Sonhos Distorcidos - Original
9 09 - Colegas de quarto ou inimigos MORTAIS?
Notas iniciais
Quando lhe dizem que você terá que dividir seu quarto com alguém, óbvio que tem recusa de primeira, mas depois você fica se perguntando como é aquela pessoa, se ela é legal, se ela é canadense ou coisas do tipo – sei lá porque você vai pensar se ela é canadense, mas isso passa pela cabeça do mesmo jeito.
Mas isso?
Sério que terei que dividir o mesmo ar que ele? Acho que na verdade estamos sendo preparados para lutas de gladiadores, porque é isso que vai acontecer se ficarmos sob o mesmo teto dois segundos.
Eu juro que preferia ter o Chuck, o boneco assassino ou até a Barbie Primavera do que ele como companheiro. E olha que eu odeio com todas as forças a Barbie.
– Devo ter entrado no quarto errado, só pode – murmuro enquanto coloco um poster do Naruto no meu lado do quarto, o esquerdo.
– Bem que eu gostaria de acreditar nisso também – disse o garoto de cabelo castanho-claro todo espetado.
Isso só pode ser um grande pesadelo ou um universo paralelo, porque estou dividindo o quarto com o mesmo oriental imbecil que queria me ver incinerada no dia da prova de admissão.
Ele está vestido de um modo despreocupado, com calça jeans escura e uma camiseta com gola V soltinha, sem contar seu cabelo que está mais desgrenhado que o costume. Ele está arrumando um monte de livros em uma prateleira na parede em que a cama esta encostada e desconfio que ele mesmo deva ter colocado aquela prateleira.
Enquanto tento fazer o meu lado do quarto ter mais a minha cara e o oriental imbecil também faz o mesmo, minha cabeça começa a martelar várias idéias para ele aparecer morto na escadaria de manhã ou ter escorregado da varanda do quarto e “ops” morreu, mas percebo que serei presa no mesmo instante.
Solto um suspiro a contra gosto e sei o que tenho que fazer e infelizmente isso não inclui vê-lo estirado no chão como um cadáver dos seriados americano de assassinatos.
– Olha – começo a dizer, chamando a atenção dele para mim e sento na ponta da cama –, se vamos ser colegas de quarto, acho que não devemos ficar com esse clima de Primeira Guerra Mundial entre a gente. Temos que ser tipo parceiros lutando contra zumbis no Apocalipse.
O garoto me olha com seus olhos castanho-avermelhados, parecendo que não entendeu uma palavra do que eu disse ou ele apenas tem esse olhar de besta e eu não percebi antes.
Eu espero alguma resposta dele por um tempo, mas só o que recebo é um silêncio perturbador e ele levantando uma de suas sobrancelhas bem desenhas para mim.
– Você entendeu o que eu quis dizer?
– Eu parei de entender depois que você disse “olha” – um sorriso travesso brinca entre seus lábios finos e rosados.
Contenho o ímpeto de pular em cima dele e socar tanto a cara dele que nem a própria mãe vai reconhecê-lo, mas apenas forço um sorriso, muito do forçado.
– O que eu quero dizer é que não devemos ficar tentando nos matar e alfinetar. Se vamos ter que ficar sob o mesmo teto, acho que deveríamos pelo menos tentar não ficar no caminho um do outro, sei lá.
Por um segundo ele parou de arrumar os livros na prateleira e pareceu pensar na questão. Logo em seguida se virou para mim com o rosto sem expressão.
– Tudo bem. Eu não atravesso seu caminho e você faz o mesmo. Não precisamos fingir que somos amiginhos que planejam piquenique juntos, para depois percorrer o Caminho de Tijolos Amarelos até o final do arco-íris – ele lançou um sorriso meio malévolo, meio bad boy para mim e volto a arrumar seu lado do quarto.
Amiguinhos que planejam piquenique juntos? Percorrer o Caminho de Tijolos Amarelos até o final do arco-íris? Sério que ele falou tudo isso e não entendeu a minha frase de Primeira Guerra Mundial? Isso é um absurdo.
Tiro mais um pôster de dentro da minha mala, dessa vez sendo do Death Note, mas antes de colar na parede eu me viro para ele.
– Ah, já que estamos conversados sobre esse assunto – eu começo a dizer e ele se vira para mim mal-humorado – eu não deveria saber pelo menos seu nome?
Ele revira seus olhos, obviamente querendo que uma viga de sustentação caísse em cima de mim, mas devo dizer que esse pensamento primeiro foi meu, então, ele pode tirar o cavalinho da chuva que eu estou na fila esperando que aconteça.
– Me chamo Allen Yori – disse sem emoção alguma na voz, o que não me surpreende em nada.
Allen deve ser um cara muito comunicativo e popular entre as pessoas... só que não. Ele está mais para o meu tio Elliot que tenho que visitar uma vez por ano no campo. Ele é extremamente rude. Arrogante, resmungão, dá mais valor para sua samambaia que a sobrinha com os pais divorciados e sempre que tento impressioná-lo com um desenho, ele dá para sua planta carnívora devorar. Então, Allen está a um passo de se tornar o clone do meu tio Elliot e ter uma estranha relação com plantas, principalmente com as que mordem.
O garoto oriental dá as costas novamente para mim, sem perguntar o meu nome ou sequer, fingir que está interessado em saber se seu colega de quarto não é um psicopata ou no mínimo um homem de verdade.
– E qual é seu nome, garoto com convicção por animes e mangás? – Eu tento falar com a voz dele; desanimada e desinteressada, mas não sou muito bem. – Ah, que bom que você perguntou Allen. Eu me chamo Chay Mine, mas já que somos colegas de quarto, sem formalidades, pode me chamar só de Chay – digo, fingindo um tom super empolgado, mas também não da certo.
Allen bufa.
– Que ótimo, um engraçadinho. Que sorte a minha, não acha?
Sem esperar resposta ele sai do quarto, talvez porque o ar lá dentro já está escasso e não aguentamos mais a presença um do outro.
É nesse momento que tenho certeza de uma coisa; a Primeira Guerra Mundial já foi declarada.
Notas finais
Até a próxima queridos
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