Sonho Inacabável
1 Prólogo – Príncipe Varonil.
Notas iniciais
Shibuya – Quinta Feira – 06:01 PM
Lá está um trem lotado, como sempre. Deve ter algo entre cinco e dez estudantes da mesma escola entrando em vagões diferentes naquela estação. Um ficou para trás com o trem a fechar as portas em sua face, mais precisamente uma secundarista. Dez minutos até o próximo passar, dez torturantes minutos que teriam passado exatamente como algumas das outras vezes se não fosse uma pequenina sensação que algo muito estranho deveria ocorrer naquele fim de tarde do mês de Maio. Bom, algo aconteceu! A tal secundarista, nossa pequena heroína, não foi a única que ficou para trás. Uma novata que não chegava a ter um metro e meio de altura chegou com um dos cantos da boca sujo do que aparentava ser recheio de tayaki. Por que isto poderia ser turbulento? Bom, essa novata era particularmente energética.
— Furukawa-senpai! Há quanto tempo!
A dita Fukawa, a secundarista, levou um tempo para responder o cumprimento da menor no tom mais monótono que se pode imaginar vindo de pessoas monótonas.
— Olá, Harada-san.
E a conversa acabou por aí. Harada Fuyumi era animada, mas fácil de ser acalmada, ou melhor, desanimada quando sua senpai a tratava com certa indiferença. Furukawa não tinha culpa, não pediu para ter uma kouhai grudada em seu pé desde que a ajudara encontrar sua sala no primeiro dia de aula há um pouco mais de um mês. Desde aquele dia, a menina de cabelos parando na altura dos ombros perseguiu sua senpai desde a estação de trem até o pátio escolar. Nenhum dos almoços da secundarista foi solitário aquele ano, sempre cheios de monólogos sobre algo que Harada gostava.
— Furukawa-senpai, eu estava pensando... – Começou. A mais velha girou os olhos castanhos diante do começo de mais um monólogo de sua kouhai. – Já pensou que pode ter um fantasma nesses trilhos?
— Assistiu mais um filme de terror de novo, não foi?
— Foi um anime, na verdade. Uma moça foi vítima de falso-suicídio e o trem passou por ela!
— E aí ela voltou como Teke Teke, claro. – Furukawa completou.
— Não! Isso é terror clássico, não lendas urbanas bestas! É claro que ela apareceu com um monte de gatos na forma de um Bakeneko para se vingar do seu assassino! Só fiquei triste que esse foi o arco final do anime...
— “Terror clássico” e “trem” parecem desconexos. Bakeneko? Um a pessoa virando um Bakeneko? Besteiras.
Depois daquilo, Harada cruzou os braços na frente do corpo baixinho, quase afundando o rosto nas longas mangas azuis escuras de seu uniforme. Certamente, sua senpai deveria ser uma mestre em péssimo tratamento. Mas, por que pessoas assim ficavam juntas? Harada Fuyumi sempre parecia espantar as pessoas com sua energia e Furukawa Natsuhi parecia ter o mau-humor impresso no rosto. Ambas pessoas solitárias.
Quando o próximo trem veio chegando, um som metálico foi ouvido, mas ignorado por todos. E finalmente o solo começou a estremecer junto do soar de uma sirene. As pessoas começaram a evacuar da estação em ordem, ainda que assustadas. Harada resolveu pegar na mão de sua senpai para não se perderem na multidão, mas no movimento automático de rejeição ao toque, Furukawa caiu e ficou para trás no passo que Harada foi levada pela multidão. Talvez, talvez alguém tivesse voltado e tentado ajudar Furukawa a se erguer se o terremoto não tivesse derrubado partes do teto da estação que pudessem bloquear a figura da secundarista do restante das outras pessoas. E enfim, o silêncio se instalou na estação.
— Ah... Logo hoje que meu dia parecia estar melhor que os outros... – Murmurou Natsuhi ao se erguer do solo, batendo nos próprios cabelos tingidos de marrom claro para remover qualquer pedacinho de reboco dos mesmos. – E nem mesmo para me acertar corretamente, não é? Errou por pouco, terremoto imbecil.
Sim, podemos dizer que Natsuhi não estava preocupada com sua vida. Desde que entrara naquela escola, para ser mais necessário. Ninguém sabia dizer o que aconteceu, só que um dia ela acordou e não parecia mais ser a mesma pessoa, um fantasma vivo no corpo de alguém que compartilhava lembranças, mas não emoções. Diversas vezes tinha pensado em tirar a própria vida, mas não o fizera pela simples razão de que não queria trazer desespero para seus pais. Um acidente é tudo que queria. Nem mesmo fez esforços para sair dali. Só estava sentada perto do lugar que caíra esperando por mais tremores.
Seu celular começou a vibrar com a chegada de mensagens de Harada, todas perguntando onde ela estava. As ignorou e desligou o telefone para evitar que recebesse alguma ligação. Novos tremores vieram e assim Natsuhi abaixou seu rosto em seus joelhos, aguardando pelo seu fim.
— “Estudante encontrada esmagada pelos escombros numa estação em Shibuya. Furukawa Natsuhi, dezesseis anos.” Parece bom.
Um som metálico foi ouvido junto do despencar dos escombros, um som que vinha aumentando a freqüência e diminuindo a distância. Natsuhi não se incomodou até ouvir uma voz rouca. No começo pensou que fosse um velho preso, mas a frase soou estranha demais.
— “Restos de estudante encontrados rasgados numa estação em Shibuya. A perícia ainda não identificou a vítima.” Parece muito melhor.
Natsuhi virou seu rosto e finalmente viu de onde vinha a voz: de uma silhueta estranha em uma pilha de escombros. No começo se assustou pelo olhar branco da criatura, mas quando a luz foi capaz de iluminá-la realmente, seu grito ecoou pelo salão destruído fechado. Aquilo aparentava ser uma mão grande dotada de dedos mais compridos que um braço, unhas sujas e longas, pele cinza com veias saltadas e marcadas por algum fluído preto que escapava de uma faminta boca do tamanho de uma bola de basquete, redonda e dotada de intermináveis fileiras de dentes como um verme. Como aquilo falava? Os olhos eram brancas bolas num rosto enrugado no corpo do que parecia uma pessoa de três metros severamente inchada por algo que partia sua pele em diversos lugares. A criatura estava nua e desgastada em tantos pontos que identificar seu gênero era impossível. Apêndices desciam do que parecia ser suas costas arqueadas e entravam em sua pele como parasitas e sua voz certamente saía de algum outro canto, não de sua boca, pois a mesma mal se mexeu quando a criatura falou novamente na voz que fez Natsuhi tremer.
— Esse desespero todo nos seus olhos me faz querer deixá-los por último. Adolescentes... Sempre os mais sujeitos a virar comida. Devo chupar suas entranhas pelo umbigo? Ou comer dedinho por dedinho até que você implore por sua morte?
Natsuhi se ergueu do solo e até pensou em fugir, mas o medo não a deixou fazer nada além de se erguer e tremer mais. Seus olhos estavam um puro arregalo, lágrimas desciam quentes em suas bochechas.
— O que foi? – A criatura perguntou. – Vai correr por sua vida? Você estava querendo tirá-la agora de pouco! Talvez isso seja o seu medo de ficar sozinha... Tudo bem, eu também tenho esse medo. Faça companhia para mim em meu estômago. Prometo que irei me lembrar de como você era deliciosa até que não reste nada do seu corpo comigo.
Natsuhi soluçou. Soluçou enquanto tentou correr, quase tropeçando entre os escombros que se acumularam no chão. A criatura com frases que pareciam ter sido tiradas de um filme classe B devia ser lenta, pois não a seguiu. Aproveitando essa vantagem, a menina tentou alcançar o celular dentro de um dos bolsos de sua saia azul para religá-lo. De repente, quando o puxou da veste algo similar a um tentáculo de lula sem ventosas enrolou-se na sua panturrilha direita, a ergueu do solo e a atirou contra a parede de escombros acima dos trilhos. Sua sorte é que aterrissou como um saco de batatas podres longe dos fios. Uma dor a fez apertar os olhos e respirar de forma extremamente audível, tanto pelo impacto quanto pelo corte raspado que aquele tentáculo deixou do lado externo de sua perna ao se soltar da mesma quando a arremessou. Só agora que Natsuhi, apertando os olhos, pôde ver que aquela aberração que a agarrara era um dos apêndices das costas de seu predador. Ele não falou nada, só aproveitou o tempo para agarrar a menina como uma boneca de trapos pela parte superior de seu corpo, usando o polegar para erguer a blusa do uniforme e ter acesso ao umbigo. Lutar seria inútil, mas não queria morrer daquela forma. Por esta razão assistiu a criatura introduzir uma das pontas de suas unhas da mão desocupada em seu umbigo, arrancando um pouco de sangue no processo de sua tortura que, sabe-se lá quando, se tornaria um arrancar de entranhas. Assistiu aos berros de ajuda e de dor. A criatura não dizia mais nada, só ficava brincando de cortar superficialmente a pele da colegial até o momento em que um baque surdo foi ouvido vindo de trás da aberração, fazendo-a se virar para ver o que estava ocorrendo, parando sua diversão.
Natsuhi nada viu, só sentiu um vento forte que cortou os dedos que a seguravam com quase precisão, deixando as carnes unidas por fios de pele fina, esborrifando um lodo com cheiro forte dos cortes. Um guincho que parecia mais o cantar de pneus de carro veio da criatura enquanto Natsuhi escorregou daquela mão arruinada para o abraço de alguém. Esse alguém possuía cabelos negros revoltos na altura do queixo, palidez doentia e olheiras fundas embaixo de um par de olhos verdes. Um garoto absolutamente normal usando um tipo de fantasia que deixava seus braços expostos em tons de branco e verde escuro. Praticamente um príncipe tirado de um conto de fadas segurando uma espada e com um cacho de flores minúsculas brancas do lado direito da cabeça. Natsuhi teria certamente achado que acabara em alguma festa a fantasia se não estivesse com medo. O garoto a deixou no chão depois de se afastarem do monstro. Em posição defensiva ele se manteve até que o mesmo se aproximasse.
— Oi, garota. – Ele disse sem encará-la. – Se as coisas ficarem feias, corra e não diga nada do que viu.
Naquele momento outro daqueles tentáculos veio para agarrá-los, mas foi cortado como se fosse manteiga pela espada do garoto que agora se dirigia para abater a criatura. O menino dançava com os tentáculos, pulava as arrastadas de mão, até mesmo desviava dos cuspes negros de lodo. Um olho da criatura foi atingido e outro guincho alto empesteou o ar, assim como uma corrente de negrume, sendo seguido do furar do outro olho, formando duas cascadas de líquidos fedorentos. A criatura tentou aliviar a dor pousando a mão que estava inteira sobre as feridas mais novas, mas isto foi seu fim: o jovem viu uma brecha e a usou para decapitar a criatura, fazendo do monstro uma fonte de petróleo e gás que se derreteu como um saco envolvendo líquidos. Em meio aos líquidos existia uma pedra branca irregular, muito similar à um cascalho se não fosse seu brilho. Esta pedra foi apanhada pelo jovem e quebrada em sua palma da mão como se fosse papel. Uma sequência de luzes brancas iluminou o local acima do jovem antes de uma parcela das mesmas terem pousado em sua espada e o restante desaparecer no ar como fumaça de incenso. Incrivelmente, a espada também tornou-se vapor.
O garoto, agora se dirigindo para Natsuhi, sorriu e voltou até a mesma, focando na tarefa de olhar aquele ferimento que ainda sangrava. Naturalmente teria chutado-o quando este tocou-a na perna, mas estava dolorida demais para mover aquele membro. Passando a mão sobre o corte, o mesmo cessou seu sangramento, mas não cauterizou ou fechou. A pegando no colo, deu seu último aviso na hora de procurar uma saída daqueles escombros:
— Você precisa dar um jeito nessa ferida, minha magia só vai deter o sangramento por alguns minutos.
— Oi, oi! O que era aquilo?! E por que está vestindo essa roupa vergonhosa?!
O garoto suspirou ao colocá-la no chão, bem perto de uma pequenina saída para os escombros que poderia ser acessível sem esforço.
— Aquilo era um Monstro de Desespero. Eles farejam desespero e comem suas fontes. – Vamos dizer que até aquele instante ele parecia um príncipe, agora era somente um otaku dentro de uma fantasia, principalmente por seu ato de calmaria ser quebrado por uma infantil defesa de suas vestes: – E minha roupa de batalha não é vergonhosa! É a importante veste de um Nobre Cavaleiro, Príncipe Bambu: Natsume! Que sou eu.
Natsuhi quase quis ter sido engolida pelo monstro do que ver o garoto posar ridiculamente antes de dar as costas e ir embora dando um último recado:
— Não sei o que te fez parecer uma boa refeição para aquele monstro, mas procure viver. A vida é curta demais para se desfazer dela.
Escorregando pela abertura, Natsuhi percebeu a quantidade autoridades que estavam lá tentando ver se existia mais algum ferido entre os pedaços de concreto caídos. Mal saíra e já foi abraçada pela sua kouhai com uma bandagem na testa, esta veio gritando, chamando a atenção de todos.
— Furukawa-senpai! Pensei que ainda estava presa! Ah! Sua perna! Por que não respondeu minhas mensagens?! Eu tentei ligar, mas a ligação não completava!
— Harada-san. – Natsuhi falou, quase que no seu tom monótono de sempre, agora só um pouco alterada pelo alívio. – Eu estou bem... Eu... – Não, não! Não podia falar do que viu lá embaixo. – Eu não devia ter soltado sua mão. Me cortei na tubulação quebrada... Estou bem.
De prontidão foi atendida, sua ferida era funda, mas bastaria um bom ponto falso para não deixar nenhuma cicatriz. Foi só então que se lembrou que não tinha ligado seu telefone. Logo que o ligou, uma chamada de sua mãe apareceu. Aceitando a ligação, foi recebida com esta alta exclamação:
— Natsuhi! Você está bem?! Eu vi que o terremoto derrubou a estação perto da sua escola e você ainda não estava em casa!
— Eu estou bem, minha velha. Eu só tive um corte na perna. Não. Eu posso voltar a pé. Harada-san está aqui.
Um silêncio foi a resposta do outro lado da linha por mais de vinte segundos.
— Tem certeza que não quer ajuda?
— Tenho. Te vejo em meia hora. Até.
Com essas palavras, Natsuhi desligou a chamada.
Na volta para casa, Harada prontamente se pôs a ajudar Furukawa à retornar para casa, afinal, ambas moravam relativamente perto uma da outra.
— Senpai, o que realmente aconteceu?
— ... Como assim, Harada-san? – Mil ideias foram se formando em sua cabeça para não citar o monstro e o “Nobre Cavalheiro Príncipe Bambu Natsume”. Apesar que Harada provavelmente perguntaria se Natsuhi não despertou seu lado otaku que, segundo Harada, existia em algum lugar. – O terremoto aconteceu e eu me perdi.
— Seu telefone recebeu as mensagens, mas nenhuma ligação. E eu vi você ligando ele quando sua mãe te telefonou. Por que desligou o celular?
Natsuhi se manteve em silêncio por muito tempo. Coisa de um quarteirão inteiro, só esperando que sua kouhai dissesse “se não quiser falar, não vou pressionar”, mas isso não aconteceu.
— Não queria ser achada.
Harada parou sua andada.
— ... Harada-san, quando você falou daquele anime que você assistiu... A mulher realmente morreu por falso suicídio?
— Não mude de assunto, senpai!
— Não é mudança, é ligação.
— Uh... Sim, foi falso suicídio. Um homem a empurrou de uma ponte que passava sobre um trilho de trem, pegou os sapatos dela e colocou ali na ponte para parecer um suicídio.
— Se ele não tivesse pego os sapatos, seria um acidente? Se passaria por um acidente?
— ... Talvez? Eu não sei.
— No meu caso, eu deixaria meus sapatos no lugar para parecer um acidente.
E enfim, continuaram a andar. Harada não disse mais nada até entregar Natsuhi na porta de sua casa. Quem disse algo foi Natsuhi.
— Mas... Aconteceu algo lá embaixo. Talvez, a vida seja curta demais para jogar fora.
— ... Eu espero que você melhore, Furukawa-senpai.
Quando Harada virou-se para ir embora, pôde ouvir claramente a voz de sua senpai, definitivamente num tom alegre que nunca a ouvira falar:
— “Natsuhi”. Pode me chamar de Natsuhi.
Os olhos da menor brilharam quando a mesma voltou até a sua superior e a abraçou mais uma vez, só que dessa vez, sem desespero nenhum pelo bem estar alheio.
— Então você pode me chamar de Fuyumi-chan! Agora somos amigas, não é Natsuhi-chan?!
Natsuhi soltou uma leve risada antes de retribuir o abraço.
— Por enquanto, “Natsuhi-senpai”. Sem essa conversa de “chan”.
E foi assim que uma amizade nasceu.
E teria sido muito bom se aquela quinta-feira fosse o único dia de aventura.
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