Sonhos Escritos
5 Torne-se meu
Decidimos andar um pouco, nos levantamos e quitamos a conta. E acho que pelo que aconteceu lá dentro acabamos por esquecer que havia começado a chover, mesmo que isso não tenha mudado nada. A recepcionista deu tchau e foi correndo para onde a amiga estava.
– Não tenho muita ideia de algum lugar para ir depois daqui, que tal o parque? – Ele me perguntou antes mesmo de sairmos do estabelecimento, ele parecia conhecer pouco da região próxima o que não faria muita diferença, se ele não conhece, eu posso mostrar. Tá eu não posso, o que eu iria dizer de cada lugar?
– Claro, não tenho nenhum canto melhor a ir – Isso mesmo diga a ele que você não sabe nem onde fica o banco da cidade, a quase esqueci você sabe, só não sabe o que dizer sobre ele – E mesmo que eu tivesse a escolha seria ruim.
– E qual seria a sua escolha? – Ele me perguntou com o sorriso mais lindo do mundo.
– Fica muito longe daqui, basicamente a cerca de seis quadras da minha casa.
– Vamos ao parque e depois até lá.
Assenti. E espera um pouco a minha casa... Será que... N-Não vai ser nada demais.
Estávamos quase na metade do caminho antes que eu pudesse perceber que a chuva havia ficado um pouco mais forte. Ao continuar a andar vi que ele havia parado, seu cadarço desatou, ao olhar para trás consegui ver sua camisa já estava encharcada, o que não era novidade com aquela chuva, e estava chamando a atenção daqueles que passavam. E como não chamaria atenção? Eu mesmo não conseguia parar de olhar. O tecido estava colado, exibindo discretamente as formas de seu corpo. Seria bem mais fácil ele andar sem camisa não chamaria tanta atenção das pessoas em volta, só a minha.
Chegamos ao parque, e ficamos parte do tempo conversando sobre o que gostamos ou não.
– Então o carnaval é daqui a três semanas e você não vai? – Ele me perguntou surpreso.
– Não tenho muita vontade, acho irritante. Se eu quiser pular posso comprar uma cama elástica.
– Cara, pelo menos tenta curtir dessa vez, eu vou viajar daqui a três dias indo em direção a Pernambuco, visitar minha amiga Eloisa e depois volto pra Maceió.
– Não to afim.
– Vamos – Ele sorriu ao se aproximar de mim – Por mim?
– N-Não me venha com esse tipo de pergunta.
Ele segurou na minha mão e se aproximando mais sussurrou no meu ouvido:
– Apenas dessa vez.
– Não sou folião, muito menos um coelho pra ficar pulando.
Levantei-me por algum motivo ao qual não compreendia e depois sentei de novo.
– Pensei que ia embora – Ele sorriu.
– Eu... Esquece. E afinal quem é Eloisa?
– Bom ela é... Que céu lindo não acha?
– Que tentativa fútil de mudar de assunto não acha?
Ele acabou cedendo ao interrogatório. E no final estava rindo por causa das perguntas.
– Eu conheço ela há alguns anos e tipo já trabalhei pra ela sendo seu mordomo junto ao mordomo atual dela.
– E porque deixou de ser o mordomo dela?
– Porque eu não estava mais interessado em seguir carreira de mordomo – Ele riu meio que sem jeito e passou um dos braços por cima do meu ombro – E mesmo que eu tivesse interessado algum dia eu acabaria conhecendo você.
Fiquei meio que sem jeito nesse momento, eu sentia sua respiração o pulsar do seu coração e os pingos remanescentes da chuva escorrendo por seus cabelos.
– Então... – Falei meio baixo pensando que ele não chegaria a escutar.
– Então... – Ele repetiu com a sua voz suave.
– Então... Torne-se meu.
Ele me apertou contra o peito, levantou meu rosto e me beijou. E com palavras suaves pronunciou:
– Eu me tornarei seu.
Não sabia de fato o que fazer, ele apenas me deitou na grama e se deitou ao meu lado. Meu coração estava acelerado, não tinha o controle do meu próprio corpo, coloquei-me sobre o corpo dele ainda de mãos entrelaçadas, me aproximei de seu rosto. Eu realmente... Realmente não sabia o que fazer. Ele sorriu. E me puxou ao seu peito.
Talvez eu seja comparado a algum idiota por ter ficado sem nenhuma ação. Percebi em certa parte que ele começara a tremer.
– Você está com frio?
– Um pouco, nada demais.
Sentei-me ao seu lado.
– Vamos até minha casa, se não for te atrapalhar em nada.
Ele se sentou e sorriu.
– Talvez não me atrapalhe em nada e você? Vai atrapalhar alguma coisa enquanto você escreve?
– Não – Respondi calmamente.
– Então vamos.
Ergui-me e o levantei. Minha casa não ficava tão distante do parque comparando a distancia com a dele. Começamos a andar um ao lado do outro, apenas jogando conversa fora se assim podemos dizer. Eu estava andando com os braços cruzados e ele com os mesmos soltos. No momento em que olhei para trás ele soltou um breve sorriso e estendeu a mão, retribui o sorriso e a segurei.
Ao chegar à metade do caminho, começou a chover. Não chove durante três ou quatro dias e tinha que acontecer duas vezes em pouco período de tempo. Eu estava tremendo dessa vez, ele passou um dos braços por cima do meu ombro e caminhamos assim até chegar à minha casa.
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