Sonhando Com A Morte - Com Andrey Z.

6 Capítulo 6: O último sonho


O dia havia começado cedo para alguns dos hospedes do Paranoshx, aparentemente os já cansados intestinos do Sr. Ruiz davam trabalho e os gritos de dor podiam ser ouvidos a quarteirões do Hotel, porém a situação toda foi apaziguada com a chegada de seu filho que lhe deu um vidro com algumas pilulas laxantes, o que quase que imediatamente libertou seu velho pai das dores. Como o próprio Ruiz havia pedido, Carlos e a acompanhante de seu pai desceram para o café, deixando o idoso recuperar seu precioso sono perdido com as crises de cólica.

Ou os aquecedores haviam se tornado mais fortes ou realmente as previsões do gerente haviam sido certeiras quanto a previsão do tempo, fato é que se podia sentir um ligeiro calor nos corredores, o que fazia é claro melhorar o animo de todos, os fazendo interagir mais uns com os outros. A beira da escada se podia ver uma amistosa conversa de Padre Lintrisk com o recém-chegado Carlos, as mesmas risadas só que mais altas eram ouvidas para a dupla Thomas e Alexander que degustavam um belo charuto Cubano, presente de um velho amigo que devia favores a família do jovem inglês. Nem tão animada assim estava o semblante de Lorene Frisser que participava de uma roda de fofoca, que incluía sua patroa e Clara Bentvoglio que comentavam assuntos que iam desde os novos sapatos que se usava nos salões Parisienses, até os boatos de adultério de um tradicional cantor Italiano que havia recheado os jornais na semana passada, aquilo definitivamente não era seu ambiente, pensou a jovem que quase não disfarçava seu nervosismo e impaciência. Ao soar um agudo sino todos se voltaram para a mesa que já estava colocada com todas as variedades de queijos, iogurtes, geleias e cafés que eram conhecidos no leste europeu, realmente uma cozinha impecável.

- Lorene suba e avise Deb que o café já esta servido, faça com que desça imediatamente porque logo após quero começar a escrever os votos de casamento com ela – As ordens eram de Marta que ocupava com certa dificuldade seu lugar a mesa.

- Volto em um minuto Sra, com sua licença – Respondeu a moça se dirigindo as escadas.

Além de Deb, faltavam a mesa Andrey e o ancião Ruiz, que ainda se recuperava das dores estomacais, e que ordenara a sua cuidadora que lhe mandasse o café diretamente no quarto. Entretanto a ausência de Andrey era sentida pelos seus amigos, principalmente por Alex que sabia que o outro jamais perderia um café da manhã e que comentara com Thomas, que apesar de concordar advertiu o amigo sobre o fato de Andrey gostar muito de dormir e isso poderia ser o motivo para não estar entre eles. Apesar de todo o clima amistoso que pairava no ar, algo de ruim podia ser sentido no ambiente, até pelo mais cético dos homens, algo não estava certo naquele lugar.

- Oh, mil perdões! Que desastrada eu fui, me deixe limpar – dizia Clara que tinha acabado de derrubar uma fina xícara de porcelana ao chão, cujos respingos de café sujaram a calça do Padre.

- Imagine minha filha, acidentes acontecem, não tem do que.... — Foi subitamente interrompido ao ouvir uma sequência de gritos e choros vindos do andar de cima.

- É a voz de Lorene! Alguém corra para socorrê-la … oh Deus, eu mesma vou – Reagiu a cansada Sra. Franpeerf se levantando o mais rápido que sua idade lhe permitia.

Felizmente os esforços de Marta não foram necessários, já que ao mesmo passo que Lorene gritava, Alexander, Thomas e Carlos corriam para ver o que acontecia no andar de cima. A porta do quarto de Deb estava escancarada, a acompanhante prostrada diante da cama que guardava um corpo feminino, de cabelos loiros e já enrijecido, era Deb Dempsey morta diante de todos.

- Eu não … como pode … acreditem … — As palavras envoltas em soluços eram de Lorene.

- Imagine minha filha, vamos sair daqui, a culpa não foi sua, venha – Dizia Marta depois de chegar ao quarto e ir imediatamente retirando sua acompanhante da cena nada agradável.

- Mas o que aconteceu aqui? Ela realmente está...está?

- Sim, Carlos ela está morta! Pela rigidez e cor do corpo ao menos 12 horas Deb já não faz mais parte do mundo dos vivos .

- Andrey?! — O espanto era generalizado dentro do quarto da falecida.

- Como pode ter tanta certeza disso garoto? — Perguntou o Padre

- Porque essa é minha profissão, descobrir tudo sobre os mortos, diria que é algo meio ingrato as vezes, mas eu amo.

- Olhem só, em seu criado mudo há uma carta e um vidro de comprimidos … Deb se matou! — Exclamou Thomas.

- Na verdade é o que tudo indica Thomas, mas não ficaria nada surpreso em lhe dizer o contrário – Concluiu Andrey dando uma volta no quarto e pegando o frasco de comprimidos.

- Por mais profissional que seja Andrey, acho difícil não ser um tipico caso de suicídio, Deb era uma moça com alguns problemas, alguns até visíveis. O excesso de dinheiro as vezes pode fazer mal as pessoas, acho que foi o caso de Deb.

- Senhores eu sei que esse é um caso de extrema importância e visibilidade, mas segundo as normas de segurança do hotel não se pode mexer nos pertences ou sequer abrir investigações em caso de falência de algum hospede sem a presença de uma autoridade policial, terei que pedir para que os senhores se retirem enquanto trato do caso com a Sra. Franpeerf – Discursou em tom repreensor o gerente do hotel, que se recusava a olhar para o corpo.

- Um momento Sr. Palivitchenko, eu sou credenciado como detetive pela polícia inglesa, sei que em condições normais teria que ter a autorização da chefia da divisão local, mas ao mesmo tempo quero deixar os hospedes em paz, e sei que isso é de seu interesse, quanto mais rápido começar, mais rápido poderei concluir que se passa de um simples caso de suicídio. — Interviu Andrey.

- Claro, ao reservar sua vaga recebi excelentes recomendações e ouvi boas histórias a seu respeito, ao que tudo indica essa moça acabou com a própria vida, não vejo maiores problemas em permitir uma investigação nas dependências do hotel, tenho certeza que os hospedes estarão de acordo também. Se me dão licença irei consolar e avisar de nosso acordo para Sra. Franpeerf, até mais ver – Disse o gerente estendendo a mão direita e cumprimentando Andrey.

- Bom, senhores de antemão eu lhes peço encarecidamente que me deixem sozinho no quarto com Alexander, por enquanto não há nada mais em que possam ajudar … Ah propósito Padre o senhor poderia marcar uma reunião na sala de jogos com todos os hospedes para daqui 30 minutos? — Disse Andrey com um novo brilho nos olhos.

- Como quiser meu jovem, fico feliz em ajudar – Respondeu o Padre Lintrisk se retirando juntamente com Thomas e Carlos.

A cama de Deb permanecia arrumada, seu corpo ocupava uma posição quase reta sobre a cama, aos olhos de um desavisado ela estava apenas em um sono profundo. Em seu criado mudo havia um pequeno frasco onde no rótulo se podia ler “Clonidin”, abaixo do frasco havia um envelope branco, rabiscado em letras maiores lia-se “abra”.

- Me desculpe Andrey, mas para que me quer aqui? No que lhe poderei ser útil em um caso de suicídio de uma pobre condenada? — Perguntava Alexander.

- Vejo que desconhece a gravidade da situação, mas antes tenho que deixar claro que você é a única pessoa que conheço nesse hotel que confiaria a minha vida, e portanto o único que poderia contar para resolver um assassinato Alex.

- Desculpe meu amigo, até sei da sua fama de excelente detetive, mas até eu um mero leigo sei que essa garota ficou desgostosa da vida e se afundou em remédios para dormir, a carta mesmo deve provar isso.

- Sim a carta é a prova! Mas é sim a prova de que estamos diante de um assassino neste hotel. Veja bem Alex, primeiro me diga se confia em mim e se está disposto a me ajudar, lhe garanto que será melhor do que nos tempos de garoto, o que me diz? Acredita em mim?

- Mesmo depois de todos esses anos ainda tem esse poder de convencimento, é impressionante como certas coisas nunca mudam, é claro que confio em você Andrey, agora me explique como essa garota fria em cima dessa cama pode ter sido vítima de outro alguém além de si mesma?

- Era tudo que eu precisava ouvir meu caro, você saberá as coisas por etapas, ainda tenho ideias a formular a respeito de tudo isso, o que importa nesse momento é que a caçada começou e o lobo está mais perto do que imaginamos, nove hospedes nesse hotel podem ter matado Deb Dempsey, só nos resta descobrir quem, antes que ele nos descubra.

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Os bochichos corriam os corredores do vazio hotel, eram 9:30 da manhã, o calor que antes animava os hospedes, aparentemente havia desaparecido e dado lugar a uma tensão e nervosismo dignos de velório. Dona Marta Franpeerf invertia os papéis e tentava consolar sua acompanhante que chorava copiosamente e dava ligeiras goladas em um copo com rum, mesmo rum bebido por Carlos Ruiz que tentava explicar a seu pai o porque de tirá-lo da cama mesmo este sofrendo de uma indisposição estomacal. Ao fundo do salão era possível ver o Padre Lintrisk fazendo suas orações segurando um pequeno terço de mão, e sentados ao lado da mesa de Poker conversavam Thomas e Clara que pareciam desconhecer que ali tivera uma morte.

- De antemão quero informar que sinto pela perda da Sra. Franpeerf e lhe ofereço todos os meus respeitos, porém tenho também que explicar o motivo de estar nesse caso – Explicava Andrey- No segundo dia após minha chegada, recebi uma carta contendo os seguintes dizeres:

Caro Sr. Zyrmytrov:

“Ciente de sua reputação, e aproveitando a feliz coincidência de estarmos hospedados no mesmo hotel, quero aproveitar para que possamos conversar a respeito de um assunto de vida ou morte, a minha morte. Tenho sérios motivos e impressões que apontam que minha preciosa vida corre perigo. Não quero alongar o assunto por escrito, então lhe peço que possamos conversar após o jantar enquanto todos estarão distraídos na sala de jogos. Peço para que ao menos conheça meus argumentos, sei que é um dos melhores de toda Europa e dinheiro não me é problema”.

Atenciosamente

Deb Dempsey

A expressão dos que ouviram a leitura foram as mais variadas, Lorene que havia contido a crise de choro desabava em lágrimas mais uma vez, Padre Listrisk olhava para os céus e murmurava rezas e Carlos Ruiz foi o primeiro a se manifestar com palavras:

- Me desculpe Andrey, mas está insinuando que Deb foi mesmo assassinada?

- Eu não quero levantar falsas suspeitas, ou mesmo causar um alarde entre os hospedes, apenas eu só não descarto essa possibilidade, o que quis mostrar com essa carta é que eu como detetive aceitei o caso de Deb Dempsey, quero livrar até minha própria consciência do peso de não ter podido ajudar essa mulher, ela me contratou e aqui estou para esclarecer o que tenha havido, mesmo que seja um simples suicídio. Afinal, queremos todos ter a certeza de que não estamos dormindo ao lado de nenhum assassino.

Mais uma vez o silêncio predominava e o único som eram as pedras de gelo batendo nos já vazios copos. O frio apertava como nunca, era certamente o espirito de Deb Dempsey deixando o local.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.