Sonhando Com A Morte - Com Andrey Z.

5 Capítulo 5: Vitimas Da Neve


- Lorene! Lorene! Apareça criada preguiçosa! — Gritava uma linda jovem loira sentada na cabeceira de sua cama.

- Me perdoe srta. Dempsey, estava atendendo a sra. Franpeerf, não tinha como estar em dois lugares ao mesmo tempo.

- Pois desse um jeito! Não é paga para argumentar comigo, e já lhe adianto que quando aquela velha morrer e eu me casar com o filho dela você terá de obedecer somente a mim, sem desculpas! Agora vá e diga ao Sr. Ruiz que preciso encontrá-lo, que venha até meu quarto sem ser notado – Continuava a mandar a linda jovem.

- Sr. Ruiz o pai ou o filho madame?

- Onde nessa sua cabeça oca e pobre de pensamentos eu precisaria dirigir a palavra aquele velho senil? É claro que é com o filho! Ande logo, é pra ontem isso Lorene, e mais uma coisa, que nada seja dito a velha asquerosa da Marta, entendido?

- Como quiser Srta. Irei agora mesmo, com sua licença – Disse a empregada se dirigindo rapidamente a porta e saindo em seguida.

O olhar que acompanhava a empregada sair era o de uma mulher decidida, forte, rude e pouco educada, Deb Dempsey não era adepta das boas normas de convivência, era extravagante e vivia cercada de tudo que o dinheiro podia comprar, seu quarto era um exemplo disso, mandara reservar um mês antes de sua viagem, era adaptado com tudo de mais novo e tecnológico que existia na época, uma bela cama coberta com tecidos de seda chineses, travesseiros preenchidos com penas de Emas sul- americanas, o aquecedor era três vezes mais potente do que os dos outros hospedes, seu banheiro era maior do que quase todo o quarto da acompanhante.

- Deb, sou eu, posso entrar? — A voz grossa vinha do lado de fora do quarto da jovem.

- Por favor Carlos, entre. Já não era sem tempo, acha que convém a uma dama do meu porte ter de chamá-lo pra tratar de negócios em meu próprio quarto? — Perguntava a moça que nem se quer olhava nos olhos do convidado que rapidamente ocupou uma poltrona de frente a janela.

- Não me venha com ofensas a essa altura do jogo Deb, sabe muito bem dos riscos que corremos em nos falarmos, não apresse as coisas dessa maneira!

- Já tem o que lhe pedi Carlos?

- Mas é claro que não! Sabe que isso não é fácil de se arranjar, saímos da maior guerra da história desse planeta, os bancos praticamente fecharam os cofres e qualquer tipo de alteração financeira é percebida, eles estão dando falta de uma caneta, quem dirá a quantia que me pediu.

- Quer dizer que me fez vir a esse país horroroso pra me dizer um grande não?! Pois fique sabendo que não exitaria um segundo em entregá-lo para qualquer autoridade de um dos vários países por onde você desfalcou os cofres públicos, já te disse e nunca é demais lembrar que tenho gravações e provas suficientes que poderiam te matar em pelo menos quatro países diferentes, vai mesmo negar meu dinheiro Carlos? — Dizia a jovem que agora olhava fixamente para os olhos do acuado rapaz e esbaforava a fumaça de seu caro cigarro.

- Não pode me chantagear por toda a vida, não farei mais as suas vontades. Que culpa tenho eu se você olha para milhões e vê apenas míseros dólares, arrumarei essa última quantia e acabamos por aqui, nem que eu tenha que matá-la pra findar com isso.

- Não me faça rir Carlos, isso me daria rugas e acabaria gastando mais. Escute bem, não preciso de seu dinheiro ou do que você rouba pra viver, você sabe que estou de casamento marcado e que a fortuna dele beira mais do que todo dinheiro que você consiga roubar em toda a vida. Portanto se for um bom amigo posso te livrar desses pequenos favores, ou posso continuar recebendo suas contribuições mesmo depois de casada, isso vai depender de você.

- Você me dá nojo! — Respondeu o rapaz se levantando e batendo a porta ao sair.

- Mas que rude! Agora preciso apenas saber se aquele detetivezinho de baixa categoria poderá me ajudar, sinto que algo não vai bem, mas a carta já foi mandada só me resta aguardar – Falava sozinha a moça enquanto trancava a porta de seu quarto.

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Risos, sussurros, altas conversas, bateres de talheres e sons dos alimentos mastigados, esse era o clima no animado jantar de cortesia e boas vindas oferecido pelo Paranoshx. Os convidados sentavam-se ao redor de uma longa mesa de madeira no estilo vitoriano e que datava da metade do século XIX. Na ponta da mesa tínhamos o ilustríssimo Padre Hugo Lintrisk, ao seu lado direito o quase mentalmente falecido Carlos Ruiz que tinha ao seu lado sua fiel acompanhante Clara Bentvoglio que vez ou outra se perdia fitando o belo e ainda muito jovem Thomas Zucker que ocupava o assento ao seu lado e que ria copiosamente com seu amigo Alexander Cuscov que incluía o seu velho companheiro de caçadas Andrey que sentava-se na outra ponta da mesa vendo o Padre a sua frente. Andrey por sua vez era acompanhado pela anciã Marta Franpeerf que não parava de tagarelar com sua “Faz tudo” Lorene Frisser que estava ao seu lado e que tinha do outro Deb Dempsey que olhava com desdém para todos os outros membros da mesa, inclusive para Carlos Ruiz Junior que estava ao seu lado, este que entre repreensões ao pai também falava de economia com o Padre que estava na ponta da mesa. Os assuntos eram os mais diversos, nos mais diferentes níveis e tons. A comida era apreciável, a altura de um hotel com um restaurante cinco estrelas, os licores e os vinhos simplesmente entre os melhores do mundo, produzidos nas próprias adegas pertencentes aos donos do hotel, nada poderia estragar o clima amistoso e hospitalar do local, nada até aquele momento.

- Gostaria de propor um brinde a esse belo ambiente e ao agradável jantar que nos foi oferecido essa noite – Disse Carlos Ruiz Junior se levantando com uma taça de vinho branco as mãos.

- Quem mandaram pro açoite? — Retrucou gritando o pai do rapaz que arrancou risos de toda a mesa.

- Ninguém papai, esqueça o que disse. Como dizia um brinde ao …

- Perdão por interrompê-lo Sr. Ruiz Junior, mas lamento informá-los que devido as constantes nevascas que caem sobre Moscou estamos presos dentro do hotel. As linhas telefônicas estão cortadas provavelmente pela quantidade de neve nos fios e receptores e as portas e janelas estão até a metade com neve pelo lado de fora, é impossível sair ou entrar no hotel – As declarações vinha de um forte homem com leves bolsões de olheiras abaixo dos olhos, que trajava um uniforme verde oliva.

- O senhor esta me dizendo que estamos condenados a passar dias, talvez meses, quiça anos dentro deste hotel? Como comeremos, ou nos aqueceremos, ou mesmo cuidaremos de nossos afazeres externos? — Esbravejava a Sra. Franpeerf

- Não há motivos para maiores preocupações, segundo a previsão metereológica dentro de alguns poucos dias as tempestades de neve diminuirão e o acumulado baixará, quanto a comida temos um estoque para mais de dois anos e os aquecedores a todo vapor poderiam trabalhar por décadas.

- Pois fico muito feliz em saber disso meu caro, muito me acalma essas informações.

- Somos muito bem preparados e esse cuidado dobra no inverno, agora peço lhes licença e que continuem a celebrar o jantar, em breve a sobremesa será servida e o salão de jogos estará aberto para que possam se distrair.

- Muito obrigado senhor gerente, continuaremos daqui. Agora que estamos presos meus amigos, proponho um novo brinde: A neve! — Gritou Ruiz Junior sendo acompanhado por todos os outros convidados.

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O relógio do Salão de jogos indicava que era passada as 22:00 horas e a cena que se via era de total descontração, ao contrário do que se pensou, os hospedes não se incomodaram muito com o imprevisto da neve e aproveitaram para usufruir da recém-inaugurada sala de jogos do hotel.

- Mas olhe só a qualidade desses móveis, em toda minha vida nunca poderei ter coisas tão finas assim, Deus da a uns o que os outros nem podem chegar perto, não concorda? — A pergunta vinha de Clara Bentvoglio, que sentava-se ao lado do Padre Lintrisk em um confortável sofá de couro.

- Olhe minha filha, não culpe Deus por não ter as coisas, vejo que trabalha muito e se dedica bastante ao que faz, tenho certeza que será recompensada por tais feitos, e no mais esses móveis não são tão finos quanto pensa, madeira barata do extremo leste da Rússia, fácil de se conseguir.

- Obrigado pelos conselhos Padre, mas como pode saber a qualidade da madeira sendo tão novo e sendo,com todo respeito, apenas um sacerdote? — Perguntou a curiosa acompanhante.

- Bom, filha fui criado em um família de madeireiros na Suíça e... — Parou o Padre ao ser interrompido.

- Perdão por interrompê-los, mas por acaso viram a Srta. Dempsey? — Perguntou Andrey.

- Não meu jovem, aconselho que pergunte a sua sogra ou a acompanhante delas – Respondeu o Padre.

- Claro! Mais uma vez perdoe me pelo incomodo, a propósito a Srta. É acompanhante do Sr. Ruiz não é? Se for eu sinto lhe informar que ele estava próximo da porta de entrada declarando voz de prisão em nome do governo aos funcionários do hotel, aconselho que vá vê-lo antes que ele tente algemar alguém – Disse Andrey rindo e saindo em seguida.

- Mas como isso é possível?! Com sua benção e licença Padre, vou atrás daquele espertalhão.

- Claro, Deus lhe acompanhe minha filha – Conclui o Padre levantando-se e rumando as escadarias dos dormitórios.

De fato a mobília do Paranoshx era de fazer inveja a qualquer palácio Francês, por mais que sua procedência fosse duvidosa, era de longe a mais vistosa de toda a Rússia. Na mesa das cartas encontravam-se jogando Alexander, Thomas e Ruiz Junior, e segundo a seriedade e os não raros gritos, as apostas eram das mais altas. Ao lado de uma bela escultura aparentemente de ouro polido, estavam a Sra. Franpeerf e sua acompanhante Lorene.

- Essa tempestade de neve nos atrapalha Lorene, pensava em começar a me movimentar amanhã mesmo para comprarmos o enxoval de Deb – Dizia com um pouco de dificuldade a anciã.

- Concordo com a Sra. Dona Marta, mas quem sabe isso não seja um sinal dos céus para que aquela bruxa não se case realmente com seu filho …. Ah me perdoe, não deveria ter dito isso, mil perdões Sra. — Falava Lorene enquanto gesticulava muito com as mãos.

- Não penso diferente de você Lorene, mas sabemos que essa moça encantou Leopold e contra o amor não temos remédio, só quero a felicidade do meu filho a qualquer custo.

- Com licença Sra. Franpeerf, mas por acaso sabe de Deb? A procuro por todo o hotel e não encontro – Perguntou o recém-chegado na conversa Andrey.

- Da última vez que a vi estava indo pro quarto porque havia ficado um pouco chateada com a nevasca e segundo ela estava lhe dando dor de cabeça. Posso ajudar em algo jovem?

- Não! Nada que seja urgente, apenas gostaria de lhe perguntar algumas coisas sobre seu pai, sou um fã do cinema americano e vi vários filmes do velho Dempsey – Respondeu Andrey prontamente.

- Ah sim meu jovem ele realmente era de um talento formidável, mas a morte o levou muito cedo, mas é o destino de todos nós não é mesmo? O meu parece que está batendo a porta – Concluiu a velha se apoiando em sua bengala.

- Tem toda razão Dona Marta, completamente certa, mas se me da licença irei ter com os cavalheiros na mesa de cartas.

- Fique a vontade jovem, já está na minha hora. Vamos subindo também Lorene, vejo que os idosos já estão subindo, veja só o velho Ruiz tropeçando nas escadas, uma figura! — Disse Marta tomando a acompanhante pelo braço e seguindo lentamente para os quartos.

Andrey até ameaçou uma partida de poker com os apostadores da mesa, mas não conseguiu convencer seus companheiros a permanecerem, o sono que já era usado como desculpa para as derrotas levou todos a seus dormitórios por volta das 22:30, a madrugada batia a porta pedindo passagem, o frio era cada vez mais cortante, a brancura da neve enfeitava a paisagem do lado de fora, presos estavam e assim permaneceriam durante um tempo.