Sonhos completam Almas.
2 O Heroí do resto, e não o seu.
Notas iniciais
Depois que dei as costas para o Reitor da Univercidade Sant Helena e passei por aqueles portões, a subita vontade de chorar surgiu e a sensação de ver minha vida toda indo embora como uma fase passageira também.
– Não sabia ao certo para onde ir e nem o que fazer. Aquele era o plano perfeito de vida para mim.
– Um fracassado.
– Uma fracassada.
– Vindo do nada.
– Vinda do nada.
– Aqui também não há chances para nós.
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E aqui estou eu. Erick Silven o melancólico da vez, apenas sentado em uma mesa de uma lanchonete peculiar pensando se voltou para o buraco de onde sai e termino de destruir meu auto-estima provando meu fracasso e apunhalando o coração do homem e da mulher que tanto se sacrificaram para me darem a melhor educação na qual esse estado não reconhece como existente. Era verdade que parte de mim dizia para desistir, quem não teria essa parte depois de tanto correr para alcançar o ônibus espacial que passava de 1 milhão em 1 milhão de anos? Mas como o bem e o mal existem, havia o outro que reconhecia o seu esforço e se lembrava de o quanto meus pais trabalharam para conseguir o dinheiro que eu tinha em mãos. Ou parte dele, se preferir.
Depois de muito pensar de fato não cheguei a lugar algum, caçava um motivo menos manjado para desistir e não entregar a luta, mas minha cabeça latejava de dor. Aquele não podia ser o fim, não mesmo.
Para aliviar o desconforto mental, apoiei a cabeça sobre a mesa e passei os braços em volta dela. Diria que fiquei assim por um longo tempo até ouvir murmurinho, inicialmente não dei importância e continuei na minha até ver a sombra de um objeto se pôr a minha frente e o mesmo encostar nas minhas mãos. Levantei o olhar e me deparei com uma garota bastante bonita a minha frente. Seus cabelos eram loiros naturais e ondulados até o ombro, olhos pretos que era de se perder ao encará-los, sua aparência era simpática e partindo para a palhaçada, seu uniforme de garçonete também. Ela me encarava em busca de uma reação.
– … – Não sei explicar o que acontecia no momento. Não era aquela coisa de um encarar o outro sem palavras, como costumava ler nos livros chatos de romance da minha irmã,pois cada um se analisava com um objetivo. Estavamos apenas esperando alguém se pronunciar, e com toda certeza esse não seria eu.
– Coma... – Olhei para o objeto a minha frente e percebi que se tratava de uma bandeja com uma fatia de bolo e um café com leite.
– Não, muito obrigado. Eu não tenho dinheiro para pagar.
– Eu sei... Mas mesmo assim aceite, você não parece bem.
– Mesmo sendo de graça, eu agradeço, mas não estou com fome.– Sinceramente, eu não tinha comido nada desde minha chegada à cidade, alias assim que saltei na estação de trem não perdi tempo e fui direto a tal faculdade sem parar em lugar algum para lanchar. Se dissesse que a refeição sobre a mesa não era tentadora, certamente um raio cairia sobre minha cabeça.
– Não seja orgulhoso garoto! Estou-lhe oferecendo esse lanche de graça.– Repetiu a tal jovem que agora mais se parecia com minha tia falando. Eu ia recusar novamente, mas algo aconteceu. A brisa que percorria toda aquela primavera passou a fluir por todo o espaço do restaurante até chegar a minha mesa e alcançar o café ou a fumacinha dele que invadiu minhas narinas, enganou meu cérebro e alcançou meu estômago, se possível, que roncou em resposta. A garçonete desconhecida sorriu vitóriosa e se sentou animada. Eu não ousei dizer nada, só corri para o bolo. – Então de onde você veio? – Perguntou se ajeitando na mesa.
– Village Breankin. É uma cidadezinha do Texas. – Respondi com dificuldade, estava mais querendo comer.
– Ah! Que legal. Tenho uma amiga que viveu lá também. No Texas, não na cidade.
– Que interessante...
– Qual é seu nome?
– Erick... Erick Silvien.
– Prazer, eu me chamo Emilly Mick... Mas pode-me chamar de Emi ou Milly... Como preferir.
– Prazer é meu, Emi.– Disse estendendo a mão para lhe comprimentar, porém a garota encarava a mesma com nojo. Nojo? Olhei para elas novamente e vi a lambança que estavam. Desse jeito nem eu a tocaria. Mas idaí, estou apenas querendo comer.
– O comprimento pode ficar para depois Erick.– Disse ela com um sorriso tridente.
– A conversa também Emi... – Interrompeu uma garota também vestida de garçonete. Seus cabelos eram ondulados e castanhos claros, estavam presos em um rabo de cavalo, por trás de seus óculos podia se ver que seus olhos eram de um azul amedrontante, nem tanto, mais ainda assim me assustava.
– Ah essa é a Julie. A tal garota também Texas.
– O que? Ah, não importa o que seja, vamos logo atender as mesas antes que joguem café em você novamente.
– Você não é minha patroa. Eu sou sua patroa.
– Então pergunte para Cíntia o porquê ela me deixou responsável por você e não o oposto.
– Você faz a unha dela!
– Tá. Tá...! – A tal garota de olhos assustadores puxou Emi do banco e a empurrou para longe. A cena era engraçada e até me animou, mas me pergunto o porquê a outra garçonete não notou minha presença. Não que eu me achasse o tipo de cara que todas as moças prestem atenção, pelo contrário, aquilo era costumeiro. Porém eu não sou filho de rato que nasce pelado, tenho lá minhas belezas e pelo menos olhá-las e rejeitá-las já está em conta.
Depois do acontecido resolvi ficar mais algumas horas naquela lanchonete. Parecia inacreditável, mas depois de muito tempo peguei meu bloco de notas de dentro da minha mochila e passei a ter ideias para escrever versos que prestassem. Era uma forma de ver o tempo passar sem se preoculpar. Se preoculpar com o quê e como faria o quê depois dali. Estavá-me sentindo um idiota ali, a grana que tinha mal dava para pagar o pior motel daquela cidade e aquilo era tudo que tinha sobrado do dinheiro da passagem.
Enquanto criava mais um poema qualquer, notei a lenta aproximação da garota de olhos azulados.
– A Emi me contou sobre você... Não liga para ela, às vezes é chata mesmo.
– Não, está tudo bem.– A garota continuou a me observa e por fim terminou sua análise.
– Bem, espero que o lanche tenha-lhe feito bem. Mas a lanchonete precisa fechar.– No mesmo momento congelei e olhei ao redor, não havia ninguém mais lá. Realmente a idiotice podia aumentar. Sem dizer mais nada concordei com a cabeça e guardei meu bloco e em seguida peguei minha mochila e sai do local pensando qual seria meu próximo abrigo. Uma boate?
* * *
O tal rapaz esquisito saiu pela porta, parecia confuso. Deixei a expressão do mesmo de lado e fui em direção de Emi que limpava o balcão.
– Ei Emi?
–Sim?
– Você conhece o tal garoto que acabou de sair?
– Ah! O Erick?
– É o nome dele?
– É... Não, o conheci agora.
– Ele é esquisito...
– Viu a mochila dele?
– Não, o que que tem?
– Era uma mochila de bagagem, provavelmente acabou de chegar na cidade.
– Ele ficou sentado naquela mesa por horas...
– Parece ser uma boa pessoa.
– Aparência, Emi.
– Que seja. Bora logo fechar essa lanchonete.– Depois que terminarmos de ajeitar algumas coisas no Café, eu e Emi formos embora para casa a pé, já que hoje não teríamos carona.
Eu estava naquele mundo Nova Iorquino a um ano e ainda não tinha conseguido dinheiro suficiente nem para uma bicicleta. Com o salário que ganho trabalhando meio período na lanchonete infelizmente só dar para pagar o apartamento junto com minha prima e Emi. Nos moramos juntas e dividimos a despesas por quem ganha mais. Dominick fica com o aluguel e a Internet por trabalhar de secretária, Emi com a água por se apenas garçonete, e eu fico com a luz que nem é Filé e nem Chibé. Quando cheguei na cidade a primeira pessoa a conhecer foi Emi, pois ela já morava com minha prima. Ela me recomendou a vaga na Lanchonete e até hoje trabalho lá. As duas me ajudaram muito e o pior é que ainda não encontrei forma alguma de agradecê-las.
Como dizia, nós duas não temos carro ou algo assim e as vezes pegamos uma carona com Dominick se ela sair cedo do trabalho ou não ir com seus amigos para algum lugar. Caso isso aconteça era ir a pé ou pegar um transporte público. Mas a essa hora com certeza não passava mais ônibus.
O tal apartamento não era nada longe, mas aquelas ruas escuras e silenciosas davam medo. Emi parecia não se importar, já eu segurava seu braço com força a cada sombra que passava. Faltando menos de um quarterão, algo estava estranho. Em qualquer outra situação diriam que eu estava doida, mas naquele momento o meu senso de sensitividade dizia que havia algo muito errado. E como forma de aviso apertei o braço de Emi e me virei para trás sendo seguida por ela e lá estava o motivo de meu mal pressentimento.
* * *
Depois de sair do tal estabelecimento, passei a andar sem rumo procurando um lugar quente e aconchegante para passar a noite ou as noites, depende do tamanho da minha desgraça. Andei tanto que nem me lembrava em que rua eu estava, mas não deixava de olhar para os cantos em busca de um beco e um mendigo para me fazer companhia.
Antes de dobrar a esquina pode ouvir uma descursão vindo da mesma. Me aproximei mais percebendo que não se tratava de descursão e sim de um assalto, pois o rapaz segurava um objeto, provavelmente uma faca, e a apontava para a garota que segurava sua bolsa com força a puxando da mão do bandido. Havia uma outra jovem atrás e pedia para ela larga a bolsa.
– Larga a bolsa jovenzinha, eu só quero a bolsa...
– Amiga solta a bolsa, deixa esse louco levá-la, nada é mais valioso que que sua vida.– Tentava convence a garota que continuava a recusar-se dar o objeto. Sabia que aquilo não daria certo e caminhei as pressas até o lugar.
– Cala boca seu filho da mãe. Você não tem o direito de pegar as coisas dos outros. Vê se vai se ferrar! – Talvez aquilo fosse o fim da picada para o bandido, mas para mim foi o que veio em seguida. O homem farto com as palavras da menina, puxou seu braço com força a jogando no chão e pegando sua bolsa.
– Eu falei para você soltar menina! Mas você deu uma de teimosa então... – A outra garota tentou intervir mais foi empurrada para trás. Acelerei o caminhar que viraram de passos normais para um correr, e quando o tal bandido se aproximava da garota jogada no chão, saltei sobre as costas dele e o empurrei para o chão. Rapidamente me coloquei em posição de ataque e passei a dar alguns murros em seu rosto. Esse foi o máximo que aprendi com meu irmão, pois ele não queria que eu fosse melhor que ele, bestice fraternal.
Quando consegui imobilizar o homem no chão, me levantei e o acertei com um chute nas costelas. Assim sua recuperação custaria e não voltaria tão cedo as ruas. No início meus golpes simples eram uma tentativa de salvação, mas admito que me aproveitei de vê-lo no chão machucado e lhe dar mais alguns chutes por raiva. Da vida.
– Eu quero ver se depois dessa você volta para as ruas! Porque se eu ver seu rosto novamente... – Queria que nesse momento estivesse cuspindo sangue, talvez isso completasse a cena “ Heroí do dia.” Mas só não estava acontecendo isso porque não dei chance para ele se defender e por ter o surpreendido por trás. Nada mais. Não quis terminar a frase então me encaminhei até a moça jogada no chão e lhe estendi a mão, ao se levantar com minha ajuda encarei os olhos da garota e me lembrei de sua presença na lanchonete.
– Você...? Está bem...?
– Um pouco, me esfolei no asfalto e... – Ela tocava no seu rosto provavelmente a procura de seus óculos, apontei para o objeto sobre a calçada e seu olhar tornou-se de decepção. Eles haviam quebrado ao meio, nada que não pudesse se resolvido.
– Droga e agora? – Pensei em mil resposta para dar, mais saiu a mais bem elaboradas de todas.
– Eu conserto.– Ela me olhou perplexa e eu continuei.– Tenho um amigo que pode consertar. Não cobrarei nada... – Parecia meio ridículo a minha mentira, tanto que ela pensou por um bom tempo e respondeu.
– Ficará pronto até a amanhã?
– Com toda certeza.
– Então... Está bem. – Disse ela entregando o que tinha sobrado dos óculos ainda com um pouco de receio. Os guardei na mochila e olhei em direção ao local que a outra garota se encontrava, para minha surpresa era Emi. Ela estava desarrumada e permanecia encarando o bandido um pouco longe. Mesmo desarrumada e assustada, ainda continha um leve traço de serenidade e delicadesa em sua face. Assim que me olhou disse animada.
– Erick...? Você fez aquilo com o bandido? Meu Deus, obrigada.– Ela se aproximou e me deu um abraço que me fez gelar, mas na verdade o gesto era só pura gratidão. Era também estranho ter aquela garota fazendo aquilo, nós mal nos conhecíamos direito.
Andamos alguns minutos mais a frente, e logo as duas pararam em frente a um prédio dizendo que aquele era o apartamento delas, dito isso percebi a expressão de incomodo da garota de olhos estranhos. Se tratava de um imóvel simples e bastante decorado, pois na base das janelas havia alguns vasinhos de flores bastantes bonitas. Parei de presta atenção no prédio e desviei a atenção nas duas garotas que me analisavam.
– Então, espero que estejam bem mesmo.
– Estamos, mas obrigada novamente por nós ajudar. – Emi me abraçou novamente e eu congelei com o ato.– Bem, vou ver se a Nick já chegou. Tchau Erick até qualquer dia.– Disse a loira entrando no tal apartamento e gritando o nome de outra pessoa.
– Amanhã com toda certeza seus óculos estarão prontos. – Disse com um sorriso de despedida, mas fui novamente surprendido pela quase tentativa de abraço da outra garota, mas recuei e ela desistiu.
– Obrigada pelo que fez... – A jovem deu as costas e entrou no prédio mancando. Talvez tenha lhe trazido a aparência de estranho viajante ou tenha achado que eu estava as seguindo e iria invadir seu apartamento, e mais a frente.
Suspirei e peguei minhas coisas do chão e fui embora, sem antes dar mais um chute no cara que parece que demoraria um bom tempo para se levantar dali. Andei mais um tempo até ficar realmente exausto, nos três becos que encontrei antes do quarto, tinha: mendigos nada amigaveis, bêbados, caras tatuados, e drogados. No último que me deparei, estava apenas um homem de uns quarentas e poucos anos com uma vela acesa lendo um livro. Aquilo me surpriendeu de uma forma semi-igual, era completamente raro encontrar alguém daquela forma. Eu sem muito hesitar me apresentei e perguntei se podia ficar, ele olhou-me da cabeça aos pés e assentiu ainda scaneando. Depois disso nada falamos até ele recitar uma frase do livro que lia e eu me interessar e a conversa brotar. Nas altas horas da noite a conversa fluiu tão bem, realmente precisava de alguém para desabafar, e na situação que estava pouco me importava se não fosse com um psicólogo graduado. Disse tudo que tinha a dizer. Seu nome era Wizes e foi com ele que dividi um cobertor. Foi com ele que contei quando estava estupidamente ferrado. Foi ele que foi meu pai naquela noite e que se dane a infantilidade. Aquela noite ficou na história, aquela droga de dia ficou na história, na minha história. E com esse pensamento dormir para me preparar para mais uma guerra e cem tiros
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