Sonhos Reais - Tudo Pode Mudar...
3 Capítulo 3 - Os Sonhos
Passaram-se algumas semanas sem que eu tivesse sonhos estranhos, isso me deixou feliz, mas também preocupada. Os sonhos estavam me deixando louca, porém, viver sem eles estava se tornando infinitamente difícil. Isso se devia ao fato de eu estar apaixonada por um dos “protagonistas” de meus sonhos – lembrei-me do sonho na cozinha de minha casa, onde o ví com mais clareza pela primeira vez. O fim dos sonhos, queria dizer que seria o fim dele. Será que eu nunca mais o veria de novo? Será que ele existia em algum lugar deste mundo sem ser em meus sonhos?
Infelizmente eu não sabia as respostas para estas perguntas. Mas acho que nem queria saber – seja lá qual fosse – iria me deixar ainda pior. Eu estava em um beco sem saída: era chorar pela falta; ou sofrer pela presença. Pois a volta dele significaria a volta dos pesadelos. Mas eu já estava tão dependente dele que preferia aguentar os sonhos do que ficar sem ele.
E tinha a Bia, já fazia um tempo que a gente não conversava direito. Na maioria das vezes era apenas um “Oi”, “Tudo bem?”. Eu já não aguentava mais isso. Eu sequer sabia o que tinha feito para que ela ficasse assim. Várias vezes perguntei se era por causa do meu irmão, mas ela sempre negava com respostas vazias.
Vasculhei minha memória em busca de algo que eu tivesse dito que pudesse aborrecê-la. Mas nada encontrei.
Eu não sabia o que estava incomodando a Bia, não sabia o porquê de ela estar assim, mas o que quer que fosse, estava atrapalhando nossa amizade. “Calma. Logo tudo voltará ao normal.” Pensei em uma débil e fracassada tentativa de me acalmar.
Eu ia dar um tempo para ela, resolví que três semanas seria o suficiente.
**
Três semanas era muito tempo. Já havia se passado uma semana. Eu estava caminhando para a escola, o mesmo caminho de sempre só que desta vez sem Bia. Eu só a via nas poucas aulas que tínhamos juntas, e, ainda sim ela ficava quieta o tempo todo. Eu estava cançada de ficar sozinha, sentia saudades da minha amiga, e estava preocupada com ela também.
Ultimamente Bia estava muito pálida – mais que o normal – e também tinha aquela expressão o rosto, a mesma da última vez em que ela foi dormir em casa.
Certa vez perguntei a ela se estava doente e ela ficou toda hesitante ao responder.
– Eu…estou bem sim. Minha mãe… – disse ela olhando para o chão, algo que eu sabia que ela fazia quando estava mentindo – ela disse que é só anemia.
Bia com certeza não era boa em anatomia humana, pois anemia deixava a pessoa amarela e não branca. Mas deixei de lado, se ela não queria me contar então eu não ia obrigá-la.
Cheguei na aula de português bem a tempo de o sinal tocar. Tepei os ouvidos ao ouvir o estrondoso som, – minha cabeça estava latejando – e sentei no meu lugar de sempre, ao lado de Melanie. Esta era uma das muitas aulas que eu não compartilhava com Bia.
– Oi – susurrou Melanie. – Você fez o dever de casa?
– Oi Mel, eu… Ah, inferno – disse alto demais.
– Alguma coisa que queira compartilhar com a sala srtª Alice? – disse a professora Linda.
– Nã-Não senhora – encolhi os ombros, Melanie estava sentada toda encolhida em sua carteira.
– Não foi o que me pareceu. Onde está o seu dever de casa ?
– Eu…esquecí de fazer.
– Muito bem não é – disse ela. – Está de detenção – ela se virou e foi para o quadro branco.
– Ah, inferno – murmurei para mim mesma.
Eu estava com tanta raiva da professora Linda que imaginei o pincel que estava em sua mão estourar e sujar toda a sua roupa. E pior. Não é que o bendito pincel estourou mesmo. Não pude conter o sorriso em minha boca. Mas que era estranho era. Deve ter sido só coincidência, pensei.
Depois da horroroza aula de português, ainda tinham as aulas de Sociologia, Biologia e Inglês, e após o almoço eu tinha Educação Física. E depois eu teria de passar mais uma hora na detenção.
Cumpri meus horários como sempre fazia, porém, quando mais eu queria sair daqui, mais o tempo parecia parar. Fui na detenção e, por sorte, a professora Linda teve um contratempo e foi embora, então minha detenção seria com a professora Márcia. A professora de Inglês, a mais legal de todos os professores. Depois da detenção fui andando sozinha para casa, pensando em Bia. Eu definitvamente não ia esperar as duas semanas restantes. Tinha que resolver isso. Contudo tinha que resolver um outro problema, o que dizer aos meus pais sobre a detenção.
Como já era esperado, minha mãe estava sentada em uma cadeira de frente com a porta esperando eu chegar. Era incrível como mamãe era exagerada. E isso me irritou. Por que ela tinha que me tratar como se eu fosse uma criança. Meu irmão, Bruno, estava em pé ao seu lado.
– Maria Alice Lyon – ela estava usando o tom de repreenção. – Posso saber o motivo de sua demora? Eu não fui clara ao dizer que teríamos visita hoje a tarde?
“Ah, inferno!” Pensei. “Esqueci completamente.”
– Desculpe mamãe, é que eu fiquei de detenção e…
– O que? – ela se levantou da cadeira – Você ficou de detenção?! O que você fez Maria Alice?
– Nada mãe, é só que eu ando tão preocupada com a Bia, e o por quê de ela não estar falando comigo que me esquecí de fazer a lição de casa.
O que não era totalmente mentira.
– Filha – ela baixou o tom de voz, e eu olhei para meu irmão pela primeira vez, ele estava estranho, quase como se…se tivesse algo para me dizer mas não soubesse como. – Alice, eu sei que você está preocupada com Bia, mas você não pode se esquecer de sua vida. Sinto muito mas você está de castigo.
– Mas mãe eu…
– Nada disso, eu ainda estou sendo boa em te colocar de castigo por um só dia.
– Ok. Vou pro meu quarto então. Você vai querer que eu cozinhe hoje?
– Vou fazer o jantar hoje.
– Ok!
Subi as escadas sem pressa alguma, quando reparei no silêncio de meu irmão, ele nunca ficara tão quieto assim. Isso era estranho, mas não era pior do que a Bia. O que eu ia fazer. Agora que estava de castigo eu não tinha chance alguma de mamãe deixar eu sair.
Jantamos em silêncio por um bom tempo, e como ninguém o quebrava, quebrei eu mesma.
– Mamãe, o pai volta quando? – Peter estava em mais uma daquelas viagens em que ele resolvia alguma coisa importante.
– Acho que semana que vem.
– Uhum... E... mano, como foi o seu dia?
– Meu dia, bem... Foi... – ele hesitou enquanto falava – foi legal.
– Hã, tá bom.
Depois disso fiquei em silêncio. Se eles não estavam para conversa eu é que não ia ficar fazendo papel de boba. Depois do jantar tomei um banho, e escovei os dentes sem pressa. Depois escovei os cabelos e fui para o meu quarto. Já se passavam da meia noite e eu não conseguia parar de pensar na Bia. O que eu ia fazer para ajudar a minha melhor amiga?
Quer saber, que se dane o castigo.
Levantei sem saber ao certo o que ia fazer. Mamãe já estava dormindo, podia ouvir seu ronco suave do andar de baixo, Bruno estava dormindo no quarto ao lado do meu, e Peter estava viajando mesmo. Era simples. Era só não fazer barulho. Troquei de roupa rapidamente escolhendo minha calça jeans velha, uma blusinha de renda branca e tênis. Prendi o cabelo ondulado em um rabo de cavalo e fui em direção à janela. Só quando cheguei percebi o que estava prestes a fazer. Parei com um solavanco. Nunca tinha pulado uma antes e meu constante desequilíbrio não ajudaria muito. E se eu caisse? Com certeza essa não seria a melhor idéia. Principalmente contando com o fato de que meu quarto ficava no andar de cima. Fui na ponta dos pés até a minha porta e fiz o mesmo pelo caminho da porta da frente. A essa altura estava escuro e eu não ia me arriscar em ir a pé. Então resolví pegar um taxi.
Quando cheguei não sabia bem o que fazer. Dei boa noite ao porteiro Roberto dizendo que tinha combinado com Bia, e fui andando até a casa dela. Apertar a campainha não me pareceu uma boa idéia então fui andando para a janela de seu quarto. Por sorte o quarto dela ficava no andar de baixo, então só precisava dar umas batidinhas de leve e ela acordaria. Cheguei na janela de seu quarto, e dei um pulo.
Bia estava sentada na janela olhando fixamente para mim.
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