Sonhando com Malfoy
6 Capítulo 4 | Parte 1
O INÍCIO DE UMA VIDA TROUXA
Na manhã seguinte àquela noite, Harry esperava na porta do dormitório de Hermione com um sorriso imenso.
— A vagabunda de Potter, hein? — brincou, divertido e, estranhamente, sensual.
Hermione deu um tapa nele e o empurrou para dentro do quarto. Foi apenas uma manhã comum. Nenhum dos dois levou o assunto muito a sério.
Desde aquela festa na Sonserina, Hermione não conseguira mais participar de nenhuma outra. Sabia que, em sua vida trouxa, haveria muitas oportunidades, mas ali dentro, algo a prendia.
Ainda assim, incentivava Luna a fazer novos amigos. Mas, aos poucos, a realidade se impunha: Hermione não poderia mais atravessar de volta. A separação era inevitável, e ambas começavam a se preparar para isso, mesmo sem falar sobre o assunto.
Nenhum dos rapazes da Sonserina voltou a provocá-las, como se aquela noite jamais tivesse acontecido. Nem mesmo Luna mencionava mais o episódio. Ela havia adotado uma postura defensiva sobre a partida iminente de Hermione — se preparando, mas evitando qualquer conversa a respeito. Apenas viviam um dia após o outro.
Hermione descobriu, em uma de suas idas à cidade, que não podia mais comprar nenhum item mágico. Ordens do Ministério. Podia assistir às aulas, mas não adquirir livros ou qualquer objeto encantado.
Ela não sabia ao certo como se sentir. No fim das contas, os itens mágicos já não faziam diferença — uma vez que deixasse Hogwarts, não poderia mais usá-los. Mas queria o conhecimento. As lembranças. Queria provar a si mesma que estivera ali. Queria nunca esquecer.
Ela queria ficar triste, magoada, mas não conseguia decidir. Na verdade, oscilava entre mágoa, decepção e uma raiva crescente. Definitivamente, muita raiva. Tudo parecia vazio e sem sentido.
A forma como estavam lidando com aquilo, mesmo sob a ameaça de extinção, era estúpida e exagerada.
Dia após dia, ela via a nuca dele. Aprendera a olhar sem que ninguém percebesse. Sentava-se algumas cadeiras atrás e, sempre que erguia o olhar, permitia-se observá-lo.
Lentamente.
Apenas absorvendo a energia que ele emitia.
Aquela beleza sem igual.
Luna se sentava ao seu lado e nunca se afastava por muito tempo. Mesmo ao estreitar novos laços, sempre mantinha Hermione por perto.
Harry e Ron as esperavam no corredor, e os quatro passavam juntos todo o tempo que as agendas permitiam. Até tarde da noite.
Harry, às vezes, pedia para dormir com ela quando Luna não dormia ali. Isso acontecia pelo menos duas vezes por semana.
Às vezes, ele chegava bêbado, deixando Hermione sem paciência. Mas, na maioria das noites, era apenas ele mesmo — deitando-se ao seu lado, respirando fundo contra seu cabelo, satisfeito apenas em estar ali.
As manhãs eram sempre iguais. Hermione preparava o café da manhã para seus amigos, para quem quer que tivesse passado a noite ao seu lado. Fazia tudo como se fosse a última vez.
Porque, em breve, realmente seria.
E o tempo, impiedoso como sempre, cumpriu seu papel com perfeição, arrastando-se e, ao mesmo tempo, passando rápido demais.
Na última noite de Hermione em Hogwarts, Luna, Harry e Ron estavam amontoados em seu quarto. Passaram a madrugada bebendo, rindo e contando seus segredos mais profundos.
Luna revelou que a partida de Hermione deixava nela um buraco profundo no coração, um vazio que sabia que jamais seria preenchido. Disse que teria que conviver com o fantasma da saudade, assim como convivia com a ausência da mãe.
E isso a fazia se sentir abandonada… outra vez.
Hermione sentiu o peito apertar. Queria dizer algo que aliviasse aquela dor, prometer que tudo ficaria bem, mas sabia que era mentira. Não importava quantas cartas escrevesse ou quantas vezes tentasse revê-la no futuro, nada poderia apagar a solidão que Luna acabara de confessar.
E essa verdade esmagadora era algo do qual Hermione jamais se recuperaria.
Harry olhou para Hermione e disse:
— Isso não é um segredo, apenas uma constatação: eu te amo. Mais do que poderia explicar. E farei tudo o que for preciso para te ver de novo. Não sei se vou conseguir viver sem você.
Ele sorriu, mas Hermione soube que ele estava falando sério.
Foi a coisa mais profunda que Harry já havia lhe dito.
Ela sorriu, presunçosa:
— Tem que ser um segredo, Harry.
Ele suspirou profundamente.
— Ok, lá vai um segredo de verdade… — Ele olhou para cada um no pequeno círculo formado no chão do dormitório. — Eu tenho o Mapa do Maroto.
Todos se entreolharam.
— O que é isso? — Hermione foi a primeira a perguntar.
Harry riu, surpreso com a inocência dela. Aos dezessete anos, a garota mais inteligente de Hogwarts ainda não conhecia um dos artefatos mais valiosos para um aluno do castelo.
Ele se levantou, pegou sua mochila de couro e retirou de dentro um pedaço de pergaminho envelhecido, dobrado em várias partes. À primeira vista, parecia completamente em branco.
Com a varinha em mãos, ele apontou para o papel e sussurrou:
— Juro solenemente não fazer nada de bom.
Apenas eles ouviram as palavras, mas, imediatamente, linhas e desenhos começaram a surgir no pergaminho, como se uma tinta invisível fosse sendo revelada.
Harry abriu o mapa rapidamente, expondo os corredores, torres e passagens secretas de Hogwarts.
Na biblioteca, Hermione percebeu que havia duas pessoas. Seus nomes eram desconhecidos para ela.
— Na biblioteca? A essa hora? — murmurou, franzindo a testa. — É proibido.
Harry e Rony trocaram um olhar divertido antes de sorrirem, libertinos.
— Por favor, Hermione — disse Rony, num tom ironicamente sedutor —, vai me dizer que não faz ideia do que estão fazendo?
— Que absurdo! Estamos em uma instituição de ensino séria! — exclamou Hermione, em choque.
— Muito constrangedor. — Luna assentiu, concordando.
Harry riu.
— Com esse mapa, ninguém tem segredos, como podem ver.
Ele virou o pergaminho para si e suspirou, nostálgico.
— Meu pai me deu sob a promessa de jamais contar a ninguém. Mas estou contando para vocês. E ninguém além dessas paredes pode saber da existência dele.
Hermione sentiu a súbita vontade de procurar um nome em particular. Seu olhar passou rapidamente pelo pergaminho, mas ela conteve o impulso.
Harry percebeu sua hesitação e estendeu o artefato para ela.
— Olhe. Vai ser a última vez que isso lhe será útil.
Ele sorriu.
Hesitante, Hermione pegou o mapa e o abriu completamente, observando os pequenos pontos que representavam as pessoas em seus dormitórios, a atividade fantasmagórica que jamais cessava no castelo. Então, seguiu as linhas dos corredores até o caminho para seu quarto.
Seu olhar parou de repente.
No corredor, perto da porta do seu dormitório, um nome apareceu.
Draco Malfoy.
O susto a atingiu como um raio. Seu coração disparou e, num movimento brusco, ela soltou o pergaminho.
— Hermione? — Luna perguntou, preocupada. — O que houve?
Hermione pegou novamente o mapa e olhou fixamente para o corredor onde, segundos antes, havia visto aquele nome.
Draco Malfoy.
Todos acompanharam seu olhar, procurando algo.
Mas nada. O corredor estava vazio.
O coração de Hermione acelerou. Talvez tivesse imaginado. Talvez quisesse tanto vê-lo que sua mente lhe pregara uma peça. Mas, ainda assim, algo dentro dela não se convencia.
Deslizando os dedos sobre o pergaminho, seguiu até os dormitórios da Sonserina. Lá estava ele. No quarto de número 13. O maior e mais luxuoso de todos. Draco caminhava lentamente, como se não soubesse o que fazer consigo mesmo.
Hermione fechou o mapa, devolvendo-o a Harry.
— Eu acho que vi coisas — murmurou, tentando se convencer.
Harry apontou a varinha para o pergaminho e sussurrou:
— Malfeito, feito.
As linhas sumiram, e o artefato voltou a parecer um monte de papéis antigos e sem importância.
— Certamente brilhante — Hermione comentou, impressionada.
Ela se virou para Rony.
— Sua vez.
Rony suspirou, hesitante.
— Eu tenho sonhos estranhos — começou. — Em um deles… Harry… Harry morre.
Silêncio.
— Me desculpe — ele disse, virando-se para Harry com uma expressão aflita.
Harry piscou algumas vezes e deu de ombros.
— Tudo bem, Ron. Estou aqui. E, afinal, todos morreremos um dia.
Ele sorriu, e Hermione sentiu um arrepio subir por sua espinha.
Quando chegou a sua vez, ela pensou. E pensou. Mas nenhum segredo parecia realmente importante. Nenhum que ela pudesse compartilhar, pelo menos.
Então, suspirou profundamente e disse:
— Estou com medo. Medo de nunca mais ver vocês. Medo de como será minha vida sem vocês. Medo de que me façam esquecer vocês. Mas, acima de tudo… medo do que eu vou me tornar sem vocês.
Ela respirou fundo antes de completar:
— Eu não sei quem eu sou se não bruxa. E agora vou ter que descobrir.
Ninguém disse nada.
Ninguém exigiu dela um segredo maior.
Até porque o fato de ser apaixonada por Draco Malfoy não era segredo para Luna.
E quebrar as regras da brincadeira não parecia certo naquela noite.
O Amanhecer do Último Dia
O céu estava cinza.
A chuva fina batia contra a janela, e Hermione sentiu um peso no peito ao abrir os olhos. Como se o próprio universo quisesse avisá-la de que algo estava prestes a acontecer.
Seus amigos ainda dormiam, espalhados pela grande cama. Pouco a pouco, começaram a despertar.
Harry foi o primeiro a se levantar e, sem dizer nada, abraçou Hermione por trás, afundando o rosto em seu pescoço.
Era um gesto íntimo.
Um que marcava a passagem do tempo.
Eles não eram mais crianças, mas, no fundo, Hermione gostava de acreditar que a inocência da infância ainda pairava sobre eles. Que de alguma forma, essa inocência os protegia de tudo.
— Harry… — Hermione começou.
— Shh… — ele a interrompeu. — Não diz nada.
Sua voz era um sussurro.
— Eu sei que é escandaloso fazer isso, mas eu não consigo me conter.
Eles sorriram ali, abraçados.
Pelo que parecia ser a última vez.
O Último Dia em Hogwarts
Hermione e Luna chegaram cedo à sala de aula. Conversaram sobre qualquer coisa, evitando o assunto que pairava no ar.
Falaram sobre o clima.
Sobre como era incomum para aquela época do ano.
Hermione fingia prestar atenção, mas seus olhos sempre voltavam para a porta.
Draco Malfoy estava atrasado.
Ele nunca se atrasava.
O tempo passou, e ela, a contragosto, se convenceu de que ele não viria.
Seu coração afundou no peito.
Ele não viria.
Ela não o veria uma última vez.
Quando a última aula terminou, a professora McGonagall entrou na sala e anunciou oficialmente sua partida.
Todos aplaudiram.
Hermione sorriu, agradecendo.
— Hermione — Minerva chamou. — Dumbledore e eu estaremos esperando por você em minha sala.
Então, sumiu da vista de todos.
E Hermione sentiu o chão desaparecer sob seus pés.
As despedidas foram curtas, educadas. Um gesto simbólico que não fazia justiça ao peso do momento.
Quando tudo acabou, Hermione correu pelos corredores em direção à sala da professora McGonagall.
Bateu à porta.
Manteve a formalidade.
— Hermione Granger — saudou McGonagall. Sua voz, sempre firme, carregava um tom de melancolia.
Dumbledore estava ao seu lado, sentado em uma das poltronas de couro.
— Olá — Hermione respondeu, tentando sorrir, mas falhando. — É bom vê-los…
Ela hesitou.
— …Uma última vez.
Seus olhos marejaram.
Dumbledore suspirou profundamente.
— Senhorita Granger, temo que tenhamos notícias lamentáveis a lhe dar e, desde já, peço seu perdão.
Ele indicou a cadeira à frente da mesa para que ela se sentasse.
— É com profundo pesar que comunico sua partida definitiva do mundo mágico. Mas isso, é claro, você já sabia.
Ele fez uma pausa breve, observando-a com um olhar cheio de compaixão.
— O que talvez não soubesse é que, a partir deste momento, todos os artefatos mágicos em sua posse serão reivindicados. Livros, vestes, cartas… Nada poderá permanecer com você.
Hermione sentiu seu coração parar.
— Todo o mundo mágico precisará desaparecer de sua vida… terminantemente.
O silêncio pesou no ar.
Ela engoliu em seco.
— Vão me… obliviar?
A palavra saiu como um sussurro, carregada de pavor.
Dumbledore baixou a cabeça, pensativo.
— Eu não desejaria recorrer a isso — disse, afinal, a voz grave e solene. — No entanto, há algo em particular que precisa ser removido para tornar o processo… mais fácil.
Hermione sentiu um arrepio.
— Espero que compreenda.
Ele fez uma pausa antes de continuar:
— Gostaria de me contar sobre seus… — ele hesitou — sentimentos em relação ao senhor Malfoy?
Hermione congelou.
Seu coração disparou de imediato.
— Qual a relevância disso?
Dumbledore ergueu as mãos suavemente, indicando as paredes do castelo ao redor.
— Apenas responda, senhorita Granger. Não existem segredos suficientemente seguros neste lugar.
Ele sorriu com gentileza.
— É claro.
A repetição reverberou em sua mente.
Hermione engoliu em seco.
— Diretor… para ser honesta, eu não sei exatamente o que sinto.
Mentira.
— Eu o acho… bonito, tem uma presença marcante e… — ela respirou fundo — não posso negar que me sinto atraída por ele, mas eu jamais…
Dumbledore ergueu levemente a mão, interrompendo-a com elegância.
— Este não é um interrogatório, senhorita Granger.
Sua voz soou quase reconfortante.
— Se é algo tão… irrelevante, então não se importaria de esquecer, correto?
O impacto da palavra atingiu Hermione como um golpe.
Irrelevante.
— Na verdade, eu me importo, sim — respondeu trêmula. — Quero me lembrar de tudo. Ao menos isso.
McGonagall respirou fundo, visivelmente desconfortável.
— Gostaríamos de ter sua permissão, senhorita Granger… mas o faremos mesmo sem ela.
A voz dela soou pesada, triste.
— Acredite, isso nos custa mais do que imagina.
Hermione arregalou os olhos, sentindo o pânico crescer dentro de si.
— Por quê?
McGonagall apertou os lábios.
— O motivo é irrelevante agora para você, senhorita Granger.
Ela hesitou.
— Uma vez que… viverá como uma não-mágica.
É claro.
A palavra ecoou em sua mente como uma sentença.
É claro, fariam isso.
É claro, apagariam tudo.
É claro, ela não teria escolha.
A professora se levantou, sacando a varinha com pesar.
— Eu lamento, Hermione.
Seus olhos estavam marejados.
— Feche os olhos, querida.
A última coisa que Hermione viu foi a ponta da varinha brilhando.
Então, tudo escureceu.
Memórias foram apagadas.
Os traços de Draco Malfoy se borraram, se distorceram.
Seus gestos, seu olhar, seu corpo…
Tudo o que a fez se sentir atraída por ele desapareceu.
Para sempre.
O feitiço era mais complexo e profundo do que Hermione imaginara.
Ela não tivera a oportunidade de testemunhar a grandiosidade daquele encantamento, tampouco compreender sua mecânica.
E, talvez, isso fosse o que mais a entristeceria.
Não saber.
Não ter conhecimento do feitiço engenhoso que a fizera reduzir Draco Malfoy a nada mais do que um vazio.
Apenas um rosto indistinto.
Memórias limitadas.
Um rapaz que, em algum momento, a desprezara—e só.
Quando abriu os olhos, a noite já se derramava pelas grandes janelas atrás deles.
Hermione piscou, tentando dissipar a sensação de torpor.
Sentia-se estranhamente exausta.
— Eu estou um pouco enjoada — murmurou, incerta sobre o que acontecera.
Tentou formular uma pergunta.
— Professora McGonagall, por que…?
McGonagall a interrompeu com um sorriso delicado, ainda que seus olhos brilhassem com lágrimas contidas.
— Seus amigos a aguardam para uma despedida com o diretor Dumbledore.
Ela fez uma pausa antes de acrescentar:
— Mas antes…
Hesitou por um instante, então abriu os braços.
— Agora que não sou mais sua professora, posso abraçá-la?
A emoção em sua voz foi suficiente para fazer Hermione engolir em seco.
O abraço foi apertado. Quente.
Hermione fechou os olhos por um momento, sentindo a ternura daquele gesto.
Quando finalmente se separaram, ela seguiu pelo corredor, ainda se sentindo estranhamente sonolenta, como se parte de si estivesse distante.
Ao bater na porta do diretor, um arrepio percorreu sua espinha.
Sentiu-se… observada.
A sensação era desconfortável, mas desapareceu assim que entrou na sala.
Ron, Harry e Luna estavam lá.
Todos com os olhos vermelhos e brilhantes.
E, num instante, correram para envolvê-la em um abraço apertado.
O momento passou como um borrão.
Ela se sentia fraca.
Confusa.
Como se algo estivesse fora de lugar, mas ela não soubesse o quê.
— Senhorita Granger — Dumbledore chamou-a com delicadeza.
Ela ergueu os olhos para ele.
— Permita-me aparatá-la até sua casa.
Hermione forçou um sorriso.
— Claro, diretor.
A resposta saiu quase automática.
Atrás dela, os soluços de Luna, Ron e Harry preenchiam o silêncio da sala.
E então, sem saber exatamente o que havia perdido, Hermione Granger partiu
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