Sonhos da meia noite

3 O inferno não precisa ser conservador


Bom depois de toda aquela noite extremamente traumatizante seria redundância falar que eu mudei completamente. Passei meses com medo da minha própria sombra e escola já era algo totalmente inimaginável para mim. Primeiro por estar constantemente dopada pelos milhões de remédios que os analistas me enfiavam goela abaixo, segundo que eu não conseguia manter nenhum tipo de relacionamento normal com meus colegas.

Ah e se você quer mesmo saber sim, a festa foi um sucesso, mas ficou meio ofuscada pelo meu desaparecimento repentino. As hipóteses variavam entre reabilitação, castigo ou alguma doença incurável. O que só tornava a história ainda mais incrível para eles. Para mim? Nem tanto. Por algum motivo estranho era como se aquilo que me conectava com eles tivessem quebrado. Aquelas coisas não faziam mais sentido. Ou melhor, simplesmente havia deixado de importar. Estar viva ou não parecia ser minha prioridade no momento.

Um ataque de pânico já é ruim o suficiente, meses de vigilância constante, praticamente zero horas dormidas, drogas que me tiravam do eixo e um medo absurdo é exaustivo. Quase um ano foi o necessário para me transformar em um esqueleto ambulante. Eu já estava no limite das minhas forças. Os remédios ajudavam, é claro, mas era muito difícil mesmo assim. Era como um certeza de que algo muito errado e horrível fosse acontecer e de que eu estava apenas esperando. Cada diz, cada segundo. Era completamente irracional.

Os psiquiatras perguntavam por que eu tinha aquela sensação. Afinal, havia sido apenas um pesadelo. Mas eu não conseguia explicar. Havia apenas, sido real demais. E a sensação de que aquilo era apenas o começo me deixava paralisada de medo. Meu aniversário de 16 anos foi sem dúvida o mais deprimente da minha vida. E eu passei a maior parte dele em um consultório ou sedada.

E sabe quantas vezes meus colegas foram me visitar? Nenhuma. Algumas garotas ate ligaram por pura curiosidade, mas eu não iria contar o que aconteceu para ser exposta. A mansão continuava silenciosa mesmo um ano após o acontecido. Bonnie era minha única companhia. Ela tentava ajudar e perguntava sempre como haviam sido meus pesadelos. Por algum motivo, eu não conseguia falar. Entrava em um ataque de pânico ou apenas fugia descaradamente. E eu queria contar, eu a via frustrada. Com o tempo ela apenas desistiu também e nossa relação se tornou cada vez mais distante e fria.

Então um dia, tão subitamente quanto chegaram os pesadelos acabaram. O medo foi diminuindo, os ataques sumiram. Esperei que voltassem, seria bom demais pra ser verdade. Mas era justamente isso que havia acontecido. Eu estava tão aliviada quando recebi alta que não consegui evitar de chorar. No banheiro, sozinha é claro. Parecia muito que aquele pesadelo inteiro tinha finalmente acabado.

Meus pais é claro tinham medo de mim. Como se eu fosse uma bomba relógio prestes a explodir a qualquer momento. E como eu poderia culpa-los? Depois de tudo aquilo que havia acontecido? Eu não conseguia. Se antes eu mal conseguia vê-lo isso com certeza apenas piorou. As noites no escritório se tornaram mais frequente, as viagens mais longas e eu praticamente podia dizer que morava sozinho. Partia meu coração como a solidão preenchia a casa vazia.

Mas hey, pelo menos os pesadelos passaram! Isso já era uma grande vitória para mim. Todos os dias eu tentava falar com meus pais através das suas milhares de secretárias tentando convencê-los de que eu estava pronta para voltar para a escola. Quem sabe retomar minha vida, talvez eu pudesse fingir que nada daquilo havia realmente acontecido. Mas definitivamente não era nada fácil. Demorou muito mais tempo do que deveria, quase um ano inteiro apenas conversando a respeito.

Principalmente porque meus pais queriam esconder o fato de que sua herdeira tinha ficado completamente louca e vivia enfurnada em hospícios. Como nota explicatória meus pais disseram que eu estava passando um período com a minha avó em Miami. Então mesmo depois de muita conversa por terceiros eu consegui voltar para a escola. Uma na periferia, uma que ninguém que eles conheciam poderia jamais imaginar.

O ensino era um lixo e eu não conhecia ninguém, mas definitivamente já era bem melhor do que ficar me arrastando pela mansão e me escondendo das janelas. Eu estava pelo menos tentando ver o lado positivo. Mas veja, geralmente é mais ou menos quando as coisas melhoram que elas pioram.

Quando eu completei dezoito anos, como sempre aquele maldito presente desagradável voltou para me assombrar. Em um episódio quase tão ruim quanto o primeiro. Foi a gota d'água para os meus pais. Afinal não era somente a filha problemática, era a reputação deles em jogo. Como se aquilo ajudasse em algo. De qualquer forma foi o suficiente para eles me quererem realmente bem longe da vista deles. Eles apenas não queriam lidar com todo aquele drama novamente.

Eu não duvidava que eles achassem que tudo aquilo era apenas uma maneira de chamar atenção. No dia seguinte ao ataque já havia um panfleto em cima da minha penteadeira sobre um ótimo internato para crianças problemáticas na Inglaterra. É claro, para que lidar com sua filha descontrolada quando você pode simplesmente trancafia-la em uma espécie de prisão para delinquentes ricos enquanto outras pessoas fazem o trabalho sujo? Então era ali que eu estava no momento. Algumas semanas depois, que foram necessárias para conseguir meu passaporte e toda a papelada, juntando todas as minhas roupas em uma pequena mala. Não havia muito o que levar.

Eu definitivamente não era mais a garota popular e todo aquele guarda-roupa glamouroso não me pertencia mais. Apenas algumas peças simples e escuras que pudesse me disfarçar no meio da multidão. Era estranho lembrar de antes, como as coisas eram diferentes. Como eu queria coisas diferentes. E tudo o que foi preciso pra isso tudo mudar foi um pesadelo. Para ser sincera nem eu conseguia entender como aquilo conseguia acionar um botão do pânico na minha cabeça.

Muitos médicos sugeriram que minha mente não estava conseguindo separar a fantasia da realidade. Talvez algo realmente tivesse quebrado dentro da minha cabeça. Mas por que? Não fazia sentido. E não eram apenas pesadelos... Tinham sonhos também. Que me faziam acordar suada e me sentindo... Como se eu fosse outra pessoa. Como se tudo aquilo fosse uma memória de algo que eu nunca vivi. O que é claro não fazia o menor sentido. Eles sempre estavam meio borrados. Cabelos loiros, costas largas, eu não conseguia entender. Eram como pequenos fragmentos espalhados pelos meus sonhos. Uma presença que eu não conseguia entender.

Era difícil porém inevitável lembrar e reviver tudo aquilo, agora que tudo estava prestes a mudar de forma tão drástica. Era estranho estar levando tão pouco do que eu entendia como minha vida inteira até aquele ponto. Nem mesmo um telefone celular ou uma foto. Eu começaria...Completamente do zero.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.