Sonhando com Malfoy
18 Capítulo 15 | Parte 1
Notas iniciais
𝗗𝗼𝘂𝘁𝗼𝗿𝗮 𝗚𝗿𝗮𝗻𝗴𝗲𝗿
Ela estava sendo ridícula e sabia disso. Estava ali parada, esperando o tempo passar. Nada mais fazia sentido.
Ela nunca se embebedava demais. Simplesmente não conseguia.
As idas ao pub, qualquer coisa que fazia, nada a ajudava a se sentir viva. E segurava uma bebida naquele mesmo banco alto, no bar. O whisky de quase 80 anos que segurava tinha um sabor que a fazia lembrar dele…
O sabor a lembrava do cheiro almiscarado de sua pele. Ela se lembrava de quando se aproximou dele o bastante para sentir…
Perdera as contas de quanto tempo passara desde então. Desde a última vez…
Os longos cabelos de Hermione pairavam ao seu redor, deixando-a ainda mais bonita naquela noite fria. O corset que usava por cima do vestido preto afinava sua cintura delgada, deixando sua figura ainda mais feminina.
O sistema de aquecimento do local era bastante obsoleto, mas muito eficiente. Ela quase podia sentir calor em pleno inverno londrino. A neve caía lá fora sem trégua. Hermione não queria ficar bêbada ou qualquer coisa do tipo, ela só queria sentir que estava no lugar certo, com as pessoas certas. Mas nada que ela fizesse ali, agindo como uma trouxa comum, a fazia se sentir tão viva quanto os dias em que estava com eles.
E, mesmo sabendo que poderia visitar Lunah… ela sabia que, de fato, não pertencia.
Era apenas uma visitante.
Pelo perigo que representava para eles, talvez até um tanto indesejada.
Pensou em como as coisas funcionavam daquele lado. Pensou em Draco Malfoy, que lhe disse coisas que não faziam qualquer sentido.
Mas sentia falta de como ele a fazia se sentir, mesmo quando ele não olhava em sua direção de forma alguma.
Mesmo na última vez em que se viram, ele simplesmente não a tocou.
Aquilo ficou gravado em sua memória. Era o que ela mais desejava naquele momento, ou mesmo agora. A pele de Hermione ansiava pelo toque dele.
E, de repente, ela se tornou superconsciente do artefato mágico que carregava no pescoço.
Quantas voltas ela teria de dar para voltar até o momento em que poderia espiá-lo de longe?
Voltar exatamente para o momento do casamento de Lunah poderia lhe render uma boa olhada nele. Bom, ela veria também a si mesma.
E talvez se envergonhasse. Afinal, em todo momento ela estava hiperconsciente da presença de Malfoy, como se ele fosse o centro de todos os acontecimentos.
Não conseguia evitar, mas ao menos estava tentando não parecer desse jeito, embora pudesse reconhecer em seus próprios olhos a profundidade de seu desespero por ele.
— Um dólar por seus pensamentos. — Ouviu, ao fundo, a voz de sua melhor amiga trouxa ecoar, tirando-a daquela divagação.
— Eu lhe pago o dobro para não ter de entregá-los… — Hermione retrucou, tentando sorrir um pouco.
Lourdes parou ao seu lado. O vestido que ela usava brilhava em um prateado vivo. Hermione sorriu para ela, precisando se animar. Afinal, ela não podia contatar seus amigos bruxos e havia prometido a si mesma que esperaria o sinal de Lunah para ir até ela — isso se realmente fosse possível — e que se esforçaria mais para tentar esquecer.
Mesmo tendo meios de se comunicar, preferiu ficar em silêncio e usou sua varinha poucas vezes desde que ela surgira em sua sala de estar.
Ela não queria ter de atrapalhá-los, ou até mesmo fazer com que se sentissem obrigados a recebê-la. Ela queria que tudo fosse mais fácil.
Queria que ele tivesse entrado em contato com ela para lhe dizer o que tudo o que aconteceu entre eles significava… mas nada aconteceu. E já haviam se passado meses.
Cinco meses desde a última vez que ela vira Malfoy ou qualquer um de seus amigos.
As lembranças, antes vívidas, começavam a ficar turvas conforme o tempo passava.
Acreditava que aquilo era fruto da magia contida no juramento perpétuo daquele dia.
O esquecimento.
Mas não completo. Apenas o suficiente para manter aquele lugar seguro.
E ela ainda estava em dificuldades para superar, apesar de as lembranças estarem se desvanecendo.
A noite passara rápido, mais rápido do que ela imaginara. Ela cansou das investidas de um de seus colegas, pegou seu longo trench coat e saiu para enfrentar a neve.
Acenou para um táxi e entrou nele, dizendo seu endereço após um cumprimento formal.
Ela estava exausta.
Depois de um plantão absurdamente longo, ir até o pub parecia um tipo novo de tortura, mas ir para casa e ficar sozinha com seus livros e sua varinha era um tipo de tortura ainda pior.
Nas últimas semanas, tinha se dedicado a procurar por um bilhete deixado por Malfoy em um de seus livros.
Mas não encontrara.
Simplesmente desistira.
Quando chegou ao seu apartamento, tomou um banho curto, fez uma skincare para tentar relaxar e deitou depois de beber um chá para lhe ajudar a dormir.
Assim que acordou às seis daquele dia, percebeu que tinha dormido apenas duas horas. Sabia que estava com olheiras e, apesar de suas tentativas de parecer saudável com uma maquiagem cuidadosa, sabia que estava visivelmente mais magra e um tanto quanto cansada.
Ela exalava essa energia, apesar de sua beleza permanecer intacta.
Quando chegou ao London Bridge Hospital, foi direto para o elevador. Apertou o andar onde começaria as aulas daquele dia, o andar sete.
Ao sair do elevador, um de seus professores, o senhor Lewis, a parou, um tanto ofegante. Ele segurava dois copos de café.
O homem idoso era bem alto e, apesar da idade, apresentava um porte atlético. Vestia calças de alfaiataria e uma camisa branca sob medida. O jaleco com seu nome lhe dava o ar imponente de diretor do hospital.
— Bom dia, doutora Granger. — Ele lhe entregou um dos copos de café. — Que bom que, mesmo tendo uma noite no pub, você ainda é a pessoa mais pontual que conheço. Temos um paciente VIP no décimo terceiro andar que pediu para ser atendido por você. Ele e sua família possuem um título da nobreza tradicional de Londres. Por favor, trate-o o melhor que puder. Ele está com dores de cabeça frequentes. Está deitado em um dos quartos.
Ele continuou andando, fazendo Hermione seguir seus passos largos, quase correndo.
Hermione olhou para o senhor Lewis, que lhe disse tudo aquilo e ela nem sequer teve a chance de responder ao seu bom dia.
— Bom dia, doutor Lewis. — Hermione parou no corredor de repente. — Mas eu ainda sou uma R1. — disse, um tanto confusa.
Mas o que aquele médico disse em seguida fez Hermione quase desmaiar.
— O senhor Malfoy pediu para que fosse você em particular. — O homem grisalho sorriu. — Parece que a fama de seu pai está fazendo de você uma pessoa famosa antes mesmo de mostrar suas habilidades.
O médico, que havia parado para lhe dizer aquilo com ar bem-humorado, voltou a andar com muita pressa.
Hermione permaneceu parada, ainda processando o choque.
Ao perceber que ela não corria ao seu lado, o senhor Lewis se virou para ela e disse:
— Apresse-se, doutora Granger. Vá se trocar, descubra as necessidades dele e, por favor, mantenha a máxima descrição a respeito disso. Não conte a nenhum outro interno, entendeu?
Hermione apenas acenou com a cabeça positivamente, o rosto sendo o retrato do pânico estampado em sua expressão.
Ela estava em dificuldades para processar o que estava acontecendo. Não podia mesmo acreditar no que estava acontecendo.
Correu para o quarto onde deixava suas coisas, que dividia com Monica. Uma beliche onde elas ocasionalmente descansavam.
Colocou o jaleco por cima do vestido preto longo de alças que vestia sob o trench coat e correu até o elevador.
Ainda sem acreditar que aquilo estava acontecendo.
É claro que ele usava a influência de seu título. Ela sabia que ele tinha um título, mas não sabia que tinha mais de um.
Ela correu para a enfermaria do corredor luxuoso. Aquele andar era destinado aos magnatas. Os quartos eram exclusivos, equipados com tecnologia de ponta, espaçosos, com até mesmo uma cama king size.
Era simplesmente perfeito.
Hermione estivera naquele andar apenas uma vez antes daquela ocasião, e fora para falar com seu pai, que estava preso em uma reunião com um paciente em um daqueles quartos.
A enfermaria era a mais bonita do prédio. As enfermeiras pareciam estar dentro de uma cápsula. Os vidros se abriam conforme Hermione se aproximava.
Era moderno e fascinante, com luzes e computadores que mostravam a atividade de todos os pacientes do andar, separadamente.
— Olá. Bom dia. — Hermione disse assim que entrou na enfermaria.
E, antes que pudesse pedir qualquer informação, uma enfermeira se aproximou dizendo:
— Bom dia, doutora Granger. Estou encarregada de levá-la até seu paciente. Fui instruída pelo doutor Lewis.
Hermione estava trêmula. Começava a lhe subir uma sensação iminente de desmaio. Ela bebericou o café que segurava antes de jogá-lo em uma lixeira dourada que se abriu sozinha assim que ela se aproximou. Em nada se comparava com a lixeira preta comum dos outros andares.
Ela precisava se concentrar em não entrar em pânico.
— Claro, vamos. — Hermione exibiu um sorriso.
A enfermeira caminhou à sua frente, sorrindo de forma gentil ao lhe mostrar o caminho. Hermione não entendia por que ele estava ali. E começava a ficar preocupada.
Por que ele procuraria medicina trouxa? Será que era só uma desculpa?
Hermione não conseguia parar de se antecipar a tudo o que acontecia. Aquilo fora totalmente inesperado.
Quando ela parou em frente às portas duplas em madeira de lei, em tons claros, Hermione suspirou profundamente, se preparando.
Quando a enfermeira, cujo nome no crachá era “Madeleine”, bateu suavemente na porta e a abriu, Hermione quase perdeu o ar.
O efeito que ele lhe causava ali, tantos meses depois, era ainda mais devastador.
Ele vestia um terno trouxa sob medida, moderno, ajustado ao seu corpo escultural. O paletó aberto mostrava o colete, que guardava um relógio de bolso. O mesmo que ele usava em suas vestimentas bruxas.
Ele vestia preto. É claro. Mas, de forma alguma, podia parecer-se com um trouxa comum. E o que desculpava sua natureza impressionante era o fato de ser um aristocrata inglês.
— Lorde Malfoy, esta é a doutora Granger. — A enfermeira fez um cumprimento destinado a membros da realeza, curvando-se levemente, como a etiqueta britânica pedia. — Com licença.
Hermione podia ver que a enfermeira Madeleine havia sido instruída a sair o mais rápido possível e falar o mínimo possível.
E, antes que Madeleine passasse pela porta, Hermione conseguiu agradecê-la, já que ela não ouviria qualquer lisonja vinda do lorde à sua frente.
— Obrigada, Madeleine. — disse baixinho, ainda encarando a criatura impressionante à sua frente.
Ele estava de pé.
Como se não precisasse se sentar nas poltronas disponíveis pelo espaçoso quarto. A grande cama, com diversos equipamentos médicos atrás, pairava atrás dele, assim como a parede de vidro cujas cortinas estavam fechadas. Elas bloqueavam qualquer luz natural.
É claro.
Ainda assim, todas as luzes do quarto estavam acesas, destacando o visual quase divino que ele exibia.
Ele colocou as mãos nos bolsos e deu um passo à frente.
Suas feições eram misteriosas, como sempre. Nenhuma expressão cruzava seu rosto.
Era impossível para a mente de Hermione fazer qualquer suposição sobre aquilo, premeditar qualquer coisa quando se tratava dele.
Eles se encaravam como se não pudessem desviar os olhos um do outro. Hermione exibia uma expressão um tanto assustada com a situação. Não sabia o que esperar. E ele continuava em silêncio, observando-a de uma forma que parecia despreocupada.
— Veio pegar meus pensamentos? — Hermione disse por fim.
Ela aguardava que ele dissesse algo. Estava um tanto magoada com a demora que ele levou para ir vê-la e duvidava que se tratasse de uma dor de cabeça.
— Eu senti sua falta, doutora Granger. — A voz soou em seus ouvidos e em sua mente. Os lábios de Malfoy não se mexeram. Ele disse aquilo daquele jeito estranho com que se comunicava.
Ela sentiu como se fosse derreter. Suspirou profundamente. Precisava abraçá-lo. Mas conteve-se.
— Acho que pode me chamar de Hermione. — disse a bruxa nascida trouxa, em um tom baixo.
Hermione quase se esqueceu de como respirava, ou do quanto estava magoada pela passagem de todo aquele tempo.
Houve certos momentos em que ela duvidava que a coisa entre eles tivesse de fato acontecido, se não era tudo fruto de sua fértil imaginação.
— Acha? — Ele perguntou.
Então, dessa vez de forma real, um sorriso se abriu em seu rosto. Um sorriso de lado que foi o suficiente para seduzi-la completamente.
Ele ainda se parecia com a coisa mais perigosa que alguém poderia encarar. Mas também a mais bonita.
Certamente ela não seria capaz de resistir, mesmo se quisesse.
E aquilo era assustador de muitas formas.
— Sabe o que quero dizer. — Hermione disse apenas, não gostando do jogo que ele parecia querer jogar.
Seu corpo tremia. Ela estava quente, sentia-se febril.
Estava sentindo calor em pleno inverno europeu.
— As coisas podem ter… se complicado um pouco. — Ele deu dois passos à frente, a única pista de que ansiava se aproximar dela.
Nenhuma explicação.
Apenas uma frase enigmática.
Tudo o que ela teria dele.
— Quero que me faça esquecer tudo. — Ela pediu de repente. Sabia que talvez se arrependesse daquele pedido. — Quero que me oblivie…
Ela suspirou profundamente antes de continuar.
— Mas quero que se certifique de que está fazendo da forma certa. Não quero mais me lembrar de qualquer coisa do mundo bruxo. Vai ser melhor assim.
Sentia como se aquelas palavras a cortassem como uma faca.
Ela não tinha nenhuma notícia dele havia muito tempo, nem mesmo de seus amigos, a quem amava como sua própria família.
— Eu voltaria ainda assim e a faria gostar de mim. Quantas vezes fosse preciso.
Aquela voz grave, sexy e masculina ressoou dentro de sua mente. Os dois se encaravam. Malfoy estava fazendo aquilo de novo.
Confundindo-a.
Intrigando-a.
Seduzindo-a.
Enlouquecendo-a.
— Malfoy… — Ela sussurrou.
Ele se afastou e ficou de costas para ela.
Ela achou que ele a abraçaria, mas, ao invés disso, ele se afastou completamente.
Como se fugisse dela.
Hermione suspirou. Será que ele queria apenas frustrá-la?
Ela deu dois passos à frente.
— Por que veio? — Hermione perguntou finalmente.
Ele continuava de costas para ela.
Levou um momento para ele responder, de novo dentro de sua mente.
— Eu já disse o porquê.
Parecia um tanto aborrecido, ela notou.
— Não sei se você foi honesto sobre isso. — Hermione disse finalmente. — Acho que você só quer provar para si mesmo que pode me seduzir se quiser.
Hermione sentiu lágrimas chegarem aos seus olhos, mas se negou a derramá-las.
— E você pode. — Hermione foi brutalmente honesta, como sempre foi em sua vida, e quase se arrependeu do que disse. Mas continuou: — Não precisa vir até aqui para continuar com essa espécie de…
— Preciso dos seus pensamentos, mas não pelo motivo que eu lhe dei. — Malfoy interrompeu-a.
Ele havia mudado de assunto deliberadamente? Era a dúvida de Hermione naquele momento.
— Então posso saber por quê?
Hermione perguntou, sentindo-se impaciente com ele.
Ele se virou para ela então.
— Quando eu tocar você, quero ter certeza de que não está sendo completamente persuadida pelo meu toque, pela magia contida no sangue do dragão. Eu quero que você anseie por isso tanto quanto eu.
Ele proferiu as palavras de forma calma e centrada. Era quase como se estivesse fazendo uma dissertação. Hermione, por outro lado, desconhecia esse tipo de controle quando se tratava dele.
Aquelas palavras a arrepiaram dos pés à cabeça.
Ela também não entendeu o que aquilo queria dizer exatamente. O sangue do dragão? O que faria com ela quando a tocasse? Era uma espécie de veneno místico completamente desconhecido?
Seu coração errou as batidas.
Ela sentiu de novo seu sangue esquentar nas veias, correndo enlouquecidamente. Quase podia ouvir o próprio coração bombeando, sentia a velocidade com que o sangue corria dentro dela.
Apesar de todas as dúvidas que a assolavam, ela apenas disse:
— Então os pegue. — disse em um sussurro quase inaudível.
Mas ele ouviu.
Hermione pôde sentir em cada célula de seu corpo que ele estava ouvindo.
Ele se aproximou de forma abrupta, sacando a varinha com suas mãos longas e grandes, um tanto graciosas. Ele proferiu o feitiço que a tirou de si mesma em um desmaio contido.
Ele a fez flutuar pelo quarto até a cama, deitando-a gentilmente entre os lençóis de seda, enquanto um espetáculo com todos os seus pensamentos pairava entre eles.
Ele os tocava livremente, vendo a si mesmo neles.
Em todos os sonhos que ela guardava, em suas lembranças.
Ele estava ouvindo o que ela pensava sobre sua aparência, ou como ela desconfiava dele de certo modo.
Assistiu a tudo com cuidado. Visitou os pensamentos sobre Harry e sentiu um ciúme feroz. Mesmo que todos os pensamentos fossem inocentes e gentis quando se tratava de Harry, Malfoy não pôde evitar fechar as mãos ao perceber a profundidade dos sentimentos de Hermione por ele.
Quando sabia que ele a devoraria se pudesse.
Voltou seu olhar para a mulher deitada na cama.
Ele não conseguia mais esperar.
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