Notas iniciais
Aproveitem o capítulo, galera! Só avisando que, por ser algo bem mais emocional e menos focado em ação, as coisas vão se desenrolar mais lentamente. Espero que gostem!

― Você não foi com o Krystian? ― Noah ouviu sua irmã perguntar quando entrou na cozinha da casa. Ela tinha saído com o namorado pela manhã e tinha acabado de voltar.

― Parece que eu fui com o Krystian? ― Noah rebateu sarcástico dando mais uma mordida no sanduíche que tinha feito para si. Depois de Krystian ter ido embora para se encontrar com o restante do grupo para as boas-vindas de Josh, Noah tinha decidido fazer algo para comer já que a casa estava vazia e ele estava com fome.

Linsey se aproximou do irmã e sentou na banqueta logo ao lado dele na ilha da cozinha, seu olhar preocupado ao se dirigir ao irmão.

― Posso dar uma mordida? ― ela perguntou e Noah a deu o sanduíche com um sorriso leve. Ela comeu um pouco e devolveu para ele ― Sem picles? ― ela questionou tentando falar por cima da comida. Noah riu ainda mais com a fala da irmã.

― Óbvio, né ― ela respondeu e comeu também. O sanduíche já estava quase acabando.

Os dois, então, caíram no silêncio. A casa de Noah tinha estado desse jeito nos últimos dias. Ele só voltava pra escola em dois dias e seus pais estavam ocupados trabalhando. Seu irmão estava na faculdade e Linsey vivia com o namorado. Eles tinham cuidado dele no começo quando tinha voltado, mas seus ferimentos não eram graves então ele não precisava de tanta atenção.

E, para ser bem sincero, Noah não queria conversar com ninguém. Ele queria ficar sozinho, pelo menos nesses primeiros dias. Tinha muito em que precisava pensar e sua família não seria de muita ajuda.

― E como você tá? ― Linsey quebrou o silêncio ― E eu não falo fisicamente. Mamãe falou que tava bem preocupada com você. Tem ficado bem quieto...

Noah engoliu em seco.

― Eu estive em um acidente de carro, Linsey ― Noah deu mais uma mordida no sanduíche. Mais duas e ele terminaria ― Não acho que isso se classifique como algo para estar bem.

― Sabe que não é disso que eu tô falando, Noah ― Linsey continuou a falar. Claro que ele sabia do que ela estava falando ― Você não foi receber o Josh. Mal falou com ele ou sobre ele desde que tudo aconteceu ― e lá estava. De todas as pessoas, Noah tinha certeza que seria Linsey que viria falar com ele sobre isso.

Ele não respondeu. Não queria responder. Não queria falar sobre Josh porque Josh era tudo o que tinha pensado nos últimos dois dias.

― Noah, o que tá acontecendo com você? ― Linsey continuou a perguntar ― Eu sou sua irmã, você sempre me conta tudo.

― Linsey, eu não quero falar sobre isso ― mais uma mordida em seu sanduíche ― Eu só tô tentando superar o que aconteceu.

― E o Josh? ― Noah sentiu seu estômago embrulhar. Ouvir o nome dele mexia muito com seu coração ― Ele não era seu melhor amigo?

― Ele é... ― ele não sabia o que falar. Linsey não iria entender, ele mesmo não entendia o que estava acontecendo com ele mesmo. Seu coração martelava dentro do peito, a imagem de Josh naquela cama o atormentando desde que o viu da última vez.

― Então por que não vai recebê-lo? ― Linsey pressionou ― De todos os momentos da vida dele, Noah, agora eu diria que é o que ele mais precisa de você.

― Não precisa ― ele terminou o sanduíche ― Não agora. Não de mim.

E de novo o silêncio. Ele podia sentir as perguntas que Linsey tinha em sua mente se esgueirando e se espalhando no ar tenso da cozinha. Sabia tudo o que ela queria perguntar e sabia que nunca poderia dar uma resposta honesta.

― Você não vai mesmo me dizer o que está acontecendo?

― Foi minha culpa, Linsey ― Noah falou, finalmente, dando a ela a única resposta que podia. A única coisa que tinha certeza estar sentindo ― Fui eu quem mandou mensagem pro Josh pra gente se encontrar. Foi por causa de mim que estávamos naquele carro. Era eu quem quis conversar com ele, não o oposto. É minha culpa que ele não pode andar. Minha culpa.

O silêncio dessa vez foi muito mais denso do que o de antes. Era como uma bolha de eco para o completo nada entre ele e sua irmã. A completa solidão e tensão preenchiam o cômodo.

― Foi um acidente, Noah...

― É o que todo mundo diz ― Noah respondeu, levantando-se da baqueta e levando seu prato para a pia ― Mas não muda como eu me sinto. Josh não pode andar, Linsey, e é sim por minha culpa. Como você espera que eu vá até a casa dele recebê-lo quando eu não consigo me encarar no espelho?

― Noah... ― Linsey começou a falar, mas Noah não ficou para ouvir. Tinha estado certo em se isolar nesses últimos dias, porque realmente não estava pronto para encarar seus sentimentos, especialmente com aqueles que não sabiam a verdade.

Menos ainda com aquele que sabia.

+ + +

Josh não dormiria mais em seu quarto. Foi a primeira coisa que o atingiu em seus pensamentos quando seu pai empurrou a cadeira de rodas para dentro de sua casa. As escadas não permitiria que ele fosse para o andar de cima, onde seu quarto ficava. O peso das pernas que ele não sentia mais pareceu despedaçar um pouco mais seu coração.

A sala estava cheia com seus amigos, mas quando ele olhou ao redor não viu Noah. Krystian estava lá, mas não o namorado. O coração de Josh pareceu doer ainda mais. Novamente, a mente dele foi para aquela noite na casa de Sina. Maldita noite, maldita festa.

Any estava logo ao seu lado, segurando sua mão. Sabina, Heyoon e Sina estavam juntas com um olhar fraco. Shivani e Bailey seguravam as mãos um do outro, tentando sorrir para Josh. Hina estava logo ao lado de Krystian. Diarra, Joalin e Lamar sentados no sofá.

Mas nada de Noah. Quem ele mais queria não estava lá.

Seus irmãos estavam perto da entrada da cozinha. Ele ouviu sua mãe fungar ao seu lado, ainda tentando conter as próprias lágrimas.

Ninguém parecia verdadeiramente feliz.

― Bem vindo de volta, Josh! ― todos falaram em unisom, acalentando o coração de Josh um pouco. Era verdadeiramente bom ver todos eles ali para ele. Josh amava seus amigos e sabia que podia contar com eles para tudo. Mesmo assim...

― A Taylor ligou ― foi Jaden quem falou ― Ela vai vir te ver mais tarde. Tava ocupada com coisas da competição... ― ele parou de falar de repente. O clima então ficou estranho. Demoraria um tempo para que eles parassem de andar sobre ovos perto de Josh, ele já esperava por isso.

― Por que não mostramos pro Josh o quarto dele? ― foi Sabina quem quebrou o silêncio, tentando manter o bom astral na casa ― Ele vai gostar de ver onde vai dormir, não acham?

Todos concordaram, tetando sorrir também e tentando animá-lo. Foi então que Josh precisou perguntar o que estava acabando com ele por dentro.

― O Noah não vem?

O silêncio chegou de uma vez no grupo. Ninguém parecia saber o que dizer. Josh encarou Krystian.

O coração martelando e o ciúmes tomando conta de sua mente.

― Não ― Krystian respondeu, desviando o olhar. Foi então que Josh se sentiu mais sozinho mesmo com todos eles ao seu redor. Deveria se sentir melhor por ter seus amigos ali para confortá-lo, mas ele só conseguia pensar em Noah ― Desculpa, Josh. Ele... Ele tem estado meio estranho.

― É ― a voz de Josh saiu bem mais fraca do que ele esperava ― Eu sei...

Seu olhar recaiu sobre suas pernas escansando sem vida na cadeira de rodas. Por que isso tinha acontecido logo com ele? E por que tinha que ter sido com Noah? Por que esse pesadelo tinha que afastá-los logo quando eles estavam consertando tudo entre eles? Por quê se sentia tão mal e sozinho?

― O quarto, né, Sabina? ― a mãe de Josh, Úrsula, quebrou o silêncio pesado.

― Claro! O quarto! ― Sabina concordou, tentando recuperar o bom humor e indo até a cadeira de rodas ― Vamos mostrar o quarto pra você, Josh.

― Você vai adorar! ― Heyoon complementou. Todos eles seguindo-os para fora da sala, indo na direção do corredor.

Josh não saiu sem dar uma última olhada para as escadas que iam para o andar de cima e para o porão. Seu coração doeu ainda mais enquanto todos entravam em seu campo de visão, impedindo sua visão. Será que ele nunca mais conseguiria subir aquelas escadas? Aquela seria sua vida de agora em diante? Em uma cadeira de rodas, sem a pessoa que mais amava e sem poder realizar seu sonho.

Josh engoliu em seco. Como queria o abraço de Noah naquele momento.

+ + +

Any não conseguia encarar Josh, precisava se afastar. Vê-lo daquele jeito doía. Doía muito mesmo. Aquela cadeira de rodas, seu humor que era sempre alegre e sorridente, agora era como se ela estivesse olhando para uma sombra do que Josh tinha sido.

Aquele acidente tinha mesmo tirado alguma coisa dele. E Noah tinha desaparecido, deixado seu melhor amigo. Any não conseguia segurar mais o sorriso forçado e as lágrimas dentro de seus olhos. Precisava se afastar. E foi o que ela fez.

Enquanto todos levavam Josh para ver seu quarto, ela se esgueirou até o lavabo do andar térreo, trancou a porta e desabou. A lágrimas escorrendo, os soluços tomando conta do pequeno cômodo, a dor perfurando seu peito. O peso dos segredos destruindo-a.

Josh não conseguia andar, não conseguiria dançar, seu melhor amigo parecia não estar falando com ele. Tudo o que podia estar dando errado na vida de Josh, estava dando. E ainda não tinha acabado. Ainda tinha mais uma coisa que ele precisava saber, mais uma bomba que seria jogada em sua vida.

E Any não sabia se ele estaria preparado para isso. Ela mesma não estava preparada.

As lágrimas continuavam a escorrer e seu estômago começou a doer com a dor. Any levou sua mão até sua barriga, sentindo o movimento dentro de si.

Quando iria contar para Josh? Como iria para contar Josh o que estava acontecendo?

Precisava se recompor antes de sair do lavabo dos Beauchamp. Precisava chorar tudo o que podia, porque Josh precisava dela. Precisava que ela estivesse bem, porque ele não estava bem. E não estaria por um bom tempo.

+ + +

O quarto era incrível. Eles tinham pegado um quarto abandonado no canto da casa e o transformado no paraíso de Josh. Pôsteres de dançarinos, um vilão, uma cama grande, uma televisão, tudo parecia tão bom e confortável. Tudo para Josh.

Ele sentiu uma lágrima escorrendo por sua bochecha.

― A gente tentou deixar você confortável ― foi Bailey quem falou ― A gente sabe que deve estar sendo difícil pra você, então só queríamos fazer algo bom. Algo que fosse te deixar melhor.

Josh deu um leve sorriso.

― Obrigado, pessoal.

Todos pareciam prestes a chorar enquanto ele passeava seu olhar pelas pessoas no quarto. Sua cadeira de rodas estava bem no centro. Any não estava entre eles, ele percebeu. Quando será que ela tinha sumido?

Ele voltou seu olhar para o quarto de novo. Ele imaginava se Noah tinha feito algo para ajudar a decorar, mas duvidava. As últimas palavras dele ainda estavam muito claras em sua mente. Eles tinham acabado. Não podiam ter nada. A culpa devorando Noah por dentro.

― Eu vou preparar alguns lanches pra vocês, meninos ― Úrsula falou, começando a sair do quarto ― Sintam-se a vontade. Divirtam-se.

Ela se foi e seus irmãos foram atrás. Os amigos de Josh se espalharam pelo quarto e Lamar tirou um controle de videogame de um dos armários, entregando-o para Josh.

― Que tal uma partida pra levantar o astral?

Com um leve sorriso, Josh pegou o controle. Precisava mesmo levantar o próprio astral. Precisava se sentir menos sozinho nesse quarto cheio de gente.

Cheio de gente. Mas sem Noah, parecia tão vazio.

+ + +

Noah não parava de perder. Depois da conversa com Linseu, ele achou que seria melhor distrair sua mente com videogames. Mandou mensagem para seus amigos e agora lá estava ele, sabe-se lá qual partida de FortNite. E, como sempre, não estava jogando muito bem.

Sam e Angel estavam rindo muito dele por ser tão ruim, mas Noah não podia se concentrar. Era como se sua cabeça fosse explodir a qualquer momento. O peso sobre seus ombros era duro demais, ele nem sabia o que mais fazer. Jogar videogame claramente não estava funcionando.

― Ow, parece que a gente tem companhia! ― a voz de Sam soou nos ouvidos de Noah pelos fones de ouvido e ele direcionou o olhar de volta para a tela do computador. Nem tinha percebido que encarava suas mãos ― E aí, moleque? Como você tá?

― Em casa ― a voz dele o atingiu em cheio. Noah não esperava ouvi-lo, não esperava que fosse ter sua voz tão perto de si dessa forma. Maldito fone de ouvido ― Tentando viver.

― Foi mal pelo que aconteceu com você, cara ― foi Angel quem falou dessa vez ― Se tiver alguma coisa que a gente possa fazer, é só falar.

― Valeu, mano ― Josh respondeu. Noah mal conseguia respirar, seu coração parecia que iria saltar pela boca ― Eu agradeço mesmo.

― A gente pode ir te visitar se é de boa pra você ― Sam falou e Noah sentiu-se arrepiar ― Falou que tá em casa, né? O que acha, Noah? Bora?

Ele não respondeu. A ligação ficou silenciosa, ninguém falou nada esperando que Noah dissesse alguma coisa. Ele não tinha palavras. Não conseguia encontrar as palavras certas para dizer. Era como se tudo estivesse entalado em sua garganta.

― Noah? ― Josh o chamou, calmo. Esperançoso. Ele queria que Noah respondesse, podia sentir o quanto Josh sentia sua falta apenas por ouvir sua voz.

Mas não dava. Era cedo demais. Não ia conseguir passar por isso.

― Tenho que ir ― foi tudo o que Noah falou e encerrou o jogo, desligando o computador. Seu fone ficou quieto, ninguém mais estava ali. Estava sozinho.

Noah se jogou na cadeira e olhou para o teto. Será que algum dia conseguiria ouvir a voz de Josh sem sentir tanta culpa? Encarar seus olhos azuis como encarou naquela noite na casa de Sina?

Mas Noah não achava que seria possível. Enquanto Josh não conseguisse sentir suas pernas, Noah não iria parar de sentir sua culpa.