XLIII-Sonata

Palavras que corrompem e tomam,

Suspiros não provam quem somos.

Mas teme, oh, como temem!

Que o silêncio inflama sua aura,

Inexistente, poente e sensível...

Como olhares mortos que não exprimem nada.

Eis tal estada se faz grande e intensa,

Mata o dia como se fosse o último.

Vigora, sois, por outrora,

A fortuna que nada provara,

E a sonata que um dia tocara,

Agora o silêncio tomara.

Se lembre de como era antes,

Tão fácil como respirar...

Triste era o modo de observar.

Nada que olhares mortos não possam mostrar,

Ou mentir, hei de importar?

Sois a face, e a sonata pára,

Ignora cada reflexo da minha alma.

Porém, se vós sabeis o resquício desse dia,

Exclamai em plena alegria,

Que morre a palavra, o sonho e a harmonia.

Nada restou além do silêncio, oh, adeus.

O que me mostra a capacidade humana

De esquecer as coisas, e vigora,

Pois na face de outrora

Olhares mortos nos avisam a hora.

Nunca houvera música,

Nem vida e nem verdade.

Crescera aqui dentro a mentira

Do que se cria a realidade.

E mente assim, a cada dia,

Como se pudesse mudar a rotina

Do que já se tornara eterno.

Como num sonho, esqueço-me das dores,

Mas não me esqueço do mundo em que vivo.

Ouviste! Nada a temer

Enquanto houver certeza que

O sol irá nascer.

Raia o dia, levando a raiva,

As lágrimas e os divãs.

Só nos resta a certeza de ter mais espaço,

E quem sabe uma hora

Quando não couber mais raiva,

Lágrimas ou divãs,

Exploda o mundo, e reste a sonata,

Porque com ela soa também,

Até quem sabe um alguém,

Inteligente o suficiente

Pra saber que o mundo me mata.

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