinho em sua sala e fora cuidar de seus assuntos, mas Dan nem mesmo prestou atenção. Só tinha olhos para seu recado.

— “Quem sabe o que ela quer propor nesse recado?”— a voz maliciosa em sua mente disse. – “Talvez seja o pedido para um jantar particular...” — especulou, mas o próprio Dan se autocensurou após segundos de pensamento.

Abriu o pequeno pedaço de papel:

“Bom dia, Dan!

Após o fim do expediente, eu vou precisar me reunir com você. Pode me confirmar?

Aguardo resposta, Lúcia.”

Seu cérebro passeou pela caligrafia simples tentando procurar algo que o fizesse perceber o que seu coração mais queria, a atenção de Lúcia. Contudo, não perdeu muito tempo com isso, sabia que não existia nada além de cordialidade.

Por sorte, Dan esteve ocupado praticamente todo o dia. A empresa estava prestes a estabelecer uma nova parceria com uma outra marca que à princípio já havia especulações de que esta seria a parceria do ano. A nova empresa estava situada na Califórnia – LA, o que acabava sendo um passo gigantesco para toda a organização que agora, realmente, preparava-se para tornar-se a número também no ambiente internacional.

Todos os setores e todos os parceiros precisavam trabalhar ao máximo para que todo o seu serviço fosse entregue com êxito, sem lacunas e com a menor margem de erro possível, a fim de apresentar resultados cada vez melhores para assim a parceria com organizações internacionais terem ainda mais valor.

Entre um copo de café e outro, Matilde colocava a cabeça para dentro da sala de Dan a fim de checar se ele estava bem ou precisava de algo, mas como sempre, muito focado no trabalho, ele apenas balançava negativamente e seguia estudando planilhas, fazendo relatórios. Quando já se passavam das seis da tarde, Matilde novamente surgiu e disse:

—Acho que o senhor deveria comer algo. Trouxe um lanche. – invadiu o espaço sem nem se importar com a cara feia que Dan fizera. Adorava Matilde como uma mãe, mas às vezes ela passava um pouco do ponto. Principalmente em momentos como aqueles onde ele só queria terminar seu trabalho e descobrir o que Lúcia queria com ele.

—Não me olhe desse jeito, você sabe que não tenho medo de careta. – pousou a bandeja com biscoitos, mais café e um sanduíche em cima da mesa, entretanto não saiu imediatamente da sala. – Coma tudo antes que eu vá embora.

—Sim, mamãe! – Dan brincou.

—Oh, se realmente fosse meu filho, eu já ter-lhe-ia dado alguns conselhos muito sérios... – ela insinuou falando sério. Os olhos surpresos de Dan fitaram-na e ela prosseguiu. – Sabe exatamente do que estou falando. Não tem por que me olhar com essa cara de surpresa.

—Realmente não entendo o que está querendo dizer...

—Claro que sabe! Pensa que me engana como faz com os lanches que trago e você não come...

—Onde está querendo chegar, Matilde? – Dan perguntou sério.

—Estou querendo dizer que o observo há muito tempo para não notar seu comportamento referente a qualquer coisa que envolva uma certa madame sorridente e gentil...

Ele até tentara parecer chocado diante daquele comentário, porém como ele mesmo havia se censurado tantas vezes e pensado muitas outras vezes, ficava abismado de às vezes ser tão gentil e tão solícito com Lúcia e ela nem mesmo perceber. Não que ele passasse dos limites, mas ele tinha certeza de que às vezes exagerava e que a qualquer momento ela pediria certo distanciamento entre eles, apesar de tudo.

—Não me preocupo e nem quero saber sobre seus sentimentos, até porque sempre comentei com algumas pessoas sobre a senhora... bem, você sabe quem. Mas preocupo-me que o senhor perca a compostura e acabe colocando seu emprego em risco, ou já se esqueceu que além de grande acionista da empresa, o marido dessa senhora é também filho de um dos fundadores? – ela havia cruzado os braços como uma mãe dando bronca em seu filho, faria.

Dan recostou-se nas costas da cadeira e após soltar um pequeno suspiro, admitiu:

—Não pensei que fosse tão aparente...

—Oh, senhor... sim, é. Percebe que não quero seu mal? E até mesmo torceria por vocês dois, caso as circunstâncias fossem outras, mas precisa agir racionalmente ao lado dela.

—Acha que ela percebe? – um pouco de esperança apareceu na pergunta de Dan. – Quero dizer, acha que é sobre isso o recado?

—Não, não acho que ela perceba. – Matilde tomou o assento a sua frente e se sentou com o ar autoritário de alguém que iria dizer algo confidencial. – Sou muito difícil de mudar de opinião e alguém como eu, casada fazem tantos anos, reconhece um casamento fracassado há quilômetros. Acredito que a senhora tem total atenção em assuntos muito pessoais...

—Por que está dizendo isso?

—Porque trabalho aqui há muitos anos e vi muitas coisas, inclusive a felicidade nos olhos daquela pobre moça no início do matrimônio. – Matilde não poderia ter sido mais clara. Lúcia não era tão feliz quanto aparentava ser, pelo menos não em relação ao seu casamento. Uma fagulha de esperança ousou aquecer o coração iludido de Dan, mas se aquietou quando a secretária continuou seu raciocínio.

—Veja bem, senhor, quando pensar racionalmente repare nos olhos da... – ela chegou mais perto da mesa e Dan fez o mesmo gesto a fim de ouvir melhor o sussurro. -... senhora Lúcia. Aquela moça não está feliz faz anos, mas eu realmente não entendo suas motivações para manter um casamento como esse. – voltou a se afastar. – Agora coma seu lanche.

Dado o recado, Matilde levantou-se da cadeira como se não tivesse colocado teorias e mais teorias na cabeça de Dan e seguiu para fora de sua sala.

— “Se o que Matilde disse for verdade, pode ser que você tenha uma chance...” — a voz retornou com mais força do que nunca, entretanto Dan não deixou que a velha companhia fincasse suas garras. Antes disso, ele já voltou sua atenção total no relatório que preparava. O quanto antes ele terminasse mais rápido ele iria ao encontro de Lúcia e saberia o que ela diria. Nada mau como forma de engajar seu melhor.

Mais tarde, quando restavam muito poucos parceiros por andar, Dan já tinha se despedido há alguns minutos de Matilde e começava a deixar tudo sobre sua mesa arrumado. Estava desligando o computador quando bateram suavemente na sua porta.

—Entre! – falou distraído pelos papéis a sua frente.

—Caramba, finalmente encontrei alguém tão focado quanto eu! – a voz graciosa invadiu a sala fazendo a cabeça de Dan automaticamente ergue-se involuntariamente. – Desculpe, eu estou sendo muito espaçosa? – ela ainda não havia entrado na sala e parecia esperar a permissão dele para enfim entrar.

—Não, claro que não! – disse, mas a voz saiu um pouco mais afetada do que pretendia. – Eu estava me preparando para subir...

—Ah, sim? Bem, eu terminei há algum tempo e como você não subiu... resolvi dar uma passada aqui.

—Às vezes esqueço de tudo em volta quando estou trabalhando, deveria prestar mais atenção. – Dan comentou fazendo sinal para que Lúcia se aproximasse. Sentou-se em uma poltrona próxima a mesa de escritório, a saia lápis que usava esticou-se para acomodar a grossa coxa que ela cruzara ao sentar-se deixando o tecido um tanto quanto justo. – Espero que não tenha feito você esperar muito... não foi a minha intenção.

—Tudo bem, sei o quanto você é concentrado no seu trabalho. – respondeu dando um sorriso amigável. – Bem, sem muitos rodeios... vim aqui porque tenho uma proposta para lhe fazer.

— “... repare nos olhos da senhora Lúcia.” — ouviu a voz de Matilde em sua cabeça e logo pôs-se de pé em frente a sua mesa de trabalho. A partir daquele momento prestaria atenção nos trejeitos de Lúcia. Uma parte dele tinha esse desejo de saber se ela era ou não feliz em sua vida particular.

—Sim?

—Olha, vou falar francamente e espero que você pense com carinho sobre o que eu quero te pedir. – Lúcia falava com um leve rubor nas maçãs do rosto, a cena fazia com que o lado emocional de Dan quisesse caminhar por uma estrada mais imaginativa e maliciosa, contudo o lado racional tentava ao máximo focar nos olhos da sua mensageira. – Como você bem sabe, todo ano alguns dos nossos melhores parceiros são convidados para palestrar em algum determinado local sobre o seu setor... esse ano eu e Gustavo iríamos juntos, entretanto infelizmente a esposa dele sofreu um acidente em casa e precisou passar para uma cirurgia...

—Desculpe interromper, mas ela está bem? Alias, Gustavo, como ele está?

—Oh sim, não se preocupe. Ela realmente sofreu um tombo feio na escada de casa, mas felizmente o próprio Gustavo estava em casa com alguns familiares e na mesma hora ela já foi levada para o hospital às pressas. Tudo foi um grande susto, mas ela passa bem. A cirurgia foi ótima. – Lúcia tranquilizou. – Enfim, é exatamente por esse motivo que eu estou aqui. Como eu estava te dizendo, nós fazemos essa palestra e esse ano iríamos eu e Gustavo, cada um falando sobre o seu setor, porém com tudo isso que ocorreu, o Gustavo decidiu não ir e cancelar à participação dele. – Dan pensou em dizer algo, mas foi impedido pelo sinal que Lúcia fez com a mão a fim de controlar a ansiedade do seu ouvinte.

—Como eu iria com ele, ele me pediu que eu falasse com você o mais rápido possível, pois o primeiro nome que ele imaginou para substituí-lo foi o seu. Assim, Dan, o que eu peço é que você faça a palestra comigo.

—Sim! – disse rápido e bruscamente.

Lúcia soltou uma breve risada antes de dizer:

—Calma, não quer saber o que será necessário antes de aceitar? – ainda ria um pouco quando falou.

—Bem, acredito que apesar das circunstâncias, esse é o tipo de oportunidade que eu não poderia deixar escapar.

—Com total certeza. Acredito que você é a pessoa certa para esse desafio. Eu sei que pode ser difícil e arriscado, mas se você estiver disposto a fazer essa palestra, eu e Gustavo estamos dispostos a ajudar com qualquer coisa que você precise. – Lúcia levantara do sofá e se aproximou até ficar em uma distância perigosa entre ela e Dan. Agarrou as mãos dele entre as suas e sorrindo falou:

—Eu estou animada, preocupada e extremamente feliz que você tenha aceitado essa proposta. Obrigada! — ela cruzou a linha de perigo que rondava a distância em que eles se encontravam e de forma inesperada abraçou Dan. Ele certamente não esperava aquele gesto, mas não demorou muito para receber o abraço amigavelmente e fechar os olhos para que aquele momento, o cheiro que ela exalava de seu perfume, a maciez da pele dela contra a sua, suas curvas tão próximas ao corpo dele... tudo seria guardado na memória de seu coração.

Tanto Lúcia quanto Dan estiveram ali, abraçados, por um pouco mais de tempo do que o aceitável. Afinal, eles realmente se conheciam há dois anos, mas não era algo como uma relação amigável e pessoal.

—Perdão, às vezes exagero na emoção... – explicou sentindo-se um tanto quanto envergonhada pelo seu gesto.

—Não há o que perdoar. – Dan ainda sentia o sorriso bobo em seu rosto, mas não se importou nem um pouco. Ter uma mulher como aquela, mesmo que por tão pouco tempo fora suficiente para fazer seu corpo inteiro tremer com a descarga elétrica que correu desde sua cabeça até o último dedo do pé. – Mas, como faremos sobre a palestra?

—Ah, está tudo certo sobre a questão de estadia. Contudo o que nos preocupa é a questão da palestra em si. Como é feito tudo de forma estudada, não desejamos que você apenas crie um monólogo em cima da apresentação de Gustavo. O próprio Gustavo me fez prometer que faria de tudo para que você trabalhasse para preparar a sua própria apresentação... enfim, nós precisamos correr, pois a palestra ocorre daqui há duas semanas.

—É muito pouco tempo, mas será por algo valioso. Seria um problema se eu tirasse uns dias para focar totalmente nesse assunto?

—Óbvio que não! Pelo contrário! Amanhã mesmo pode começar a se preparar. Pode ficar tranquilo que eu mesma vou estar a frente de tudo aqui. – Lúcia falou sorrindo animada.

—Acho que estamos combinados, então. Obrigado pela oportunidade Senhora Albuquerque!

—Por favor, nos conhecemos há algum tempo e vamos passar três semanas juntos... acho que você deve me chamar apenas de Lúcia. – falou.

—Sendo assim, Lúcia, obrigado pela oportunidade! – ele respondeu gostando bastante da pequena interação que tinham.

—Eu quem estou agradecendo. Alias, eu e o Gustavo. Tenho certeza de que seremos um casal maravilhoso!

Lúcia pegou sua bolsa e após se despedir, saiu da sala abandonando um ainda mais apaixonado Dan sonhando acordado sobre tudo que havia acontecido aquela noite.