Sonhando com Malfoy
17 Capítulo 14 | Perdida
Quando chegou em casa naquele dia, vestindo um trench coat por cima de seu tubinho rosa, ela achou que morreria de frio no trajeto entre o estacionamento e seu apartamento.
Adentrou sua extensa sala de estar, que também funcionava como biblioteca, e deparou-se com livros e mais livros empilhados sobre o grande tapete. Havia sua mala de roupas e muitas outras, que certamente também continham livros — suas coisas. Entre as pilhas, que claramente lhe pertenciam, ela avistou o anuário que tanto amava — seu livro de cabeceira. E lá estava sua varinha, guardada em uma caixa preta especial que mais parecia conter uma joia preciosa.
Hermione quase chorou de alívio. Se soubesse que todas as coisas que havia adquirido do mundo bruxo estariam ali, em sua sala, não teria conseguido passar o plantão com tamanha serenidade. E ela até ficara um pouco mais do que deveria, já que seu professor já a havia liberado.
Abraçou a varinha, sentindo o leve pulsar de energia que ela ainda emitia. Tinha sua varinha de novo. Estava ali, de pé em seu apartamento, segurando o artefato mágico mais precioso que possuía.
Era sua. Estava com ela. E ela jamais precisaria ficar longe dela novamente.
O outro quarto do apartamento seria redecorado para ser sua nova biblioteca — com seus artefatos mágicos que não poderia mostrar aos amigos trouxas.
Ao ligar o aquecedor com o controle remoto, dirigiu-se até a lareira para acendê-la. Por sorte, havia deixado uma fonte de alimentação recente, o que a pouparia daquele trabalho por pelo menos mais um dia.
Hermione sentou-se no chão, em frente ao fogo crepitante, abraçando os joelhos enquanto as lembranças voltavam com força.
Então se lembrou de Bichento. Para ele, só havia se passado um dia — como era de costume em um plantão de 24 horas. Nenhum minuto a mais.
Mas ela havia sentido falta do felino, e então correu para procurá-lo.
Encontrou-o dormindo, é claro. Como sempre. Nem sequer a ouvira chegar... ou apenas a ignorara.
Passou a mão pela cabeça peluda e laranja do gato, sentindo seu toque macio. Ele abriu os olhos, preguiçosamente. Ela sentou-se na cama — sua cama — onde ele estava, e então ele se levantou para deitar-se em seu colo.
Hermione o ninou até que voltasse a dormir, fazendo-lhe cafuné, como sabia que ele amava, enquanto pensava nele.
Naquele outro. Naquele homem que era tão diferente do que ela imaginava.
Ela queria tanto entendê-lo… queria que ele realmente lhe contasse tudo. Os motivos que, de alguma forma, estavam implícitos.
Ele demonstrava interesse por ela. Um interesse que, quando ela estava bêbada, julgara ser apenas romântico. Mas e se não fosse?
E se houvesse outro motivo por trás disso?
Mas… pensou Hermione, “O que mais eu teria que poderia interessar aquele homem?”
A verdade é que não tinha mais nada. E mesmo que voltasse a desconfiar dele — ou a criar teorias malucas sobre seu interesse, tanto no tempo de Hogwarts quanto agora —, não conseguia acreditar que houvesse algo nela que o atraísse, exceto a explicação igualmente infundada de que ele simplesmente a desejava de forma sexual.
A verdade é que ele perguntara a Potter. Uma espécie de permissão. E era óbvio.
Harry dissera que ela era dele. E se Ginevra soube desse equívoco, naquela época, isso certamente explicaria por que nunca foram próximas.
Harry, sem querer, havia colocado Hermione em uma situação delicada com sua futura esposa. E ela esperava que ele tivesse lhe contado a verdade, tantos anos depois.
Estava tudo emaranhado, estranho e confuso.
Por que ele ainda a queria? Por que estava sendo gentil? Por que guardara suas coisas, sabendo que ela era de Potter? Não podia ser apenas um interesse por sua beleza, por seu corpo.
Mas ela não tinha mais nada a oferecer.
Não tinha poder, nem influência, que pudessem atraí-lo. E, quanto mais pensava nas razões, mais confusa ficava.
Uma dor de cabeça começou a se alojar atrás dos olhos.
Ela foi para o banho. Tomou um longo banho quente em sua banheira. Sentira falta de sua banheira.
Achava até que nem saberia mais sacar a varinha e lançar um feitiço sem correr o risco de explodir a casa. Já fazia tanto tempo.
Estava, sem dúvida, enferrujada.
Hermione pensou no quanto era sozinha. No quanto havia se recolhido dentro de si. Mesmo Luna tinha muitas pessoas com quem contar, contava até com a influência de Malfoy para abrir caminhos. E ela…?
Com exceção de suas duas melhores amigas e de seus pais, Hermione não podia, de fato, contar com mais ninguém.
Tinha dificuldade de se conectar com as pessoas. E isso não era um problema apenas com trouxas, já que, do outro lado, era amiga apenas de Ron, Harry e Luna.
Esse era um problema dela.
A verdade é que Hermione era naturalmente muito seletiva — ou talvez realmente tivesse dificuldade em se enturmar, em se misturar, onde quer que fosse.
E, ainda assim, considerava-se uma excelente amiga.
Mas… por algum motivo, não conseguia se ligar a mais ninguém.
Não entendia exatamente por que estivera tão sozinha. Talvez fosse por causa da partida de seu irmão...
Uma perda que implantara nela o medo de amar alguém e perdê-lo novamente.
Mas ela não sabia dizer ao certo. Aquilo era apenas mais um de seus palpites. Talvez precisasse mesmo de ajuda psicológica. Ou apenas… de mais amigos.
A verdade é que não queria pensar nele.
Ele prometera que devolveria tudo apenas mediante os pensamentos dela. Então… ele não viria buscá-los? Era isso?
Hermione sequer tinha como se comunicar com ele.
Nem mesmo para agradecê-lo.
Ao se levantar da banheira, exausta de tanto pensar, deitou-se na cama, imaginando que naquela noite poderia ter marcado um encontro com algum residente legal que quisesse sua amizade. Ou com as enfermeiras. Poderia se doar mais, e assim talvez conseguisse novos amigos.
Sentia, mais uma vez, que aquelas pessoas eram as únicas para quem gostaria de voltar — com exceção de seus pais. E que agora vivia muito mais ali do que jamais voltaria a viver lá. Então, mais cedo ou mais tarde, teria de aceitar que precisava se conectar com as pessoas reais de sua vida.
Secretamente, esperava por uma carta de Malfoy.
Uma mensagem.
Uma voz em seus pensamentos.
Mas nada.
No dia seguinte, Hermione acordou num salto e tratou de mudar tudo para um dos quartos de hóspedes.
Usou feitiços para organizar tudo nas prateleiras simples que havia instalado sozinha. Contrataria uma equipe para reformar o ambiente no dia seguinte.
Quando percebeu, o tempo havia passado.
E já era noite outra vez.
No dia seguinte, ela encararia um plantão longo — e talvez doloroso.
A ansiedade que sentia era sufocante. Afinal, já recebera sua parte no acordo...
E então, quando teria de cumprir a dela?
Ou será que jamais teria de fazê-lo?
Esse pensamento passou como uma névoa por sua mente.
Demorou a pegar no sono naquela noite. Estava exausta, e sabia que estaria ainda mais no dia seguinte para o trabalho, mas, mesmo assim, não conseguia evitar os pensamentos.
Quando se levantou naquela manhã para ir trabalhar, só fazia duas horas que havia dormido.
Suspirou, triste, pois teria de encarar um plantão intenso e longo.
Tomou um banho rápido, arrumou-se com cuidado, aplicou uma maquiagem leve — apenas o suficiente para não transparecer o cansaço — e saiu em direção ao carro.
Ao chegar ao hospital, sentiu que sua vida estava onde deveria estar. Que precisava estar ali. E que, de algum modo, aquele era o seu lugar. Gostando ou não.
Enquanto caminhava pelos corredores, lembrou-se de que ainda esperava pelo portal. E se pegou pensando se ele cumpriria essa parte do acordo. De repente, Hermione se preocupou.
Como falaria com ele?
Ela teria de chamá-lo?
Agora, com sua varinha, poderia fazê-lo.
Mas não queria.
Não podia.
Em algum momento, ela sabia que deveria ver suas amigas. Deveria lhes contar como andava. Fazia tanto tempo que não via seu celular...
Na verdade, para as amigas, haviam se passado no máximo 48 horas desde a última conversa, mas, para Hermione, parecera muito mais tempo.
A cada passo que dava naquele dia, lembrava-se do paraíso, dos amigos, do tempo curto — e de como poderia ter aproveitado mais as conversas com ele.
Lembrou-se de que agora possuía alguns livros. Livros antigos, caríssimos, que deveriam conter um conhecimento inestimável.
A biblioteca de Malfoy continha ainda mais. Talvez conhecimento suficiente para que ela criasse, para si mesma, um vórtice como o dele.
Um buraco no passado, intocado e seguro.
Para ela. E para seus melhores amigos.
Será que ele lhe daria a oportunidade de voltar lá um dia?
Hermione mal conseguia conter a ansiedade de revê-lo. Só conseguia pensar no que diria quando finalmente o encontrasse.
Levantou a mão até o peito, procurando por um amuleto — sem sucesso. Não o encontrou.
Pensou que, embora quisesse aprender mais sobre medicina, é claro, também desejava estar aprendendo sobre magia. Ou relembrando. Para ainda ser a bruxa que costumava ser.
O peso que buscava era o colar que Minerva lhe dera há tanto tempo.
Escondido dentro de um cofre, com uma porta que pesava toneladas, resistente a qualquer bomba. Guardado em sua casa.
O objeto mais valioso que possuía. Um artefato capaz de colocá-la em dois lugares ao mesmo tempo.
Sabia que não poderia usá-lo com frequência, mas… ao menos poderia estar onde seu coração desejava estar.
Naquele fim de semana, mesmo sem muito tempo, foi à Suíça com o único objetivo de fazer uso de seu tesouro.
Pegou o trem e seguiu para sua casa de campo. Ao chegar lá, sentiu uma paz que não experimentava havia dias. Mas, conforme o tempo passava, um peso começou a se instalar em seu peito.
Ela evitava pensar nele. Evitava até mesmo dizer seu nome mentalmente. Certamente, ele já se cansara dela… talvez tudo não passasse de uma peça em seu jogo. Talvez quisesse apenas provocar Astoria.
Havia tantas possibilidades...
Levava apenas uma pequena mala, vestia roupas confortáveis: calças estilo wide e um casaco oversized. Deixara os cabelos soltos, e no rosto, uma maquiagem leve, que realçava suas maçãs do rosto.
A mala de mão, em couro, era perfeita para viagens curtas. Levava apenas o essencial. Conduziu-a até o quarto principal da imponente propriedade cercada por jardins e deixou suas coisas lá.
Depois, dirigiu-se ao pequeno elevador escondido na parede do grande closet e desceu até o subsolo.
A parte mais profunda de sua casa — onde ficava o cofre. Uma sala pequena, protegida.
As luzes se acenderam automaticamente quando a porta se abriu, e Hermione respirou fundo, aliviada. A caixa de madeira que guardava seu artefato mais raro ainda estava lá, no mesmo lugar. Sentiu-se viva naquele instante.
Abriu a caixa. E lá estava ele, esperando por ela.
Pegou o vira-tempo nas mãos e o colocou no pescoço, de onde não sairia mais a partir daquele momento.
Queria passear por ali, mas, como sempre… estava sozinha.
Não tinha as amigas consigo. E estava difícil se reconectar com a vida trouxa desde que voltara. Mais difícil do que antes — essa era a verdade.
Voltou para Londres sentindo-se mais uma vez afundar em seu estado de melancolia. Ao chegar para o plantão na segunda-feira, encontrou uma Mônica um tanto quanto feroz.
— Por que está tão monossilábica? — disparou, sem sequer lhe dar um abraço antes da pergunta.
Hermione, então, a abraçou forte.
A verdade é que era esperada a visita de um certo alguém. Alguém que viria buscar seus pensamentos… e abrir portais.
Mas nada.
Não acontecera nada.
— O que está havendo? — Mônica repetiu, preocupada.
Hermione não podia contar.
— Estou verdadeiramente exausta — foi tudo o que disse.
E aquele estado de melancolia… era, no fundo, saudade.
Mônica a olhava como se estivesse enlouquecendo.
— Tem certeza de que não existe mais nada? — Mais uma vez, ela falou de um jeito que fazia Hermione pensar que, de alguma forma, sabia de tudo.
Como se houvesse nela algum tipo de magia que nem ela mesma conhecia.
Os trouxas eram apenas isso, na maioria das vezes — trouxas. Mas ela era diferente. Hermione observava.
— Muito cansaço — Hermione despistou com um sorriso fraco.
A verdade era que não queria dizer mais nada.
Lourdes, que fazia residência em outro hospital, ligara naquela tarde, justamente quando Hermione estava prestes a usar o vira-tempo para voltar para casa e estudar. Uma dúvida crescia em seu coração.
Lourdes queria buscá-las para ir a um bar, conversar, mas Hermione conseguiu despistá-la, dizendo-se mal naquele dia. Sabia, no entanto, que não poderia fugir para sempre.
Quando chegou ao apartamento, após alimentar Bichento, voltou no tempo algumas horas. A pequena biblioteca mágica já começava a tomar forma. Sentou-se à escrivaninha e mergulhou nos livros, lendo tudo o que podia, procurando desesperadamente uma maneira de, de uma vez por todas, remover o localizador que Draco Malfoy colocara nela sem qualquer explicação.
E não foi naquele dia que encontrou as respostas.
Nem no seguinte.
A verdade é que se passaram três meses. Três meses em que Hermione voltava algumas horas todos os dias e absorvia novos conhecimentos sobre magia.
Mas ele nunca lhe dera qualquer notícia.
Nem mesmo Luna parecia estar acessível. Mas, com o estudo profundo, Hermione finalmente conseguiu aparatar novamente. Estava quase concluindo a poção que ela mesma começara, do zero, para anular o feitiço que o ligava a ela — aquele que permitia que ele soubesse onde ela estava o tempo todo.
Afinal, se ela não tinha notícias dele, ele também não deveria ter notícias dela.
A saudade e a tristeza foram, aos poucos, sendo substituídas por resignação. Hermione se encontrava ali, triste por não vê-los mais, mas convicta de que ele fizera aquilo apenas para provocá-la. Para manter algum tipo de controle sobre ela. Ela nunca mais falaria com ele. Nunca mais o veria. Essa era a grande verdade.
Aqueles três meses de silêncio a fizeram enxergar: ele nunca estivera realmente interessado em seus pensamentos ou em qualquer juramento que ela tivesse a fazer.
Ele poderia tê-la tocado... Ela ansiava por isso. Fora até o quarto dele. Ele... ele poderia ter feito o que quisesse com ela, e ela simplesmente teria dito sim.
Mas ele não o fez.
Ele foi embora.
Hermione precisava esquecer.
E também precisava sair.
Iria ao próximo happy hour dos residentes. Beberia todas as cervejas que conseguisse — e, quem sabe, até perdesse sua dignidade. Mas precisava sair daquela redoma.
Precisava.
Precisava sair e se conectar com aqueles trouxas.
Precisava, também, ser apenas mais uma trouxa comum.
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