Sonhos completam Almas.
5 De passado á velha ranzinza.
Notas iniciais
Emi andava de um lado para outro a fim de juntar seus materiais para ir a universidade, cursava Psicologia à tarde, porém só teria que sair mesmo às duas, questão de organização com enormes aspas.
Aquela sua movimentação estava irritando-me e segurava-me para não acertar o controle nela.
– Emi sai da minha frente e para de andar feito mosca – Pedi educadamente para a loira que colocava sua cabeça na frente da TV procurando seu par de brincos na cômoda.
– Eu deixei eles aqui! Será que a Nick escondeu? – Desliguei a televisão irritada e levantei-me encarando Emilly.
– Pega outros?
– Eu gosto daqueles e... – Seus olhos foram de encontro ao sofá e os segui, quando vi os objetos de baixo da almofada que me apoiava cai na gargalhada e fui empurrada para o lado.
– Sua chata! Quer meus brincos, pede.
– Eu não os peguei! Eu juro... – Ela cerrou os olhos parecendo analisar meu caso.
– Está bem, chata... Agora me diz como estou? – Virei minha cabeça manhosamente como uma criança no encosto do sofá e me surpreendi com o que vi.
Emi usava uma roupa estilo primavera feliz. Seu vestido era de cor azul marinho e nela havia estampado borboletas roxas. O tecido era leve e solto, sua sapatilha branca e encantadora combinava com o casaquinho beje. O cabelo ondulado permanecia solto e a maquiagem era apenas um gloss rosa clarinho e umblush um pouco mais escuro que sua pele. Estava perfeito para o dia.
– Meu Deus? Para quem é isso tudo? – Saltei do acento e fui até ela para admirar a donzela que eu com certeza me casaria em outras vidas.
– Para ninguém, acordei com disposição de estar bonita.
– O que digo para eles?
– Eles quem? – Olhou-me confusa sorrindo.
– Os caras que vão aparecer apaixonados – Ela soltou uma gargalhada e se retirou para a cozinha.
– Ah, você fala isso porquê o tempo todo aparece carinhas atrás de você e acha que eu preciso também – Parecia que estava falando com a Nick, até me ofendeu um pouco, pois não sou tão assim.
– Que carinhas já? – A segui para a cozinha curiosa e parei na porta. Por alguns segundos nada disse, apanhou a jarra com café e uma xícara, encarou-me rindo e ressaltou.
– O Gustavo... – Engoli um nó após o nome. Ele era um bom rapaz e bonito, mas isso não queria dizer que eu realmente interesse-me por ele.
– Ele é... Meu... Meu. Amigo – Falei gaguejando e pelo que aquela loira me conhecia, sabia que era... Mentira.
– Aham... Se for isso, eu não estava vendo direito quando vocês estavam quase a se bei... – Graças a campainha ela não pode terminar, sorri por isso, mas tudo ficaria ruim se quem estivesse atrás da porta fosse o Gustavo. Emi me fitava provocadoramente sentada a mesa tomando café da “manhã”.
– Vai abrir a porta para o “amigo” lá – Sussurrou com um sorriso divertido e antes de chegar a porta, passei pela mesinha de madeira e a balancei vendo seu café derramar.
Após sorrir vitoriosa fui em frente à porta, ajeitei o cabelo e alisei a roupa suspirando o mais fundo que pude e puxei a maçaneta. Quando vi, fiquei feliz e surpresa.
– Oi? O que faz aqui? – Perguntei para Erick disfarçando minha alegria por não ser o Gustavo. Ele se aproximou da entrada e sorriu.
– Vim entregar seus óculos. Já estão prontos – Tinha realmente esquecido completamente de estar sem eles, é esquisito, mas já estava acostumando-me a enxerga nublado, embaraçado, nem tropecei tanto.
– Tão rápido?
– Não, é que meu colega não estava na loja, então eu mesmo consertei – Peguei o objeto de sua mão e abri a capa, estava com capa! Olhei o trabalho incrível. Não parecia que quebrou ou algo assim. O encarei mais surpresa e ele apenas continuou sorrindo.
– Obrigada, espera aqui, eu irei pagar-te. Quanto quer?
– Nada, não precisa. Foi apenas um favor.
– Que nada, espera ai – Entrei ainda encarando os óculos e fui até a sala pegando uma nota e indo até a porta. Emi ao me ver perguntou de boca cheia, e eu apenas entendi por leitura labial.
– Qom ê?
– Erick, ele consertou meus óculos – Chegando lá, fui seguida por Emi que surgiu atrás de mim quase empurrando-me.
– Oi!
– Oi Emi – Por algum motivo o sorriso daquele rapaz aumentou ao ver a loira que o abraçou de forma descontraída.
– Aqui está e obrigada pela ajuda.
– Só cinquenta Julie? – Emi se atreveu e colocou mais vinte.
– Não, serio, não precisa – Não dei muita importância para o pestanejo do rapaz e pũs as notas em seu bolso da camisa dando uma batidinhas. Sai para sala e pode ouvir Emi convidar o rapaz para tomar um café, ele recusou e ela o obrigava a aceitar. Tive que intervir.
– Garota chata, o menino não quer!
– Você não quer mesmo?
– Não estou com fome.
– Mesmo assim entra – O puxou em direção a mesa que ela comia, se não fosse o suficiente, o obrigou a se sentar. Só não queria ser ele. Fechei a porta e fui para a cozinha sussurrando para Emi.
– O que está fazendo?
– Ajudando um amigo.
– Amigo? De quem?
– Nosso! Ele nos ajudou quando aquele bandido tentou nos assaltar, ele consertou seus óculos.
– Nós já agradecemos.
– Minha mãe dizia que pessoas assim no mundo não são faces de encontrar, mas é rápido que se perde. Então se achamos um bom amigo, por que não ajudar? Se ele nos ajudou? – Aquele argumento dela foi forte, tão forte ao ponto de me tirar as palavras.
– Mas... Mas a gente não o conhece.
– E por isso você quer eliminar a oportunidade de conhecê-lo? – Nada disse, preferi ficar em silêncio no momento. Ela não sorriu, mas sua expressão foi algo como, “foi o que eu pensei”. Deu-me as costas com uma tigela de biscoitos e uma outra jarra de leite. Fiquei ali por alguns segundos, até me dirigir para a sala e sussurrar para Emi. “Vamos ter uma conversinha”.
Achei completamente estúpido chamar desconhecidos para comer aqui. Ela parecia uma mãe cuidando do filho, ou algo assim. Então preferi não me meter no momento. Fui para a TV e aumentei a mesma para não ouvir a voz de Emi falando de mim para um estranho.
– Desculpa por ela. Depois eu me resolvo – Pensei em aumentar mais o volume, mas optei por ouvir, é legal ouvir as pessoas falando de ti.
– Eu não queria atrapalhar, realmente só planejava trazer os óculos e ir embora – Era bom ouvir que não só eu concordava que a culpa é da Emi.
– A culpa é minha, mas mesmo assim, esquece... E por que você não para de ser orgulhoso? – E o melhor ainda era ouvir a própria pessoa assumindo sua culpa. Depois disso, a conversa passou a se desinteressante, tanto que ignorei até o ponto de ouvir meu nome ser citado. – Às vezes é meio ranzinza, mas é uma boa amiga. Só que quando ela se sobre sai... – Ela deu uma pausa e sorriu.– Vira uma velha completa – O rapaz, como se entendesse, riu ruidosamente. A minha vontade era de ir naquela mesa e ter uma conversinha com a Emi, entretanto só o que fiz foi levantar calmamente e sentar junto deles.
– Então a conversa está boa é? – Peguei um biscoito e fiquei enrolando com ele. Para dar ênfase ao papel.
– É, ele me disse que veio do Texas assim como você – Disse parecendo querer estabelecer alguma ligação com desconhecido, mas aquilo só me fez gostar menos da presença dele.
– Interessante. E sua família? Mora lá?
– Sim, sim.
– Eles são fazendeiros?
– Na verdade, só os meus avôs. Meus pais eram professores na Califórnia e quando se casaram foram para lá.
– Hm, faz muito tempo que veio para Nova Iorque?
– Sim, há um mês – Ele olhava para os biscoitos, com toda certeza tinha algo de errado ai, mas preferi não falar nada. O que antes era uma conversa fingida, da minha parte se tornou instigador, mas durou só alguns minutos.
Ele disse que já tinha que ir embora e Emi já estava se arrumando para ir a faculdade. Depois de algum tempo, ela voltou a falar com Erick, mas logo se despediram. Eu me preparei para sair de cena e chorar. Tranquei a porta do quarto e me escondi debaixo das cobertas. Sempre fui uma medrosa, chorona e as vezes mandona, então aquilo não era surpresa. Quando me lembrei do Texas, de pais e família, relembrei-me de morte, medo e tristeza. Só o que queria era ficar naquela cama encolhida e agarrada aos travesseiros.
Logo depois que Emi foi embora, o Gustavo chegou, bateu varias e varias vezes na porta do quarto, e eu recusei-me a falar algo. Sabia que eu estava ali, e isso acarretaria em uma justificativa futura.
Hoje o mundo rodava, mas eu ficava parada ali. Como estátua.
Fale com o autor