Notas iniciais
* Como meu dever: Grey's Anatomy não me pertence. Foi utilizado apenas como complemento.
- Boa Leitura, espero que gostem.

No dia seguinte, acordei cedo, depois de mais uma noite mal dormida, e mais um sonho apavorante.

Foi basicamente o mesmo da noite anterior, no entanto, dessa vez ao invés de ser o Bruno que atacava o Derek, era outra pessoa, que só quando acordei que fui me dar conta de que era uma menina. Quer dizer, não uma menina comum. Ela parecia brilhar cada vez que avançava com sua, bem, espada. Isso tudo estava me deixando muito, muito confusa.

O café da manhã foi calmo e quieto. Até demais. Pude perceber que meu irmão Bruno e minha mãe trocavam olhares estranhos a todo o momento, como se estivessem se perguntando se deviam ou não contar algo. Isso me pareceu suspeito. Mas, com a vida ridiculamente suspeita que eu levava, resolvi que não ia perguntar nada, uma hora, eles diriam por si mesmos.

Eu estava, no entanto, um pouco nervosa. Peter devia chegar esta noite e eu não fazia ideia de como iria mentir para ele sobre a Bia.

– Está com pressa filha? – minha mãe finalmente falou.

– Não, por quê? – perguntei confusa. Nem tinha percebido que estava comendo mais rápido que o normal.

– Está comendo tão rápido – disse ela como se respondesse aos meus pensamentos. Mamãe sempre foi atenciosa. Por mais que eu tentasse, nunca conseguia esconder nada dela. Alta e magra, com um olhar terno, mas sério, uma aparência que certamente condizia com sua profissão de médica (O que? Eu assisto Grey’s Anatomy) embora eu a considerasse bonita o suficiente para ser modelo. Seus cabelos e olhos eram iguais aos meus – castanhos.

Agora imagine o quanto seria esquisito se você estivesse andando com a sua mãe e de repente encontrasse um amigo que dissesse: “Alice, você não disse que tinha uma irmã!” Ah, eu com certeza sei o que é isso.

Mas os dias se passaram e alguma coisa mudou. Minha mãe não parecia mais a mesma. Não era à toa que eu estava conseguindo facilmente esconder dela a história de “Bia vampira”. E o pior de tudo era eu não saber o que estava acontecendo.

– Na verdade, só estou ansiosa – menti; surpresa de como as mentiram vinham cada vez mais fáceis – hoje tem prova de Química e não quero me dar mal de novo – dei de ombros. Será que ela percebeu que minhas mãos tremiam? Na realidade, nem eu sabia o porquê de demasiado nervosismo. Eu tinha certeza de que não era por causa da Bia. E nem da escola... – meus pelos arrepiaram-se ao pensar na escola. Argh, por que tudo tem que ser tão confuso; resmunguei em minha mente.

**

Eu estava na metade do caminho para a escola quando quase desmaiei novamente.

– Bom dia Lili – disse Bia.

– Meu Deus, Bia! Você poderia, por favor, fazer algum ruído quando chegasse? – ela riu – É sério, você quase me matou de susto.

– Desculpe – ela disse ainda rindo –, você está de mau humor hoje – ela franziu a testa para mim. Não era como uma pergunta. Bia sabia muito bem que dificilmente eu ficava de mau humor, mas também quando ficava...

Tremi. Estava frio.

– Não é nada, é só que eu dormi mal. De novo.

Minha amiga apenas limitou-se a acenar com a cabeça. Fomos conversando durante o caminho sobre os dotes que vinham com a transformação de Bia em vampira. Ela parecia animada.

Franzi as sobrancelhas para Bia.

– Como assim? Então você poderia andar de biquíni agora mesmo que não sentiria frio? – era extremamente emocionante a ideia de não sentir frio ou calor.

– Sim. Eu poderia entrar em uma piscina no meio de uma nevasca que não sentiria frio.

Sorri. Era incrível. Ela estava se tornando uma vampira bebedora de sangue e ainda conseguia fazer piada com isso. Entramos correndo na escola e chegando, por sorte, bem na hora em que o professor da minha primeira aula abria a porta da sala – que senso de oportunidade soberbo tem esse homem; pensei. Bia me acompanhou até a porta da sala, e se afastou sem nada dizer.

Quando sentei em minha carteira Melanie, minha vizinha virou-se para me cumprimentar.

– Oi Liss... Está tudo bem?

Eu devia realmente estar horrível.

– Oi Mel, sim eu estou bem – sorri numa fraca tentativa de convencê-la. Franzi o nariz.

Um cheiro horrível inundava a sala. Parecia mofo, só que misturado com lixo também. Era como coisas velhas jogadas de qualquer jeito no porão.

Tapei o nariz discretamente com a mão.

– Está sentindo esse cheiro?

– Que cheiro? – Mel perguntou.

– Esse cheiro – eu disse gesticulando no ar. – Eu não sei, eu... Deixa pra lá – dei de ombros e destapei o nariz. O cheiro ainda estava ali, mas não queria que pensassem nada então...

– Bom dia, classe! – o senhor Carlane por fim iniciava a aula.

Reprimi um gemido.

Ao seu lado estava um garoto – eu não o havia visto entrar. Podia até ser bonito, com olhos azuis, cabelos loiros e corpo atlético, se não fosse o cheiro. Era pior do que antes. Extremamente insuportável. E eu não tinha dúvidas de que vinha dele.

– Bem alunos... – o professor ajeitou o corpo e continuou – este é o senhor Wisly. Paul Wisly – o professor virou-se para o aluno novo – Paul pode sentar-se ao lado da senhorita Melanie – disse ele enquanto gesticulava para a carteira vazia ao lado de Mel.

Eu ainda encarava o professor com escárnio quando ouvi um baixo suspiro ao meu lado.

Olhei certa de que veria uma carranca de nariz franzido no rosto de Mel, mas o que vi me deixou mais desnorteada ainda. E com raiva também. A garota mal vira o menino e já parecia haver dois coraçõezinhos no lugar dos olhos.

O que aquele garoto tinha de especial – senão o cheiro – que deixava todas as garotas caidinhas por ele?

Todas menos eu.

Olhei para frente no momento em que ele passava me encarando. Achei que ia vomitar!

Céus, o que estava acontecendo comigo? ; eu mal o conhecia e já tinha raiva dele. Na verdade, parecia que eu já o conhecia, ele me era familiar de alguma forma, mas eu tinha certeza de que era uma forma ruim, muito ruim! E pior, ninguém parecia perceber o mau cheiro que emanava dele. Tá certo que eu podia até estar exagerando um pouquinho, mas alguma coisa nele simplesmente não me cheirava bem, e não era só o cheiro.

A aula passava lentamente, e os minutos se arrastavam. Depois, tudo piorou. Quando a aula havia acabado, dei um suspiro – me arrependendo amargamente ao fazê-lo, pois o cheiro ainda estava lá – finalmente aquele pesadelo teria um fim. Até por que, minha próxima aula era de Espanhol, e nem a Bia conseguira fazer junto comigo, quais seriam as chances de...

Parei num ímpeto.

Droga! Como ele consegue? ; Resmunguei em minha mente.

Fui sentar em minha carteira enquanto ele me analisava. Eu podia sentir seus olhos em mim. Tive vontade de me virar e perguntar se ele havia perdido algo, mas a professora Kate chegou e eu tive que prestar atenção.

Ou pelo menos tentar. Porque além do cheiro insuportavelmente insuportável, um turbilhão de pensamentos agitava minha cabeça. Eu ainda não havia esquecido a noite de domingo. Tê-lo visto me fez sentir um algo que há muito tempo eu não me permitia sentir. A esperança. Mas por que ele demorava tanto para aparecer? Tive que me esforçar para lembrar que estava na escola, no meio de uma aula para não chorar. E isso deu muito certo quando a senhorita Kate interrompeu meus devaneios com uma pergunta que eu não fazia a menor ideia de qual era.

– E então Alice?

– Er... Como? – olhei em volta e percebi que todos os alunos estavam olhando para mim. Ótimo, na verdade, magnífico. Isso me deixou mais nervosa ainda.

– Qual palavra eu uso nesta frase? “Muy” ou “Mucho”?

Por sorte eu havia estudado o capítulo 5 na última semana. Resultado de uma vida social falha.

– Ah, é... Desculpe! Usa-se “mucho” professora. “Yo tengo muchos libros”.

– Muito bem – a professora endireitou os ombros e é claro... – da próxima vez, trate de responder mais rápido, senhorita Alice, nós só temos 50 minutos de aula! – ela não ia perder a chance.

Quando a aula acabou, eu não fazia ideia do que a professora havia falado, senão a bronca. O sinal tocou então, anunciando o intervalo. Joguei tudo na minha bolsa e saí o mais rápido que pude dali. Eu já havia decidido. Ia matar aula. Afinal, eram só mais duas de Ed. Física mesmo. Tenho certeza de que a professora não daria pela minha falta, muito menos do meu ótimo desempenho em esportes.

Mas tudo isso não foi o suficiente!

De algum jeito ele conseguiu sair antes de mim, e agora, ele estava parado na minha frente encostado na parede, me olhando com os olhos apertados numa expressão de frustração.

Merda! Lá se vai o meu dia.

Eu estava prestes a virar quando ele me chamou.

– Alice?!

– Como você sabe o meu nome? – perguntei, fazendo a minha cara mais ameaçadora o possível. Ele ergueu uma sobrancelha; ótimo! Eu o peguei de guarda baixa e com toda certeza ele sabia que eu estava brava!

– Ouvi sua amiga te chamar – ele deu de ombros querendo parecer desinteressado.

– Ah – virei-me e comecei a andar em direção ao refeitório. Infelizmente, ele pretendia me acompanhar. Droga! Onde Bia se mete numa hora dessas?

– Humm, sua próxima aula é de Ed. Física, não é?!

Decidi que simplesmente ia ignorá-lo. Talvez ele percebesse que eu não queria conversa e fosse embora.

– É que... Eu também tenho essa aula; não conheço ninguém e não queria ficar sozinho...

De certa forma, eu me solidarizei com ele. O garoto acabara de chegar, e não tinha a menor culpa por eu estar nervosa. Talvez nem soubesse do mau cheiro...

– O problema é que... – pigarreei – Eu vou ter que ir embora mais cedo.

Andamos mais alguns segundo pelo corredor até chegar ao refeitório, onde parei para procurar Bia com os olhos.

– Lili! – ela gritou do fundo do refeitório. Estava sentada em uma mesa mais afastada. Foi quando seus olhos pousaram em Paul. Sua expressão mudou por um milésimo de segundo. Seu sorriso se tornou uma linha dura, completamente reta. E seus olhos, semicerrados, brilhando de um brilho intenso. Os olhos de um vampiro.

Desde que ela se transformara, eu nunca a havia visto parecer mais como uma vampira, quanto eu a vi neste momento.

Ela veio, então, até nós, em seus curtos passos de Cinderela. Olhei para Paul sem entender nada, mas sua expressão nada transparecia. No entanto, seus olhos eram frios, raivosos. E de repente me veio à cabeça, do nada, uma pergunta que me intrigou muito; se a Bia era uma vampira, isso quer dizer que vampiros existem (dãar-isso é lógico). E se vampiros existem, isso quer dizer... A Bia pode até se controlar, mas e os outros? E as pessoas das quais eles se alimentam?

Neste instante, aqueles grandes olhos azuis me pareceram mais assustadores do que bonitos. E se fossem falsos, assim como os de Bia? E se Paul fosse um vampiro? E se aquelas lentes azuis escondessem o verdadeiro eu de Paul? E se mais alguém da escola fosse vampiro? Tá legal...; tentei dizer a mim mesma para me acalmar. “Você mal o conhece, Lili”. Me impressionei com o quão fácil parecia ao falar de mim mesma na terceira pessoa. Mas o cara realmente me assustava, principalmente por causa de seu cheiro horroroso. Mas isso poderia simplesmente ser pelo fato de o garoto não se interessar muito por banhos...

– Aí está você! – disse Bia, interrompendo minha tagarelice mental – Vamos? – Ela perguntou, sem tirar os olhos de Paul.

Dei um suspiro relaxado, Santa Beatriz!

– Claro – respondi de imediato, já me sentindo mais feliz. Era tão bom ficar com a Bia. E então me lembrei de que não estávamos sozinhas. Olhei para ele de mau humor novamente (eu com toda certeza deveria consultar uma psicóloga, essas variações de humor não estavam me fazendo bem. Mas de qualquer forma... Ora, tanto faz! O que eu diria a ela; que eu tenho uma amiga vampira, e que todas as noites tenho uns sonhos bizarros que provavelmente tem muito mais a ver comigo do que eu imaginava, e que eu estou me matando de medo de que eles possam se realizarem, porque isso significaria problemas, muitos problemas? Muito inocente). – Tchau – eu disse finalmente. Ele apenas acenou com a cabeça e eu virei e saí andando com Bia.

Já estávamos acabando de atravessar o refeitório quando eu percebi para onde ela estava me levando.

– Humm, Bia, o que vamos fazer lá fora?

– Precisamos conversar, – ela respondeu calmamente, mas seus olhos tinham um brilho sinistro. – mas antes de tudo, cumprir uma promessa.

– O quê?

– Bem... – ela parou e se virou para me olhar – é um pouco sobre aquele garoto, como eu já disse cumprir uma promessa e... – sua expressão mudou de repente. Pareceu se atenuar, mais ainda, tinha certo toque de dor, ela pareceu arrasada por uma instante, mas tão rápido quanto antes, sua expressão se recompôs. Talvez a vida de uma vampira não fosse tão fácil assim.

– Está tudo bem... ?

Ela voltou a andar e eu apenas a acompanhei; ela falaria quando estivesse pronta.

– Ah, antes de tudo, obrigada por ter me ajudado a me livrar daquele garoto. – agradeci solenemente – Graças aos céus você chegou! Mais um minuto com ele e eu...

– Espere – ela parou e se virou pensativa, agora já estávamos um pouco mais distante da entrada da escola, que podia até não ser muito grande, mas o jardim da frente superava tudo. Havia flores por todos os lugares, e muitas árvores também. Bia e eu costumávamos dizer que era o jardim encantado quando estávamos na segunda série. Agora estávamos debaixo de uma das maiores árvores, mais distante da escola do que os outros alunos. Ninguém nos ouviria ali.

– Você me agradeceu por ter te livrado dele? – ela sorria. O sorriso de um vampiro.

– É... Eu acho que sim – arquei as sobrancelhas –Bia, eu não estou te entendendo!

– Isso vai ser mais fácil do que eu imaginava – disse ela, ainda sorridente.

– O que vai ser mais fácil? – eu já estava ficando irritada. Por que ela simplesmente não dizia qual era o problema? – Bia, o que exatamente foi aquilo?

– Não gosto daquele garoto – disse ela, parecendo querer mudar de assunto.

– Também não gosto dele – ela parecia olhar além de mim. Segui seu olhar para ver absolutamente NADA. Quer dizer, havia algumas pessoas, mas nada que pudesse realmente chamar a atenção de Bia. Eu estava começando a ficar preocupada. Ela estava muito estranha. Sua expressão estava sinistramente assustadora.

Ela percebeu que eu estava olhando e me olhou de volta. E de repente ela fez algo totalmente inesperado. Digo, totalmente MESMO! Ela colocou o dedo no olho e puxou algo que parecia mais um pedaço de vidro. Mas eu sabia o que era. Eram as lentes. As lentes que cobriam o seu verdadeiro eu. As lentes que cobriam seus lindos e assustadores olhos roxos.