O dia estava lindo, o sonho estava sendo esquecido aos poucos e não teria aula de química naquela manhã. Nicole não poderia estar mais feliz. Bem, poderia sim, se não tivesse todo um festival para organizar. E apesar de estar de fato esquecendo o sonho, ainda não parava de pensar na Liz, no que aquela garota representava na vida dela.

Nicole teve que organizar e fazer a reunião com o conselho sozinha porque Lucas tinha treino de basquete (não que ele de fato ajudasse). Ainda que a reunião estivesse correndo muito tranquila e produtiva, a cabeça de Nick parecia pesar dez vezes mais.

— Então dentro dos costumes, temos muitos países e cada país tem um costume diferente, logo, precisaremos separar os alunos nessa área... — Nick foi interrompida por uma batida na porta.

— Com licença, Nick, esse é o Daniel, ele é o novo aluno do terceiro ano. — Rosa falou calmamente tentando passar uma boa impressão para o menino.

Um garoto alto, negro e de cílios grande entrou na sala. Daniel tinha uma ótima postura e usava roupas casuais. Ele sorriu para todos e encarou Nick por alguns instantes, talvez por ela estar em pé enquanto todos estavam sentados, mas com certeza por ela ser deslumbrante.

As pessoas da sala viram a mesma cena, um novato lindo, o que era bem incomum por ali. Até Nick com sua mente agitada parou os pensamentos complicados para admira-lo e até sorriu.

— Oi Daniel, tem café logo ali e eu vou te mostrar a escola assim que acabarmos aqui. Você pode sentar numa cadeira bem ali e esperar a reunião acabar? — Nick falou dando a deixa para Rosa ir embora.

— Claro... — respondeu e sorriu para Nick por três segundos bem fixos nela e então se virou para o resto das pessoas na sala. — Oi gente!

O detalhe é que se você sorri para uma pessoa que você acabou de conhecer por mais de dois segundos já não dá para dizer que é só simpatia (ainda mais quando essa pessoa sorri de volta). E adianto: Leo não gostou muito dessa “simpatia” e não foi só ele que percebeu o que estava acontecendo ali.

— Onde a gente estava? Costumes? — alguns confirmaram — Certo, precisamos distribuir as pessoas entre os países de maneira uniforme.

— Não podemos deixar que eles separem os grupos? — um garoto perguntou.

— Não acho uma boa ideia... — Nicole comentou — Eles não se dividiriam direito e alguns países não seriam representados.

— Eu posso cuidar disso? — Liz perguntou.

— Claro, flor. — respondeu vacilante.

Todos na sala estavam acostumados com aquele apelido, apenas Daniel não estava. Mesmo assim, encarar Liz estava muito difícil, falar com ela, quase impossível e chama-la de “flor” era o mesmo que querer morrer, mas a palavra já tinha saído de sua boca, não tinha o que fazer.

Daniel observou Nicole até a reunião acabar e como todo mundo ali, admirando como ela sabia falar e escutar na hora certa. E claro, como aquela atitude junto de sua beleza a deixava estupenda.

Finalmente a reunião acabou juntamente do sinal para a aula. Saindo da sala, Liz piscou para Nick e apontou para Daniel com a cabeça. Nick não sabia o que pensar daquilo, se investia nessa expectativa ou se ficava pensando nas minhocas que estavam na sua cabeça.

“Por que não dar uma chance?”.

— Então Daniel, por onde você quer começar? — Nick perguntou tentando parecer animada.

— Primeiro, valeu por me mostrar a escola. Tive que me virar na última.

— Tá brincando? Eu que devia te agradecer. Me salvou de uma aula de química.

— Nesse caso, eu acho que você devia me mostrar o seu lugar preferido no final. Mas pode escolher o resto. — falou sorrindo.

Os dois começaram a andar pela escola, primeiro as salas de aula.

— É bem fácil de enteder, as salas vão crescendo ao longo do corredor e você já tem o horário. Alguma dúvida?

— Nenhuma, a sala mais importante eu já sei onde fica.

— Já tem uma sala importante? — perguntou curiosa.

— A do Conselho.

Nicole riu e eles continuaram o passeio. Até que ele parecia bem legal embora a cada parada um comentário engraçado e atrevido saísse de sua boca (e que boca). Aquele ponto ele já tinha deixado bem claro suas intenções.

Eles saíram da escola e foram até o pátio com mesas de pedra. Mais uma vez Liz veio à cabeça de Nick, mas ela ignorou rapidamente e continuou andando até chegar na quadra principal com arquibancadas.

— Então aqui é a quadra principal onde acontecem todos os eventos, a menos que precisemos de cobertura, nesse caso usamos a quadra de basquete.

— Legal, o festival vai acontecer aqui então? — Daniel perguntou analisando bem o espaço.

— Sim, mas como esse é o último lugar da escola, agora vem os detalhes: naquele canto das arquibancadas é onde as pessoas compram maconha e naquele outro canto as pessoas vão para se pegar, então sempre tem algum inspetor passando por aqui.

— Se esse é o último lugar significa que você está me dizendo isso porque tem segundas intenções comigo? — perguntou com um meio sorriso malicioso.

Nick pensou o suficiente no assunto e realmente parecia uma boa ideia desestressar um pouco. Ela poderia dar boas-vindas para Daniel, de um jeito diferente...

— Se eu tivesse querendo algo contigo eu te chamaria para antiga sala de artes porque eu tenho passe livre. — respondeu convencida se aproximando.

— Isso é um convite ou eu entendi errado? — Daniel perguntou.

O sinal tocou e Nick se afastou analisando o corpo de Daniel. “Acho que vamos nos divertir”, ela pensou.

— Sala 132 às três. — Nicole falou sorrindo.

Daniel observou Nick se afastar e entrar no prédio, mais tarde eles se encontrariam.

Depois que as aulas acabaram, Nicole estava na sala do conselho conversando com Ester e Liz enquanto editava a lista de músicas que iriam ser usadas no festival.

— Parece que esse ano vamos ter muitas coreografias. — Nick comentou.

— Menos reclamações da querida diretora. — Ester comemorou.

— Vocês sabem que isso não vai acontecer, aquela mulher reclama de tudo. — Nick falou.

— Igual o dia que ela pediu para nós duas criarmos um mural num dia para aquela gente que vinha visitar a escola. — Liz falou com desprezo.

— A gente terminou o mural, ficou incrível. Melhor tema: educação emocional. — Nick completou.

— Melhor mural que já foi feito em duas horas! Chegaram as pessoas para ver a escola, viram o nosso mural, acharam incrível e no final aquela louca falou: “Isso é cola quente no seu cabelo? Poderiam ter se arrumado um pouco pelo menos”. — Liz disse ainda incrédula.

Ester caiu na gargalhada enquanto Liz e Nick a encaravam sem entender. A diretora sabia ser ridiculamente exigente.

— Eu quero só ver as pessoas levando advertência naquele cantinho das arquibancadas. — Nicole falou com uma expectativa empolgante.

— É né Nick, por falar nisso, você não marcou de encontrar ninguém lá, marcou? — Ester perguntou insinuando algo.

— Não sei do que você está falando. — Nick respondeu rindo.

— Então você não vai ficar com o menino novo? — Liz perguntou. — Vocês parecem formar um bom casal.

Nicole teve vontade de responder não, “Tudo que eu queria era...” e parou de pensar, como se fosse proibido. “Eu realmente preciso ficar com alguém, devo estar louca”.

— Bem... não foi isso que eu disse. Mas digamos que eu tenha uma ligação muito importante para dar. — Nick respondeu e olhou a hora — E digamos que seja em cinco minutos na sala 132.

Liz e Ester riram e não falaram mais nada, só observaram Nick pegar o celular e ir em direção a porta. Leo atravessou a porta e quase esbarrou em Nick.

— Onde você vai? — ele perguntou.

— Ela vai dar um telefonema importante. — Liz respondeu por Nick com um tom malicioso.

Leo não sabia o que aquilo significava e quando pensou no que dizer, Nick já tinha ido embora.

— Então você tem um ótimo senso de direção... — Nick comentou ao entrar na sala 132.

Daniel se virou para a morena e sorriu. Ele tinha cruzado com ela por um momento no corredor e depois no teatro, onde estão sendo feitos os preparativos para o festival. Mas naquele momento ela estava muito diferente, mais atrevida.

— Tenho mesmo, eu posso te levar onde você quiser. — Dan respondeu e mordeu o lábio.

— Eu estava pensando em ficar por aqui... — disse e se aproximou dele. — Mas se você insiste em ir...

Daniel segurou a cintura de Nicole, trazendo-a para perto.

— Não se preocupe, não vamos a lugar nenhum. — ele respondeu.

Nicole olhou por alguns segundos os olhos de Daniel, passou a mão por seu rosto e o puxou para um beijo. Foi um beijo calmo, a princípio, delicado, seus lábios deslizavam uns nos outros e as línguas se envolviam devagar. Eram duas bocas se conhecendo aos poucos.

Daniel subiu as mãos da cintura até a nuca de Nick, controlando o beijo devagar, sexy e quente. Ela não conseguia mais aguentar e mordeu suavemente o lábio dele, agarrou a cintura do garoto e o trouxe para mais perto. A sintonia começou e apimentou a cena: as mãos escorregavam daqui para ali enquanto risinhos escapavam a cada vez que eles desgrudavam os lábios.

Eles se separaram e sentaram no chão ainda soltando risinhos, afinal aquela tinha sido uma ótima experiência. Uma espécie de sentimento novo, desinibido e excitante.

— Então, porque você tem um passe livre para essa sala? — Dan puxou assunto.

— Por que esses desenhos são meus.

— Tipo, todos eles? — perguntou impressionado.

— Menos aquele ali. — Nick apontou para o desenho de uma flor azul. — Aquele foi eu tentando ensinar a Liz a desenhar.

Nick deixou os pensamentos mudaram seu tom de voz na última frase e Daniel percebeu.

— Você é uma boa professora. Liz é a garota que você chama de flor, certo? — perguntou curioso.

— É sim, é uma piada antiga. — falou e forçou um sorriso.

Daniel percebeu que aquele assunto não estava indo para um caminho animado e decidiu mudar. No fundo ele sabia o que estava acontecendo com Nick, mas ele mal a conhecia ainda.

— Só tem uma coisa mais linda que seus desenhos. — ele encarou Nick de perto. — Você.

Nick a beijou, deixando que sua imagem invadisse sua mente e seus desejos. Só tinha um problema: não era “ela” que estava ali. Mas aquele ponto Nick não conseguia pensar nele, tudo que vinha a sua mente eram os olhos castanhos e as sardas como num sonho. Como no sonho.

Depois de cinco vibrações do celular, Nick se desvencilhou de Daniel e olhou as mensagens: “Precisamos de você na quadra de basquete”, era de Leo.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.