Dias atuais.

A poeira se intensificava a medida que o impala ganhava velocidade e distância. Ao som de AC/DC, Sam diminuía o volume conseguindo tirar resmungos da boca do irmão.

— Qual é Sammy! Se você está de burro não venha me contaminar com essa carga negativa. — Dean o olhou de canto e estacionou o carro em um motel de beira de estrada. — Eu to cheio da fome e cansado. Vamos dar uma pausa.

Sam desceu e bateu a porta do carro seguindo o irmão. O moreno cruzou os braços, colocando as mãos sob o bolso de sua calça jeans, encarando o local com reprovação.

Quando chegaram à porta começaram ouvir os gritos de dor ou prazer dos casais dos quartos com as portas semi fechadas.

—Cara, que loucura esse lugar! — Dean divertia-se com o constrangimento do caçula.

— Você sempre consegue se superar em suas escolhas, Dean. — Os gritos se intensificaram, o moreno seguiu até a recepção onde uma mulher loira com roupas minúsculas os recebeu com um sorriso e olhar avassalador.

— Em que posso ajudá-lo, grandão? — A moça debruçou-se sob a mesa deixando o decote ainda mais amostra.

—Hã...um quarto com duas camas, por favor. — Sam procurou o irmão com os olhos. Dean estava mais atrás saboreando a situação em que Sam se encontrava. Os gritos continuavam.

— Pessoal animado, hein! — O loiro deu aquele sorriso torto que encantava as mulheres.

— Podemos fazer melhor, bonitão! — A mulher pronunciou-se de maneira muito vulgar, com excesso de maquiagem e batom vermelho sangue.

— Gata, se meu parceiro aqui não fosse tão ciumento... — O loiro indicou com a cabeça onde o irmão se encontrava.

— Dean! — Indignado com o comentário o moreno pegou a chave e subiu as escadarias.

—Viu! Ainda por cima é nervosinho. — O loiro voltou seu olhar para a moça e sorriu.

—Pena, se mudar de ideia...estarei aqui. —Disse a garota passando seus dedos pelas mãos do loiro.

Dean sorriu e foi de encontro ao irmão. Agora teria que agüentar o mau humor do garoto.

— Que palhaçada foi aquela, Dean? — O moreno falou antes mesmo do irmão fechar a porta atrás de si.

— Relaxa Sam, desde que voltamos daquela caçada você está com essa carranca. — Dean jogou a mochila em cima da cama.

— Ah, não enche. Quero apenas dormir um pouco. Se é que dá para dormir nessa espelunca. —Sam atirou-se na cama e ao contrário do que esperava adormeceu rapidamente.

Dean saboreava um hambúrguer ao seu estilo, estava frio, porém com a fome que sentia era um banquete. E mais tarde rendeu-se ao sono.

A noite os murmúrios silenciavam, algumas algazarras de jovens embriagados acordaram Sam. Ele olhou ao lado e viu seu irmão ressonando tranquilamente. Olhou para o celular que estava na cabeceira da cama, eram 03 horas e 45 minutos. Tentou voltar a dormir e não obteve sucesso. Levantou-se e foi pesquisar algum “trabalho” na internet. Olhou para os lados, estava com fome. E para sua surpresa havia um sanduíche natural e nele um bilhete.

“Se acordares com fome, aqui está seu sanduíche sem graça!”

Sam sorriu e agradeceu ao irmão mentalmente. Embora o irmão fosse cabeçudo, Sam sabia o quanto era protegido pelo mais velho. E era isso que o deixava ainda mais receoso em contar-lhe sobre seus pesadelos, suas visões. Temia ser visto como um “esquisito”, sabia que Dean jamais iria abandoná-lo. Mas não estava pronto a falar com o irmão sobre esses turbilhões de pensamentos que o assolava. Segurando o sanduíche com uma mão e a outra navegando pelas páginas policiais deparou-se com uma manchete um tanto quanto suspeita.

“Homem mata família por achar que estavam possuídos por seres das trevas. James Liewes de 30 anos e atleta, chega no quarto de seus dois filhos e atira a queima roupa, ouvindo os disparos a mulher corre até o segundo andar onde fica o quarto das crianças e se depara com o marido com a arma empunho. Apavorada ela corre até o telefone mais próximo para chamar a ambulância e a polícia. James que parecia paralisado, desce as escadas lentamente, abandona a espingarda, segue até a garagem e deixa a mulher gritando por socorro.”

— Hey, dá para ler esse artigo arrepiante, mais baixo? — Dean falou com a voz sonolenta, fazendo o irmão caçula sobressaltar-se.

— Cara, que susto! Foi mal, não tinha intenção de acordá-lo. Para ser sincero nem me dei conta que estava lendo em voz alta. — Sam agora pegava o guardanapo.

— Alto e resmungando com a boca cheia. — Dean passava o dedo no próprio canto da boca indicando ao irmão que estava com algo preso no lábio.

Automaticamente o moreno passou o guardanapo. Mas Sam não percebeu que o irmão só estava tirando onda com a sua cara. E o loiro controlou o sorriso e tomou um ar sério.

— Mas, agora que me acordou...O que você estava lendo? Algum caso sinistro? — O loiro deitou apertando o travesseiro na cabeça.

— É...acho que é um caso para nós. O cara surtou, matou os filhos achando que eles estavam possuídos e deixou a mulher ligar para a emergência e logo em seguida atacou-a com uma chave de roda. — Sam largou o resto do sanduíche, perdera o apetite.

— E o que mais? — Dean resmungou muito sonolento.

— Como assim? — O moreno voltou seu olhar para o irmão.

— Qual é mano, hoje em dia muitos humanos matam porque acham que pessoas estão possuídas, o que na verdade, muitas vezes, é sadismo ou demência. — Dean falava sem levantar a cabeça afundada no macio travesseiro. — Lembra daquele caso das pessoas desaparecidas?

— Como esquecer, se acabei nas mãos daqueles loucos e você sendo torturado por uma garotinha. — O moreno deu mais ênfase na palavra garotinha.

— Então...repito e o que mais?

— Olhe você mesmo. — O moreno atirou o jornal nos pés do irmão.

— Mas que droga é essa? — O loiro sentou-se e suas feições ficaram com um ar muito sério.

— É acho que agora você me entendeu. — Os olhos dos irmãos se encontraram.

— O cara havia sido enterrado há duas semanas? E as crianças...estão sem os olhos? Nossa Sammy, não tinha algo menos aterrorizante? — Dean levantou, jogou o jornal na mesa onde o irmão estava e seguiu para o banheiro. — Vou te contar, nem quando estamos descansando essas obscuridades nos deixam em paz!

— O que você acha, Dean? Fica a umas três horas daqui. — Sam falou mais alto quando ouviu o barulho do chuveiro.

— Sinto cheiro de magia negra, odeio bruxas! Elas são nojentas. — O loiro sentiu a água cair em seu corpo e resmungou: — Maldito hotel! A água é fria! Tão de brincadeira.

— Eu te avisei [risos]. — Sam se divertia com os palavrões que volta e meia o irmão proferia.

— A mulher sobreviveu, não é? — O loiro saiu com a toalha na cintura, gotículas da água ainda estavam em seu peito másculo.

—Sim. Devemos começar por ela? — Sam seguia vasculhando a internet.

— Talvez, ela estava lá. O cara está preso? — O loiro colocava uma camisa preta.

— Estava. Ele simplesmente sumiu da prisão. — Sam agora mostrava a notícia da fuga do homem na internet.

— Bem vindo ao mundo da segurança do país! — Dean passava a mão pelo cabelo espetado.

— Não sei não, Dean. Está tudo muito confuso. Não sei nem o que pensar. O que sei é que vamos sair deste lugar e entrar em um outro bem pior. Vou tomar uma ducha e seguir viagem.

— Boa sorte, e...Não tem toalha seca! — Dean ouviu o caçula resmungar e entrar no banheiro. — Os detalhes mórbidos e perversos estão acumulados neste caso. E por experiência sinto que enfrentaremos grandes obstáculos.

Um vento frio entrou pela janela do hotel, o loiro logo sentiu a presença de algo maligno. As janelas começaram a estalar com o ar congelante que lambia os vidros. E um barulho seco ecoou pelo quarto.

— Sammy? Você está me ouvindo Sam? — O silêncio foi a única resposta que o loiro obteve.

Notas finais
Agradecimentos a todos leitores que compartilham suas opiniões nos reviews. São como estrelas que enfeitam a noite fria e sombria tornando-a linda e cheia de vida. Obrigada! Beijos