Sonhando com Malfoy

7 Capítulo 4 | Parte 2


Ao entrar diretamente em seu quarto, Hermione lançou um olhar sonolento para o relógio digital sobre a cabeceira. Ainda era tarde da noite. Ela então se virou para Dumbledore, que a observava com um sorriso carregado de melancolia.


— Tenho um presente para você. — Ele disse, segurando algo escondido atrás do corpo.


— Jura? — Hermione piscou, ainda grogue de sono. Não entendia o motivo do presente, mas a curiosidade despertou um pouco sua atenção.


Foi então que ele revelou o que segurava: um filhote de gato.


Pequeno, alaranjado e absurdamente peludo, o bichano tinha o focinho achatado e um olhar astuto, mesmo sendo tão jovem. Hermione, apesar do cansaço, inclinou-se ligeiramente, observando-o com interesse.


— Pode dar o nome que quiser. — Dumbledore estendeu o animal a ela. — Ele é um gato meio-amasso e será seu companheiro de agora em diante. Me sentirei mais tranquilo sabendo que ele está com você.


Hermione piscou, surpresa. Ela nunca tinha tido permissão para ter um animal mágico.


— Mas… — começou a argumentar.


— Não se preocupe. — O diretor a interrompeu com gentileza. — Este pequeno felino tem permissão para andar por onde quiser e pertencer a quem escolher. Talvez ele seja a herança da magia que seu coração precisa para continuar.


Sem ter certeza do que ele queria dizer, Hermione pegou o gato nos braços. O filhote se acomodou contra ela com um ronronar suave, e pela primeira vez em dias, algo dentro dela se aqueceu.


— Obrigada, Dumbledore. — Seu sorriso foi genuíno. — Sei que fez tudo o que pôde para mudar… o que está acontecendo.


O diretor a observou com aquele olhar enigmático de sempre.


— Eu sempre estarei olhando por você e protegendo-a, Hermione. — Ele acariciou o novo companheiro peludo da garota antes de acrescentar: — Todas as decisões que tomei até agora, embora questionáveis, foram para o seu bem.


Ela franziu o cenho. Ainda não compreendia completamente suas palavras, mas, por algum motivo, sentia-se segura.


— Obrigada. — murmurou.


— Agora descanse. — Dumbledore sorriu. — Suas coisas já foram guardadas, seus pais estão dormindo e, amanhã, poderá tomar o café da manhã com eles. Tenho uma esperança inabalável de que este não será nosso último encontro, senhorita Granger.


E então, como se nunca tivesse estado ali, desapareceu.


Simples assim.


O poder de Dumbledore nunca deixava de impressioná-la.


Suspirando, Hermione olhou para o gato em seus braços. Ele a fitava com olhos inteligentes, como se já entendesse tudo o que acontecia.


— Bichento… — murmurou, sem pensar muito.


Para sua surpresa, o animal ergueu as orelhas ao ouvir o nome, como se já o conhecesse.


Hermione sorriu, sentindo um aperto súbito no peito. Como sempre, havia adivinhado sem nem perceber — um hábito que, sem sua varinha, poderia acabar se tornando um risco.


Mas, por ora, a única coisa que importava era que Bichento estava com fome.


E ela não fazia ideia do que gatos comiam.




Aquilo a preocupou por um breve momento antes de ser vencida pelo cansaço. Mas antes de se entregar ao sono, precisava garantir que Bichento fosse alimentado.


Desceu até a cozinha e encheu um recipiente com água. Em seguida, abriu o congelador e encontrou um pedaço de salmão. Era a única coisa que tinha à disposição — já que não podia conjurar comida nem sair para comprar algo naquela hora —, então torceu para que ele gostasse.


Após descongelar um pedaço pequeno, levou o prato para o quarto e serviu ao felino.


Bichento não hesitou. Comeu tudo e parecia satisfeito.


Hermione soltou um suspiro aliviado antes de finalmente se jogar em sua cama de lençóis felpudos cor de violeta. Aconchegou-se no colchão, respirando o aroma suave que impregnava os tecidos e fechou os olhos, ainda vestida com o jeans e o suéter branco de cashmere.


Um miado irritado a fez abrir um dos olhos.


Bichento a observava do chão, claramente insatisfeito. Como ela podia deixá-lo dormir ali, no chão duro do quarto?


Rendendo-se, Hermione se ergueu, pegou o pequeno felino e o colocou ao seu lado.


— Pronto, satisfeito? — murmurou.


O gato se ajeitou rapidamente, enroscando-se no calor dos cobertores.


— Alexa, apagar as luzes.


Foi a primeira vez que utilizou o sistema trouxa. Antes, sempre resolvia essas pequenas tarefas com um feitiço ou, em alguns casos, apenas com a mente.


Ela teria de se acostumar.


E adormeceu mais rápido do que em qualquer outro dia.



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Na manhã seguinte, Hermione despertou com uma sensação estranha — algo macio e quente se movia perto de seu rosto.


“Bichento”, lembrou-se, abrindo os olhos. O gato caminhava preguiçosamente sobre seu travesseiro, claramente cansado de esperar que ela acordasse.


Com um sorriso discreto, ela se levantou, tomou um longo banho e desceu as escadas para preparar o café da manhã para seus pais.


Quando entrou na cozinha, encontrou a mãe junto à cafeteira. Assim que a viu, a mulher se sobressaltou.


— Hermione! Quando foi que chegou?


— Ontem à noite. Aparatei com o diretor Dumbledore. — Ela sorriu, aproximando-se para abraçá-la. — Não se preocupe, mãe. A viagem foi rápida, durou meio segundo. Foi segura também.


A mãe de Hermione retribuiu o abraço apertado, segurando-a com força.


— Ah, querida… Que bom que está aqui. Estou tão aliviada.


Era um abraço sincero, de alívio e saudade.


— Eu também estou feliz por estar perto de você, mamãe.


Antes que pudessem dizer qualquer outra coisa, o pai de Hermione entrou na cozinha.


E, sem pensar duas vezes, os três se reuniram em um abraço apertado, aproveitando a felicidade simples de estarem juntos novamente.


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Seu primeiro dia como estudante de medicina foi confuso. Hermione se sentia perdida e sabia que teria de estudar muito para compreender a mecânica trouxa em sua totalidade. Determinada, mergulhou no aprendizado, absorvendo tudo o que podia.


Em 19 de setembro, completou 18 anos. Era a mais nova da turma e também a mais calada. Tentava ser diferente, mas aquilo não era fácil para ela.


Ao menos fizera uma amiga.


Lourdes era inteligente e tímida, apaixonada pela cultura coreana, assim como Hermione. Passavam muito tempo juntas, e a convivência com Lourdes a ajudava a se adaptar à nova realidade. A simples presença da amiga, acostumada à vida sem magia, ensinava Hermione a aceitar as adversidades do mundo trouxa.


Porque a vida era como era.


Hermione havia se mudado para um apartamento próximo à universidade. A ideia inicial era ficar em um dormitório, mas com Bichento agora sob seus cuidados, aquilo se tornara inviável. Talvez a moradia compartilhada a ajudasse a fazer mais amigos… Ou apenas evidenciasse ainda mais as diferenças.


Porque, afinal, ela não era uma trouxa comum.


Pensou em Harry.


Ele prometera que sempre aparataria para vê-la. Mas nunca o fez.


Já fazia quase um ano desde que partira.


Nenhuma carta. Nenhum contato.


Ela tentara se comunicar, mesmo sabendo que não deveria. Mas todas as tentativas foram em vão.


Ainda conseguia usar magia, mas sem um condutor adequado, sem um amplificador, era… difícil.


Sentia falta da varinha.


Sentia falta de muitas coisas.


Com frequência, lembrava-se de uma foto — um tesouro que guardava consigo. Mas, sempre que tentava se recordar do que era exatamente, os pensamentos se tornavam confusos, nebulosos… E então, uma sonolência esmagadora tomava conta de seu corpo. Como se sua própria mente recusasse a lembrança.


Bichento, no entanto, era sua constante. Estava sempre ao seu lado.


Lourdes também gostava dele, impressionada com sua astúcia e inteligência.


O apartamento refletia a personalidade de Hermione: móveis antigos, restaurados com perfeição, dando ao ambiente um ar de biblioteca do século XIX. Um enorme relógio cuco — uma relíquia valiosa arrematada por seus pais em um leilão beneficente — ocupava lugar de destaque na sala.


As paredes, em tom de algodão egípcio, conferiam charme ao espaço.


A varanda era repleta de plantas, uma profusão de ervas e espécies que passariam despercebidas aos olhos trouxas.


Seu quarto era banhado por luz natural. No centro, uma imponente cama com dossel, cortinas de seda violeta esvoaçantes, dando ao cômodo uma atmosfera atemporal. Era mais bonito do que o quarto de sua própria casa.


O apartamento era completamente equipado com tecnologia trouxa, o que tornava a magia quase desnecessária.


Mas, às vezes, ela ainda a usava.


Pequenos feitiços, nada que chamasse atenção.


Lourdes era uma amiga maravilhosa, mas não exatamente divertida. Reservada, evitava qualquer olhar direcionado a si, o que contrastava com a atenção que Hermione inevitavelmente atraía.


Na universidade, Hermione se destacava como a melhor aluna da turma.


— Seu pai é o melhor neurocirurgião da Europa. Não se pode esperar menos da filha dele — diziam os professores e colegas.


Mas seu pai nunca deu importância para títulos. Sempre dizia que se considerar “o melhor” era um desperdício de tempo — afinal, sempre havia algo novo a aprender.


Hermione tentava seguir esse princípio.


Ser a melhor não era seu objetivo. Simplesmente acontecia.


Se não fosse por seu intelecto, era por sua aparência. A mais bem-vestida. A mais bonita.


Às vezes, queria se esconder.


Às vezes, só queria desaparecer.


Voltar para Hogwarts.


Passar a madrugada comendo brigadeiro com seus amigos, sem precisar ser “mais” nada.


Mas não podia.


Era uma manhã de sábado. O inverno castigava Londres com seu frio cortante.


Hermione se levantou cedo. Vestiu-se com cuidado, organizou sua bolsa, ajeitou os cabelos em ondas suaves.


Só para irritar Harry.


Ele sempre tentava bagunçá-los quando a via.


Borrifou no pulso o perfume que ele adorava sentir nela.




Na bolsa, levava um colar com um pingente de rubi em formato de coração, que brilhava como se fosse mágico. Era para Luna.


Para Rony, um suéter de cashmere. Ele amava suéteres bonitos.


Hermione respirou fundo, ajeitou a alça da bolsa no ombro e se dirigia à porta quando seu celular tocou.


Era Lourdes.


— Onie, já está vindo? — a amiga perguntou do outro lado da linha.


Ela estava organizando uma pequena reunião com suas amigas antigas.


— Preciso resolver umas coisas antes — respondeu Hermione, segurando o choro.


Ela não sabia exatamente o que faria.


Ia até a estação… e depois?


Sem pensar muito, apressou-se até o elevador, desceu ao estacionamento, entrou no carro e dirigiu até lá, esperando que aquilo fizesse algum sentido.


Torcendo para que, de alguma forma, eles soubessem o que ela estava fazendo.


Para que sentissem sua presença.


Para que fossem até ela.


Era o meio do caminho.


Pelo menos, para ela.


Mas a chance era mínima.


Mais de um ano se passara desde a última vez que os vira.


Na despedida, sentira-se entorpecida, perdida, sonolenta. Sabia que algo importante havia acontecido naquele dia — algo que precisava aceitar.


Mas como poderia simplesmente deixá-los para trás?


A saudade era esmagadora.


Quando finalmente chegou à estação, correu até a plataforma, parando a poucos metros da estrutura de pedra.


Olhou para ela.


Uma parede comum.


Tão comum que, por um instante, a dúvida se infiltrou em sua mente.


E se…?


E se tudo aquilo nunca tivesse sido real?


E se ela estivesse apenas… louca?


A multidão ao seu redor seguia o fluxo normal da estação. Ninguém parecia notar sua hesitação, sua angústia.


Tomada por um ímpeto, ela se aproximou e tocou a parede.


Nada.


Os dedos não atravessaram.


Não houve faíscas, tremores, nenhum sussurro de magia.


Nada.


Estava trancada deste lado. Para sempre.


Um calafrio percorreu sua espinha.


E se algo tivesse acontecido a eles?


E se estivessem mortos?


E se tivessem se rebelado… e pagado o preço?


As lágrimas queimavam seus olhos, prestes a cair, quando sentiu uma presença atrás de si.


Alguém parou a poucos passos.


Hermione se virou devagar, os olhos marejados.


Era um homem alto, de pele bronzeada.


Usava um crachá. Trabalhava na estação.


Ele sorriu.


— Esse portal foi desativado.


Ali estava a prova.


Ela não estava louca.


— Ah… sim. Obrigada pela informação.




E quando Hermione piscou, ele já não estava mais lá.


Por um instante, congelou, sentindo um arrepio percorrer sua espinha. Mas logo balançou a cabeça, tentando afastar a sensação estranha.


Lembrou-se do compromisso com Lourdes e saiu dali o mais rápido que pôde.


Queria encontrá-las.


Queria beber até não sentir mais nada.


Até esquecer o que tinha acontecido com ela.


Enquanto dirigia pelas ruas frias de Londres, um peso familiar pressionou seu peito. Debaixo dos suéteres pretos e do trench coat, sentiu o contorno do Vira-Tempo contra a pele.


Seus dedos deslizaram automaticamente para ele, segurando-o por um instante.


Quantas voltas seriam necessárias para voltar à sua última noite no castelo?


Ela queria vê-los. Só mais uma vez.


Queria observá-los dormindo depois de uma noite trocando segredos inusitados.


Queria pegar sua varinha de volta.


Levá-la para casa.


Para si.


Mas a que custo?


Ela conhecia os riscos.


Sabia da história por trás do Vira-Tempo.


Sabia que não poderia contar a ninguém sobre sua posse.


Sabia que voltar tanto tempo assim poderia desencadear algo imprevisível.


Se ao menos pudesse acessar os livros de estudo sobre viagem no tempo… Mas não.


Nenhum conhecimento mágico a acompanhara para esse lado.


Então, ela teve que aceitar.


E assim, os dias passaram.


Os 18 tornaram-se 19.


Os 19 tornaram-se 20.


E então, 21.


No seu aniversário de 21 anos, Hermione já não era mais a mesma.


A menina de Hogwarts, a amiga leal, a melhor aluna de sua turma… essa versão dela parecia pertencer a outra vida.


Agora, ela era completamente trouxa.


Seu vira-tempo, antes um peso constante em sua consciência, estava trancado em um dos cofres de uma casa que herda

ra na Suíça — um forte poderoso e impenetrável.


E prometeu a si mesma que só o usaria se fosse absolutamente necessário.


Cuidou para que, caso não tivesse essa chance em vida, o conhecimento de sua existência fosse registrado em seu testamento.


E, antes que percebesse, quatro anos se passaram desde a última vez que estivera em Hogwarts.