Sonhando com Malfoy

13 Capítulo 10 | O Casamento


Hermione custou a adormecer naquela noite, completamente intoxicada pela presença que ainda pairava em seu quarto.

Ela estava na cabana encantada de Harry Potter — pequena por fora, mas surpreendentemente ampla por dentro —, uma das muitas maravilhas que ainda conseguiam encantá-la.

Todos dormiam lado a lado: Gina e Harry em um canto, e Luna, Rony e Hermione no outro.

Beberam todo o vinho enquanto conversavam sobre costumes dos trouxas — coisas que Hermione sonhava em mostrar a eles... como parques de diversão, esqui sem magia, dirigir de verdade.

Pareciam coisas tão distantes, como se imaginar-se juntos, misturados entre trouxas em um dia comum, fosse apenas uma fantasia inalcançável.

Hermione acordou antes de todos e se recriminou por isso; havia sido a última a adormecer e, ironicamente, a que menos dormira. E aquele seria o grande dia.

Quase se sobressaltou. Pensou em começar a arrumar tudo de imediato, mas logo se lembrou de que, ali, tudo era resolvido com magia. Não havia motivo para pressa.

Respirou fundo e, por alguns segundos, sentiu uma inquietação a impelir a correr.

Um engano.

Levantou-se e saiu para o jardim, sendo recebida por um céu azul magnífico e o aroma inebriante das flores.

Fez uma nota mental: precisava plantar lavanda em seu jardim na casa da Suíça.

— Bom dia, senhorita Granger. — Hermione sobressaltou-se com a súbita aparição de Dobby, e um grito quase escapou de seus lábios.

Dobby também se assustou.

— Oh, Dobby, me perdoe! — disse Hermione, levando a mão ao peito para conter o ritmo frenético do coração.

— Me desculpe, senhorita — respondeu Dobby, sorrindo sem graça. — O lorde desta casa pediu para alertá-los sobre o horário do café da manhã.

Hermione franziu o cenho.

— Assim... tão de repente? — indagou, incapaz de esconder a ironia.

— O senhor Malfoy nunca se engana nem se precipita, senhorita — disse Dobby, fitando-a com um olhar perspicaz.

Como se soubesse exatamente o que estava acontecendo entre eles. Na íntegra.

— Claro. Diga que estaremos lá — respondeu Hermione, contrariada.

Ainda vestia os moletons confortáveis da noite anterior e sentia necessidade urgente de um banho. Deixou um bilhete para os amigos antes de seguir para o seu quarto.

Sentia-se desorientada. Como se agora ele estivesse em todos os lugares.

O casamento aconteceria ao entardecer.

Todos estariam muito ocupados após o café da manhã.

Arrumou-se com cuidado: seus cabelos caíam em ondas volumosas pelas costas, domadas como podia com tecnologia trouxa de cuidados capilares.

Vestiu uma minissaia jeans, um suéter e calçou coturnos.

Talvez aquele visual sugerisse desinteresse.

Era o que gostaria de aparentar, mas a verdade estava muito longe disso.

Ao descer para o salão onde o café da manhã era servido, encontrou seus amigos já reunidos. Nenhum deles parecia particularmente satisfeito em atender às vontades de Malfoy; a intenção inicial era tomarem o desjejum no acampamento.

Mas o lorde daquela casa tinha outros planos.

Hermione sentou-se à mesa, evitando olhar para a outra, ainda vazia.

Os demais convidados de Luna chegariam em breve.

E, entre eles, estariam Alvo Dumbledore e Minerva McGonagall.

Hermione mal podia conter a animação por revê-los depois de tantos anos.

Não demorou muito para que o lorde da casa surgisse para o café da manhã, trazendo consigo toda a pompa que o acompanhava.

Seus seguidores fiéis o rodeavam, e, imediatamente, o movimento entre os elfos domésticos se intensificou, tentando acompanhar a crescente demanda — ou melhor, a impaciência do senhor da casa.

Hermione fez de tudo para não olhar em sua direção, custasse o que custasse.

E estava conseguindo. Ao menos em aparência, parecia completamente indiferente à sua presença.

Mesmo que ele estivesse ali, mais uma vez, imponente, sedutor, perfeito... forte e musculoso.

De relance, ela podia captar seu perfil sempre que desviava o olhar para algo que Luna dizia do outro lado da mesa, onde estava com seu pai.

Hermione estava sentada próxima a Rony, que, naquele momento, exibia um semblante levemente carrancudo.

Talvez já estivesse cansado da companhia de todos que não fossem Harry, Luna e ela mesma.

Ela o entendia. Também se sentia exausta de tanto socializar.

No caso de Rony, porém, havia ainda o peso de fingir que aquele casamento não o incomodava. E ele fazia um esforço tremendo para que ninguém percebesse. A essa altura, devia estar exausto.

Hermione se perguntava se Harry sabia de tudo... e, talvez, escondera dela também, desde aquela época.

Se fosse verdade, ela o mataria.

Como Harry poderia ocultar algo tão importante? Se soubesse, poderia ter feito muito para ajudar Rony.

Enquanto tentava ignorar seus próprios pensamentos, notou que Draco Malfoy não olhara para ela nem uma única vez.

Vestia novamente o manto que o tornava terrivelmente sexy.

Para distrair Rony — e a si mesma —, Hermione puxou conversa, falando de qualquer assunto que afastasse o que quer que estivesse pesando sobre ele naquele que, provavelmente, seria o pior dia de sua vida.

Ela ficaria perto dele o quanto pudesse, para não deixá-lo desabar. Apesar de ele ter deixado claro que seus sentimentos por ela não eram os mesmos.

Mas fora tão evasivo sobre o assunto... Hermione não sabia ao certo se Rony fora completamente honesto sobre seus sentimentos. Talvez só restasse ressentimento.

Ela não ousaria perguntar.

A menos que ele lhe desse alguma abertura.

Registrou o momento em que Draco se levantou da mesa abruptamente, atendendo a um chamado urgente.

Ele interrompeu o café da manhã e partiu, sem sequer lançar um olhar em sua direção.

Hermione não queria admitir, mas aquilo a magoava.

Detestava sentir-se assim… Afinal, fazia tantos anos que não o via...

Por que permitir que um gesto tão pequeno a afetasse tanto?

Sabia que era terrivelmente irracional.

— Hermione? — chamou Rony, tirando-a dos próprios pensamentos.

— Sim? — respondeu, forçando-se a se concentrar no presente.

— Podemos começar a nos arrumar, se quisermos.

Sim.

Eles podiam. Mas Hermione também queria ajudar Luna com os detalhes da festa.

— Eu ia ajudar a Luna... — começou a dizer, mas logo se arrependeu. Havia jurado a si mesma que ficaria ao lado de Rony o máximo possível naquele dia. — Ou melhor... não — corrigiu-se abruptamente. — Posso ir com você. O que vamos fazer, então?

Ela sorriu.

— Você está mais doida do que o normal, sabia? — Rony disse, retribuindo o sorriso.

— Estou ficando velha e louca — respondeu, divertida, dando de ombros. — Entre os trouxas, isso pode até ser um indício de bruxaria, sabia? — completou, rindo.

— Ser ruivo também — disse ele, dando de ombros, ostentando a mais vívida ruivice que o mundo já viu.

— Eu até pretendia ajudar a Luna com os arranjos... mas acabei de lembrar que estou sem varinha. Talvez eu não fosse tão útil assim — brincou Hermione, sorrindo para Rony, que retribuiu o sorriso, animado.

— Ouvi dizer que o noivo — falou a palavra com desdém — trouxe especialistas em arranjos mágicos. — Rony revirou os olhos com humor.

Hermione não pôde evitar: riu.

— Então não serei necessária para nada. Qual é o plano? — perguntou prontamente.

Rony franziu o cenho.

— O que quer dizer com isso? — respondeu, olhando ao redor da mesa. Todos já estavam se levantando. Luna apressava-se acompanhada de alguns desconhecidos — com certeza, checando os detalhes finais da festa.

— Nós não precisamos de tanto tempo para nos arrumar, e ainda temos bastante até o crepúsculo — sussurrou Hermione ao pé de seu ouvido, de maneira conspiratória.

Ron sorriu para ela.

— O que quer fazer? — perguntou com um sorriso travesso que Hermione jamais vira antes.

Ela se aproximou e, como se compartilhasse um segredo, sussurrou:

— Explorar a ilha.

O sorriso de Ronald Weasley se alargou ainda mais.

— Parece a melhor ideia que você teve em anos, Granger. Agora sim estou vendo a bruxa mais brilhante da minha geração.

Hermione sorriu tão largamente quanto ele.

— Vou calçar meus tênis! — disse, rindo, enquanto o puxava pelo corredor, agora vazio.

Hermione sentia-se animada com a perspectiva: sair com Ron para se divertir e explorar a floresta — algo que poderia ser potencialmente perigoso e, justamente por isso, empolgante.

Ron olhou para ela como se Hermione tivesse acabado de dizer a coisa mais maravilhosa do mundo; seus olhos azuis brilhavam ainda mais intensamente.

Hermione mal podia conter a alegria enquanto calçava seus tênis mais confortáveis — os habituais Converse de cano alto, com uma plataforma que lhe acrescentava alguns centímetros, o que sempre a animava.

Quando chegaram à floresta, Hermione foi envolvida por um perfume intenso e delicioso, como jamais havia sentido antes. Entre as árvores, viu um fruto desconhecido — o cheiro era simplesmente fascinante.

Talvez fosse uma daquelas maravilhas naturais que já haviam sido extintas.

Hermione sentiu o rosto iluminar-se, imaginando o quanto ainda veriam adentrando a floresta.

E foi então que ouviu — uma voz profunda e rouca ecoou dentro de sua mente, como se estivesse em todos os lugares ao mesmo tempo:

"Volte agora. Enquanto ainda estou apenas pedindo."

Hermione tentou localizar a conexão que ele utilizava para invadir sua mente — mas não havia invasão. Ele não podia ouvi-la, apenas falar.

Como ele fazia isso, era um mistério.

Ainda assim, Hermione apreciou a deliciosa sonoridade daquela voz, cada palavra reverberando dentro e fora dela, como se ele estivesse em toda parte.

Olhou para Ron, querendo ter certeza de que ele não ouvira nada.

Mesmo assim, arriscou-se:

— Você ouviu isso? — perguntou, franzindo o cenho.

— O quê? — Rony se concentrou ao redor, atento, como se tentasse captar o som ao qual ela se referia.

— Nada, desculpe — Hermione apressou-se em tranquilizá-lo. — Acho que não foi nada.

Sorriu, tentando afastar a tensão.

Rony, ainda franzindo o cenho, virou-se para ela:

— Isso parece o começo de um filme de terror — brincou, sorrindo.

Hermione riu junto com ele.

Sorriu largamente para Ron, tomada por uma sede de aventura — uma sede que, ela sabia, havia sido despertada pelo aviso silencioso de Malfoy.

Explorou a floresta com Ron, às vezes esperando, quase desejando, que Malfoy aparecesse para impedi-la de prosseguir.

Mas ele não apareceu. O que, talvez, tenha a deixado um pouco... decepcionada.

No meio do dia, encontraram uma clareira e decidiram fazer uma pausa para um lanche.

O passeio foi revigorante — ajudou-os a lidar com o peso daquele dia.

Ou melhor, ajudou Rony. Ainda que ele jamais admitisse o quanto o casamento de Luna realmente o abalava.

Levaram menos tempo para voltar.

O silêncio confortável que os envolvia era gostoso, tranquilo... e feliz.

Hermione achou estranho, mas não comentou nada com Ron. Suspeitava que aquilo pudesse ter sido manipulado previamente.

Sentindo-se um tanto estranha, voltou correndo para seu quarto assim que entraram no castelo. Tinha muito a fazer. Ron também seguiu para o próprio quarto, para se arrumar — ao menos, com o humor visivelmente melhor.

Hermione ficou aliviada.

Ao chegar em seu quarto, encontrou a elfa doméstica que iria ajudá-la a se arrumar. O vestido já estava estendido sobre a cama e, após um longo banho, Hermione o vestiu, sentindo-se, de fato, linda.

O vestido vinho moldava suas curvas com perfeição. Tinha um decote profundo em formato de coração e mangas bufantes que lhe davam um ar antigo e, ao mesmo tempo, sedutor — combinando muito com um casamento bruxo. A cintura bem marcada realçava ainda mais sua feminilidade.

A elfa perguntou, com uma expressão severa:

— Onde estão as luvas?

— Eu não usarei luvas, obrigada — respondeu Hermione, com firmeza.

Sabia que não havia necessidade. O traje era livre, e não fora solicitado nenhum código de vestimenta.

As feições da elfa ficaram ainda mais azedas após ouvir isso, como se Hermione estivesse cometendo um erro imperdoável.

Ignorando o olhar reprovador, Hermione pediu gentilmente que a deixasse sozinha para que pudesse fazer sua própria maquiagem e cabelo.

Sozinha, encarou seu reflexo, preparando-se mentalmente para o momento em que, mais uma vez, Draco Malfoy provavelmente a humilharia publicamente.

Fechou os olhos, frustrada, ponderando que, ao menos, enfrentaria aquilo... linda.

Ao descer para o salão da ala sul — onde aguardariam antes de seguirem para a praia —, encontrou Harry a observá-la, a expressão carregada de frustração.

— O que foi? — perguntou preocupada.

— Onde esteve? — indagou Harry, franzindo o cenho.

— Ah… — Hermione hesitou. — Com Ron. Na floresta.

Enquanto falava, admirou o visual elegante de Harry: ele vestia um terno preto impecável e uma gravata vinho que tremeluzia levemente, como se fosse tecido de magia. O contraste entre o brilho sutil e o tecido escuro era lindo.

Notou que pareciam ter combinado.

Seu próprio vestido, de tecido mais opaco, conferia-lhe um visual muito mais bruxo do que suas habituais roupas trouxas — adequado para o casamento de Luna.

— Por que não me chamaram para ir junto? — Harry perguntou, parecendo ofendido. — Gina e eu teríamos adorado acompanhar vocês.

— Acho que Ron precisava de pouca companhia — respondeu Hermione, desviando o olhar para as grandes janelas.

— Claro que precisava — disse Harry, indo se sentar em um dos grandes sofás.

Hermione sabia que a irritação dele logo passaria. Harry quase nunca se chateava por nada. Ver aquele ressentimento era uma novidade desconfortável para ela.

Observou-o com pesar.

Logo depois, Ron chegou acompanhado de Gina, seguido pelo restante dos convidados.

Os convidados comuns foram para a praia, onde a estrutura da cerimônia havia sido montada.

Hermione sentia-se curiosa para ver. Estava animada — mas sabia que teria de entrar junto a Malfoy, antes dos noivos.

Dobby a solicitou que permanecesse, sem dizer uma única palavra.

Hermione sentiu a pele estremecer.

Respirou fundo. Todos já estavam a caminho da praia para tomar seus lugares. Os noivos ainda se arrumavam.

Ela queria ver Luna antes da cerimônia... mas parecia que não haveria tempo.

Quando Harry finalmente saiu da sala, relutante e um tanto apreensivo em deixá-la sozinha, Hermione retribuiu seu olhar com um sorriso gentil, observando-o desaparecer pelas grandes portas duplas.

Assim que ficou a sós com Dobby, ele disse:

— O lorde desta casa solicita uma audiência privada com a senhorita — murmurou quase num sussurro.

Ao que parecia, aquilo deveria ser mantido em segredo.

Hermione entendeu o recado.

— Siga-me — ele continuou.

E assim ela o fez. Seguiu-o até o hall principal, entrou na ala pertencente a Malfoy e percorreu o longo corredor até a biblioteca, onde Dobby parou de repente diante das imponentes portas douradas.

Ele as abriu e pediu que ela entrasse.

E ela entrou.

Assim que cruzou a porta, soube exatamente onde ele estaria — entre os sofás que ficavam além das infinitas estantes altas.

Tudo estava exatamente como ela se lembrava.

Calmamente, Hermione caminhou por um dos corredores, o coração batendo forte e rápido, em pura expectativa.

Quando chegou ao final do corredor, ele estava lá, parado em frente à lareira, cercado pelos confortáveis sofás. O cabelo imaculadamente penteado, vestia um manto bruxo todo preto, que realçava seu poder e riqueza.

De certo modo, suas roupas combinavam com as dela.

Quando ele se virou para encará-la, Hermione o achou ainda mais bonito do que se lembrava.

Ele esboçou um sorriso irônico.

— Você me ignorou mais cedo? — perguntou, sem rodeios. A voz, sedutoramente rouca, a atingiu no âmago.

Ele não a cumprimentou, não lhe desejou boa noite. Apenas foi direto ao ponto.

Sim — respondeu Hermione, com a mesma franqueza.

Ele respirou fundo, como se estivesse tentando se controlar — Hermione percebeu.

— Tenho algo a propor — disse, relutante, como se mudasse de assunto repentinamente.

Hermione assentiu com a cabeça, indicando que ele prosseguisse.

— Vou permitir que tenha livre acesso à mansão dos Goyle. Sempre que quiser ver Luna, poderá ir. E Luna também poderá usar o portal para visitar seu apartamento… — Ele suspirou profundamente. — Terá de volta sua varinha. E todos os livros que obteve durante seu tempo em Hogwarts. Mas isso terá um preço. Um que, a meu ver, é baixo.

Ele começou a se aproximar.

Parecia completamente concentrado nela. Estava analisando suas reações, seus gestos, seu silêncio.

Meus pertences foram destruídos! — disse Hermione, sem conseguir conter a raiva.

Os seus pertences são meus. Eu os peguei — respondeu ele, elevando a voz.

O tom que usou era monstruoso — mais grosso, mais feroz do que o habitual. Hermione sentiu medo, mas não recuou.

— Pegou os pertences de uma trouxa? Que estavam prestes a ser destruídos? — quis saber, desafiadora. Ele a desprezava, como toda a nata da sociedade bruxa.

— Não me questione, senhorita Granger — disse ele, voltando ao tom calmo. — Eu não minto.

Parou a um metro dela.

— Diga o que você quer — murmurou Hermione, baixando levemente o tom.

Não iria enfrentá-lo. Não mais. Sabia o quanto queria sua varinha de volta — mais do que tudo.

E ao que parecia… ele também sabia.

Draco a contornou, indo até um dos corredores abarrotados de livros. Hermione permaneceu onde estava, observando, estranhando seu comportamento.

Ele voltou com um volume nas mãos. Assim que o viu, Hermione reconheceu imediatamente.

Era o livro.

O mesmo.

A página estava marcada. Ela viu o marcador — uma imagem de Mr. Darcy, tirada de um filme de 2005.

Achou que jamais voltaria a vê-lo. Nem aquele marcador, nem a capa de couro com as letras douradas que formavam:

Anuário Hogwarts, 2023.

Seu penúltimo ano como aluna do ensino comum.

Seu corpo quase cedeu, e ela precisou respirar fundo para não desabar. Manteve-se firme, esperando que ele dissesse algo.

Reconhece este anuário, senhorita Granger? — perguntou ele, com falsa inocência.

Ela se lembrava perfeitamente. Tinha escrito seu nome na contracapa — como era costume entre os alunos, para garantir que os livros sempre encontrassem seus donos.

Negar que o livro lhe pertencesse seria um constrangimento ainda maior.

— Sim — respondeu Hermione, simplesmente.

Ele sorriu — um sorriso verdadeiro, dessa vez.

— Sempre que abro seu livro na página marcada, encontro algo muito peculiar, senhorita Granger — disse ele, em tom irônico.

E então estendeu o livro para ela.

— Estou lhe dando isso de graça, como prova de minha boa fé. Todos os seus outros pertences estão sob meu poder — acrescentou, cada palavra pronunciada com uma sensualidade deliberada.

Boa fé...

Hermione pegou o livro — aquele que sempre considerara precioso — e respirou fundo, sentindo as mãos quase trêmulas.

— Diga… — murmurou ela.

Mas ele a interrompeu.

— Sempre com tanta pressa — disse, ainda sorrindo e balançando a cabeça em negativa.

Senhor Malfoy — repreendeu-o Hermione, a voz firme.

Ele apenas sorriu.

— Quero tudo — declarou, e seu corpo tremeu antes de ele continuar: — Tudo o que você já viu, cada pensamento que teve até este momento... Eu quero tudo.

Não — disse Hermione, sem hesitar. — Isso não.

Ele respirou fundo, frustrado.

— Quero negociar — disse ele, agora com raiva. — Vamos, me faça uma contraproposta, sangue ruim.

Ele estava... oferecendo a ela uma chance de recusar?

Hermione pensou por um momento.

— Pode retirar um pensamento meu. Um momento específico, e apenas esse — propôs, embora soubesse que poderia se arrepender amargamente.

Um é pouco. Quero três, ao menos — respondeu ele, a voz baixa e ameaçadora.

— Não estou disposta a negociar — rebateu Hermione, nem acreditando que estava considerando entregar sequer um pensamento a ele.

Sua cabeça começou a doer.

— Dois pensamentos — ele cedeu, andando distraidamente até a lareira — e mais um voto perpétuo.

— Senhor Malfoy... — Hermione começou, mas ele a cortou:

Então nunca terá sua maldita varinha! Nem seus amigos de volta! Nunca! — gritou ele, ainda de costas. A voz, monstruosa e carregada de fúria, a atingiu em cheio.

Hermione sentiu medo. De novo.

— Me espere próximo à praia. Eu a alcançarei em breve — acrescentou, agora num tom rouco e perturbadoramente belo.

Ela reparou: ele usava luvas. E lembrou-se de que a elfa também havia pedido que ela usasse luvas.

A viagem estava chegando ao fim. E se deixasse aquele momento passar, talvez se arrependesse para sempre.

Aquela chance poderia mudar tudo.

Ele a estava aceitando — de alguma forma. Oferecendo a ela liberdade para ver seus amigos, um portal especial, a recuperação de sua varinha... em troca de apenas dois pensamentos.

E, mesmo assim, Hermione não foi.

Continuou parada, encarando as costas daquele homem que, para seu desgosto, desejava ardentemente.

Ele se virou para ela, o olhar profundo e cortante.

Por que diabos ainda está aqui? — perguntou, com aquela voz perturbadora de novo.

— Eu aceito — murmurou Hermione, engolindo em seco.

Talvez também se arrependesse daquela decisão.

Draco Malfoy se virou lentamente para ela. Hermione pôde ver em seus olhos o instante exato em que o alívio o atingiu — um alívio tão intenso que parecia quase prazer físico. Ele respirou fundo, como se estivesse absorvendo aquele momento por completo.

Então, calmamente, Draco começou a andar de volta em direção a ela, seus passos lentos e seguros, como se quisesse saborear cada segundo daquela vitória silenciosa.

— Boa menina — disse ele, sorrindo daquele jeito diabolicamente sexy, antes de sacar a varinha.

Agora? — perguntou Hermione, alarmada.

Ele respondeu, ainda com o sorriso perfeito estampado no rosto:

— Não há tempo a perder, sangue ruim.




Ela nunca o vira sorrir tanto.






Notas finais
Querida leitora, obrigada pela paciência em me esperar. Espero que goste, em breve eu posto o outro.