Sonhos Distorcidos

6 Capítulo 5 - Desenhando um príncipe


Não tinha conseguido dormir muito bem noite passada. Podia ser loucura. Não. Na verdade era muita loucura mesmo. Mas não tinha conseguido pegar no sono por causa dele. Todas as palavras que eles trocaram um com o outro, as ex-namoradas, os olhares indiscretos da amiga loira que ele trouxe noite passada, se não se enganava o nome dela é Ino, é isso mesmo. Mas nada disso importava agora. O que toda essa maluquice significa? Que ele esta a fim de um homem?! Justamente ele que sempre pode ter todas que quisesse. Não é possível!

— Tira esses pensamentos idiotas da cabeça! – repreendeu-se, dando um cascudo em sua própria cabeça. – Ideias insanas. Sumam!

Tentou voltar sua atenção para o monólogo de uma reescrita, tentar estudar suas falas.

— Ele ainda deve estar bravo comigo sobre ontem – disse se encostando mais no tronco da árvore.

Droga! Tinha prometido a si mesmo tirar o domingo para estudar para o teatro, sem pensar uma única vez nele. Talvez, só talvez, deveria ter ido à cidade com o restante dos amigos.

— Estou quase desistido – colocou o dedo indicador entre as páginas. Decidiu deitar-se na grama, colocando a mão livre atrás da nuca, fechando os olhos. Descansar um pouco não iria fazer mal nenhum.

Um pouco mais adiante dali ela andava procurando justamente ele. Mesmo ainda estando com raiva dele e seu emocional estável tinha que achá-lo, afinal de contas, tinha pedido para ele ser seu muso e querendo ou não tinha que fazer o trabalho para amanhã. E também, uma parte dela queria muito vê-lo mais uma vez. Ver seu sorriso, sentir seu perfume amadeirado, somente estar perto dele.

Observou todos os cantos, nada, puro verde e tranqüilidade, exceto algumas pessoas passeando por ali. Foi então que seu olhar se deteve em um garoto deitado na grama a um metro dela. Não tinha certeza, mas respirou fundo, agarro-se mais ao bloco de folhas brancas e os carvões para desenhar. Tinha que continuar.

— O-oi Sasori – disse, assim que estava de frente ao corpo deitado.

O rapaz nada disse, na verdade nem acordou. Ele respirava lentamente, parecia um anjo de cabelo liso avermelhado. Tão lindo e gostoso, pensou o observando já corada. Balançou a cabeça de um lado para o outro rapidamente. Sai pensamentos idiotas! Ordenou, como que fosse conseguir.

Já que ele não acordava, muito menos iria desperta-lo, sentou-se do lado dele, posicionou o bloco de folha em cima das coxas e inclinou um pouco o corpo para frente para começar a desenhar. Começou com leves rabiscos, só para testar o carvão (que agradecia muito por Sai a ensinar a usar) e observá-lo melhor.

Ela desenhou cada detalhe; as dobras das roupas, a pouca ou muita luz em determinadas regiões, o cabelo levemente despenteado, o livro que descansava no peito dele meio fechado com o dedo demarcando as páginas, suas feições tranqüilas e angelicais. Tudo, até o cenário, que é sim um detalhe muito importante; a grama verde aparada, o tronco envelhecido da árvore, os raios de sol na vegetação rasteira e nele.

Depois de meia hora, e ele não acordou, Sakura estava orgulhosa de si mesma, não querendo se gabar por ela ter desenhado, mas estava uma verdadeira obra de arte enriquecida com muitos detalhes e vida.

Talvez seja a inspiração, pensou.

Mesmo com a mão calejando um pouco com o esforço, queria continuar a desenhar, tinha que aproveitar esse momento. Destacou a folha desenhada, colocando na grama, entre ela e ele, colocou alguns carvões em cima e tratou de continuar com o trabalho.

— Chay? – perguntou a voz masculina. Ele abriu lentamente os olhos, levando um dedo para esfregar o olho e despertar o sono.

Ai meu Deus. Vou ter um sangramento nasal se ele continuar tão... tão sexy assim. Ahh! Já estava pirando. Sakura não iria conseguir se segurar por muito tempo nessa situação tentadora.

— O-oi. Eu te chamei, mas como você não acordou decidi começar o trabalho assim mesmo. Desculpe – pediu receosa, tentando controlar a voz tremula e o calor sob a pele.

Ele deixou o livro de falas ao seu lado e sentou-se, recostando as costas novamente na árvore. Espreguiçou-se lentamente, bocejando ao mesmo tempo.

— Você mesmo que vez este enquanto eu dormia? – perguntou, pegando a folha do chão.

— Sim. Acabei agora – corou ao ver o olhar tão critico dele encima do desenho. Será que tinha se enganado e estava uma merda?! – O que achou? – por fora estava indiferente, mas por dentro era uma luta interna para não arrancar todos os cabelos e as unhas.

— Eu ainda achava que você estivesse brincando com a minha cara quando pediu para mim ser seu modelo, mas... este desenho está ótimo. Você realmente tem um dom incrível. Já tinha visto alguns desenhos da turma, mas... Uau. Está incrível.

Sakura não pode evitar corar mais ainda. Se continuasse assim não iria demorar para ser semelhante ao um pimentão. Lindo. Ele realmente é lindo. Lançou um olhar de boba para o rapaz. Espera. Eu sou o Chay e ainda estou com raiva dele pelo que disse. Rapidamente voltou a sua carranca de indiferença.

— É. Que bom que gostou. – Voltou sua atenção para a folha, se concentrando ali.

— Continua me desenhando? – perguntou curioso.

— Sim. Estou te desenhando da forma que está agora.

— Acho isso engraçado.

— O que? – voltou seus olhos para ele, deixando os dedos latejantes descansarem um pouco.

— Isso... Desenho. Ele me lembra muito uma fotografia, é quase como se fosse uma, mas consigo sentir mais vida no papel. É sempre assim?

— Depende do traço e do estilo do artista.

Trocaram mais algumas palavras. Ela voltou a desenhar concentrada, só tirando os olhos do desenho para olhá-lo e depois voltar ao desenho. Sasori ficou ali, olhando-o, somente.

Clima chato. Que merda. O que eu falo? Mesmo parecendo concentrada ela estava surtando por dentro. Queria falar alguma coisa a mais, só não queria que acabasse do mesmo jeito de ontem.

— Você se importa se eu voltar a ler? – perguntou mostrando o livro, procurando em que página tinha parado.

— Não. Espere só um momento, já estou acabando esse – ele esperou, alguns minutos se passaram até ela finalizar. – Pronto. Pode ler agora.

Destacou a folha, descansando em cima da outra. Tratando de já ir para o próximo. O desenhado na posição atual.

— O que esta lendo? – observou a capa, mas não conseguir ler muita coisa.

— Minhas falas para um trabalho do teatro.

— Sobre o que? – ia perguntando voltando ao trabalho.

— É uma reescrita do Mágico de Oz. Sou o espantalho sem cérebro. Tenho sorte de não ter pegado o papel de Dorathe.

— Por que te dariam esse papel? – franziu a testa. Se fosse ela entenderia, por causa da bendita aparência afeminada, mas ele. Alguém é cego?!

— Queriam fazer de um jeito diferente, então tudo iria inverter os papeis. Mas não aconteceu.

Sakura começou a gargalhar. Era impossível não imaginá-lo vestido com roupas femininas interpretando a Dorathe.

— Isso não é engraçado. É vergonhoso. Pare de rir, não tem graça – disse ficando corado, não sabia onde enfiar a cara.

— Ah, tem graça sim. E muita. Adoraria ver você usando um vestido armado e um avental branco. Que fofo – continuou a gargalhar loucamente.

— Falando nisso... sinto muito mesmo por ontem. Não sei por que disse tudo aquilo.

O clima hilário se foi rapidamente, ela tinha quase se esquecido disso, quase. Ela poderia ser ignorante, falar um monte para ele e ir embora, mas não queria prolongar nada disso.

— Tudo bem. Eu já falei que não me importo com isso. Não mais.

— Não está bravo comigo?

— Não.

— Que bom. Fiquei com medo que estivesse. Estava preocupado – corou ao declarar para ela.

A garota ficou sem reação nenhuma. Ele. Justamente ele, ficou com medo e preocupado que ela, Sakura – que agora é Chay – tivesse ficado com raiva dele. Se não soubesse que ele é popular poderia jurar que ele é uma pessoa insegura.

— Fico feliz que não esteja com raiva de mim – pegou no ombro dele. Os dois sorriram um para o outro.

Minha nossa. Ele parece um príncipe mesmo. Sou tarada por ficar pensando nele assim? Sim sou.

Deu outro olhar abobado para ele, quase se derretendo toda. Quando percebeu seu exagero quase enterrou o rosto cor de carmim sob o bloco de folhas e o tórax.

Sou uma idiota. Ele é popular e lindo. Sou apenas uma garota fingindo ser um garoto. E se ele começar a gostar de mim e virar gay? Não. Ai vai ser o ‘Chay’ não eu. Se bem que... NÃO! Cala boca consciência idiota! Por dentro ela batia num clone dela imaginário. Realmente estava surtando.

— Olha Sasori... – começou a dizer, mas foi interrompida por uma voz feminina.

— Oi Chay – disse Ino. Os dois estavam tão distraídos na presença um do outro que nem perceberam a garota se aproximando, ou sequer a presença dela ali. – Oi pra você também Sasori – deu um meio sorriso olhando para ele. – Desculpe, mas preciso roubar o Chay de você agora. Talvez mais tarde vocês se vejam.

Sakura a olhou sem entender. Ela lançou um olhar de ‘ande logo, garota. Não discuta comigo’. Mesmo sem entender ela arrumou suas coisas e se levantou. Ino agarrou um dos braços da garota.

— Então, tchauzinho – disse a loira escoltando a amiga, sem deixá-la falar mais nada.

O ruivo ficou ali, sem entender nada. Enquanto, as duas iam embora.

— O que ouve Ino? Aconteceu alguma coisa? – perguntou preocupada com o que pudesse ter acontecido.

— Apenas evitando que mais alguém visse a sua cara de abobada. Só faltava você babar – falou zombeteira, soltando o braço da mesma. – Se bem que eu acho que eu vi uma babinha no canto da sua boca – colocou um dedo no canto inferior da boca dela, insinuando a baba escorrendo.

— O que? Não. Eu não estava babando por ele. Eu só... é... – deixou a frase inacabada, corando até a raiz do cabelo. Realmente estava sim. Que vergonhoso.

— Espera ai! – exclamou, parando de andar. – Ontem você disse que gostava de alguém e antes de olhar para mim você olhou para ele. Minha nossa, você esta apaixonada pelo Sasori. Não posso acreditar. Será que ele é gay? Ai talvez ele corresponda seus sentimentos. – Começou a brincar desenfreadamente, segurando cada gargalhada que lhe subia a garganta.

— Isso não é verdade. Pare de brincar com isso, Ino. E ele não é gay. – recomeçou a andar, dando passos mais duros.

— Ah é?! Então por que ele parecia responder seus olhares abobados? Tem alguma explicação, Sakura torturadora de amigas?

Ele estava correspondendo? Minha nossa, não posso acreditar... Espera. Para tudo. Se ele correspondia isso significa... AH! Inferno. Ela esta certa. Ele é gay. A vida é injusta.

— Ele não é gay – tentou se convencer. – Deve ter outra explicação. Uma da qual eu ainda não sei.

— Tudo bem então. Se for assim que você quer encarar. Só não se esqueça de me falar quando tiver a resposta. Agora vou indo, tenho que ir para minha aula – chegaram ao caminho de tijolos amarelos, a trilha que faz parte do parque.

— Ir aonde? Suas aulas de moda são só amanhã.

— Achei uma pessoa que luta kung-fu e luta livre. Quero aprender para ninguém mais me jogar no chão e ficar de cima de mim. Se é que isso te soa familiar – levantou uma das sobrancelhas, em desdém.

— Eu já pedi desculpas e você sabe muito bem porque fiz isso.

— Sei, sei. Mais ainda tenho uma pergunta. – Sem esperar a permissão continuou: – Quem eram aquelas três ontem no restaurante? Eram suas ex mesmo? – arregalou os olhos azuis para ela.

— Não. Só minhas amigas. Uma delas me ajudou a entrar aqui vestida de Chay.

Ela deu um suspiro de alivio. E colocou uma mão no peito.

— Uh. Que alivio. Achei que era. Isso ainda é muita doidera para me acostumar.

As duas trocaram mais algumas palavras. Mesmo a loira achando tudo isso uma loucura e ainda estando brava e com medo de Sakura, achava tudo divertido e era ótimo estar com ela, não acharia outra amiga tão estanha como essa travestida de irmão gêmeo, porém, ainda tinha sentimentos por ele, ela, sei lá, mas, enfim, ainda gostava de Chay.

Ainda naquela mesma tarde, depois de se despedir e voltar para o dormitório, que ainda dava graças pela ausência de um certo moreno, ligou para Tenten para agradecer sobre o plano, que não poderia ter ocorrido melhor, e informar a situação atual: tinha contado para uma pessoa seu segredo e estava pirando por estar gostando do tal príncipe ruivo.

Passou o resto da tarde jogada nos puffs do quarto, com a tevê desligada, escutando música e desenhando o garoto ruivo. Estava preocupada com Sai, não tinha o visto o final de semana todo, muito menos sabia se ele já tinha achado uma inspiração, pensou em ir ao quarto dele, para uma visita, mas não sabia qual era ou em que prédio ficava e, mesmo que vestida de homem, ainda era uma garota, então é vergonhoso entrar no quarto de um homem.

Ela estava feliz, e totalmente à vontade, sozinha no quarto. Não aguentava mais o disfarce. Não é nada fácil ficam com os seios enfaixados 24 horas por dia, roupas pesadas de homem e uma peruca que penica e muito. Ainda se sentia feliz pelo Sasuke não estar e poder ser ela mesma por mais tempo. Era ótimo dormir sem a faixa e ser uma garota, pelo menos entre quatro paredes.

O fim da tarde estava fresco e acolhedor. Sakura não resistiu à tentação. Deixou de lado todo material artístico e foi até o guarda-roupa procurou o tampo falso que tinha encontrado e tirou de lá um short jeans azul, uma regata, quase bata soltinha, cinza surrada e pegou sua amada bota de combate preta. Trocou-se rapidamente e já estava pronta para dar uma volta como ela mesma.

Pegou uma mochila, colocando sua pasta de desenhos, colocou mais algumas folhas de sulfite branca, um estojo de porte pequeno, um caderno, por precaução, colocou, também, as roupas e a peruca de Chay. Se qualquer coisa acontecesse estaria preparada.

Não se importou em olhar no mapa, iria ir para onde a sorte a levasse, apesar de que sendo ela não era nada difícil se perder, com ou sem mapa, isso não fazia a mínima diferença. Talvez fosse uma força maior que a fazia se perder. Ou é meio tapada mesmo.

Colocou a mochila nas costas e saiu. Sem destino.

O campus estava bem tranquilo naquele final de tarde, poucas pessoas perambulavam. Algumas pessoas cantavam em algumas partes dos parques, outras dançavam, algumas só estavam ali; lendo, desenhando, escrevendo ou somente deitado na grama.

Sua andança sem destino resultou em seguir por um tempo o caminho de tijolos amarelos, depois entrar numa clareira, até dar de frente a uma antiga ponte de madeira, com um rio mais abaixo. Ele fazia caminho com um campo verde do outro lado, continuando a trilha.

Não tinha ninguém ali, então se sentou no corrimão de madeira. Parecia firme, então não ia quebrar com seu peso. Acho. Pegou tudo que precisava para desenhar – graças que a ponte é iluminada por quatro postes de luz, cada um dos dois lados da entrada da ponte –, depois jogou a bolsa, entreaberta no chão, quase aos seus pés.

Uma hora se passou, desde que começou a desenhar, pelo menos achou que estivesse ali há uma hora, seu bumbum dizia que sim. Mas estava tão entretida que nem se deu conta que tinha alguém a observava fazia meia hora, ele estava meio oculto entre uma árvore, sentado na grama, de frente para ela, a alguns metros dali.

Tinha ficado sábado inteiro tentando achar uma inspiração, junto com uma parte do domingo. Até agora, que teve a louca ideia de andar por ai, sem destino, não iria usar uma modelo, pois sua última não deu muito certo, mas assim que há viu um pouco mais de longe, não se conteve. Era ela.

— Onde esteve escondida por tanto tempo? – perguntou para si mesmo, estava impressionado com a tamanha beleza e tom de cabelo em tom incomum de rosa. Linda, mas nunca a tinha visto antes.

Os cabelos cascateavam onduladamente em suas costas, só algumas teimosas mechas que insistiam em ir parar no rosto.

Cada detalhe, cada pequeno movimento, tudo era admirável e digno de ser retratado, pena que estava usando carvão e não giz de cera ou algo com cor; queria retratá-la com cores, mas tudo bem.

— Acho que já é o bastante por hoje. Já tenho meu trabalho, acho que até mais do que precisava – disse Sakura, falando sozinha. Pegou a bolsa e jogou a pasta e o estojo lá dentro, se levantou, pronta para ir embora, mas antes olhou para o céu. Não tinha percebido o quanto escurecera. Nossa, devia ser umas seis e meia ou sete horas, se não mais. Pelo menos tinha colocado alguns pensamentos em ordem.

Ela se levantou, provavelmente já iria embora. Tinha que criar coragem e ir até ela. Perguntar seu nome, saber sobre ela, até chamar para sair se conseguisse coragem.

Deu alguns passos, indo em direção a ela, que agora estava com os braços debruçados no corrimão da ponte, olhando o outro lado. O garoto estava começando a ficar nervoso e suar frio, mesmo ainda longe dela. Mas parou assim que viu uma pessoa andando na ponte e se aproximando dela. Tinha perdido sua chance. Logo para ele, não poderia ser outro? Droga! Observou um pouco a aproximação e a surpresa da menina, não aguentando mais, deu as costas e foi embora. Iria ficar na curiosidade.

— Oi – disse uma voz masculina. Ela conhecia aquela voz. Será que era...?

Virou o rosto, para ver melhor e confirmar sua suspeita. Droga. É ele mesmo. O que faço agora...? Será que se sair correndo desesperadamente ele vai desconfiar de alguma coisa? Acho que não. Mas ira me achar louca. Melhor louca do que ser descoberta.

— O-oi – tentou alcançar a mochila do chão, tentado disfarçar o movimento e escondendo o rosto, cobrindo-o com um pouco da noite.

Sasori ficou a dois passos de chegar perto dela, parou ali mesmo.

Não era muito natural abordar uma pessoa que ele não conhecia; principalmente uma garota. Era tímido para essas coisas. Mas essa garota tem algo familiar, algo que o faz se senti a vontade perto dela, mesmo sendo uma estranha.

— Não sou nenhum tarado. Pode ficar despreocupada – disse, vendo a mão da garota alcançar a mochila sem jeito.

— Geralmente eles falam isso para confortar suas vítimas para depois atacá-las, sabia?

— É mesmo? Não sabia... bem...

— Tenho que ir. Foi bom lhe ver. – Deu as costas para ele, implorando para a mesma força maior que a faz se perder, para que ele não a chamasse ou ela precisasse sair correndo.

— Espera. Não quero que vá embora. Fique... por favor – Sakura virou o rosto para olhá-lo. Parecia uma criança pedindo doce a mãe. Ah! Tão lindo. Vou ter um sangramento nasal se ele continuar a me olhar dessa forma. Minha nossa, agora pareço uma tarada mesmo. Credo! Se controla Sakura. Postura.

— Tudo bem, mas se tentar alguma coisa eu sei alguns golpes de kung-fu e MMA*, por isso, não tente nada – disse ainda com a voz nervosa e tremida. Isso parecia à coisa certa a se falar.

Qualquer garota falaria isso nessa situação, certo? Então por que me sinto uma panaca por ter dito? Quero um buraco para me enterrar, melhor, vou me jogar da ponte.

O ruivo tentou esconder, sem sucesso, a risadinha que saiu depois da ameaça da garota. De fato, não é só o cabelo que é diferente. Ela também é, pelo menos até onde percebeu, mas ainda é uma estranha, uma estranha que o faz rir.

Ela voltou a se debruçar no corrimão, jogando a mochila no chão de madeira, ele andou até ela, deixando uma distância de dez centímetros entre ambos. Ficou na mesma posição que ela, com os braços debruçados, uma das mãos segurava o queixo.

— Então – ele começou a dizer. – Quem é você?

— Não vou dizer meu nome para um estranho, que anda sozinho por ai – iria continuar atuando esse papel; de garota inocente cuidadosa e desentendida.

— Tudo bem. Sem nomes, então. O que pode me dizer então?

Mesmo a achando familiar, e não se lembrava quem ou com quem ela parecia. Tinha algo de misterioso nela, algo que o fazia querer descobrir mais, mesmo sabendo que a mesma não iria dizer. Podia. Não. Era loucura, mas estava fascinado com ela, não só pela beleza incomum, mas nunca tinha conhecido uma garota assim. Normalmente elas se jogavam em seus braços. Pelo menos sua hipótese de ser gay tinha sido descartada. Mas e se fosse bissexual? Droga! Dúvida cruel.

— Posso dizer que estou atrasada para voltar para meu quarto.

— Então estuda aqui? Cursa o que? – perguntou mais animado, a ideia de vê-la outras vezes lhe agradou.

— Sim e não.

— O que? – ela estava o confundindo de propósito?

— Olha, se você ficar perguntando coisas sobre mim eu vou embora, mas se mudar de assunto eu fico mais um pouco.

— Tudo bem.

Ela esboçou um sorriso angelical, se espreguiçando em seguida sentando-se no chão. Bateu na madeira fazendo sinal para que ele fizesse o mesmo. Ele obedeceu, sentando-se ao lado dela.

— Então, ruivinho, o que está fazendo andando sozinho por ai?

Sasori pensou um pouco, depois olhou para ela e respondeu:

— Pensando. Estou com alguns problemas, só queria chegar a uma resposta.

— Quer falar sobre isso?

— Não. Eu vou conseguir responder sozinho. Obrigada.

O coração de Sakura batia rapidamente, faltava ar e sua pele começava a adquirir uma ardência costumeira. Isso sempre acontecia quando estava perto dele. Mas, por quê?

— Sempre fala com estranhos em uma ponte a noite? – perguntou, tentando disfarçar tudo que acontecia dentro de si.

— Para ser sincero, é a primeira vez. É que você me lembrou uma pessoa, mas é impossível ser quem eu pensava, porque essa pessoa é um homem.

— Como se chama?

— Chay, Haruno Chay. Conhece?

Merda! Ele vai descobrir. Estou sentindo. Babo. Tenho que ir embora, pensou, ficando mais nervosa, suando frio.

— Não. Nunca escutei esse nome. Nem conheço ninguém com esse nome.

— Estranhamente você me lembra ele, com esses olhos verdes grandes, a boca carnuda, o nariz fino, essas bochechas vermelhas.

— Deve ser conhecidência. Muitas pessoas têm olhos verdes grandes, bocas carnudas e bochechas vermelhas.

— Tem razão. Mas até o jeito de falar e agir é semelhante. E também me sinto a vontade com ele, assim como com você.

— Isso deve... Espera. Esta a vontade comigo?

Ele começou a ficar coradinho. Que fofo!

— Sim. Não sou muito de conversar com garotas.

— Mas você deve ser popular. Isso significa que fala com muitas garotas. Seu mentiroso.

— Não. Você não entendeu. É ter uma conversa normal, sem a garota se jogar em cima de mim ou usar a palavra ‘príncipe’ para falar comigo. Ou seja, uma conversa normal. Ou você ainda vai dar em cima de mim? – perguntou zombeteiro, dando um sorriso brincalhão.

— Só porque você é convencido não vou mais te cantar – brincou, dando um soco de leve no ombro do ruivo.

Ficaram conversando mais um pouco. Apenas se divertindo. Dessa vez. Quem às vezes mostrava um olhar abobado era o garoto. Estava adorando estar com ela.

— Tenho que ir agora – pegou a mochila, se levantou tirando a sujeira do short.

— Quando vou te ver novamente? – levantou-se também, em um pulo.

Amanhã, pensou, mas não podia falar isso, mesmo querendo muito.

— Não sei. Mas alguma hora a gente se esbarra, pode ter certeza – deu as costas, colocando a mochila no ombro.

— Quando isso acontecer, como te chamo? – falou um pouco mais alto, já que ela começara a andar.

Sakura deixou um segundo em silêncio. Não poderia falar seu nome de verdade, mas não queria mentir.

— Cerejeira – respondeu de volta.

OBS: MMA*: é um tipo de luta livre.