Sonhando na ponta dos pés
2 Espetáculo, broche, nudez e flores
Notas iniciais

Final de ano é tão gostoso. Sentimento de renovação, união da família, presentes, e... Espetáculo de final de ano!
Tinha chegado o dia mais esperado do ano. Ficamos o ano inteiro treinando repetidas vezes as coreografias, levando broncas e xingamentos da Marly (minha professora), para esse dia ser perfeito. Além dos treinos excessivos com o bailarino pois este é meu primeiro pas de deux.
Eu sempre quis dançar algo de quebra nozes, e esse desejo será realizado hoje, nesta noite. Dançarei também a variação do cisne branco, confesso estar confiante. Dançarei no corpo de baile também na dança das horas do ballet coppelia, estou viciada na música, ela simplesmente me persegue.
Faltavam, exatamente 3 horas para a apresentação quando cheguei no teatro. Quando vi a Marieta e fui correndo perguntar qual dos camarins era o nosso e ela me disse que ficaríamos no camarim 4, o mais longe do palco. Aquilo seria um dilema.
Coloquei minhas coisas no vestiário para terminar a maquiagem e ir me alongar. Chamei as meninas do intermediário(pois tenho mais intimidade com elas do que com as do avançado), e fomos relembrando a ultima aula de barra que fizemos e fomos nos aquecendo. Estávamos tão nervosas que demos as mãos e começamos a rezar juntas. depois gritamos um sonoro "merda'' juntas.
– Falta meia hora! — Rita, uma das que tenho mais afinidade, disse.
Sai pela coxia, desci três lances de escadas para ver o tamanho da plateia. 800 lugares praticamente lotados. Tentei encontrar alguém familiar e quando olhei na terceira fileira me surpreendi.
Lá estavam 4 amigas minhas e meu melhor amigo conversando, quando uma delas (Layra) me viu e disse para o resto. Eles vieram correndo em minha direção, e fui ao encontro deles.
–Vocês vieram, nem acredito!
Eles me abraçaram.
–Está nervosa? — Raquel perguntou.
–Que pergunta estúpida little rachel! — Rodrigo disse e eu ri.
Rodrigo pediu pra eu ir com ele lá fora no jardim do teatro. Ele olhou para o chão e depois olhou pra mim, segurou em minhas mãos e disse:
– Você está deslumbrante, Polina! Você é demais sabia?!
Eu sorri e por um momento pensei que tinha algo por trás dessas palavras, mas claro que não teria. Eu não queria que tivesse. Seria triste demais não ver meu melhor amigo todos os dias no ano seguinte (devido minha mudança de colégio), imagina outro tipo de coisa!
Ele estendeu um minúsculo broche dourado com um strass.
–Pra dar sorte! — Ele me entregou e eu o abracei e agradeci.
Entramos no teatro e então percebi que tinha colocado o tutu errado. O que eu estava vestindo era o do quebra-nozes e a primeira dança seria a de coppelia.
O primeiro sinal tocou. Entrei em pânico e apertei forte a mão de Rod. Não tinha alternativa, as meninas já deveriam ter posto pose no palco e eu não teria tempo de me trocar em tão pouco tempo.
–Você precisa me ajudar! — puxei o braço dele e saí correndo pelas escadarias, enquanto ele estava completamento confuso e protestando.
Entramos no vestiário e disse que tinha que trocar de roupa pois era a errada. Eu não teria tempo de sentir vergonha do meu amigo de infância naquele momento. Pedi pra ele desabotoar a parte de trás do figurino. Ele estava completamente desconfortável mas eu disse : "Deixe disso".
Ele desabotoou meu vestido rapidamente e pudi sentir o toque de sua mão na minha pele. Eu não estava de sutiã devido o figurino não permitir, então lá estava eu da barriga pra cima, nua na frente de meu melhor amigo.
Foi tudo muito rápido e mesmo assim deu tempo de sentir vergonha e outra sensação que eu não saberia descrever.
A outra fantasia estava atrás dele. Sem pensar duas vezes fui pegando e sem querer meu seio foi de encontro com o peito dele.
Ele já estava um pimentão. Se não fosse desesperador, seria cômico.
Fui colocando a roupa e ele foi fechando os botões enquanto eu arrumava o tutu.
O segundo sinal tocou.
Agradeci a ele, e quando fui dar um beijo em sua bochecha, sem querer ele virou o rosto. Nossos lábios se encontraram. Não soube descrever o que senti. Não era bom, na verdade era, por isso não era bom...
– Quebra uma perna! — Ele disse antes de eu entrar na coxia.
–Obrigada! — Eu gritei já entrando no palco.
As cortinas ainda estavam fechadas.
Coloquei pose.
Terceiro sinal e as cortinas se abriram.
Holofote estava na direção dos meus olhos. Ignorei o brilho excessivo e sorri singelamente, repassando a coreografia mentalmente e a fazendo num milésimo de segundo a mais.
Pirueta, pas de bourre. E assim continuei dançando com os braços leves e pernas fortes.
Esticar os pés — Foi a nota mental que passou pela minha cabeça.
Sorri e girei, girei.
Leveza sempre.
E aquele momento poderia se eternizar, poderia ficar dançando aquilo para sempre, no palco tudo parecia ser encantado, de outro mundo, fantástico.
Mas tem uma hora que a música acaba e temos que por o figurino para uma outra dança. Na vida é sempre assim, no palco também.
A plateia explode em aplausos e a sensação de gratidão aumenta. Fico grata pelos aplausos, pelas minhas colegas, pela minha professora, pelo Rod ter abotoado meu vestido.
Reverencia para a direita e para a esquerda.
Saí do palco pela meia ponta.
Entrou outras meninas no palco e a música de La Bayadere começou a tocar.
Rodrigo deveria estar na plateia. Será que ele gostou? Será que eu dancei bem?
Afastei esses pensamentos e comecei a me trocar para o meu pas de deux enquanto apreciava a música. Troquei os curativos dos meu pés e coloquei novamente a sapatilha. Então fui para a coxia e esperei mais duas música para entrar no palco.
O som de harpa começou. Aquele era meu momento! Comecei a dançar e o bailarino veio em minha direção. Eu não suportava o meu partner, mas naquele momento a arte era o que mas importava. Eu pensei: "Eu sou a fada açucarada!", e olhei apaixonadamente para ele, e o mesmo me equilibrou.
A música foi ficando mai rápida, e mais e mais. Minha parte favorita!
Piruetas. E uma. E duas. E três. E quatro.
A música fica lenta. E volta a ficar rápida, e mais piruetas.
O bailarino me levanta e faço gestos graciosos com o braço.
Ele me solta e ando pelo palco, depois pego em sua mão e mais piruetas.
Pose final. TAM!
Não me aguentei de felicidade. Deu tudo certo. Fizemos reverencia e entramos na coxia.
"Vê se no ano que vem perde uns quilinhos" ele me disse sarcástico.
"Vai se ferrar".
Me preparei para dançar a variação do cisne branco. Estava colocando os arranjos com penas na cabeça enquanto me olhava no espelho vendo minha cara de receio, medo e por fim: desespero.
Respira, Inspira, Respira, Inspira...
Pisei no breu e me senti preparada. Ou quase isso. Toda aquela confiança se foi e comecei a ficar nervosa a ponto de não conseguir lembrar a coreografia.
Era a hora.
Coloquei pose e quanto a primeira nota ecoou no teatro me lembrei de tudo que tinha ensaiado.
Comecei a dançar. Eu era um cisne sofrendo, gracioso. Só faltava eu voar enquanto fazia os sissones. E eu entrei tanto no personagem que quando a música terminou uma lágrima escorreu pelo meu olho.
Fiz reverencia e saí do palco.
E o espetáculo continuou.
********
Depois que acabou a apresentação eu entrei na plateia com minhas sacolas procurando minha família e todos vieram me prestigiar, me elogiar tanto que fiquei até sem graça. Algumas pessoas que eu nem sequer conhecia vieram me dizer coisas que deixaram minha autoestima nas nuvens. Eu estava muito grata. Minhas amigas começaram a falar que eu "arrasei" e que era "fantástica" e que eu tinha "que ser bailarina". Gratidão era pouco.
E Rodrigo?
Ele estava atrás de mim com um buquê incrivelmente grande com tulipas vermelhas. Era lindo.
– Você estava maravilhosa, Polina! Você é maravilhosa! — Ele me entregou as flores e eu fiquei muito sem graça, o que era de se espantar.
– Obrigada por estar aqui! — Abracei ele fortemente e demorei pra soltar.
Sorri pra ele e ele sorriu pra mim.
– Eu não entendo,mas parece que você nasceu para isso. Agora eu tenho que ir embora, vou ficar de babá da minha irmã. — Ele me deu um beijo na testa e se despediu. — Fica com Deus.
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