Sonhando em Lugares Distantes
1 Dreaming in Distant Places
Ele suspira enquanto liga o computador. Lá vamos nós.
Por todas as características de Oliver Queen, habilidade com tecnologia não é uma delas. A ironia não se perde nele por trabalhar numa empresa conhecida por ser referência em inovação. Oliver é um homem de negócios implacável e sua expertise jaz numa habilidade descomunal de ler pessoas, aprender suas forças e fraquezas e usar toda essa informação para benefício da empresa. Sua inteligência é estratégica. Surpreendentemente ele também se tornou bom em lidar com números, considerando que na escola ele reprovou álgebra.
Mas o Oliver de anos atrás é infinitamente diferente do de agora. Ele aprendeu que só não teve sucesso antes na vida porque não se esforçou o bastante.
Ainda assim, mexer no computador não é sua praia.
Ele xinga enquanto clica no link para baixar o aplicativo. É o QC Teams, designado para habilitar e facilitar trabalho em equipe online em qualquer hora, qualquer lugar, um verdadeiro ambiente virtual que copia a realidade física do escritório. O app converge calendários, documentos, reuniões e gerenciamento de projetos em uma só coisa. Tudo para melhorar a produtividade. Fácil e rápido.
Não tão fácil no entanto.
Embora o app já exista há alguns anos, Oliver nunca precisou fazer o download dele – pelo menos não em seu computador pessoal. Ele fazia tudo relacionado ao trabalho na sede da Queen Consolidated.
Só que ele não pode ir ao escritório agora porque o mundo está enfrentando uma pandemia e a maioria dos países está em lockdown.
E como uma empresa tão importante quanto a QC não pode parar, funcionários agora estão trabalhando de casa. Internet não é mais um luxo, mas necessidade.
O que explica por que ele tem que usar o QC Teams.
O lockdown foi decretado logo antes da QC começar um projeto com a Helix Dynamics, baseada em Central City, uma empresa de software especializada em inteligência artificial e análise preditiva. Tinha como objetivo colocar a QC na retaguarda da dita Indústria 4.0. Então ao invés de recepcionar pessoalmente a equipe da Helix Dynamics em Starling como foi agendado, tudo agora será feito online.
É o primeiro projeto de concepção e inovação para o qual foi alocado desde que começou a trabalhar na QC. Sendo o herdeiro da família fundadora, o lugar de Oliver como CEO é certo. Mas ele escolheu começar lá de baixo, aprendendo tudo que a companhia fazia porque verdadeiramente queria ser o melhor líder possível. Na maior parte do tempo ele trabalhou com marketing, finanças e gestão corporativa, e agora dava seu primeiro mergulho nas águas de tecnologia e inovação.
Oliver prefere cruzar o Tártaro e usar os punhos do que confrontar sentimentos. Porém, se ousasse ser honesto consigo mesmo, descobriria estar um pouco nervoso. Ele acha que ficar em casa com a situação atual do mundo só está criando mais dificuldade no projeto. Isso reviveu um receio obscuro de não ser bom o suficiente para continuar e carregar um legado.
O site da QC apresenta uma introdução ao app QC Teams, mas Oliver ainda assim se enrola um pouco. Ele consegue juntar todos os contatos que precisa para a reunião numa sala virtual. Manda todos os convites e um pin para as agendas e calendários deles. Ele precisa entender como mandar links para os membros de fora da empresa antes da reunião começar em uma hora.
De alguma forma ele ferra tudo e quando um som começa a ecoar do computador percebe que na verdade ligou para um dos membros da equipe. Ele imediatamente tenta cancelar a ligação.
— Puta que pariu, porra. – resmunga no exato momento em que a tela azulada desaparece, revelando uma pessoa.
— Nossa, esse é um “alô” incomum. – diz a voz animada.
Oliver percebe que é uma mulher. Loira, olhos azuis emoldurados por óculos retangulares e lábios cheios pintados de rosa curvados num sorriso provocador e suave, embora suas feições delicadas carreguem alguma confusão.
O fundo de seu estômago se agita e ele diz a si mesmo que é por vergonha. Não porque ela parece uma deusa.
Ela usa uma blusa que parece roupa de trabalho, embora o cabelo esteja num coque alto e bagunçado, alguns fios dourados escapando em ondas. Parece estar no meio de se arrumar para ficar um pouco apresentável para a reunião.
Oliver pensou em fazer o mesmo também, mudando sua camisa cinza básica para uma de botões uma vez que marcasse a reunião.
Ele fecha os olhos, apertando-os por um segundo ao se dar conta de que ela o ouviu soltando palavrão. Pontos de calor surgiram em suas bochechas, tingindo-as num leve rosado. Por que ele se sente uma bagunça na frente dessa mulher?
Um milhão de mentiras voa por sua mente para explicar a ligação. Oliver é um exímio mentiroso quando quer. Mas sob o olhar divertido da mulher ele de repente se sente como um garoto no colegial pego pelo diretor e decide pela verdade.
— Me desculpe... – Ele checa o nome dela na parte de informações de contato no canto do monitor. – Felicity Smoak? – O nome rola de seus lábios, a língua saboreando cada sílaba instintivamente, a voz se tornando inexplicavelmente suave. Felicity. Fe-li-ci-ty. É poder e graça. Forte e gentil. Doce e ardente. Ele limpa a garganta, tentando retornar ao tom impessoal de negócios. – Peço desculpas. Sou novo nesse app e estava marcando a reunião e acabei ligando para você.
O sorriso dela é aconchegante.
— Tudo bem. Por alguns segundos você me perdeu só de sutiã. – Os olhos dela se arregalam. – Só que eu não estou usando sutiã agora porque estou em casa, então você me veria sem... – Ela faz uma careta. – Eu uso sutiãs no trabalho, só para deixar claro. Sabe, trabalho normal. – A boca se parte em choque, os olhos se fecham com força e ela toma uma inspiração profunda antes de murmurar para si mesma. – Informação demais, Felicity, informação demais. Pare de falar de sutiãs.
Vê-la também embaraçada destrói a vergonha que ele sente. É a vez dele de estar entretido.
Por um momento, ele a imagina só de sutiã e depois sem sutiã mas rapidamente acaba com a imagem louca e inesperada.
— O que eu quero dizer é ok. Home office está se mostrando um pouco mais complicado do que o esperado. – Felicity adiciona.
Pelo visto a personalidade dela é encantadora. Combina com a aparência esfuziante e o nome.
— Que tipo de líder eu sou que nem consegue usar direito o app? – Ele abafa uma risada autodepreciativa.
Ela ri de volta, mas uma risada de verdade. Um som agradável que Oliver imediatamente gosta. Felicity faz do riso a coisa mais fácil do mundo.
— Então você é o líder do time da QC, huh?
— Sim. Oi, sou Oliver Queen. – ele se apresenta ainda carregando o fantasma de um sorriso.
Curiosidade enche o rosto dela enquanto ela inclina levemente a cabeça para o lado.
— Pensei que você seria o CEO ou algo do tipo.
— Não. – O sorriso se torna seco e forçado com ele não querendo explicar a situação que o levou onde está agora. Ela não parece se incomodar.
— Enfim, sou Felicity Smoak. Líder do time da Helix.
Ele se impressiona. Ela parece tão jovem, no entanto ocupa uma posição alta. Ele sabia que a líder da Helix era a Vice-Presidente de Inovação.
— Prazer em conhecê-la, Srta. Smoak.
— Por favor, me chame de Felicity. Zero necessidade para formalidade, ainda mais porque estou usando metade do meu pijama.
— Então me chame de Oliver.
— Ok, Oliver. – Ela sorri. Ele adora como seu nome soa nos lábios dela. – Então... Você conseguiu marcar a reunião ou precisa de alguma ajuda?
— Eu acho que preciso. – ele responde meio contrito, meio embaraçado.
Deus sabe o que ela deve estar pensando dele agora. Um líder de equipe que não sabe nem mexer direito num computador.
Ele não sabe por que está incomodado com o pensamento. Oliver nunca ligou para a opinião dos outros sobre ele e agora aqui ele está com uma mulher que não conhece e pensando em qual é a opinião dela sobre ele.
Mas o sorriso com o qual ela o responde exala sinceridade. Seu instinto diz Felicity não é o tipo de pessoa que age em meias verdades ou máscaras. Ele sente que ela é genuína.
— Beleza.
Então ela graciosamente explica para ele e o jeito com que fala faz tudo parecer tão fácil que ele se sente um imbecil.
— Muito obrigado, Felicity. – Ele suspira em alívio.
— Sem problemas. Te vejo daqui a alguns minutos?
— Claro. Tchau.
Quando a reunião começa, a primeira coisa que ele nota é Felicity. Seus olhos imediatamente se movem para o retângulo que ela ocupa no canto superior direito da tela. Dessa vez o longo cabelo dela cai numa cascata dourada com cachos suaves e ela aplicou um pouco de maquiagem. Os lábios estão num rosa forte, os cílios parecem maiores e tem um toque de blush que não estava lá antes.
No geral é uma ótima reunião. Na maior parte introdutória com os membros das duas empresas falando um pouco de si mesmos. Então eles falam sobre o projeto, cronograma, esquemas e um pouco de orçamento.
Oliver novamente se impressiona com Felicity. Ela deixa as pessoas à vontade. Suas tiradas sobre a quarentena e que ela imagina todo mundo arrumado somente da cintura para cima enche o ar com leveza e erradica qualquer desconforto esquisito. (“Não precisa ficar com vergonha se você não está usando calça. Todos estaremos lá em algum momento.”) Ela é altamente carismática, o tipo de pessoa que te puxa e te faz orbitar na direção dela. Seu discurso é ao mesmo tempo informativo e objetivo; ela tem um jeito de explicar que faz as coisas parecerem tão simples. Sua mente é ágil e ela faz observações pertinentes.
Em resumo, ela parece uma ótima parceira para essa jornada. Tem um lado dele que meio que se sente intimidado por ela. A inteligência dela é vastamente técnica, por ela ser uma Cientista da Computação, e esse ser um projeto técnico.
Mas ele não vai ferrar com tudo. Sua meta é reconstruir a empresa da família e usá-la para o bem da cidade e do país e nada vai impedi-lo.
Quando anuncia o fim da reunião, Oliver se surpreende por se sentir relutante. Ele não é fã de reuniões, especialmente aquelas longas e chatas, mas essa passou bem mais rápido do que esperava. E com menos formalidade o que a fez mais produtiva e não parecer trabalho.
Ele tem sucesso em marcar a outra reunião na agenda do app, e uma onda de orgulho o lava. Através do canto do olhar, ele tem um vislumbre de um sorriso curvando os lábios de Felicity. Tem quase certeza de que alguma parte desse orgulho escapou de sua máscara indiferente e cobriu suas feições.
Antes de fechar o app e desligar o computador, ele contempla o contato de Felicity por longos segundos.
No dia seguinte há outra reunião. Mas dessa vez só têm Oliver e Felicity como líderes de equipe. Hoje o cabelo dela está preso num rabo de cavalo impecável.
— Bom trabalho ontem. – ela elogia com um tom honesto. Ele fica cheio de si por um momento porque o elogio simplesmente vem do crânio por trás do projeto. – Parece que vai ser divertido mesmo com as restrições atuais.
— To me sentindo bem positivo com esse projeto também. – diz.
— E eu vi como você marcou a próxima reunião tão habilmente – ela provoca.
Oliver não é acostumado com pessoas o provocando. Não é o tipo de homem com quem se brinca. Ele tem noção de que é conhecido no escritório como uma estátua inexpressiva e um babaca arrogante. Mas Felicity o provocou de um jeito tão caloroso que ele não pôde deixar de desfrutar.
Ela é ar fresco num mundo tão deprimente e apocalíptico como agora.
— Eu aprendo com meus erros. – ele diz no mesmo tom, ganhando uma risada dela.
A reunião transcende trabalho, e eles começam a falar do mundo bagunçado onde estão vivendo agora e como estão lidando com isso.
— Os lanchinhos que eu comprei para duas semanas? – Felicity diz. – Tenho certeza que vão acabar dentro de alguns dias. Mas não é minha culpa, quer dizer, eu não sou lá cozinheira e eu tenho que comer de alguma maneira. Sem contar que eu como quando estou ansiosa. Estar trancada em casa o dia todo sem nada para fazer com exceção do trabalho? Não que eu fazia coisas interessantes antes... Enfim, me sinto mais ansiosa e mais com fome do que o normal. Então esse é meu dia. Comendo e Netflix and chill... – Ela se contrai. – Não assim. Quero dizer relaxando com Netflix. Porque eu moro sozinha e não tem ninguém na minha vida.
Essa última informação fica gravada na mente de Oliver.
— Mas a parte boa é que eu passo o dia todo de pijama. Eu tenho muitos pijamas, desde baby dolls até camisolas e as camisas super grandes que eu uso sem nada por baixo... – Ela para de súbito, comprimindo a boca. Cora e desvia o olhar dele por um segundo, a expressão contorcida na careta que agora ele sabe que é quando ela se enrola nas palavras e segue em frente como se nada tivesse acontecido.
Com uma habilidade única de manipulação, Oliver afasta os pensamentos errados que brotam em sua mente, os tranca e os destrói. Por sorte Felicity se recupera rápido e continua:
— Eu nem tinha ideia de que tinha tanto pijama porque eu geralmente uso os mesmos três e quatro. Exceto, você sabe, quando eu tenho alguma reunião e as pessoas vão ver meu rosto, então eu coloco alguma blusa arrumada. Então quarentena é tipo Pijama Fashion Week. Logo minhas outras roupas vão começar a sentir minha falta.
Os lábios dele tremem. Ela tem um ótimo senso de humor. Algo nela o faz querer sorrir bastante e de um jeito genuíno. E cada vez mais ele se torna incapaz de prender tais sorrisos.
— Eu não consigo ser assim. – ele diz honestamente. – Eu tenho que mudar de roupa para sentir que o dia está começando e indo para algum lugar. To tentando o meu melhor manter alguma espécie de rotina.
— É uma ideia inteligente. Eu li algumas dicas de psicólogos e terapeutas sobre como lidar com essa mudança e essa é uma delas.
Oliver não sabe quanto tempo eles passam conversando. Tem a impressão de que é mais do que eles passam conversando sobre trabalho.
Ele nunca se deu bem com alguém tão rápido e tão sem esforço. Existe uma conexão entre eles que ele não consegue descrever com precisão, apenas sentir. Uma conexão que o puxa e com sorte o mesmo acontece com ela.
Oliver é um homem ativo. Quando não está trabalhando, está exercitando e malhando. Introspectivo, de pavio curto, ele nunca lidou bem com pessoas, e esse tempo isolado só reafirma isso. Sua vida social não é o que uma vez foi, consistindo basicamente em jantares com os Diggle ou Thea, ir para o bar de vez em quando com Tommy e Sara e o ocasional evento relacionado a trabalho. Ele também fala bastante com Thea pois ela ama ligar, Diggle manda mensagens de texto para checar como está, e ele se comunica com Tommy e Sara no grupo que Sara criou.
Num primeiro momento ele ficou um pouco irritado porque os dois falam demais, mas o grupo veio a calhar quando o país fechou e se tornou o principal meio de comunicação com seus grandes amigos. Sara insistiu tanto em reuni-los numa chamada em grupo, uma espécie de social virtual como vinha chamando, até quem um dia Oliver, se sentindo benevolente, concordou. A falta que sentia dos dois desvairados desapareceu depois dos primeiros minutos. Nem a cerveja que tinha em mãos foi o suficiente para aturar as maluquices dos amigos, ainda mais depois que o Tommy disse que o tédio era tanto que ele já assistiu tanto pornô que “esgotou” o site. Até Sara, que às vezes Oliver acha ser mais devassa que ele, solta sons de desgosto e fica escandalizada. Então Oliver decide que vai ficar um bom tempo sem ligar para os amigos de novo.
Por isso é um pouco estranho que ele se encontre em tantas chamadas de vídeo particulares com Felicity. E, ao contrário do que esperava que tais chamadas seriam – cheias de silêncios desconfortáveis e todo mundo apenas encarando o rosto do outro – não é esquisito. Ela não o cansa.
Por um momento, Oliver cogita contar a seus amigos sobre Felicity. Só pensar nas reações de Tommy e Thea, que vão entender tudo errado, o faz abandonar a ideia. Felicity acaba se tornando um segredo. Não que ele quisesse, não tem motivo para isso. Só... aconteceu. O que eles têm é precioso e Oliver não quer arruinar compartilhando com o resto do universo.
Sua vida em quarentena acabou sendo não muito diferente da de antes. Oliver é um homem de rotina então ele decidiu criar uma rotina ali dentro. Em dias úteis – se ainda é possível descrever assim nesse novo normal – ele acorda com o alarme, trabalha e depois de noite ele malha. Por sorte ele montou alguns equipamentos de treino num dos quartos vagos de seu apartamento, então ele nem arrisca ir para a academia do prédio. Ele praticamente só sai uma vez na semana para ir ao mercado ou para circular pelo quarteirão com o carro para mantê-lo funcionando direito.
A verdadeira diferença é que agora que ele está em casa o tempo todo ele passa muito mais tempo cozinhando e experimentando novas receitas que ele vinha querendo há um bom tempo e o trabalhou atrapalhou. É terapêutico.
Ele mora sozinho, gosta disso e não se incomoda. Mas havia dias em que a solidão e o tédio o acertavam e a sensação de estar trancafiado se esgueirava como tentáculos para dentro de si e floresciam em ansiedade, e sua própria companhia não parecia o suficiente.
E agora com o projeto em andamento ele se encontra querendo ligar para Felicity. Ela enche o apartamento com sua luz, suas tiradas divertidas e afiadas e seu cérebro incrível. Ele gosta disso, de como o mundo não parece tão ruim quando ela está falando. Acaba que ela se torna a pessoa com quem ele mais fala no dia a dia.
O número de chamadas pessoais que eles fazem com o outro aumenta drasticamente. Eles conversam bastante sobre assuntos aleatórios, apenas conhecendo o outro. Bem, Oliver escuta mais do que fala, mas não liga. Ele fica feliz em deixá-la tomar controle da conversa e levá-la onde quer que ela queira. Ela tagarela e ele acha fascinante. Ela vai de fatos científicos a pedaços de si mesma a cultura e a curiosidades num ritmo estonteante mas extraordinário.
— Seu conhecimento sobre cultura pop é deplorável, Queen. – Felicity não perde a oportunidade de curtir com a cara dele. – Você é um homem das cavernas no século 21.
Eles falam sobre hobbies e séries e filmes. Aparentemente ela ama ficção científica e fantasia. Ele ouve bastante sobre esse negócio de Doctor Who.
— Como assim você nunca assistiu nenhum Star Wars? – Felicity está escandalizada como se Oliver tivesse acabado de confessar ter cometido crimes hediondos. Seu rosto está natural, limpo de maquiagem, e o cabelo, desarrumado. Ele gosta de vê-la tão casual, apenas acentua sua beleza deslumbrante.
A camisa do MIT que ela veste o fez lembrar-se de quando se conheceram e ele se perguntou, logo no momento em que ela atendeu, se ela está usando sutiã. Considerando que ela está em casa e o jeito que seu peito mexia, não, e a constatação deflagrou uma onda de calor nele que até agora não dissipou por inteiro.
Oliver também está casual com uma camisa azul escura básica e calça de moletom. Ele está meio sentado, meio deitado na chaise do sofá da sala, tornozelos cruzados, apoiando o computador com uma almofada. Ele se arrepende de não ter trocado para o tablet – sim, agora todos seus aparelhos têm o app Teams. No fundo da mente, algo lhe sussurra que não é assim que devia estar usando o app. Dane-se; sua empresa, suas regras.
Ele dá de ombros antes de responder:
— A oportunidade nunca veio.
A boca de Felicity se abre de espanto. Ele solta uma riso abafado com a imagem dela sem palavras. Nem achava que isso era possível.
— Ai. Meu. Deus. Você perdeu vários pontos comigo, Oliver. Isso é inacreditável, isso é inaceitável! Você tem muito tempo em mãos, assista agora! – E então ela desata em outro discurso a cem por hora das várias ordens que tem para assistir os filmes.
Ela até mesmo que mostrar a ele seu sabre de luz. Ela desaparece da tela e Oliver não resiste em contemplar a casa dela. Ele tem apenas um vislumbre de cores e percebe que a casa dela é calorosa e aconchegante, a manifestação física de sua personalidade vívida. Ela já lhe contou que vive numa pequena casa com um pequeno quintal privativo, o que veio a calhar agora já que ela pode tomar um banho de sol. Oliver só sente melhor o sol durante a tarde quando raios de luz entram pelas janelas do chão ao teto de sua cobertura.
Felicity retorna sorridente, parecendo além de adorável com seu sabre de luz verde ligado. Oliver ri, a excitação dela enchendo seu peito, deixando-o ainda mais relaxado.
— Ok, Sr. Rabugento. Eu realmente não consigo ver seu estilo. Me conta o que você gosta de assistir. – ela pede depois que deixa de lado o brinquedo.
Ele pensa por um instante.
— Eu assisto muito programas de culinária. Recentemente tenho tirado inspiração deles mais que o normal.
— Ah você cozinha? – Ela ergue uma sobrancelha. – Ótima habilidade para ter agora.
— Eu amo. – ele se percebe confessando. Os muros que usa para encarar o mundo nem parecem existir perto dessa mulher intrigante. – E você?
Felicity solta uma risada de desdém.
— Bem, vamos dizer que tem esse momento memorável quando meu dormitório lá do MIT teve que ser evacuado no meio da noite e havia fumaça envolvida... E minha colega de quarto fez piada com meu nome por duas longas e longas semanas... – Ela se torna estranhamente tímida, mas Oliver só consegue achar divertido. Um tom de rosa surge em seu rosto e se espalha para baixo, para sua clavícula, desaparecendo para dentro da camisa, e por um momento ele pensa onde para. Ele quer ver até onde ela está corando.
Oliver balança a cabeça, forçando o pensamento para longe e o sufocando. Prendendo um riso, ele continua compartilhando sobre si mesmo, o que vem mais fácil do que esperava já que não é algo que ele faz com frequência.
— Ah, eu também gosto de Survivor.
— Sério? – Felicity inclina a cabeça. – Quer dizer, eu meio que entendo. Um programa com um bando de gente sarada e com habilidades físicas sobrevivendo no meio do nada. Você parece o tipo. Você parece bem atlético daqui... não, não que eu fique te secando, quer dizer, preste atenção em você.
Ele não resiste em se sentir um pouco convencido. Ele se exercita porque é seu jeito de não confrontar sentimentos. É como canaliza seu tormento interior que às vezes quer prendê-lo como refém, ele anseia pelo estado que as endorfinas o levam, controle e força. Mas não pode negar que gosta de Felicity prestando atenção em seu físico.
— Você tá falando muito sobre TV. Me fala de filmes, Oliver, filmes. – Felicity não tão sutilmente tenta mudar de assunto.
Com um quase sorriso, ele segue a deixa dela.
— Eu gosto de Duro de Matar. E Duro de Matar é filme de Natal, nem tente me convencer do contrário.
Oliver espera que ela pule para o novo tópico de discussão, porém ela não fala de imediato. Ela olha para ele, a testa franzindo um pouco, mordiscando o lábio inferior, uma expressão de timidez cobrindo suas feições. Ele já espera o que ela vai dizer.
— Então, é o seguinte...
— Ah não! – Ele a interrompe divertido. – Não me diga que você viu Duro de Matar, Srta. Smoak.
Ela abre um sorriso malicioso.
— Ok, não digo.
— Espertinha. Você não pode me condenar por Star Wars sendo que nunca viu Duro de Matar.
— É que... É só mais um filme de ação. Já assisti vários filmes de ação. São todos iguais. – Ela dá de ombros, tentando explicar.
Oliver imagina se o espanto que sente agora é equivalente ao que ela sentiu com sua confissão sobre Star Wars.
— Não é. Não consigo te explicar, mas não é.
Então ele começa a dizer sobre como Duro de Matar é um filme de Natal. O que então se desenrola em algumas histórias sobre o Natal, focando em sua irmã. Ele contorna memórias sombrias, e sente que ela capta sua voz falhando vez ou outra, mas ela não pressiona. Ele se surpreende como o quanto está disposto a compartilhar quando usualmente ele é tão estoico e fechado. Mas há algo em Felicity que o deixa leve. Ela o faz se sentir confortável. Em paz.
Ele quer mais e mais essa sensação.
Eles trocam números pessoais, deixando o app para trás. Oliver até mesmo adiciona uma foto no contato dela, algo que ele nunca faz, e Felicity faz o mesmo. Ele escolheu como foto um print bobo que tirou dela durante uma das chamadas de vídeo deles. Bochechas cheias, lábios em biquinho, uma careta intrigada congelada no meio de um discurso. Ela estava falando como cangurus são esquisitos. Eles mandam mensagens para o outro durante o dia por qualquer motivo. Com emojis e tudo.
Num sábado, ele fica agradavelmente surpreso quando seu telefone toca. Sorri vendo o rosto de Felicity. O dedo vai imediatamente para atender, porém para a míseros milímetros de distância da tela. Ao invés disso, ele corre para a superfície espelhada mais próxima para checar seu reflexo, passa a mão no cabelo para ter certeza de que está bom e arrumado e então volta ao lugar de antes. Por sorte antes do lockdown ele cortou o cabelo mais curto que o normal e ainda estava num comprimento que não o incomodava. De manhã ele aparou a barba. Então ele se censura porque nunca ligou para a aparência. Sem contar que Felicity e ele nunca esconderam os visuais de quarentena. Ele finalmente atende com o coração saltando no peito.
— Oi Oliver! Tudo bem? – ela o cumprimenta com alegria.
Oliver cogita se existe algo que poderia deixar aquela mulher triste.
E se existe, ele sente uma ânsia de destruí-lo. O sentimento repentino o surpreende junto com sua intensidade, mas ele não o reconhece muito.
— Oi Felicity. Eu to bem e você?
— Ótima. Tá ocupado?
— Na verdade não. – Ele está de pé, postado em frente à parede de vidro fitando a vista da baía que tinha dali de cima. O dia de hoje é lindo, raios de luz concentrados escapando dentre as nuvens cheias e fofas e lançando um brilho dourado, igualmente misterioso e etéreo sobre as águas e as árvores ao redor. Oliver se encontra sentindo falta de verdade de sentir os raios solares em sua pele, mesmo Starling City não sendo a cidade mais quente do mundo. – Por quê?
— Eu tenho uma ideia. – Felicity soa um pouco nervosa. Ele não entende nem quer ela se sentindo nervosa ao seu redor.
— Então nada fora do comum. – Tenta aliviar o ar como ela fez algumas vezes antes e funciona. O sorriso enorme que ela lhe apresenta vale a pena.
— Eu tenho esse app onde você pode assistir filmes em sincronia com outras pessoas. É fácil de usar, mesmo para você, tragédia tecnológica ambulante. – ela provoca. Ele sabe que ela nunca vai deixá-lo esquecer seu erro. – Então... Uh, quer assistir um filme comigo?
— Com certeza. – Ele não tem que pensar duas vezes. Ou uma, aliás.
— Ótimo! Eu vou te mandar o link e te dar alguns minutos para arranjar tudo. Pense nisso como um desafio. – Seus olhos brilham marotos, acentuando o tom de azul do céu. Ele revira os próprios olhos, prendendo um sorriso. – Enquanto isso eu vou estourar uma pipoca. Deus me ajude.
Ela murmura as últimas palavras e Oliver quase não as ouve.
— O que quer dizer com isso? – ele pergunta enquanto anda em direção a sua televisão, mudando o app e abrindo a mensagem dela.
A expressão dela congela por um momento, pega no flagra.
Um pensamento ocorre a Oliver e seus lábios tremem com um sorriso.
— Felicity, está me dizendo que não sabe fazer pipoca?
Ela cora de um jeito adorável e ele ri.
— Hey! – ela o rechaça. – Eu te disse. Não sei cozinhar, sou incapaz disso. É uma coisa das mulheres Smoak. Está nos nossos genes. – ela explica timidamente.
— Mas... é pipoca. Me deixa te explicar. E esse é o nível mais fácil. Primeiro você abre o pacote, depois você pega o saquinho e coloca no micro-ondas. Aí você aperta o botão “pipoca” que praticamente todo aparelho tem. Espera a contagem terminar. Feito. Viu? Você não tem nenhum trabalho.
— Haha. Seu idiota. Você é tão engraçado. – ela diz num tom seco e sarcástico, lhe fuzilando com o olhar.
— Pior que nem sou. – Oliver fala meio autodepreciativo.
Depois de configurar a televisão e antes de eles apertarem play, Oliver decide fazer um pouco de pipoca para si. Só que ele não usa o saquinho pré-pronto que nem Felicity, ele pega um pacote de milho, uma panela e segue para o fogão. Ele coloca o telefone sobre o balcão da cozinha, apoiado num objeto para que ela ainda possa vê-lo e eles possam conversar.
— Esse é o próximo nível, o fácil. – ele a provoca.
— Tá, tá, entendi, você sabe fazer pipoca. Grande coisa.
Ele coloca a pipoca num recipiente, pega uma bebida e retorna ao sofá. Uma risada baixa escapa de seus lábios quando Felicity lhe mostra o conjunto de balde e copo pintados com listras vermelhas e brancas que ela recentemente comprou online.
— Eu tenho muito tempo em mãos e entrega vinte e quatro horas. Tenho que me segurar para não perder o controle. Um vício é o que eu não preciso nessa quarentena.
Ela mostra uma taça de vinho, sua escolha de bebida.
— Também tenho algo por esse site de vinho. – Toma um gole enquanto o fita e por um momento ele se distrai pelo jeito que os lábios dela se fecham ao redor da taça e ela engolindo. Lembra-se de uns dias atrás durante uma reunião de trabalho como ela mastigou uma caneta vermelha.
— Gosto de vinho também. Nada como um bom tinto seco.
Agora ele se distrai pela pequena mancha que o vinho deixou nos lábios, deixando-os mais rosados – e mais pecaminosos. Ele engole em seco.
O rosto dela acende.
— Você gosta? Talvez você não seja uma causa totalmente perdida, Oliver.
— Então, o que vamos assistir? Sem ofensa, Felicity. Não acho que devemos começar com uma série de filmes como Star Wars ou até mesmo uma maratona. Talvez depois.
Oliver fica tenso no momento em que sua boca se fecha. O jeito que falou fez parecer que mais daquilo iria acontecer. Ele não quer criar nenhuma expectativa ou deixá-la acreditar que tem alguma.
Embora ele tenha que confessar que adoraria que mais daquilo acontecesse.
Mas Felicity não parece perceber seu desconforto crescente e apenas revira os olhos.
— Eu sei que você não ia estar a fim de Star Wars. Então decidi ser uma pessoa maravilhosa e escolhi Duro de Matar. Ou se você tiver outras sugestões é só mandar.
Eles acabam assistindo Duro de Matar. Trocam algumas palavras durante o filme. Ocasionalmente ele cita algumas das falas de John McClane o imitando, o que a faz rir demais.
— Você é péssimo em imitações. – ela diz.
Quando o filme acaba, eles assistem outro.
— Isso foi divertido. Precisamos fazer mais dessas sessões de cinema. – Felicity decide.
Algo enche o peito de Oliver e lembra alegria.
— Definitivamente.
— Mas voto nada de filme de apocalipse. Já estou vivendo um.
— É, também to cansado de viver História. – Seu olhar sai da televisão e volta para a tela da chamada e encontra a imagem de Felicity esparramada no sofá enrolada num lençol. Ela parece confortável.
— Achei que o apocalipse iria consistir em armas e sujeira, mas na verdade consiste em pijama.
— E mais álcool do que o esperado.
— O dia é dividido em dois: hora do café e hora do vinho.
A boca dele treme num sorriso. Lembra-se de uma manhã que ela ligou e ficou chocada que ele bebe café preto sem açúcar. Ele reparou no mocha dela e, claro, devolveu provocando que as misturas cheias de açúcar que ela gosta não é café de verdade.
— Não tem como negar.
E essa foi a primeira numa série de sessões de filme.
Oliver e Felicity rapidamente se tornam amigos. Eles se acostumam tanto um com o outro que acabam atendendo as ligações só de pijama, aparências desalinhadas. Fora das reuniões de trabalho, ela não usa maquiagem, e ele gosta quando descobre as pequenas sardas que ela tem ao redor do nariz.
Hoje o lindo rosto dela surge com o cabelo solto. Ele notou que ela normalmente o coloca num rabo de cavalo quando estão trabalhando, mas na maior parte do tempo nas ligações causais dele ela o deixa solto, meio desarrumado. Ele secretamente prefere desse jeito. Sua mente vagueia, conjurando imagens dele acariciando as longas mechas, os dedos mergulhando no mar dourado, desejando confirmar que são tão macias no toque quanto parecem.
— Oliver, conheça meu pijama favorito! – Felicity anuncia toda feliz, apontando para o tronco. Ela usa um pijama preto de cetim com estrelas douradas, a blusa de manga comprida. Combina perfeitamente com ela. Ele ri, pensando como alguém pode ficar tão animado com pijamas. Como ela pode ser tão fofa?
A conversa deles segue para uma rota mais pessoal. Ela conta sobre como foi crescer em Las Vegas. Os olhares de desprezo e estranheza que os outros estudantes na escola lhe lançavam por ela ser a pessoa mais jovem nas turmas mais avançadas. Quando ela quis ir ao acampamento espacial e como ficou de coração partido quando a mãe disse não porque não queria ficar longe dela, mas a verdade era que a mãe não tinha como pagar. Oliver percebe como as criações deles foram totalmente diferentes, com a mãe dela tendo que trabalhar três turnos e ainda sim todo mês elas lutavam para pagar contas e ter comida na mesa, e torna humilde em relação a seus privilégios.
O próprio coração dele se parte, pensando em Felicity como criança tão chateada porque seu sonho não pôde ser realizado e como uma adolescente que sofreu bullying. Sente uma onda de proteção em relação a ela e uma ânsia de abraçá-la e confortá-la. Envolvê-la e protegê-la de qualquer mal. De brigar com qualquer um que a fez se sentir insegura e duvidando de si mesma.
A sensação se amplifica e fica pior quando ela conta sobre Cooper Seldon.
— Ele foi meu namorado na faculdade. Atraente, inteligente, um ar meio bad boy mais com gentileza e afeição por trás. Ele me olhou quando ninguém mais o fez. Pensando agora, essa atração, o jeito como ele me colocou no centro do universo, era um sinal de que desde o começou ele brincou comigo e me usou. Ele me destruiu do jeito mais eficiente: quando a destruição vem e a gente nem percebe.
Com alguma dificuldade, ela resume sobre o relacionamento emocionalmente abusivo com Cooper. Como no início ele foi o mais encantador dos homens, fazendo-a se sentir maravilhosa, invencível, no pedestal mais alto. Depois vieram as manipulações sutis, o gaslighting, como ela chegou num ponto em que duvidava tudo que ela mesma dizia, o que fez e o que aconteceu, porque Cooper sussurrava perguntas acusatórias disfarçadas num tom de um amante. Como demorou para ela perceber que aquela relação não fazia bem a ela. Ele tentou roubar uma de suas criações e foi a luz que precisava se libertar. E por sorte conseguiu.
— E desde então não tenho nenhum relacionamento sério. Nem quero. Nem sei se ainda sou capaz de ter um.
Oliver vê vermelho com a raiva. O sentimento é tanto que tremores sutis percorrem seu corpo. Seus dedos se fecham em punhos, uma vontade tremenda de socar Cooper até ele ser reduzido a um monte sangrento e quebrado. Como uma pessoa pode ser tão cruel com outra? Pior, cruel com alguém tão única quanto Felicity?
É notável que demorou mas ela conseguiu processar isso e continuar a viver mesmo com as cicatrizes, mesmo assim ele quer confortá-la.
Então pela primeira vez desde que começaram essa amizade virtual Oliver percebe que não pode tocá-la. Que ela está a incontáveis quilômetros longe dele.
Que eles podem nunca se conhecer pessoalmente. Então ele nunca vai abraçá-la. Nunca vai fisicamente regozijar de sua luz.
A realidade do que eles são, a distância abre um penhasco dentro dele que ele nem tinha ideia de que podia incomodar tanto.
Mas ele também está encantado. Com a resiliência dela, com como ela continua a ver o bom em tudo. Toda a mágoa não a quebrou, não matou a luz dentro dela. Ela tem um fogo que a fez superar suas experiências do passado e a deixou ainda mais forte e poderosa.
Tão diferente dele.
No fim do discurso dela, ela acaba espalhada no sofá e coloca o tablet na mesa de centro para que ela possa falar com ele deitada. O corpo inteiro entra no campo de visão, e ele percebe então a parte de baixo do pijama. Ele esperava calça, mas a imagem do short o surpreende. As pernas nuas dela são grossas e torneadas, assim como o traseiro empinado. Ele não esperava tanta perna para alguém baixinha.
Uma ânsia o atinge de deslizar uma palma por baixo do tecido, para aquela bunda enquanto seus lábios acham a nuca dela. Não satisfeito, percorreria aquelas coxas com as mãos, fantasiando como estar entre elas, tê-las fechadas ao redor de sua cintura.
Oliver se amaldiçoa. Mais e mais desse tipo de pensamento vem florescendo em sua mente.
Um dia, Felicity apresenta Oliver a um jogo chamado “duas verdades, uma mentira.” Claro que eles se alfinetam por ele não conhecer.
— Agora só falta você me dizer que nunca jogou “gire a garrafa”. – ela brinca.
Ele concorda sem pensar muito, e uma voz lá no fundo sussurra que está chegando a um ponto onde concordaria com qualquer coisa que a loira deslumbrante propusesse.
— Durante uma noitada eu roubei um cone de tráfego da rua, coloquei na cabeça e fingi que era o Chapéu Seletor e fui selecionado para a Sonserina. – Oliver diz em uma de suas rodadas, fazendo Felicity, também uma Potterhead, cair na gargalhada. – Fui pego com a esposa de um dos parceiros do meu pai numa situação constrangedora durante um jantar de negócios quando eu tinha dezenove anos. Sou ótimo em arco e flecha.
Felicity solta um som de convencimento.
— Isso tá fácil demais, Queen. Claramente o arco e flecha é a mentira.
Oliver sorri em triunfo, já esperando que ela caísse na armadilha.
— Nope.
O queixo dela vai ao chão.
— O quê? Então qual é a mentira? Quero dizer, as outras opções são absolutamente críveis. Sem ofensa.
Oliver tinha dito a ela que ele foi um babaca sem escrúpulos que brincava com mulheres. Felicity devolveu num tom brincalhão que ele agora só é um babaca rabugento.
— O cone é a mentira. – ele revela.
— Não mesmo! – Felicity protesta. Ela saltita sentada no sofá. – Ok, Robin Hood das Cavernas, agora me conta essa história de arco e flecha, to tão curiosa.
Ele afunda no travesseiro, deitando ainda mais na cama. Dessa vez ele está no quarto.
— Começou por causa de uma garota, na verdade...
— É óbvio. – ela provoca. Ele lhe lança um falso olhar duro, o que só a faz rir.
— Eu queria me aproximar dela e conhecê-la melhor e o pai dela era instrutor de arco e flecha, então me inscrevi para algumas aulas. Só que eu realmente gostei do esporte e mergulhei fundo. Era a primeira vez na minha juventude que eu senti que era realmente bom em algo. Arco e flecha é sobre dominar o controle e isso me trouxe um agito, uma sensação que nunca senti antes. Meus pais achavam que era palhaçada, claro, mas faziam vista grossa porque me fez menos propenso a fazer merda que eles tinham que apagar com o dinheiro e o poder deles. Eu acabei mandando muito bem, entrei em competições e realmente via um futuro como atleta profissional para mim. Então meus pais, que sempre quiseram que eu assumisse a empresa, ameaçaram me cortar, eu não liguei porque eu tinha patrocinadores, então eles me cortaram e eu realmente mergulhei no esporte. Fui para Jogos Panamericanos e estava no caminho para me tornar um arqueiro olímpico.
Felicity parece impressionada.
— Dá para ver o quanto arco e flecha significa para você. É ótimo ver.
O discurso remexeu águas sombrias e turbulentas dentro dele, mas o elogio de Felicity o faz sentir um agito bom e empolgante. As palavras dela o acalentam e o nó em seu peito afrouxa um pouco.
— Tenho certeza que sente falta, não? Estar em lockdown e tudo. Você mora numa cobertura, mas mesmo assim aposto que não tem muito espaço para usar um arco.
— Sinto sim. Ainda pratico arco e flecha como hobby, algo que me acalma sempre que me sinto no limite. Que me ancora, me faz me lembrar que quem está no controle sou eu. – Sua confissão sai lá do fundo de sua alma. Nunca tinha dito nada daquilo para alguém, que seu passado às vezes ainda ameaçava devorá-lo, embora hoje ele esteja bem melhor do que antes. Mas ele sabe, assim como o céu é azul e a luz é mais rápida que o som, que Felicity não vai julgá-lo.
Oliver sempre foi um cara introspectivo, mas anos atrás o caos de sentimentos era tanto que ao invés de sentir ele trancou tudo, se isolou, se entorpeceu e ergueu muralhas ao seu redor.
Ela apoia o braço e a cabeça numa almofada, parecendo tão confortável deitada no sofá.
— Então o que aconteceu? – Sua voz é suave, convidativa. Ela dá a ele espaço para falar e também parar se quiser. De alguma forma isso só o faz ir mais fundo.
— Meus pais morrem num acidente de helicóptero. Thea mal sobrevive e passa um ano em coma. – Ele tenta usar o tom distante e frio que usou com todo mundo nas poucas vezes que falou sobre seu trauma.
Exceto que Felicity está o mais longe possível de ser qualquer um, então ele falha. Mas não liga.
Dor. Dor em todos os lugares ao passo que suas memórias mais obscuras o consomem. Agonia sobe em seu coração, bombeando para todo seu corpo através do sangue. A garganta fecha, a respiração falha, a desesperadora sensação de nada ironicamente enchendo seu peito, tanto que ele acha que vai devorá-lo vivo. Ele de repente é o garoto que se sentiu completamente sem esperança e sozinho de anos atrás.
A pior parte é que ele nunca se reconciliou com Robert e Moira Queen. Seus pais morreram com ressentimento entre eles e nunca falaram sobre sua escolha de carreira. Nunca o viram pessoalmente atirando uma flecha.
Embora houve pouquíssimos flashes de que eles podiam estar a alguns passos de reconectar, de consertar o relacionamento. O vislumbre de orgulho nos olhos do pai ao descobri que Oliver iria para as Olimpíadas sendo o favorito a medalha de ouro. A mãe ter gravado na televisão uma de suas competições.
Ele não sabia se esses flashes tornavam tudo pior ou ligeiramente melhor.
— Thea se recupera por um milagre, com algumas sequelas, mas nada que a impede de viver. Então o negócio da família começa a rachar, meus outros parentes tentam tirar vantagem disso, junto com alguns membros executivos. Virou uma guerra feia. Eu quero dizer feia. Essa mulher Isabel declarando que estava grávida de um filho do meu pai e queria herdar parte da companhia, o que eventualmente se provou mentira. Então eu deixei de lado minha carreira de atleta e decidi tomar as rédeas da situação. Voltei para a Universidade de Starling, peguei meu diploma e me juntei a QC, a coisa que meus pais sempre tiveram orgulho e desejaram que fosse uma força motriz para mudar a cidade e torná-la melhor. E aqui estou.
Os olhos de Felicity brilham com lágrimas, o que espanta Oliver, tirando-o de sua miséria por um segundo. A face dela se enche de tristeza, apoio e compaixão. Ela se solidariza com ele e ele fica sem palavras.
— Oh Oliver... – A voz dela treme com a emoção. – Eu sinto muito, muito mesmo por fazer você reviver essas coisas.
Ele balança a cabeça.
— Não, eu quis compartilhar. Eu nunca fiz isso antes e eu sei o preço que paguei, e ainda pago, por isso. Se algo, eu é que peço desculpas por descarregar isso em você.
— Besteira. – ela afirma categoricamente. – Estou feliz que ganhei sua confiança o suficiente para compartilhar tal trauma comigo. – Ela abre um sorriso caloroso e reconfortante.
O interior de Oliver se contrai. Confiança. Algo que raríssimas pessoas em sua vida tinham. Ele não sabe como ou quando isso aconteceu, mas é verdade. Ele confia em Felicity.
Para todos os efeitos, ela é uma estranha, mas ele nunca se sentiu tão livre e à vontade com outro alguém. Às vezes é mais fácil um estranho ter uma perspectiva melhor de você do que um conhecido.
— Você é absurdamente forte, sabia? – ela diz. – Sofrendo com tudo isso sozinho, tendo que deixar deu lado seu sonho e seus sentimentos para o bem, e ainda achando algo bom pela qual lutar.
A admiração na voz dela espalha para sua expressão e para o brilho de seus olhos. Admiração por ele. Seus olhos ardem com lágrimas feitas de agonia, alívio e a aceitação dela. Uma escapa de cada olho, as primeiras que ele derrama em anos sobre isso. As primeiras lágrimas que ele compartilhou com alguém além de Thea. Mas, ao contrário de antes, ele não se sente fraco. Ele usa o polegar para secar o canto dos olhos.
— Hey... To mandando abraços virtuais. Imagine que estou te abraçando, ok? – Felicity falava e de alguma maneira ele sente o apoio dela o envolvendo. Atravessar a tempestade não parece mais tão destrutivo. Não quando uma vez que o vento frio para e as nuvens grossas e negras desaparecem e a água de gelar os ossos seca tem o sol esperando para cumprimentá-lo. E os raios de luz penetram em sua carne, ossos e alma.
Oliver não é do tipo que abraça, mas anseia querendo sentir Felicity em seus braços.
— Eu tenho uma pergunta. – ela fala depois que ele se acalma.
— Não seria você se não tivesse. – Um sorriso inevitavelmente escapa pelo canto de seus lábios.
— Você pode me mostrar suas medalhas e prêmios? – Ela se empolga. – Oooh você tá com o seu arco aí? Pode me mostrar? Do que as suas flechas são feitas? Carbono ou um compósito alumínio-carbono? Eu não entendo porque estou tão curiosa porque não gosto de coisas pontiagudas, mas tem física por trás de arco e flecha e eu gosto de física.
Felicity Smoak constantemente o surpreende. Ele ri ao se levantar da cama. Eles passam a próxima hora sendo nerds com arco e flecha.
Sensações mesclam. Risadas leves com arquejos e gemidos sujos e eróticos. Traços duros contra curvas macias, doces e cheias de luxúria. Um corpo e uma alma conjurados por deuses para tentar os homens e ser sua luz e salvação.
Num piscar de olhos a claridade some e a escuridão retorna. A realidade volta sufocando até que ele recupera a respiração. O ofego que Oliver libera é baixo, mas na quietude da madrugada ecoa pelo quarto de forma íntima e proibida. Os olhos, acostumados à escuridão, captam os contornos da cortina fechada, a pouquíssima claridade entrando mostrando que ainda é madrugada.
Seu corpo deitado continua no intermédio entre real e etéreo. Seu coração acelerado, o corpo tenso e enrijecido, desejo sombrio e calor acumulado na parte inferior de seu abdome, seu membro duro querendo perfurar o tecido de sua calça. Um pulso o percorre, instinto animalesco rugindo baixo, uma sensação que ele conhece bastante, mas que não sente há um tempo. Fome acesa pelo sonho que o acordou.
Sorriso fácil, olhos cuja beleza rivalizam com o céu, mechas douradas. A própria felicidade.
Uma onda feroz de vergonha e culpa colide com ele, amortecendo a excitação, mas incapaz de destruí-la totalmente como quer. Fecha os olhos, a mandíbula cerrando, tentando ignorar a ânsia em si, tentando trazer seu corpo de volta ao normal, brigando contra a vontade de deslizar a mão por baixo do cós da calça e se aliviar.
Brigando contra a vontade de continuar naquela fantasia enquanto se toca.
É tão errado.
Tão errado sonhar e fantasiar com ela. Aquele desejo é errado, estranho e assustador mas o mesmo tempo convidativo e certo e necessário.
Ali, no meio da noite, onde o mundo e a imaginação colidem, segredos e verdade e fantasiam se chocam, onde inibições baixam e faz qualquer um duvidar da sanidade, Oliver sabe que não é real. Ele e Felicity estão passando por um tempo difícil e usando o outro como mecanismo de defesa para lidar com o lockdown. O que há entre eles é uma identificação. Conformidade.
Ele não sente nada por ela. É só um truque. É a abstinência de sexo depois de semanas isolado em casa.
Ele afirma para si mesmo que essa ilusão é só para processar o inferno que lá fora se tornou.
Mas não pode negar o quão real pareceu. Ter Felicity em seus braços, corpos colados, pélvis na pélvis, perder-se nela e cair do precipício que achava ser composto de caos e desastre. Não podia negar como quis isso.
Como ainda quer.
Ele não consegue voltar a dormir bem. Quando seus dedos se fecham ao redor de sua ereção, é ela que inevitavelmente rompe suas barreiras defensivas e ocupa sua mente.
Ele fecha os olhos e adormece satisfeito e se odiando e cheio de culpa.
Naquele dia, não liga para Felicity. Nem responde as mensagens e ligações dela. Tem que se afastar, se blindar. Cada faceta de sua vida tem uma caixa e ele tem manter cada uma separada e em seu lugar. Ela é uma colega de trabalhou com quem tinha uma relação amigável.
Um pequeno peso o acompanha o dia inteiro e o perfura toda vez que ignora uma notificação dela. Mas é necessário.
Só de noite que ele manda para ela uma desculpa sobre ter estado muito ocupado com trabalho.
No dia seguinte, tendo compartimentado tudo, ele volta ao normal. Não tem como evitá-la eternamente.
Ele nem quer isso.
A batalha de Oliver se torna mais acirrada...
E em vão.
A simples ideia de ele ter sentimentos por Felicity é ridícula.
Eles nunca se encontraram em pessoas, apenas conversam por vídeo. Mas em tempos assim, não é esse tipo de socialização mais próximo de contato humano que a humanidade tem? De conhecer alguém de verdade? Eles se falam todo dia, tanto durante horário de negócios e horário casual. Se não estão se vendo através de telas, estão vendo filmes pelo app, ligando para o outro, mandando mensagens e memes – esse último é só Felicity. Eles compartilham o atual estado de suas vidas diárias, seus gostos e hobbies, pedaços de si mesmos e suas histórias individuais. Oliver disse coisas a elas que jamais disse a outro antes. Ela se torna uma parte essencial de sua vida e se um dia passa sem ver o rosto dela é estranho. Incompleto. E ele detesta.
Felicity se prova o apoio emocional que ele nunca soube que precisava. Ela entende tudo o que ele é, o bom e o ruim.
Agora ele se pega pensando nela especialmente quando não estão conversando. Ele quer tanto beijá-la que borboletas enchem seu estômago apenas com o pensamento, e o pragmático e calculista Oliver nunca foi o tipo de homem de sentir essas coisas clichês e ridículas de filmes. Nunca achou que era capaz de sentir tal.
Felicity acende sua imaginação. Ele fantasia como seria ter a boca dela na sua, prová-la, sentir seu gosto, correr a língua em seus lábios, sugá-los, especialmente o inferior que ela gosta de mordiscar e a imagem o distrai. Imagina com seria estar nos braços dela assim como envolvê-la nos seus. Segurá-la, sentir seu calor físico. Imagina como seria fazer amor com ela, sentir o corpo dela contra o seu, movendo contra o seu, as aparentes curvas macias dela contra suas linhas duras. Como seria dar prazer a ela. Como ela soaria no meio da paixão arrebatadora, seus ofegos, gemidos, ela suspirando seu nome. Ele quer cozinhar para ela, dividir uma garrafa de vinho ou simplesmente ficar no sofá assistindo aos shows que ela ama.
A profundidade de seus anseios o assusta.
Porém ao mesmo tempo saber que ele nunca terá nada disso o preenche de tristeza. E mancha seus sonhos.
Ele quer tanto tudo isso. Em toda sua vida nunca desejou tanto outra mulher com tamanha intensidade.
Ele está enlouquecendo.
Não faz sentido algum estar atraído por alguém que ele nunca tocou ou sentiu ao seu lado. Que vive bem longe dele e que ele provavelmente nunca vai conhecer. Seu estômago afunda com o pensamento.
Essa coisa toda entre eles começou porque eles vivem sozinhos e estavam se sentindo um pouco solitários. Uma vez que o projeto acabar, Felicity vai seguir seu caminho que nem ele e suas vidas seguirão em frente. Separadamente.
Então essa loucura tem que parar. Não há nenhum futuro para eles.
Ele tem que reganhar controle de seus sentimentos.
Embora haja uma parte dele que não queira, uma parte egoísta que a quer por perto que nem consegue compreender.
É insano arriscar ter o coração partido por causa de expectativas.
O zumbido martelando seus ouvidos que bloqueia o mundo eventualmente diminui junto com o resto do caos, mas a sensação é que demorou uma eternidade. Uma energia nervosa reverbera por ele. Acentua seus sentidos, o deixando hiper consciente. Ele não consegue manter o corpo quieto, a tensão enrijecendo os músculos, os dedos curvados. Um peso amarra seu peito, a respiração não vem tão suave como de costume.
Quando volta aos sentidos, Oliver sai da cama, jogando para o lado o lençol que se enrolou em seus joelhos. O único lado bom disso é que ele não acordou completamente coberto, senão teria se sentido sufocado. As cortinas do quarto ainda estão fechadas, porém alguns raios de luz penetram pelas brechas. Pela cor azulada, ele calcula que está perto do nascer do sol. O canto de sua visão captura as manchas de suor que deixou para trás. Algumas gotas ainda rolam de sua têmpora, peito e barriga.
Oliver é um homem organizado, seu apartamento sempre arrumado, mas ele deixa para arrumar a bagunça depois. Ao invés disso, ele parte para uma série de exercícios intensos. Nem se dá ao trabalho de trocar o short de dormir ou colocar tênis.
A energia muda. Ele é quem está de volta ao controle. O aperto no peito afrouxa e desaparece. Logo sua respiração merge com o ritmo de seus movimentos, o suor vem de malhar. Os músculos queimam, mostrando-o que está vivo, e ele desfruta da sensação incrível e viciante.
Ele perde noção do tempo, apenas parando quando seu telefone toca. Por sorte acabou de terminar, então pega o aparelho. Só há uma pessoa que ele responderia agora, e o canto de sua boca curva num sorriso involuntário. Calor se espalha por seu peito, poderoso o suficiente para transformar os resquícios da crise de ansiedade em pó.
— Felicity, oi. Bom dia. – Sua voz sai num arquejo rouco, a respiração ainda levemente acelerada.
Ele é recepcionado por uma imagem brilhante e percebe que ela está do lado de fora em seu quintal. O sol vem de trás dela e por um momento ele pensa que ela é um fragmento dele. Que ela é realmente feita de luz do sol.
Felicity, no entanto, não responde de imediato. O olhar vagueia para baixo, para seu peito. O jeito que a ponta da língua dela umedece o lábio inferior adicionado ao jeito faminto de seu olhar fixo nele dá ignição desejo cru dentro dele, uma onda de luxúria que nunca tinha sentido. Seu corpo pulsa em resposta, e ele precisa se manter no controle, mas Deus. Mesmo separados pela tela, ele jura que sente a tensão estalando. Não ajuda que ele não tem estado com uma mulher há um tempo por causa do maldito lockdown – e Felicity é diferente de qualquer mulher.
Sua mão livre vira um punho enquanto ele é novamente preenchido por uma necessidade de acender as faíscas entre eles e incendiar o mundo no fogo mais arrebatador.
— Wow que tanquinho, muitos gominhos. – ela murmura sem perceber.
A risada baixa dele o tira de seu devaneio sórdido.
— Uh... obrigado? – Ele captura a expressão de admiração e espanto dela e não consegue deixar de se sentir convencido. Pelo menos a droga do pesadelo teve uma consequência prazerosa.
Ela cora ferozmente.
— Você devia avisar a uma garota antes de atender uma ligação pelado. Nunca pensei que você era um narcisista ou um exibicionista. Embora você tenha muito que mostrar. – Ela agita a mão na direção da imagem do abdome dele. – Sério, você parece Photoshop. To vivendo aquela cena de Amor a Toda Prova, só que melhor. Não sabia que para ser arqueiro profissional precisava disso tudo.
Oliver curva ainda mais os lábios, agora com um sorriso enorme, suas covinhas aparecendo.
— Não estou pelado, Felicity. – diz então move o telefone para mostrar o short que está usando. Quando traz a câmera de volta ao rosto, adiciona. – Estava malhando.
— Claro. – ela resmunga. Ajustando os óculos e a postura na cadeira, toma um gole de uma caneca então toma mais uma respiração profunda. – Você provavelmente é a única pessoa no mundo que não pulou a série de treinos durante esse tempo maluco. – ela adiciona tentando voltar à típica conversa deles recheada de gracinhas.
Ele se fecha, a luz em seu rosto diminuindo e a escuridão tomando conta. Preocupação imediata preenche o rosto dela, o humor entre eles mudando.
— Tive um sonho ruim nessa manhã. Então acordei e decidi canalizar essa energia nervosa em algo produtivo. – ele diz com um tom pesado.
— Oh. Você sabe que se quiser conversar sobre isso, to aqui por você. – ela diz cheia de gentileza. – A qualquer hora. Pode até me ligar quando coisas ruins acontecem.
— Eu nunca te acordaria no meio da noite. – ele diz numa voz estrangulada. Ele não quer infectar nem arrastar ninguém para baixo com o lado quebrado dele, muito menos alguém tão sensacional quanto Felicity.
— Hey, às vezes eu sou uma coruja. Na maior parte das vezes porque eu fico louca demais programando. – Felicity dá de ombros. – Então...?
Então ele desabafa com ela.
Depois que ele reganha o controle de seus demônios, quando a leveza que o ocupa tão suave e gentil que nem parece que ele era feito de trevas, Oliver continua na ligação e vai para a cozinha. Ele faz o café da manhã, e não perde os olhares hipnotizado de Felicity. Como se ele cozinhando seminu fizesse coisas com ela.
E só dessa vez Oliver se embrenha por aquele caminho proibido e provoca.
— Então, você sabe que a gente tem que assistir Amor a Toda Prova, não é?
Ela cora de seu jeito adorável. Ele nem estava curioso, mas depois de Felicity tê-lo educado em cultura pop, é mais rotina do que curiosidade.
— Não temos não. – afirma rapidamente. – Você não precisa entender tudo o que eu digo.
— Depois eu que sou o teimoso. – Oliver devolve, colocando a omelete num prato, ostentando um pequeno sorriso que revela as covinhas. – Você sabe que se não assistir comigo vou assistir sozinho.
— Ha, até parece! Seu negócio é coisa dark, é ação, suspense e policial. Não comédia romântica.
Ele ergue a sobrancelha, levando a caneca de café aos lábios. O gesto de desafio é claro.
— Não é a sua comédia romântica preferida de todos os tempos? Quero entender por quê.
Segundos se arrastam enquanto os olhares dos dois se prendem num duelo silencioso. A intensidade parece viajar de uma tela a outra.
— Certo. – Felicity suspira em derrota. – Vamos assistir na nossa sessão de hoje. – resmunga contrariada.
Eles desligam e só à noite voltam a ligar. Ela tem garrafa de vinho aberta consigo e ele, um copo de uísque. Assim que atende, Oliver passa a mão no cabelo, os dedos cobrindo uma quantidade de fios maior que o esperado.
— Tá grande demais. – reclama do que vinha o incomodando há alguns dias.
— Tá nada. Tá um pouco maior do que no início.
— Tá me incomodando.
— Cara, um homem desse tamanho sendo um bebezão. Eu não tinha ideia. – Ela ri. – Para de palhaçada. Você continua lindo.
O elogio o deixa sem reação. Oliver já teve sua quota – uma quota maior que a média das pessoas – de mulheres o secando e o comendo com os olhos. Mas foi só aquele simples elogio o deixou perdido e meio embaraçado como se fosse um adolescente.
Ele espera ter disfarçado bem, mantendo a expressão neutra.
Felicity dá mais um gole no vinho.
— Você tá com cabelo de sexo. – Ela gela e balança a cabeça, como sempre faz depois de soltar uma insinuação errada. Ele franze o cenho, ignorando o agito que o percorre internamente. Aquela expressão não significa nada. – E o que eu quero dizer é que você tem... cabelo. – Felicity rapidamente tenta consertar antes de calar a boca de um jeito não tão sutil com a taça e sorvendo mais um pouco de vinho.
Oliver se arrepende de eles estarem fazendo isso com álcool. Todo mundo em sã consciência sabe que álcool é perigoso.
O rubor em seu rosto a trai. Isso somado a palavra sexo e ao vislumbre de necessidade e fome que lambe as entranhas de Oliver o faz aumentar o aperto em seu próprio copo, tão forte que os nódulos embranquecem. Imagens escapam das profundezas que ele achou ter esquecido e preenchem sua mente, fazendo seus nervos rugirem.
Puta merda. Por acaso ela acha que o cabelo dele fica daquele jeito depois de transar? O único jeito do cabelo dele ficar desse jeito seria se ela agarrasse seus fios.
A boca de Oliver fica seca e ele toma um gole do uísque. O sabor forte e o álcool descem por sua garganta, o calor indo para suas veias, fazendo o sangue borbulhar. Algo se contrai e cresce em seu ventre e mesmo ele se mexendo no sofá a pressão não diminui.
Excitação é tudo o que ele não precisa no momento.
Ele sai pela tangente, falando que a televisão está pronta e eles começam a assistir ao filme. Ele tem que reconhecer que o filme é ótimo, com vários arcos se entrelaçando, fugindo dos clichês que o fazem revirar os olhos.
Deus, se Thea, amante de comédia romântica como ninguém, pudesse vê-lo agora iria zoá-lo até o fim dos tempos.
Ele reconhece a cena do Photoshop ao qual Felicity fez referência, onde os personagens, interesses românticos do outro, dizem que vão transar, ela implora para o cara tirar a camisa, e eles acabam passando a noite conversando. A cena chega mais próxima à realidade do que Oliver gostaria.
— Então eu sou o Ryan Gosling e você a Emma Stone?
— Eu nunca disse isso. – Felicity diz defensiva, ainda envergonhada daquele jeito que ele gosta mais do que ousaria admitir. – Só porque você e o Jacob se parecem, os dois ricos e mulherengos, não significa eu quero passar a mão no seu abdome. Porque eu não quero.
— Tá certo. Você não disse, você insinuou. – Ele abre um sorriso malicioso, influência do álcool.
— Vai se foder, Oliver.
O álcool desenrola sua língua, e Oliver abusa de todo seu autocontrole para não dizer as palavras sujas que lhe vêm.
Eles têm que parar de fazer esses encontros com bebida.
Com o fim do projeto se aproximando, Oliver acorda todo dia e numera todas as razões pelas quais não deve se deixar levar por seus sentimentos por Felicity. Faz um esforço enorme para empurrá-los e trancá-los porque eles nunca irão se encontrar.
Ele não devia querê-la, mas é inevitável.
Em certo momento, durante uma de suas conversas casuais, ele capta um vislumbre de desolação lançar uma sombra nas feições delicadas dela. Os sorrisos dela não atingem seus olhos como de costume. E de súbito ele é atingido pela ideia de que talvez ela sinta algo por ele.
Talvez ela goste dele tanto quanto ele dela.
Talvez ela esteja diminuindo o contato para que não vá doer muito.
Talvez, talvez, talvez...
O pensamento o energiza. Por um segundo delirante, ele cogita contar a ela o que sente.
Mas...
Ele tem que parar de balançar talvez. O que faria com eles? E daí se ela gostasse dele, como iriam fazer isso funcionar? Esperar até o fim do lockdown e se ver?
Não. Talvez é apenas outro jeito de alimentar expectativas que nenhum deveria ter.
E também, é muito improvável que ela sinta algo por ele, mentalmente fodido do jeito que era. Felicity merece melhor.
É insano como uma pessoa pode sentir falta da outra sem nunca tê-la conhecido de verdade.
Ele sabe o que tem que fazer, embora cada fibra de si proteste contra. Quando finalizam a ligação daquele dia, a paz e alegria que ele sempre sentiu com ela são manchadas pela tristeza.
Hoje ele começa a se despedir dela.
As conversas diárias de Oliver e Felicity diminuem notoriamente. As sessões de filme que ocorriam duas vezes na semana se tornam semanais até que não existem mais. Toda vez que ele ou ela arranca algo deles, que criaram e se tornaram característicos deles nesses meses tão caóticos, um punhal afiado cutuca seu peito. Ele já sente saudade dela. Das esquisitices, da risada fácil e dos sorrisos brilhantes, da tagarelice, dos pijamas doidos, de seu humor. A luz do lugar que feliz que ela cavou em seu coração embota, uma vela morrendo lentamente. De alguma maneira ele sabe que ela nunca vai se extinguir porque isso significaria que ele esqueceria Felicity.
Oliver é incapaz de esquecê-la.
Ele a vê. Ela lembra lar, um lar que ele não pode ter porque o mundo não é perfeito.
Eles não falam sobre o motivo por trás do distanciamento, ainda assim há uma espécie de acordo não falado. Amargamente, Oliver pensa que a conexão deles é tão excepcional que concordam até nisso.
Tem uma parte dele que alega que eles podiam se apenas amigos. Ter um pedaço de Felicity é melhor do que não ter nada, certo?
Mas a tendência natural das pessoas é guardar seus corações para evitar dor. Oliver tem que parar isso antes que se encontre completamente apaixonado por Felicity.
E então a reunião final chega. O projeto foi um sucesso profissional. Não só ele se divertiu bastante com isso – ele sabe que o maior motivo é a loira genial – mas também aprendeu bastante. Contudo enquanto Oliver sorri e elogia sua equipe, barras de ferro se fecham e apertam seu coração e um gosto azedo preenche sua boca. Ele quer o fechamento daquilo, seguir em frente mas ao mesmo tempo não.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Oliver acha que ainda vai estar em contato com o projeto em termos de marketing e tal, mas não Felicity.
A equipe se desliga, deixando apenas Oliver e Felicity. Ele sabe em seu íntimo que essa é a última conversa deles. Nenhum está agindo como normalmente age. Felicity, que odeia silêncios desconfortáveis, sempre sabe o que dizer, mas está sem palavras como nunca.
— Bem, foi uma empreitada interessante. – ela começa para evitar arrastar a carga pesada por muito tempo.
— De várias maneiras. – Oliver concorda num tom profundo.
— Fizemos um bom trabalho. Fazemos uma ótima equipe. – O sorriso que curva sua boca é mais sincero do que o esperado.
— Ah sim. Tenho que dizer, acho que aprendi mais do que trabalhei nisso.
— Aprender trabalhando é a melhor maneira de aprender. Porque você vê bem a sua frente com seus olhos o que está construindo. – As mãos dela se agitam no ar, os olhos recobrando o brilho, a paixão pelo trabalho a tomando por um instante. Oliver deixa escapar um meio sorriso vendo-a assim. Ele adora o quanto ela ama construir e inovar e mudar o mundo pouco a pouco.
Eles trocam um olhar cheio de intensidade, se permitindo viver mais um momento, o último momento, da relação que desenvolveram nos últimos meses.
Então o momento acaba.
— Então é isso, huh?
— Sim. Agora é fazer os passos finais separadamente e depois ir a público. Festas de lançamento são comuns, mas vamos ver se tudo vai estar de volta ao normal quando chegarmos nesse estágio. – Não vai por esse caminho, ele diz para si mesmo, sufocando a semente de esperança. É bem provável que, se houver um evento no futuro, eles poderiam se encontrar em pessoa.
— Seja lá o que aconteça, sei que vai ser um sucesso.
Eles se encaram, mais um momento de reflexão, tanto não dito, a conexão deles ainda lá embora eles lutem para disfarçá-la.
— Obrigado por tudo. – A voz de Oliver é profunda, palavras encapsulando um mundo por trás. O rosto dele nada trai, mas seus olhos se tornam um oceano de emoções.
— Obrigada você.
— Eu te desejo o melhor o melhor na sua vida. Porque Felicity – Ele suspira o nome dela de seu jeito único e suave com uma voz que ele nem sabia que existia, que era capaz de enunciar, uma voz que só pertence a ela. – você é absolutamente notável.
— Obrigada por notar. E Oliver... – Ela pausa. Duas batidas de coração martelam os ouvidos dele. – Não se preocupe em se tornar CEO. Você é um líder natural e tenho certeza que vai brilhar.
A crença dela nele faz o ar em seus pulmões falhar. Ele engole o bolo em sua garganta e sentimentos contraditórios comprimem seu peito.
Eles se despedem e terminam a ligação.
Oliver fica encarando a tela vazia por um longo tempo sem saber que, a vários quilômetros, Felicity também faz o mesmo.
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