Sonhos Reais - Tudo Pode Mudar...
10 Capítulo 10 - Apenas ele
Notas iniciais
Acordei em uma sala pequena e mal iluminada. Respirei fundo e percebi que a dor já não me incomodava mais.
À minha esquerda eu ouvia uma baixo bep indicando os batimentos de meu coração. Tudo era branco naquele lugar, o teto, o chão, as paredes, os móveis, até a minha roupa, que antes era o meu pijama preferido de bolinhas pretas e brancas, havia sido substituída por um daqueles horríveis vestidos hospitalares que fazem você parecer três vezes maior do que você é. Tudo era claro e calmo, contrariando a situação em que eu me encontrava.
Levei minha mão à cabeça para checar o corte, observando o pequeno prendedor “branco” em meu polegar, mas a única coisa que consegui sentir foi o toque áspero da faixa no lugar do corte. Olhei em direção a porta, que mais parecia uma daquelas portas das salas de castigo das prisões. Grossa com um pequeno retângulo de vidro na parte superior. O vidro refletia a minha própria imagem, uma garota de branco com um olhar perpléxo, os cabelos, castanhos e compridos, todos emaranhados emoldurando o rosto redondo; os lábios, que normalmente seriam de um vermelho escalarte, brancos e ressecados.
Virei o rosto para a pequena mesinha ao lado da maca e vi uma garrafa e um copo d’água. Minha boca suplicou um gole mas me contive. Eu não sabia onde estava e, se aquele lugar pertencesse a um dos sequestradores, a água poderia muito bem estar envenenada.
Levantei sem me importar com o puxão das agulhas saindo de meus pulsos juntamente com todos os outros fios e o bep longo que se seguiu. A única coisa que eu não entendia era por quê haviam me sequestrado, afinal, eu não era rica. Por mais que papai e mamãe trabalhassem duro e ganhassem um bom dinheiro, os gastos sempre acabavam ultrapassando o limite. Eu estudava em uma escola pública e Bruno havia ganhado uma bolsa para estudar fora. Então dinheiro não devia ser, mas o quê então?
Desci da única maca na sala tentando fazer o mínimo ruído possível. A ação me fez ficar tonta e eu agarrei a borda da maca com força enquanto a sala girava. Dois minutos se pasaram quando finalmente me senti segura o suficiente para afrouxar as mãos. Dei um passo, hesitando ao sentir minha barriga doer. Olhei para baixo esperando ver sangue mas a faixa continuava branca, o que me motivou a continuar. Mais dois passos e deixei meu corpo se acostumar com a leve dor. No sexto passo eu já estava em frente a porta branca. Ver mais de perto o meu rosto me mostrou detalhes que de longe eu não havia notado. Abaixo dos meus olhos longas e arroxeadas olheiras, cujo tom igualava ao de alguns hematomas que agora eu via nos meus braços, pernas e em alguns lugares do rosto. Meus olhos pareciam sem foco, sem brilho. Os lábios não estavam apenas ressecados, mas completamente rachados, com algumas feridas secas. A pela completamente pálida nem se assemelhava ao antigo bronzeado que eu possuia mesmo nos dia mais frios. Sacudi a cabeça mentalmente retornando ao foco inicial. Era como se eu tivesse vegetado por dez dias.
Tremi ao sentir o quão gelada a maçaneta estava, só agora eu me dava conta de que fazia frio na sala, por algum motivo eu não o senti antes. Girei-a para ambos os lados mas a porta estava trancada. Notei que uma câmera me observava mas a ignorei. Comecei a procurar por alguma coisa que pudesse utilizar para destrancá-la, mas tudo o que havia na sala eram móveis grandes e tecidos. Quando eu já estava desistindo ouvi passos vindo em direção à porta. Era um rapaz, que aparentemente falava ao telefone; grudei os ouvidos na porta a fim de ouvir melhor.
– A garota está bem. Em breve poderá prosseguir com seu plano.
Ouve uma pausa em resposta e o rapaz riu e disse, desta vez alto o suficiente para que eu pudesse ouvir sem enconstar na porta.
– Não se preocupe, Morfeu. De qualquer modo, ela vai morrer no final. Mas vou vê-la agora mesmo.
Desgrudei os ouvidos da porta meus pelos arrepiados. Maldita câmera. Eu tinha que pensar rápido. A dor na barriga se resumia a apenas quando eu andava, portanto acho que conseguiria correr. Mas como ultrapassar aquele brutamontes? E então lembrei-me da mesinha ao lado da maca. Era de madeira, e uma ideia ecoava em minha cabeça, quase como que dizendo eureka! Eureka!. Hesitei por um segundo, eu jamais havia pensado em algo tão horrível assim. Mas era sobreviver ou morrer. Aquelas pessoas haviam me sequestrado e, pelo que eu havia entendido, elas me queriam morta, o que não fazia sentido nenhum, eu tinha que me defender. Corri até a pequena mesa ignorando a dor levantei-a facilmente e a joguei contra a outra parede. Perfeito! Uma perna havia soltado e era o suficiente. Peguei e me preparei. Assim como eu havia imaginado, dois segundos após eu me colocar ao lado da porta ela se abriu mostrando um homem extremamente alto e bonito. Observei-o por um segundo, enquanto ele varria o quarto com os olhos. A adrenalina corria em minhas veias e, assim que ele se virou para mim vindo em minha direção, posicionei o pedaço de pau a minha frente e corri de encontro a ele.
Um segundo antes de a madeira atravessar seu corpo o homem olhou em meus olhos, como se fizesse uma pergunta, mas já era tarde. Atravessada em seu tronco, estava a perna da mesa. Um golpe fatal, no coração. Fiquei paralizada por um segundo, tentando absorver aquilo. Eu não queria tê-lo matado. A ideia era apenas dar um golpe na cabeça e pronto. Sem mortes. Olhando para o corpo percebi que o homem, apesar de alto e musculoso, devia ser mais jovem do que eu imaginava. Percebi também que seus lábios estava meio azulados e sua pele de um acinzentado claro. Me veio à cabeça que normalmente os “recém-mortos” não ficam pálidos no exato momento em que morrem. Afastei o pensamento. Não era o lugar nem a hora certa para me preocupar com perguntas banais.
Eu não tinha tempo a perder. Olhei rapidamente para a câmera, que estava parada em mim quase tão perpléxa quanto eu, e fui em busca de mais uma perna da mesa. Do lado de fora do quarto em que eu estava o lugar me lembrava a um hospital. Paredes simples, poucos móveis no corredor... Mas diferentemente dos hospitais, tudo era calmo e vazio. Não havia mais ninguém ali. Ou pelo menos era o que me parecia.
Usualmente eu passava por uma câmera que seguia meus passos como uma sombra, mas já havia parado de me importar com elas. Minha atual preocupação era descobrir uma forma de sair dali.
Corri o mais rápido que pude e num certo ponto minha cabeça começou a doer tanto que tive que parar. Má hora. Ouvi passos vindo do corredor à minha direita. Não era simplesmente dois ou três passos, eram muitos passos. Como se um exército inteiro estivesse vindo em minha direção. Corri, procurando uma saída, mas tudo o que encontrei foi um beco, com várias portas brancas comuns. Os passos se aproximavam, cada vez mais rápido. Estranho, pois pelo barulho alto, já era para eles estarem ali, no entando tudo o que eu via era o corredor vazio...
– Graças a Deus, por isso – uma voz masculina, muito familiar, susurrou às minha costas.
Num pulo me virei para ver a perfeição frente a frente. Dei um passo para frente e ele me olhou sulplicante.
– Derek? – minha voz saiu quase inaudível entre as lágrimas.
Ele apenas sorriu, me estendendo a mão, e foi o que bastou para que eu caísse na escuridão.
**
Acordei com o som de uma música suave e o vento batendo em meu rosto, secando as lágrimas que haviam escorrido enquanto eu dormia. Eu estava deitada no banco de trás de algum carro. Meu sono havia sido aparentemente tranquilo, e fascinante.
Eu jamais havia sonhado com tantas coisas ao mesmo tempo. Parecia algo como uma visão, algo como prever o futuro. Eu me vi quando eu tinha cinco anos, eu estava na casa da vovó, sentada no chão aos pés dela brincando com os rolos de lã enquanto ela tricotava e contava uma história. Depois, eu me vi no dia em que conheci a Bia, eu tinha três anos, e ela havia acabado de se mudar para a cidade. Eu, minha mãe e meu pai – era estranho chamá-los assim depois de tudo o que havia acontecido – estávamos no hospital. Mamãe estava assinando o fim de seu plantão enquanto eu e papai esperávamos quando vemos uma mulher entrar com uma garotinha no colo gritando por socorro dizendo que sua filha havia sido atropelada por uma bicicleta. Minha mãe fez questão de atender a mãe de Bia, pois coincidentemente já havia passado por isso comigo. Depois disso, não nos desgrudamos mais. Eu também me vi no dia em que sonhei com Derek pela primeira vez, mas a última visão foi a mais fascinante de todas. Minha avó e meu avô, sentados em um banquinho de balanço na varanda de uma casinha de fazenda. Vovó e vovô conversando animadamente, sempre rindo, os dois de mãos dadas. Era incrível. Eles se olhavam como se vê as estrelas a brilhar. Vovô disse alguma coisa que fez com que minha avó corasse, e deu um beijo em seu rosto. Foi com certeza um sonho lindo. Meu avô havia morrido à três anos,e fazia um ano que vovó havia partido.
Sentei e pude ver o Sol surgindo ao leste. Esfreguei os olhos, confusa. Onde eu estava? Teria sido um so-oh meu Deus! Meu coração acelerou instantaneamente, quase como se quisesse me lembrar de que era real, me fazendo perder o fôlego.
– Bom dia, Bela Adormecida – ele disse. – Dormiu bem? Sei que não é confortável como sua cama mas nós não podíamos esperar mais...
Fechei os olhos e encostei a cabeça no banco enquanto ele falvava. Era tão bom, tão doce, o som da voz dele. Um tom aveludado. Ele falava com ternura, e mesmo sem olhar, eu sabia que ele estava sorrindo. Era increditável. Finalmente ele havia aparecido. Eu o teria, e ele teria a mim. Era isso que me importava agora. Ele havia deixado de ser um sonho, para ser real.
– Você está bem... quer que eu pare o carro?
Me lembrei de todas as vezes em que eu havia imaginado o momento em que nos encontraríamos pela primeira vez. Certamente eu não havia pensado em quais circunstâncias, mas ele estava comigo, então não havia sido em vão. O sequestro, os cortes, tudo valeu a pena, porque se nada daquilo tivesse acontecido, talvez ele não estivesse ali, naquele momento. E tudo seria como antes, apenas sonhar e esperar...
Senti o carro parando e dois segundos depois a porta se abrindo.
– Você está errada – ele disse suavemente, suas mãos em meu rosto. Minha pele começou a formigar, como se um simples toque transmitisse uma corrente elétrica, meu corpo todo congelou. Meus olhos continuavam fechados. Eu tinha medo de abri-los e descobrir que tudo fora um sonho. Tinha medo de que ele desaparecesse novamente, assim que percebesse que eu estava bem, como havia acontecido no shopping... Coloquei minhas mãos em cima das dele de forma a impedir que ele as retirasse dali. Eu queria esperar até que eu estivesse pronta, mas quantas coisas haviam acontecido sem que eu estivesse pronta? Bia era uma vampira, eu havia acabado de descobrir que era adotada e no mesmo dia havia sido sequestrada, ele ali... Estar pronta não me ajudaria em nenhuma dessas situações, apenas me deixaria mais nervosa ainda. No fim das contas, o melhor era não saber. Quando se sabe demais, as informações tendem a te atrapalhar nas decisões corretas.
Abri os olhos para ver a nova vida que me esperava. A vida ao lado dele.
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