Sonhos Reais - Tudo Pode Mudar...
9 Capítulo 9 - Descobertas
Beatriz Modore
- O quê? Como assim sumiu? – segurei a vontade de sair quebrando tudo, e esperei enquanto a mãe de Lili se preparava para falar andando de um lado para o outro sem parar. Como se fosse ajudar. Lili estava perdida e eu apenas precisava de respostas.
O que fazer? O que fazer... Minha cabeça martelava sem parar. O sonho da noite anterior ainda me perturbava. Eu não podia simplesmente ficar ali parada, estava na hora de ser uma vampira. Alice não ia morrer, eu não ia deixar. Se preciso, eu morreria em seu lugar.
Fui até onde Estella estava e segurei seu braço.
- O que houve? – tentei deixar minha voz o mais doce possível.
- Eu não sei Bia – dizia entre soluços e lágrimas. – Ela descobriu tudo, toda a verdade. Ela sabe que eu não sou a mãe dela e me odeia por isso.
- Oh meu Deus! – sentei na cadeira mais próxima – Dona Estella, me escute, eu sei que a senhora está triste e que precisa de um tempo para se acalmar, mas eu preciso que me conte tudo, sem esconder nada. Alice pode estar em perigo e eu tenho que ir atrás dela o mais rápido possível.
- Deus, a minha filha está em perigo? A minha Alice, minha menininha... – a mãe de Lili começou a chorar mais ainda. Eu não a culpava, imagino como minha mãe devia ter se sentido quando me contou que eu era adotada. Mas isso não quer dizer que eu entenda. Esperar tanto tempo assim nunca é bom, apenas piora a situação. Que no caso de Lili, foi bem pior que a minha.
- Não, espere! – eu disse rapidamente tentando concertar a burrada que eu havia feito. “Eles não sabem Beatriz, eles NÃO sabem”, tentei dizer a mim mesma para ficar calma. Merda! O que diabos eu ia fazer? – Escute. A Lili não está em perigo do tipo “perigo mesmo” – hesitei tentando encontrar as melhores palavras, mas que droga também, ela só precisava dizer para onde ela foi... – Ela pode estar perdida na floresta, conheço bem tudo isso aqui, logo, se a senhora me contar o que aconteceu poderei trazê-la mais depressa...
Dona Estella continuou com seu choro baixo. Dei um pesado suspiro, não que eu precisasse, mas apenas para mostrar minha impaciência. Quando ela não disse nada, apenas continuou com seu pranto, minha paciência já estava se esgotando. E se algo acontecesse com a Lili? E se ela estivesse em perigo? Um calafrio subiu a minha espinha.
Senti minha cabeça doer. O cheiro. Eu podia até sentir o sabor em minha boca. O sangue de Estella, assim tão perto, ela sozinha e desprotegida, a tentação era demais. Minha garganta começou a queimar. NÃO! Eu não iria fazer isso com Alice. Não novamente. Aquela vez foi um erro. Eu devia ter me segurado, mas ele estava perto demais...
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Era noite, eu estava voltando da escola após uma tarde de trabalhos extracurriculares. Minha cabeça insistia a doer a pior das dores. O cheiro estava por todo lado, mas era estranho, pois a rua estava deserta. Exceto por um garoto e eu. Continuei a andar, olhando para os meus pés a fim de me distrair. Porém, quanto mais eu me aproximava do menino, mais a minha cabeça doía, minha garganta queimava como se eu não bebesse água há dias. Não tenho certeza a partir de que momento aconteceu, mas quando eu estava quase passando o garoto, algo me chamou a atenção. Suas mãos estavam vermelhas, e os pulsos cobertos de sangue. Prendi a respiração, mas de nada adiantou. Fui tomada de um impulso que eu jamais conseguiria explicar de onde veio. Completamente descontrolada, avancei até o garoto o jogando contra a parede. Meus livros e minha bolsa jaziam jogados no chão dois metros atrás de onde o garoto me encarava paralisado. Ele fechou seus olhos, e por um momento pensei tê-lo ouvido dizer “finalmente”. Mas antes mesmo que eu processasse aquilo, meus dentes já estavam cravados em seu pescoço. O sabor explodiu em minha boca me causando arrepios. Era completamente diferente de tudo o que eu já havia sentido. Eu queria aquilo, naquele momento aquilo era tudo o que eu mais queria. Era como se aquele sabor me levasse ao paraíso. Era melhor que qualquer comida humana, qualquer doce, qualquer coisa. Impossível explicar o gosto, o quanto ele me fazia suspirar. Cada gota era como uma explosão, me trazendo calafrios pelo corpo todo. Eu ansiava o sangue daquele garoto como uma fera anseia a sua caça. Mas alguns segundos depois imagens começaram a passar em minha mente. Pessoas que eu amava; pessoas que poderiam muito bem estar ali, no lugar daquele pobre garoto. Gemi relutante ao ter de soltá-lo. O menino já estava desmaiado e eu sequer sabia se ele sobreviveria ou não. Mas eu não ficaria ali para ver seu sofrimento. Sai correndo sem vontade nenhuma de voltar para casa, deixando minha primeira vítima para trás, caída inconsciente no chão. Assim que cheguei a uma distância segura do local em que tudo havia acontecido, liguei de um telefone público para o corpo de bombeiros pedindo ajuda. Lili nunca me perdoaria se soubesse. Talvez ela estivesse errada e eu fosse realmente um monstro sem coração e sugador de sangue.
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- Estella – era a primeira vez em que eu me dirigia a ela sem a formalidade do “dona” ou “senhora”. Lili sempre me disse para tratar os mais velhos com o máximo de respeito que pudesse, ela sempre fora muito educada. — se você quiser encontrar sua filha ou afilhada novamente é melhor me contar agora o que realmente aconteceu. – Ela me olhou brevemente espantada pela minha falta de modos, e então algo aconteceu. Sua expressão mudou, seu olhar se tornou fixo em mim, me ajeitei na cadeira e ela sequer piscou. Totalmente imóvel. Inerte em uma expressão que não revelava nada. Nem mesmo a tristeza. As lágrimas haviam parado de escorrer pelo seu rosto fino. Paralisada apenas observei enquanto ela não fazia absolutamente nada. Acho que sequer respirava. E de repente eu sabia de tudo. De toda a conversa dela com Bruno na cozinha, de tudo o que Lili tinha falado quando descobriu a verdade. De como ela gostaria que não fosse assim. Tudo vinha rápido demais em minha cabeça. Imagens em preto e branco, passando na velocidade da luz, e eu entendia tudo isso. Era como se eu estivesse lá, apenas assistindo. Como um espectador vendo uma peça. Vi Lili entrando correndo na floresta, e Bruno logo após ela. Duas horas depois, ele volta, mas sozinho, não havia a encontrado.
Sacudi a cabeça. Percebi que estava mais perto de Estella agora. Olhando fixamente em seus olhos. Ela também balançou levemente a cabeça e eu prendi a respiração. Ela enterrou novamente o rosto entre as mãos e voltou a chorar como se nada houvesse acontecido.
Mas o que foi aquilo? Parei por um segundo tentando entender o que havia acontecido. Era como se eu tivesse entrado na cabeça dela. Sentindo tudo o que ela sentiu, vendo tudo o que ela viu, como se eu estivesse lá no exato momento em que acontecia. Seria isso então mais um dos meus dons de vampira? Eu entrei em sua mente, mas vi apenas o que eu queria ver, nada mais. Estava tudo tão confuso, com todo esse negócio de vampiros, sangue, e poderes paranormais. Parecia impossível lidar com tudo isso. Mas o que acabara de acontecer era algo que, com certeza, não poderia ser deixado de lado. Assim que tudo aquilo acabasse eu faria uma pesquisa mais aprofundada sobre aquilo; fiz uma nota mental para não esquecer. Soltei a respiração tentando relaxar e comecei a pensar. Afinal, o foco era a Alice e não minhas habilidades vampíricas.
Lili havia corrido pela floresta em direção ao norte, talvez se eu me concentrasse eu conseguisse rastrear o cheiro dela. Na verdade era bem fácil. Eu já havia feito isso antes. Mas da última vez foi com meu irmão. Eu estava brincando com o pequenino de esconde-esconde resolvi seguir seu cheiro. O coitado jamais me ganharia nessa brincadeira. Sorri enquanto me levantava lentamente. Fiz uma última varredura pelo cômodo da casa. Pelo que eu sabia Bruno ainda estava lá fora buscando Alice, e Estella estava preocupada demais chorando para que percebesse um vulto andando pela sua casa. Sem demorar mais corri o mais rápido que pude, sem fazer qualquer som, escada acima até o quarto de Lili. Algo estava errado. Parei no meio do caminho. Havia um cheiro diferente ali. Um cheiro incomum. Ok, era certo que minha amiga não era muito organizada, mas também não era a ponto de seu quarto cheirar a mofo e umidade. Não. Tinha alguma coisa ali, algo ruim. Eu estava andando lentamente até a porta quando um ruído me sobressaltou. Hesitei por um segundo e abri a porta a empurrando com força demais. O que quer que tenha passado por ali, não teve o mínimo respeito de deixar o lugar arrumado. Roupas estavam espalhadas pelo chão, algumas gavetas estavam abertas, a cama de Lili estava completamente bagunçada e notei que sua pelúcia favorita não estava em lugar algum. Era um macaquinho de pelúcia que eu havia comprado para ela em uma viagem que fiz a Austrália. Desde que o ganhou, eu nunca mais a vi dormir sem ele. O lugar estava vazio, mas o cheiro era tão forte que meu nariz ardia como se estivesse em brasa. Um porta-retratos com uma foto minha e de Lili na piscina do condomínio em que eu morava estava caído no chão, com uma rachadura que separava o lado em que minha amiga estava do lado em que eu estava. Algo de repente me fez lembrar da conversa que eu tive com Alice um dia antes. “Claro! Como eu já disse, eu também não gosto dele. Você já sentiu o cheiro dele, é horrível, é como se ele tivesse morrido e se desenterrado depois de dez anos.”; Lili havia dito. Era isso. O cheiro estranho. Aquele filho da mãe esteve aqui no quarto da minha melhor amiga e fez essa bagunça toda. Apertei minhas mãos em punho. Isso não ia ficar assim. Eu estava com medo, minhas mãos apertadas tremiam como se estivessem em convulsão, mas de qualquer forma eu iria salvá-la. Eu não sabia como, mas iria. Senti um arrepio percorrer meu corpo. Eu não queria mais ficar ali, aquele cara era um demônio ou sabe-se lá o que. E só o fato de ele ter estado ali já me causava calafrios.
Peguei uma blusa de Lili e cheirei o mais profundo possível. Seu perfume predileto, de flores do campo invadiu meus sentidos, me libertando daquele fedor horrível de gente morta.
Desci as escadas e atravessei a porta dos fundos como um vulto. Não queria perguntas sobre o que eu ia fazer ou algo do gênero. Do lado de fora tudo parecia mais calmo. Eu já estava no meio da floresta, a uma distância suficientemente boa para que ninguém me visse. Eu podia ouvir cada som que ecoava entre as árvores. Mas nada de Lili. Decidi me concentrar mais. Inspirei mais uma vez a blusa em minhas mãos, e olhei em volta. Nada!
Impossível! Pelo que eu vi na mente de Estella, faziam apenas quatro horas que Lili havia sumido. O cheiro dela tinha que estar em algum lugar por ali. Fechei os olhos. Tentei lembrar do cheiro de seu sangue, que estranhamente não me atraia. Quando abri os olhos eu já estava correndo. Bem, amenos que considere a velocidade de 200 km/h como uma corrida. Para mim era quase o mesmo que voar. Habilmente eu me desviava das árvores e seus galhos. Não havia outro som senão o do vento a minha volta. O cheiro dela estava perto, eu podia senti-lo em toda parte.
Parei num ímpeto. Algo estava errado novamente. Alguma coisa havia apagado o cheiro dela, deixando um aroma meio salgado, semelhante a suor, em seu lugar. Puxei o ar com mais força mas desta vez outro cheiro invadiu meus sentidos. O doce e quente sangue. Estava perto, eu podia ouvir o pulsar do coração bombeando o sangue para as veias. Ouvi sons de galhos se quebrando. Rapidamente virei em direção ao som agachando-me com movimentos felinos numa rapidez imcomparável.
- Espera! Espera!
Prendi a respiração, algo que as vezes me ajudava a me acalmar, escondendo as presas extremamente afiadas em minha boca. Bruno, o irmão de Lili, estava parado em minha frente, completamente pálido, os olhos arregalados, com as palmas levantadas em sinal de pare.
- Oh céus, eu poderia ter te matado. O que você está fazendo aqui? – indaguei, voltando a ficar ereta, praguejando mentalmente por ter esquecido que ele havia saído em busca da irmã.
Bruno me olhou hesitando por um segundo.
- Como... como você faz isso?
- Isso o que? – pisquei, numa tentativa falha de parecer inocente. Nunca fui boa atriz, esses dotes apenas Lili tinha.
- Isso. – ele se aproximou devagar – Você correu mais rápido que o meu carro, e os seus olhos, eles – tentei não demonstrar qualquer desconforto – eles estavam roxos.
Sorri.
- Bruno, você está se sentindo bem? Digo... eu não fiz nada disso. E meus olhos estão castanhos, exatamente como sempre foram, deve ter sido a luz – dei de ombros ao concluir, rezando para que ele aceitasse as desculpas esfarrapadas e para que meus olhos já tivessem voltado ao normal. Por via das dúvidas apertei os olhos. Recentemente eu havia descoberto que eles apenas mudam de cor quando estou nervosa, ou seja, quando estou prestes a atacar. Eu simplesmente havia acordado de manhã e eles estavam castanhos de novo. Eu não nego que passei pelo menos umas duas horas pulando de felicidade. Fiz umas pesquisas para completar e alguns sites me disseram coisas que poderiam ser aceitáveis, como o fato de o olho de uma recém-vampira variar de tons apenas nas primeiras semanas e depois voltar ao normal. Ao menos parecia mais correto do que o outro site que dizia que os “vampiros tinham por natureza o dom de mudar a cor dos olhos, e que o primeiro tom era apenas para externixar a mudança de espécies, por assim dizer”. Isso me pareceu extremamente cômico. Mas o aviso era real. Se eu não estivesse concentrada em encontrar Lili eu poderia mesmo tê-lo matado.
- Não Bia, eu estou me sentindo muito bem – ele se aproximou e meus joelhos tremeram. Era a primeira vez que ele se dirigia a mim desta forma. Tão perto. Senti meu coração se acelerar. Droga! Eu o amava, não queria que ele soubesse. Quando Bruno estava a apenas quinze centimetros de mim, ele ergueu sua mão e contornou os meus olhos com os dedos. – E seus olhos continuam roxos. O que você é, Bia? Quer dizer... o que você realmente é? – disse, destacando a palavra realmente.
Confesso que essa pergunta me pegou completamente desprevenida. Eu achava que ele fosse ficar sem palavras, ou simplesmente sair correndo, ou sabe-se lá o que. Mas eu sabia que ele não ia desistir. Droga! Se as coisas fossem mais simples, eu não precisaria fazer isso.
Eu gostava dele desde que eu tinha treze anos e ele dezesseis. O irmão mais velho da minha melhor amiga. Era engraçado quando eu dormia na casa de Lili e quando acordava de manhã ele estava lá na cozinha fazendo o café da manhã. Lembro-me de ficar escondida observando enquanto ele preparava cada alimento cantarolando alguma música que eu nunca consegui descobrir qual era. Certa vez ele me pegou o observando o sorrindo disse: bom dia dorminhoca! Não sei o que foi pior, ele ter me pego no flagra ou eu ter corado e saído correndo assim que ele disse dorminhoca. Eu nunca contei para Lili. Não sei se por vergonha ou por medo de que ela não aprovasse. Ele sempre fora muito atencioso. Sonhava acordada imaginando se chegaria o dia em que ele me beijasse e dissesse: Eu sempre gostei de você. Mas quando ele fez dezessete anos ele foi embora e levou todos os meus sonhos em sua bagagem. Então quando ele finalmente voltou e eu pensei, acho que talvez eu tenha alguma chance, uma semana depois do meu aniversário de 16 anos eu descubro que me transformei em um monstro, além do fato de eu ser adotada também. Seria impossível entrar em qualquer relacionamento nas condições em que estava. Com um simples aperto eu poderia quebrar seu braço. Entretanto lá estava ele. Com uma expressão condescendente, aguardando a minha resposta. Ele parecia ter adquirido alguns músculos desde que havia voltado. Seus lindos olhos me encaravam com ternura e de sua boca saía um sorriso tímido. Como ele podia? Como ele conseguia me olhar com ternura quando alguns minutos antes eu quase o havia matado? Como ele podia estar perto de mim, será que ele não sentia o perigo que eu emanava? Sentei em um tronco retorcido que estava caído no chão, enterrei o rosto nas mãos e disse entre lágrimas:
- Eu sou uma vampira, Bruno. Sou uma vampira.
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