Sonho no gelo
3 Lago
O som do despertador me acorda e ao olhar para a janela ainda parece estar de noite. Sinto falta do sol, e do calor que ele causava em minha pele. Sinto falta de casa.
Levanto e me arrumo para o café da manhã, visto roupas agasalhada, aproveito e já levo meus patins comigo.
—_ Bom dia querida, vai sair para patinar?
—_ Bom dia vovó. Vou sim, aproveitar a nevasca de ontem e ir para o lago que fica aqui perto. Como está a mamãe? Ela melhorou?
—_ ainda um pouco gripada, mas deve ficar bem daqui a alguns dias. Você sabe, a adaptação não tem sido fácil para ela, depois do que aconteceu com seu pai...
—_ Certo, então eu acho que já vou indo.
—_ Desculpe querida, não quis ser inconveniente.
—_ ta tudo bem vovó, eu preciso mesmo ir. – Dei um beijo em sua bochecha, peguei um bolinho e coloquei chocolate quente em uma garrafa antes de sair. A neve das ruas dificultaria um pouco a minha chegada ao lago, mas graças a Deus alguns moradores já limparam suas calçadas. Odeio quando falam do que aconteceu com meus pais, justamente por esse motivo só meus avós sabem o motivo de termos vindo para cá. Apesar de confiar muito em Chris, ainda não me sinto preparada para contar a verdade.
Depois de dez minutos em uma caminhada silenciosa, me sinto com uma paz de espirito confortável e avisto o lago perto do bosque. Meu bairro é um pouco afastado do centro da cidade, mas eu prefiro assim, sem toda aquela correria e tumulto da urbanização de capitais. Onde moro é mais calmo, os vizinhos se conhecem, e há um pequeno bosque com um lago imenso onde posso treinar sem muitos olhos prestando atenção.
Assim que cheguei a borda do lago, joguei uma pedra com força em sua superfície, para ter certeza de que estava bem solido. Como nada aconteceu, me senti segura para colocar os patins e riscar o gelo enquanto patinava. Incrivelmente para alguém que nunca tinha feito isso na vida, eu realmente era muito boa, minha coordenação sempre me favoreceu em esportes e além disso consigo aprender bem rápido, provavelmente a única coisa que me impediu em todos esses anos a descobrir o esporte que hoje amo tanto foi justamente a minha localização. Felizmente, o calor escaldante do Texas não é algo de que eu sinta falta.
Começo com pequenos giros em um pé só, passo que minha antiga professora ensinou a algumas semanas. Depois começo a ganhar velocidade e para mim essa é uma das melhores coisas desse esporte, sentir o vento frio no rosto, o coração acelerado com a adrenalina, a sensação de estar voando. É simplesmente incrível. Pego o celular e coloco o fone de ouvido, resolvo tentar fazer uma coreografia que vi na internet, nada complicado demais e além disso venho treinando em casa, falta só colocar em pratica no gelo. Dou play em “Faded” e começo devagar enquanto me deixo levar. A coreografia vem fácil em minha mente e sinto como se fizesse isso a minha vida toda, até um momento da música em que precisava saltar. Não tinha aprendido esse movimento ainda, mas resolvi arriscar tentar algo parecido. Ganhei velocidade, pulei e fiz um giro, mas quando procurei o chão para aterrissar era tarde demais e eu já estava no chão. Minha bunda doía com o fracasso da experiência, mas ainda assim não conseguia parar de rir de mim mesma. Tinha consciência de que acertar de primeira seria impossível, mas ainda assim era divertido tentar coisas novas. Estava com esse pensamento quando vi alguns galhos se moverem na borda do bosque, desliguei a música e me levantei voltando a patinar com calma enquanto observava o lugar onde vira o movimento. Ninguém apareceu e quando havia desistido de olhar, um enorme esquilo saiu correndo dali com um cachorro atrás.
Depois de perder a noção de quanto tempo havia passado, resolvi voltar para casa. Estava feliz e relaxada no caminho de volta, e imagens de uma Jade mais velha voando no ar preenchia meus pensamentos. Eu realmente considerava a possibilidade de tornar a patinação uma carreira, acreditava que com muita pratica conseguiria me tornar profissional em alguns anos, quem sabe ir para as olimpíadas sei lá. Minha família não acreditava tanto assim, diziam que eu precisava me candidatar a uma faculdade ou procurar emprego, até porque com dezoitos anos vem as responsabilidades.
O resto do dia passou rápido, e quando já estava quase na hora de me encontrar com Christina,arrumei tudo e sai de casa deixando um bilhete na geladeira avisando que chegaria tarde. Quando cheguei em sua casa, ela já estava do lado de fora me esperando.
— algo de muito errado deve ter acontecido pra você ter sido tao pontual assim, a Jade que eu conheço sempre chega uns dez minutos depois do combinado.
— Voce também não é la essas coisas dona Christina, sempre que chego aqui você esta dormindo.
— Me declaro culpada, mas hoje tenho uma motivação maior do que deslizar no gelo.
Saimos as duas rindo do ultimo comentário de Chris e fomos para o ginásio.
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