Sonhos completam Almas.

3 O monstro do Precipício.


Notas iniciais
Estou muito feliz por estar aqui novamente, pois significa que a história está ficando boa. Bem, como disse algum tempo eu não tinha determinado ordem de postagem ainda, mas hoje comfirmo que ela será feita toda segunda feira da semana. Mas caso ocorra algum problema, farei de tudo para não atrasar mais de um dia. Outra coisa é que vou tentar não postar só na madruga, porque cês sabem né? Fica ruim para mim e para vocês, quem não gosta de capítulo saído do forno? Em fim, obrigado por estar aqui e boa leitura meu caro.

Na manhã do dia seguinte completava metade de um dia da minha chegada em Nova Iorque e lá estava eu novamente, deitado ao lado de um mendigo chamado Wizes. O cheiro de podre parecia estar impregnado na criatura na qual eu estava escorado. Não me refiro ao homem e sim a terrível e imensa lata de lixo na minha esquerda. É até reconfortante meu alter ego xingar-me e gritar repetidamente, “O que esperava princesa? O burro virar um unicórnio e a carroça se tornar uma linda abóbora?”, pois essa seria a melhor forma de acordar para o que vivo e não sair flutuando nas nuvens prateadas.

Despertei sendo sacudido pelo velho que avisava ser quase nove da manhã, antes de dormir confiei meu relógio para ele, não acreditava que poderia roubar-me, se não já devia ter feito. Levantei desesperado e comecei a guardar algumas coisas espalhadas pelo chão.

– Onde está indo com essa pressa rapaz? – Perguntou Wizer encarando-me afoitamente.

– Preciso acertar o meu futuro... – Após a resposta escorou o corpo novamente na parede e tirou uma laranja de seu conjunto de sobrevivência, todo mendigo a longo prazo tem um, e passou a descascá-la.

Tinha apenas uma hora para encontrar uma loja de conveniência ou algo assim por perto para tomar um banho improvisado e ligar para minha família que não fazia a mínima ideia de como estava, porém contar a eles não faria diferença alguma, então preferi assim até que novas notícias viessem surgir. Eu estava indo a caminho delas, essa seria definitivamente a única chance para mudar o jogo.

Não tinha nada planejado para o caso de tudo dar certo ou nada dar certo, não sabia se voltaria para esse beco ou se reencontraria o senhor Wizes. O mesmo comia a laranja pensativo e em seguida me olhou e deu um sorriso dizendo.

– Vá com Deus meu rapaz, espero que alcance sua cabana... – Metáforas e palavras novas, ele passou a noite me dizendo cada uma delas. Mas naquele momento uma certeza veio a mim, e então respondi para ele.

– Agradeço a você, senhor Wizes... Mas a melhor forma de fazer isso será ajudar-lhe da mesma maneira... Quando mudar de vida, o levarei junto.– Virei as costas para ele e o deixei com uma expressão surpresa. Disse também que talvez eu voltasse mais tarde.

Era uma completa insanidade, pois dizia como se tudo fosse melhorar da noite para o dia, como se logo encontrasse um lugar para morar e um bom emprego. Mas essa era a minha melhor tática para tentar pensar positivo, entretanto eu sabia a verdade e planejava apenas ajudar alguém que me ajudou.

Senhor Wizes era um ex-militar de quarenta anos que morava no sul da Califórnia com os três filhos, sobretudo, um dia o mais velho o tirou a casa e então ele partiu para a residência do caçula que o desprezou. Por último tentou morar com a filha do meio, mas meses depois a mesma sofreu um grave acidente de carro e faleceu deixando suas duas crianças com o marido que logo o expulsou. Parecia irônico vendo o que diziam sobre as pessoas acima dos trinta anos, podiam ainda conseguir emprego, ter boa aposentadoria e etc. Mas o pobre homem teve diversas portas batidas em sua cara e sem mais para onde ir encontrou abrigo na própria rua. A ideia de cuidar de um mendigo como um avô ou pai é insana, mas se formos parar para pensar o que já podia ter acontecido caso fosse outro o morador de rua, talvez não seria tão maluca assim, já que são poucas as vezes que não encontramos em uma pessoa a ganância ou o egoísmo excessivo.

Após sair de perto de perto de “casa”, corri de modo que não levantasse indesejáveis suspeitas e alcançasse uma cabine telefônica que vi na noite passada. Disquei o número que demorei a lembrar e torci para que atendessem. Alguns segundos de reza até ouvir a voz suave da minha querida e espalhafatosa irmã.

– Alô quem fala?

– É o dono de seu novo quarto temporário.

– Erick! – Gritou animada e me ensurdeceu, em seguida ouvi a voz de meu irmão e mais ao fundo de meus pais.– Está tudo bem? Como foi na faculdade? Quem é o seu colega de quarto? Fala maninho!

– Calma mulher! – Aquele “calma” não era para ela e sim para mim, mesmo que eu tivesse pensado por um bom tempo na lista de boas mentiras, perguntas assim ainda me calavam e o receio de me contradizer em uma resposta era real. Pensei em qual opção falar, e não cheguei a lugar algum, então tudo saiu entalado. – Foi legal e estou ótimo... Legal, muito legal, é...

– E quem é seu colega de quarto? Ele é bonito? – Nesse momento me matei de rir, não pela pergunta e sim para quem ela era feita.

– Eliza, sou homem entendeu? Não olho para outros caras dessa forma que você faz, ou que as mulheres fazem. – Aquela criatura parecia enlouquecer a cada dia mais. É óbvio que não faço a mínima ideia se o outro é bonito ou não, sei que eu sou bonito.

– Ah, deixa de frescura dona Ericka ou quer que eu conte o que o médico achou quando você nasceu? Mas então, quem é o seu colega? – Perguntou ela já entediada, minha cabeça não forneceu nomes rápido, até porque não planejei nomes, então coloquei qualquer um em jogo.

– Julie! – Epa, arrependi-me por ter dito aquilo, afastei o telefone e soltei um palavrão.

– Ah? É ela? – Ela deu altas risadas após falar alguma para, provavelmente, meu irmão.– Já saíram?

– Não, não era esse o nome, é...

– Ah cara, para que esconder, eu sei que você deve estar todo abestalhado por nunca ter uma amiga... Namorada... – O áudio foi abafado com as risadas dos dois idiotas de plantão. Tudo bem que eu nunca tiver namorada, de verdade, mas isso nem importa mais. Esperei alguns minutos para que as risadas parassem. Mas nada, então desliguei e liguei novamente escutando agora a doce voz da mulher da minha vida, ela estava fazendo falta agora.

– Alô meu filho? Está tudo bem mesmo?

– Sim, mãe. – Disse jogando os problemas longe e correndo.

– Bem mesmo? Você está com a voz desanimada.

– Cansaço.

– Está comendo bem? Dizem que as pessoas vivem tão sempre apressadas que nem tenham tempo para comer direito ai.

– Sim, é ótima a comida de Nova Iorque. É verdade, o cotidiano dos Nova-Iorquinos é assim, mas vive assim quem quer. – Fiquei mais alguns minutos contando mentiras e ela com seu impressionante intuito de mãe continuou a investigar meu “cansaço”. Logo depois ela não conseguiu se despedir, pois chorava mais que falava.

Está bem, eu sei que não é a coisa mais “macho man” como devia ser, mas nem o sujeito mais “homem” suportaria ouvir sua mãe chorar de saudades depois de inconscientemente engolir mentiras sobre o estado de seu filho e o mesmo lembrando de tudo que aquela mulher fez para ele. Larguei o telefone na cabine e sai de perto da mesma ouvindo por último a voz do meu pai me chamando. Peguei meus óculos escuros e segui para uma loja de conveniência para arrumar-me antes de encontrar com o reitor da universidade que disse que tentaria dar um jeito no meu problema. Malditos Problemas.

* * *

Acordei disposta, tinha de trabalhar só as quatro então passaria a tarde estudando e a manhã dormindo e aproveitando para puder ir para meu segundo emprego à noite.

Assim que cheguei em Nova Iorque fui hospedar-me no apartamento da minha prima e em seguida encontrei o emprego na lanchonete, salário bom, mas tinha livros para comprar e sem contar que teria que ajudar nas despesas, então resolvi procurar um segundo trabalho recomendado por uma colega do café. Parece que procuravam alguém para balconista em uma boate, mas eles queria mesmo uma cantora, então me escrevi, entretanto essas pessoas não podiam ser reconhecidas, uma medida colocada para não haver conflito entre a vida pessoal e profissional do artista. De início tive receio, pois alguns diziam que as garotas eram mais para meninas de programa. Só que descobri que o que acontece fora da boate não tem muito a ver com seu interior e isso era meras especulações. Então não pestanejei em aceitar o emprego já que sempre gostei de cantar então não seria um problema trabalhar com isso duas vezes por semana. Até agora não tive complicações com o fato de descobrirem quem sou e isso é mais que bom.

Tentava ignorar um ruído vindo de algum lugar que eu não queria saber, queria continuar dormindo em paz, porém o barulho aumentava e acabei por perceber que o mesmo vinha da cozinha. Levantei rápido ao pensar que poderia se tratar de um bandido e escultar uma forte batida. Dirigi-me ao cômodo pegando um grampeador para me defender. Quando estava próximo da entrada, entendi que o “ladrão” se tratava de Dominick que vestida para trabalhar assaltava a geladeira. Suspirei aliviada por isso.

– Ah, é você? Pensava que poderia ser algum bandido. Se fosse pensaria que eles estavam a nos rodear.

– Bandidos? As oito da manhã? Ladrão vem só até as seis e seu primeiro lugar é a sala.

– Depende, se ele tiver com fome. – Zombei e ela me empurrou e continuou a comer. Olhei aquele seu visual e me encolhi, pois mesmo vestida apenas com um uniforme simples de secretária ela era linda, e eu ao seu lado não passava de uma formiguinha. Balancei a cabeça para esquecer esses meus pensamentos que forçava a ter e resmunguei indo em direção a sala.– Entendi...

– Vão ligar para cá as dez, é da agência de viagens, você só tem que se passar por mim e dizer que sim. Só!

– Ok, agora deixa eu dormir em paz, pelo amor de Deus!

– Está bem, tchau! – Joguei-me no sofá e apertei o travesseiro, a última coisa que me lembro é ouvir o barulho da porta se fechando, pelo menos agora tenho certeza que não seremos roubadas de verdade.

Eu andava pela floresta desnorteada sentindo o vestido longo pesar, ele parecia-se com os de um conto de fadas, era bege e tinha alguns detalhes pretos na cintura e borda. Olhei para minhas mãos e elas estavam sujas de terra e pelo que sentia nos pés, descalça. Virei para todos os lados e só o que vi foram árvores, folhas batendo e o silêncio. Observei-o até sentir algo segurar meu braço e logo o puxar e quando virei para encarar a criatura ela me apertou contra si e suas garras atravessaram meu peito e pressionaram meu coração e o arrancarão. Tive talvez a dor mais ilusionista da minha vida e como pedido de socorro agarrei as vestimentas do monstro que sorriu diabolicamente e me deixou caída no chão. Tentava respirar, mas estava tão sufocada que meu cérebro parou.

Acordei assustada e respirando o máximo que possível, coloquei a mão sobre o peito e senti meu coração bater forte e agradeci por ele está ali. Sorri depois de segundos ao notar que era só um sonho, fazia tempo que não tinha um e justamente quando tenho são os piores.

Peguei uma almofada e a abracei e sai do sofá, iria acordar Emi, estava cansada de ficar sozinha. Mesmo que pareça infantil, sempre detestei ficar só, seja no claro ou escuro, sempre me traz sensações ruins. Bati na porta do quarto e ninguém abriu, bati novamente e nada, então resolveu entrar e me deparei com a garota jogada na cama enrolada nos lençóis e como uma criança puxei tudo e me joguei ao seu lado nos embrulhando. Observei ela dormir e percebi que ela se parecia com um anjo.

– O que faz aqui? – Sussurrou assustando-me.

– Não consegui dormir... Sonhei com um monstro arrancando meu coraçãozinho.– Fiz minha típica cara de desgosto. Emi se sentou rápido e me olhou um pouco surpresa.

– Eu já sonhei isso! – Quando ouvi aquilo fiquei um pouco interessada, mesmo sabendo que viria assunto desagradável.

– Antes do dia em que o Sthurt colocou fogo na minha casa. – Do modo que ela falou, muitos pensariam que ela estaria a falar de um amigo, inimigo, vizinho ou até ex-namorado. Mas Sthurt era nada mais, nada menos que seu pai.

Na época que ela contou-me sobre seu pai, parecia que ainda não tinha superado a raiva e a dor. Depois que ela que terminou, chorei escondida, não queria demonstrar pena ou algo assim, mas aquilo me fez lembrar o quanto sou fútil por pensar que tudo sempre é pior para mim. Emi ainda estava no colegial quando tudo aconteceu. Seus pais se separaram, seu irmão sofrer um acidente que o deixou paraplégico e sua mãe se casou novamente. Após todas as dificuldades veio-lhe a graça da felicidade e realmente tudo estava bem. Porém seu pai não se contentou com a separação e se tornou um perseguidor, seguia a ex-mulher para todos os lugares e quando descobriu a gravidez da mesma, pirou. Tentou atropelar o padrasto de Emilly e em seguida bateu em sua mãe, foi preso e indiciado por agressão e tentativa de homicídio. Sua família se mudou para outra cidade assim que souberam que ele seria soltou. Por meses não se ouviu mais notícias do homem, entretanto viam constantemente um carro rodear a vizinhança e no dia que tudo ocorreu a própria Emi o viu antes de ir para a escola.

Assim, quando ela vinha na calçada de sua casa viu uma luz e muita fumaça, correu em direção a mesma. O mais impressionante foi que seu pai a impediu de avançar e lhe disse que não adiantava mais, todos estavam mortos. Realmente já estavam. Seu padrasto morreu baleado junto com seu irmão, sua mãe desmaiou e ele ateou fogo no lugar. Lembro-me dela dizer que o acertou com um murro de ódio, pois sentia nojo e repulsa por ele, só que antes de continuar a agressão o próprio disse-lhe para ir salvar sua irmã que estava na varanda do local. Ela correu o máximo que pode e atravessou o fogo até avistar a bebê enrolada em um lençol com um pano sobre o nariz para não se sufocar. A pegou e dirigiu-se para o quintal a espera de ajuda.

Particularmente não compreendo a mente de seu pai, foi capaz de matar três pessoas, incluindo o próprio filho, mas privou ou se privou de acontecer algo com a criança e com Emi. Depois de tudo isso ela ainda enfrentou o homem no julgamento e seguiu em frente lembrando dele como um mero conhecido que já viu o rosto uma vez ou outra na vida. Orgulho-me cada vez mais e mais que tudo dela, pois aguentou tudo isso, coisa que eu já deveria ter desistido.

Hoje, quando fala sobre isso, não vejo o mesmo remoço e ódio que via a anos atrás em seus olhos, mas apenas um desprezo.

– Serio?

– É, pode significar algum desgosto ou infelicidade... Já ligou para suas tias? – Disse como se tivesse uma grande ideia.

– Não! Nem vou ligar, está tudo bem.

– Tem certeza? – Levantei-me da cama dela e a mesma me seguiu.

– Tenho e não vou ligar coisa chata.

– Bem, depois não diga que eu não avisei.– Ignorei suas palavras e segui para o meu quarto, aquela semelhança feita por ela estragou minha vontade de continuar dormindo de conchinha. Então resolvi trocar de roupa para o café da manhã.

Emi:

"Arthur está tudo legal na casa de seus tios? A Julie está preocupada.”

Arthur:

“Ok!”

Notas finais
Desejo receber muitos comentários, caso não... Não faz diferença, ler e acompanhar já significa muito que só. Beijos a vocês e até o próximo.