Sonho ou Realidade
3 A sala de colisões
Sabrina caminhava indecisa pela nave. MOMO já a havia procurado duas vezes, mas ela precisava ficar sozinha. Afinal, não é todo dia que seu melhor amigo perde toda a memória.
Tentava reformular toda a sua vida, decidindo como e o que poderia contar sem que ele enlouquecesse. Mas, pensou, ele nunca enlouqueceria. Não faz o estilo dele, provavelmente aceitaria tudo o que eu disesse, sem nem mesmo questionar... A garota sorriu. E isso era algo que não fazia desde que ele partira.
Respirou fundo uma última vez e bateu na porta.
– Osmho. – A resposta veio num fraco murmuro. Cansado, ou, no pior cenário, doente.
Abriu lentamente a porta, quase como se quisesse adiar ao máximo aquele momento.
. . .
Ainda estava com sono, mas esforçou-se para afastá-lo e acordar o mais rápido possível. Não precisou de muito esforço para tal, na verdade. Os pesadelos que o atormentavam todas as noites voltavam insistentemente, sempre que fechava os olhos – mesmo que para uma leve piscadela.
Deixou sua mente rondar o ambiente por alguns instantes. Estava em uma sala cilíndrica, de paredes metálicas. O teto estava a, pelo menos, trinta metros acima, o mesmo para a parede mais próxima – isso porque não estavam no centro exato da coisa, o que quer que aquilo fosse.
Sentiu uma mão em seu ombro, embora já soubesse de quem era.
– Dari... – Parou no meio da palavra, repensando – chaos... Você está bem...? – Quase, sem querer, dissera o nome verdadeiro dele. Embora ela duvidasse, ele acreditava que Krad poderia rastreá-los, apenas pelo som dessas duas palavras. Algo relacionado com vibração nas branas do mundo, ou coisa parecida – diga-se de passagem, ele mesmo não entendera a própria ideia.
Ele fez que sim com a cabeça. Nunca admitiria que estivesse mal, mesmo que as profundas olheiras mostrassem o contrário.
Ela sorriu. Decididamente, era ele, sem nenhuma dúvida. Não o haviam trocado por um clone, andróide, ilusão em sua mente, ou qualquer outra coisa. Era ele.
Sabrina correu seus olhos pela enorme sala, parecendo notá-la pela primeira vez. Em um ponto incrivelmente afastado, um retângulo se destacou abaixo de um letreiro, escrito (com letras muito caprichadas) em um idioma incomum para ela, russo, embora tanto Sabrina quanto chaos soubessem seu significado: Elgard – Sala de Colisões.
Dariel acabou concluindo que seu corpo estava razoavelmente bem – sem ossos quebrados, embora com algumas dores ocasionais. E a sua “neuralgia do trigêmeo” não estava atacando. Um bom sinal.
Não que os médicos tivessem certeza sobre a sua doença, mas a chamavam assim, pois existe uma relativamente parecida, embora não fosse mágica. Na verdade, ele mesmo não estava certo de como sabia que tinha tal doença em seu corpo, mas isso também poderia ser um sinal de volta de memória, então, encarou isso como um bom sinal. Riu para si mesmo do próprio pensamento. Era um bom sinal ter uma doença desconhecida. Bela piada.
– Onde estamos...? – Sabrina pergunta, mais para si mesma do que para alguém. Talvez por isso tenha ficado surpresa o ouvir a resposta vinda de MOMO.
– Espaçonave Militar e Residencial, classe C, Elgard. – Ela própria ficou surpresa por saber disso, olhando assustada para os lados. Isso não escapou dos outros dois, mas, o que quer que fossem dizer ou perguntar, teve de ser adiado.
– Parece que estão estáveis, Shion. – Uma voz infantil falou distraidamente, como se não soubesse que o microfone estava ligado. Possuía o estranho tom de conhecimento que costuma pairar nas palavras de cientistas.
– Sim, sim. Também me parecem... – O mesmo tom científico pairava na voz da garota de dezessete, dezoito anos. – O relatório da KOS-MOS está estranho...
– O que houve?
– Os Zohars... Estão emitindo pulsos gravitacionais na brana... Quase como se quisessem abrir uma curvatura no espaço-tempo...
– E a outra ponta poderia ser... Nós podemos rastrear, certo?
Aguardaram por vários minutos, mas eles não voltaram a falar.
Depois de algum tempo, perceberam que os outros – quatro, mais especificamente – iam ao seu encontro. Pelas suas faces confusas, via-se que tinham sido levados para lá da mesma forma que eles.
Notas finais
Glossário:
- KOS-MOS:
Sigla para Kosmos Obey Strategic Multiple Operation Systems.
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