Sonhos daqui, vidas de lá....
1 Capítulo 1 - O garoto que sonha.
Notas iniciais
Eis que mais uma manhã se levanta e meu maior inimigo nesse exato segundo é meu despertador e meus cobertores perdem mais uma batalha para minha (esgotada) força de vontade e ainda com meus reflexos reduzidos consigo atravessar o sofrível caminho até chegar ao banheiro e alcançar a torneira. Uma torrente de água gelada destrói o que restou do meu sono e desperta todos os meus demônios ao mesmo tempo e ao levantar meu corpo encontro-me com meu reflexo no espelho: que é um grande lembrete sobre minha vida e como ela está sendo dissolvida diante dos meus olhos.
Após tomar rapidamente uma grande xícara de café com leite já me sinto capaz de enfrentar mais um dia de trabalho, termino de me vestir e apanho o primeiro moletom que aparece em minha frente, e logo depois de fechar o portão do condomínio inicio uma caminhada com passos rápidos em direção ao ponto de ônibus mais próximo da minha residência (o que não significa que é tão próximo assim).
Durante meu trajeto mal posso ver os raios de Sol pois ainda é muito cedo e o frio deste horário é um forte estimulante para meu sono e caminhar pelas ruas deste município é como caminhar na terra dos mortos, pois sinto a cada dia que passa, um enorme número de ideais e criações morrendo dentro daqueles que tentam me cumprimentar com o clássico e desanimando "Bom dia." — Em meu íntimo penso que são como pessoas mortas, corpos sem alma ou propósito para viver ou vivem apenas para aguardar a putrefação de suas carnes.
Continuo caminhando com o capuz do moletom sobre minha cabeça e com tanto silêncio sinto minha respiração e pulsação, e por mais que eu esteja meditando sobre o que devo fazer no decorrer do meu dia acabo me perdendo num vendaval dentro do meu próprio ser como se fosse possível tocar todas as criaturas mitológicas, armas mágicas e os cenários caóticos e belos que sonho durante meu sono ou delírios, e neste exato momento minha mente é levada por todas as melodias feitas pelos instrumentos daquele lugar...
– Hey Iv! Bom dia... — O toque de uma mão fria e pequena me devolve à terra firme, e mesmo sem olhar eu já sabia que era Lya e antes mesmo de conseguir cumprimentá-la o ônibus já estava parado e abrindo as portas, ela subiu as escadas e eu ainda tentando encontrar o que dizer fiz o mesmo e logo passei pela catraca de forma quase automática ao passo Lya já estava se acomodando, ela tem o hábito de sempre escolher um lugar aleatório para ficar durante o trajeto para trabalho, hoje escolheu o assento do lado do corredor mais próximo da porta de saída.
– Está fugindo de alguém? Não me recordo de ocasiões que você ficou tão próxima da saída. — Comentei enquanto tirava o capuz da cabeça.
– Você sabe que não fico fixada em um único lugar e acho que hoje você precisa ficar mais próximo da janela, o nascente vai ser alaranjado e isso renova o espírito de qualquer pessoa. — Lya respondeu enquanto abria sua garrafa de chá e olhava para a janela admirando o céu alaranjado com seu olhar calmo e desprendido da realidade. Compartilhamos o céu e as manhãs como uma visão cotidiana de algo bonito e algo para observar.
Lya me causava alguns momentos de susto quando ficava silenciosa por muito tempo, e quando digo muito tempo fico um pouco preocupado pois não tenho muita noção dele, as vezes fico em dúvida com meu próprio senso de realidade e novamente volto perdido em meus pensamentos, sinto minha mente turva só de imaginar o caos nas frentes de trabalho, provavelmente as máquinas estão paradas por algum problema de operação, o que é muito comum quando o turno está nas mãos do supervisor Ern Dunas, consigo sentir minha respiração alcançando ponto de colapso e todas as veias latejando em minha cabeça além de imaginar mil formas de retirar as entranhas daquele maldito Dunas...
– Você precisa de um pouco de descanso dos seus sonhos ruins, isso te consome dia após dia. — A voz de Lya me fisgou de mais um turbilhão e em suas mãos estava a tampa da garrafa cheia de chá, o aroma cítrico era arrebatador.
– Toma, acho que isso vai te ajudar. — Lya me entregou aquele copo improvisado enquanto ajustava-me de forma mais confortável na poltrona, o Sol já estava brilhante e o seu calor já era bem pronunciado.
– Você é muito gentil com alguém desconhecido... — Esbocei um sorriso de gratidão quando ela abaixou o rosto e respondeu tímida:
– Você não é desconhecido, é bem familiar porém em um outro lugar... — Meio confuso pela resposta agradeci novamente e limpei a tampa com um guardanapo sobressalente que carrego comigo, minha descida estava próxima logo levantei com um pouco de preguiça e com a mochila em mãos caminhei em direção à porta, já na calçada acenei para Lya que prosseguia viagem naquele veículo.
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