Sonhando na ponta dos pés
3 Inesperado

O primeiro dia de aula chegara. Eu estava com medo, assustada, pois lá eu não conhecia ninguém e estava com receio de não conseguir acompanhar o ritmo da escola.
Olhei para o uniforme novamente e respirei fundo. Arrumei-me e preparei tanto meu fichário quanto a bolsa de ballet(Eu iria direto da escola para a aula).
Peguei uma maçã e fui para o ônibus escolar que acabara de parar em frente de casa. Ao entrar, sentei num banco onde não tinha ninguém ao lado, eu não queria incomodar. Coloquei meus fones de ouvido e fui ouvindo música até chegar ao colégio.
O ônibus parou, eu desci e olhei admirada para a escola. Parecia demais com aquele filme, qual era o nome mesmo? Aquele filme... Ah, sim High School Musical. E ao entrar, percebi que parecia mais ainda.
Não precisei procurar muito a minha sala: terceiro C, encontrei fácil.
Os professores mal tinham se apresentado e já começaram a dar bastante matéria. Era como se eles dessem o dobro de matéria na metade do tempo. Eu tentava anotar tudo o que eles falavam e não perder o foco nem por um segundo. O colégio era realmente puxado.
O sinal do intervalo bateu e fui lentamente para o pátio, onde tinha várias mesas e fiquei me perguntando onde sentaria. Avistei um grupo de meninas e meninos que pareciam simpáticos, ou quase isso, e perguntei se podia sentar. Por incrível que pareça uma das meninas colocou a bolsa na cadeira, riu da minha cara e depois virou. Parece que o resto do grupo também achou grosseiro e o menino que ela segurava a mão lhe deu um cutucão.
Fui para o banheiro e me tranquei na cabine. E chorei um pouquinho pra aliviar a ausencia de meu melhor amigo(que estava estranho comigo desde o espetáculo) e das minhas amigas que cresceram comigo, sempre contando piadas e me fazendo passar vergonha. Lembrei quando Raquel começou uma guerra de comida e o refeitório inteiro virou uma zona. Resultado: Até eu acabara na diretoria. Lembrei também quando Drica e Rodrigo me faziam cócegas e eu me debatia em desespero enquanto ria. Sorri com a lembrança.
Um toque na minha "cabine".
– Está ocupado — murmurei com a voz mais carregada do que eu gostaria.
– Por favor, saia, queremos conversar.
Achei estranho, deveria ser um engano. Então abri a porta devagarinho e saí. Vi duas meninas daquela mesa, que sorriram amarelo e uma disse:
–Primeiro dia? — Ela perguntou estendendo um lenço pra eu limpar o rosto. — Olha, Meredith é estremamente mimada e arrogante. Ela não nos representa, ok? Essa menina apenas namora o Josh, até ele, ela já encheu.
–Está tudo bem! -Eu disse olhando para baixo, com vergonha.
– Passe o intervalo com a gente. Não precisamos sentar com Meredith, pois Josh comentou ontem comigo que depois da aula terminará com ele. — Disse a menina de cabelos enrolados. — Ah, meu nome é Rebeca e o dela é Alexa.
– Olha, obrigada! — Eu disse com um sorriso fraco. — Meu nome é Polina.
– Você tem nome de bailarina, nem acredito! Que inveja — Disse Alexa espantada.
– Cala a boca, Alexa, vai espantar a menina! Quem gosta de ballet hoje em dia? — Rebateu a outra.
– Na verdade — comecei dizendo, acanhada — Ballet é minha vida...
– É triste ter que largar né? — Alexa colocou a mão em meu ombro.
– Na verdade — comecei novamente e ri — Estou tentando me organizar e fazer tudo: estudar e dançar.
– Uau! — Rebeca Arfou. — Corajosa
O sinal bateu. Eu perguntei para elas qual era a sala delas e por incrível que pareça era a mesma que a minha.
***********
Fui da escola direto para o ballet. Enquanto amarrava as minhas sapatilhas vi duas meninas do avançado que eu não lembrava direito o nome cochichando e olhando de relance para mim. Não gostei nem um pouco mas fingi que não vi.
Estava me alongando na barra quando a professora chegou na sala e pediu para Tomas chamar todas as meninas que não estavam lá. Achei estranho pois não tinha dado o horário da aula.
Marly pareceu dar um sorriso pequeno para mim e depois voltou a carranca normal.
– No espetáculo, estiveram presentes alguns jurados do Prix de Paris, o maior festival de ballet do mundo. O qual os melhores bailarinos estudantes competem entre si. Não contei antes pois não queria deixa-los nervosos... — Ela deu um gole em seu café e continuou. — Selecionaram 3 meninos e 2 meninas.
Todos estavam estáticos, menos eu. Já tinha certeza que não teria a menor chance de ser selecionada. Eu era uma aluna de três anos de ballet que estava de intrusa numa aula avançada.
– Eu falarei os nomes dos selecionados, e os mesmos virão até aqui pegar a carta de convocação. — Marly disse se levantando e então pegou um papel e começou a dizer:
– Marco Jorge de Salvatori, parabéns!
Todos aplaudiram e ele sorriu e pegou o envelope vermelho. Ele era obvio demais! Tinha que ser...
– Eduardo da Costa Pereli, parabéns!
Aplausos.
– Alexandro Dinam
Meu Partner. Olhei incrédula para ele, e no fundo senti orgulho dele apesar de detesta-lo. Palmas.
– Polina Stavanquios, parabéns!
Era um engano, não poderia ser! Meu coração começou a bater forte, minhas mãos suaram e eu ouvi muitos aplausos enquanto me lembrava que não tinha almoçado, eu comecei a ver as coisas meu distorcidas, e tudo girava como se eu tivesse feito piruetas sem marcar um ponto fixo. Comecei a sentir moleza e não consegui ir em direção da professora.
Começaram a gritar:
–Professora, ela está passando mal!
–Polina!
–Polina... na... na... na...
Tudo ficou preto.
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